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INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS E PROCEDIMENTOS PARA

Nesta seção apresento os instrumentos de coleta de dados empregados nesta pesquisa, os quais se constituíram de uma entrevista semiestruturada realizada com cada um dos participantes, bem como as notas de campo produzidas ao longo do estudo, relacionadas aos momentos de entrevista, observações posteriores ou baseadas em documentos adicionais relacionados ao sujeito investigado ou sua atuação.

3.4.1. Entrevista semiestruturada

A entrevista é um dos principais instrumentos para coleta de dados empregados na pesquisa qualitativa. Bogdan e Biklen (1999, p. 134) definem a entrevista como uma “conversa intencional, geralmente entre duas pessoas [...] dirigida por uma das pessoas, com o objetivo de obter informações sobre a outra”. A entrevista é concebida como uma forma de recolher informações na linguagem do entrevistado, fazendo com que o pesquisador desenvolva intuitivamente uma ideia de como os participantes da pesquisa interpretam o mundo (BOGDAN; BIKLEN, 1999). Dentre as vantagens do emprego desse instrumento sobre outras técnicas está a possibilidade de captação imediata da informação desejada (LÜDKE; ANDRÉ, 1986). Neste estudo optei pela estratégia de entrevista semiestruturada, a qual é definida por Lüdke e André (1986) como uma forma de coleta que se desenvolve

dentro de um esquema básico, permitindo ao pesquisador realizar adaptações que considere necessárias.

Sobre o uso de entrevistas semiestruturadas, Triviños (1987, p. 146) aponta:

É útil esclarecer, para evitar qualquer erro, que essas perguntas fundamentais, que constituem em parte, a entrevista semiestruturada, no enfoque qualitativo, não nasceram a priori. Elas são resultados não só da teoria que alimenta a ação do investigador, mas também de toda a informação que ele já recolheu sobre o fenômeno social que interessa, não sendo menos importantes seus contatos, inclusive, realizados na escolha das pessoas que serão entrevistadas.

Organizei um roteiro com algumas questões norteadoras que foram realizadas aos participantes durante a entrevista (APÊNDICE B). Iniciei as conversas pedindo que os participantes falassem sobre o tempo de experiência, carga horária, formação inicial e, após esse momento, solicitei que falassem livremente sobre sua vida, da infância à fase adulta, buscando elementos que pudessem relacionar à sua carreira docente, as FCs e a sua atuação enquanto professores-orientadores. Não insisti para que falassem sobre suas vidas pessoais, embora esse fator emergisse naturalmente nas conversas.

As perguntas foram realizadas de acordo com o fluir dos diálogos com os participantes da pesquisa, não seguindo uma ordenação entre elas, bem como a forma como cada uma foi colocada ao entrevistado. Também, por não se tratar de uma estratégia rígida de coleta de dados, perguntas adicionais emergiram ao longo das conversas, trazendo informações adicionais ou novas explicações e exemplos, que, ao final, auxiliaram-me a compreender melhor o que havia sido dito em algumas situações e também no meu entendimento sobre o próprio sujeito da pesquisa.

É importante salientar que todo instrumento pode apresentar limitações em seu uso. No caso das entrevistas, um pesquisador experiente deve estar atento a não realizar perguntas que busquem somente a confirmação de determinados pressupostos implícitos do investigador (LÜDKE; ANDRÉ, 1986).

Uma boa entrevista se caracteriza pela espontaneidade do sujeito em falar livremente a respeito dos seus pontos de vista (BOGDAN; BIKLEN, 1999). Ademais, o pesquisador deve estar atento a outros sinais que podem emergir durante a entrevista, como gesticulações, entonações, hesitações e expressões, bem como aspectos emocionais dos sujeitos entrevistados. As impressões sobre esses momentos – principalmente demonstrações de sentimentos - foram registradas

brevemente em forma de notas de campo (subseção 3.4.2). A partir dessas considerações, não se trata de modificar as opiniões dos sujeitos entrevistados, uma vez que o papel do investigador consiste, muito antes, em “[...] compreender os pontos de vista dos sujeitos e as razões que os levam a assumi-los” (BOGDAN; BIKLEN, 1999, p. 138).

Os entrevistados, assim que selecionados, foram informados a respeito da pesquisa e convidados à sua participação, momento em que esclareci as intenções e objetivos do estudo. As entrevistas realizadas foram gravadas mediante consentimento dos participantes da pesquisa. Para isso, segui a recomendação de Triviños (1987), que toma como tempo ideal para uma entrevista aproximadamente 30 minutos, evitando-se a exaustão do entrevistado e a repetição de temas já discutidos.

Lüdke e André (1986) afirmam que a gravação da entrevista registra todas as expressões orais, deixando o pesquisador livre para prestar atenção. Esse tipo de estratégia foi relevante para essa pesquisa, visto que a metodologia de análise empregada, a Análise Textual Discursiva, tem como premissa a “impregnação” do pesquisador pelo material objeto do estudo. Escutar atentamente, por repetidas vezes, o conteúdo das entrevistas, permite uma imersão do pesquisador para a compreensão de significados mais próximos daqueles emitidos pelos sujeitos.

Como dito na subseção 3.3.2 Implicações éticas da pesquisa, os entrevistados foram informados sobre os objetivos dessa pesquisa e que os dados coletados seriam empregados com a finalidade de responder à questão de pesquisa, respeitando o sigilo e integridade das informações concedidas pelo informante.

3.4.2 Notas de campo

As notas de campo nessa pesquisa serviram como um elemento complementar às entrevistas, visto que busquei estar atenta para registar informações anteriores e posteriores ao momento de nossas conversas registrando impressões que poderiam ser relevantes à análise, tais como gesticulações, momentos de hesitação e emoções que emergiram em algumas das falas dos participantes.

De acordo com Lüdke e André (1986), as notas garantem uma compreensão inicial das informações obtidas. Na mesma perspectiva, Bogdan e Biklen (1999) sugerem que as notas de campo sejam registros de ideias, estratégias, palpites e

reflexões, constituindo um material escrito de tudo que o investigador experiencia ao longo da pesquisa. As notas de campo podem se constituir por meio de duas formas de registro: uma descritiva e outra reflexiva (BOGDAN; BIKLEN, 1999).

Conforme os aspectos descritivos propostos pelos autores supracitados, aponto os que foram utilizados para a elaboração das minhas notas de campo: (I) retratos dos sujeitos: observando seus modos de falar e agir durante a entrevista e em observações anteriores e posteriores a esse momento; (II) reconstruções de alguns diálogos: mesmo as entrevistas sendo gravadas, registrei lembretes sobre algumas entonações e elementos particulares de alguns instantes - como demonstrações de euforia, alegria, tristeza, melancolia -, ajudando-me na a compreensão posterior; (III) fiz registro sobre algumas das minhas ações e intervenções ao longo da entrevista, pois o observador/entrevistador também causa impacto no momento da entrevista. Além disso, realizei notas sob o ponto de vista reflexivo em que coloco sentimentos, ideias, palpites e elementos subjetivos observados ao longo da entrevista, tanto em análise do entrevistado, quanto de minha parte como observadora/pesquisadora.

Essas notas foram parcialmente realizadas no ato da entrevista, de forma sintética, objetivando não perder a atenção às falas do participante e foram complementadas posteriormente. Para a análise da pesquisa, as notas me auxiliaram a compreender as colocações dos entrevistados durante toda a análise, visto que fui relendo-as junto à escuta das gravações, na ocasião em que realizei as transcrições literais, sendo útil para a compreensão e rememoração do momento.

Adicionalmente às notas relacionadas à entrevista, registrei também lembretes a respeito de materiais exibidos a mim pelos sujeitos, como fotos, relatórios e documentos. Ressalto que não fiquei sob posse de qualquer desses materiais, cabendo à análise somente junto ao sujeito em ocasião da entrevista.

Além disso, realizei uma pesquisa na Internet utilizando como termo de busca o nome dos entrevistados, com o intuito de localizar reportagens e vídeos em que apareciam ou que eram o foco principal do noticiado. Isso me auxiliou na compreensão das histórias de vida e trajetórias profissionais dos participantes da pesquisa. Informo que os dados obtidos por esses meios midiáticos não constam na lista de referências desse trabalho, como forma de preservar a identidade desses sujeitos.

As notas de campo, em todas as suas formas, integraram o corpus de análise, porém não as submeti à Análise Textual Discursiva. O material, de forma global,

auxiliou na compreensão dos achados dessa pesquisa. Saliento, todavia, que não as destaco como notas ao longo do texto, sendo incorporadas em toda minha escrita, incluídas na minha compreensão.