2 OS SUÁBIOS DO DANÚBIO
2.3 Aspectos linguísticos do Donauschwäbisch
2.3.2 Inteligibilidade, intercompreensão e diglossia
Em Entre Rios, é comum que boa parte da comunidade, principalmente os pioneiros e seus descendentes, fale três línguas, sendo elas: alemão standard,
Donauschwäbisch e português. Dependendo da situação, escolhe-se uma dessas
variedades linguísticas.
Para melhor compreender a organização dessas diferentes línguas dentro da comunidade, convém apresentar alguns conceitos, como a inteligibilidade, a intercompreensão e a diglossia. Pode-se dizer que a inteligibilidade mútua ou intercompreensão é a relação entre os idiomas em que os falantes de línguas diferentes, mas relacionadas, podem compreender uns aos outros de forma relativamente fácil, sem instrução formal prévia ou esforços extraordinários. Podemos citar como exemplo os falantes de português e de espanhol. Nós, brasileiros, quando interagimos com algum falante de espanhol, o compreendemos de forma relativamente fácil, bem como ele também nos entende. Inclusive, de forma informal dizemos que falamos “portunhol”, o que, de certa forma, denota a facilidade de comunicação existente nesse tipo de comunicação.
Derwing e Munro (1995, p. 291) caracterizam a inteligibilidade como "o quanto uma produção é efetivamente entendida". Dessa forma, inteligibilidade diz respeito ao fato de uma produção oral ser ou não entendida corretamente (conforme a intenção do falante) pelo ouvinte (falante nativo ou não nativo da língua em questão).
A intercompreensão é definida por Derwing, Murray e Thomson (2008, p. 360, tradução nossa) como "a facilidade ou dificuldade com que um ouvinte compreende
uma fala com sotaque estrangeiro". Ou seja, enquanto ao falarmos de inteligibilidade lidamos com algo mensurável, a intercompreensão relaciona-se com o julgamento do ouvinte acerca da dificuldade de compreender certas produções. Com isso, entendemos que certos desvios de pronúncia podem ser inteligíveis e, ao mesmo tempo, fácil ou dificilmente compreensíveis. No caso da relação entre o
Donauschwäbisch e a língua alemã standard em Entre Rios, percebe-se que os
falantes compreendem as variedades linguísticas, sem muito esforço, ou seja, de uma forma bastante natural.
Como diferentes línguas são utilizadas na comunidade para diferentes funções, convém apresentar aqui também o conceito de diglossia. O termo origina-se do francês diglossie, foi apresentado originalmente por Ferguson (1971) e faz referência a comunidades em que as pessoas utilizam duas ou mais variedades históricas de uma mesma língua, o que acontece no contexto deste estudo. O autor tematiza justamente a alternância das línguas dominadas pelo indivíduo de acordo com as diferentes funções, cada uma com um papel previamente definido.
Em seus estudos relacionados ao conceito, Ferguson (1971) cita quatro comunidades que se encontram em situação diglóssica: países árabes (árabe clássico e coloquial), Suíça (alemão standard e alemão-suíço), Haiti (francês e crioulo) e Grécia (catarevusa e demótico). Nessas comunidades há a coexistência de uma variedade alta da língua com uma variedade baixa. Pode-se dizer que, em Entre Rios, coexistem, também, essa variedade alta da língua alemã (Hochdeutsch ou alemão standard) com uma variedade baixa da língua alemã (o dialeto Donauschwäbisch).
Segundo Ferguson (1971 apud FONSECA; NEVES, 1974, p. 111) cita o conceito de diglossia:
[...] uma situação linguística relativamente estável na qual, além dos dialetos principais da língua (que podem incluir um padrão ou padrões regionais), há uma variedade superposta, muito divergente, altamente codificada (na maioria das vezes gramaticalmente mais complexa), veículo de um grande e respeitável corpo de literatura escrita, quer de um período anterior, quer de outra comunidade linguística, que é aprendida principalmente através da educação formal e usada na maior parte da escrita e fala formais, mas que não é usada por nenhum setor da comunidade na conversação usual.
De acordo com esse conceito, pode-se dizer que, em Entre Rios, se tem um ambiente diglóssico, visto que, por exemplo, no dia a dia, em suas casas, as pessoas costumam falar o dialeto Donauschwäbisch. Na cooperativa, em eventos informais,
ou seja, corriqueiramente, usa-se, também, o Donauschwäbisch. Em eventos formais, emprega-se a variedade standard do alemão. Esta variedade também é usada na maior parte da escrita e de fala formais em eventos gerais da comunidade, no entanto, não é usada por nenhum setor da comunidade na conversação cotidiana. Em conversas telefônicas dentro dos diversos setores da cooperativa, por exemplo, acaba-se privilegiando o Donauschwäbisch, e este fenômeno parece ocorrer de forma natural, não planejada. Esse fenômeno também pode ser percebido na escola, entre os alunos. Em sala de aula ou quando há situações formais, os alunos usam a língua alemã standard; já no recreio ou em situações, por exemplo, de esporte, de jogos, acabam usando o Donauschwäbisch.
Ferguson (1971) denomina a variedade alta da língua de “variedade H”, que vem do inglês high; já as línguas regionais são denominados de “variedade L”, do inglês low. O uso da variedade H parece mostrar maior prestígio, enquanto a variedade L é usada em contextos mais informais.
Em relação ao fenômeno diglóssico, Ferguson (1971) elenca nove critérios para caracterizá-lo: função, prestígio, herança literária, aquisição, padronização, estabilidade, gramática, dicionário e fonologia. A definição da variedade, se ela é H ou L, dá-se pela função. O autor, no entanto, limitou seu conceito de diglossia a línguas da mesma família, ou seja, de tipologicamente próximas.
Outro autor que abordou o conceito de diglossia foi Fishman (1967). Seus estudos foram além do conceito de diglossia de Ferguson (1971), pois não se ateve apenas a línguas próximas. Fishman (1967) acrescentou em suas definições as relações de línguas na comunidade que não necessariamente são de parentesco próximo, ou seja, para pares que não são tipologicamente relacionados com comunidades bilíngues. Em relação à situação diglóssica típica de Fishman (1967), as duas línguas possuem status e prestígio distintos e têm funções distintas.
Se partimos do conceito de Ferguson (1971) e o trazemos para a realidade de Entre Rios, o uso do Donauschwäbisch que os alunos do colégio fazem em jogos de handebol, por exemplo, em campeonatos estaduais ou nacionais, é a variedade denominada pelo autor como variedade L (baixa). Os alunos, ao fazerem uso dessa variedade, procuram comunicação exclusiva com seus pares, com intenções estratégicas em prol do sucesso no jogo, ao mesmo tempo em que se orgulham de, por assim dizer, poderem fazer isso e obter vantagem, dando à variedade uma valorização maior. Na situação diglóssica apresentada por Fishman (1967), neste
mesmo exemplo, podemos enxergar que o contexto do uso também influencia o prestígio e o status que a língua ocupa, que neste caso, parece ganhar um prestígio maior. Permanece sendo variedade L, pois se restringe ao grupo de usuários, que, neste caso, são os jogadores alunos do time de handebol.
Kloss (1976) amplia os estudos de Ferguson (1971) e Fishman (1967) relacionados à dilgossia, introduzindo os conceitos de diglossia interna, denominada em alemão de Binnendiglossie, e diglossia externa, Außendiglossie. O conceito de diglossia interna aproxima-se do conceito de Ferguson (1971) (duas variedades funcionalmente distintas de uma mesma língua), enquanto a diglossia externa entende também que há uma distinção funcional de duas línguas, o que se aproxima da ideia de Fishman (1967). A novidade que Kloss (1976) atribui aos seus conceitos é de não só expressar uma divisão de função entre duas variedades, mas, ao mesmo tempo, expressar um alto grau de interdependência íntima das línguas quanto ao uso que faz uma determinada classe social ou grupo étnico.
Para o autor (KLOSS, 1976), a diglossia, como uma sólida divisão de função entre os membros de um grupo, é teoricamente apenas um caso específico de poliglossia (coexistência de mais línguas/dialetos25 de parentesco próximo) – apesar
de a triglossia (coexistência de três línguas/dialetos de parentesco próximo) e a quadriglossia (coexistência de quatro línguas/dialetos de parenteceso próximo) raramente ocorrerem. Em Entre Rios, em determinadas famílias, temos a situação da triglossia, visto que, em casa, fala-se possivelmente alguma variedade advinda de uma família linguística de menor parentesco, como variedades ou influências do croata e do húngaro, visto que os pioneiros da comunidade advinham de diferentes países.No entanto, essas situações são mais excepcionais.
A distribuição dos âmbitos, em uma análise mais aprofundada, acaba sendo ainda mais complexa em Entre Rios. Tomemos o Donauschwäbisch como exemplo: quando pessoas da comunidade são convidadas a participar do programa de rádio em língua alemã standard ou em “dialeto”, falam a variedade de Donauschwäbisch que aqui denomino de original, ou seja, aquela trazida pelos antepassados, ainda antes do contato com a sociedade hospedeira, sem interferência da língua portuguesa (antiga diglossia). No entanto, quando se trata de conversas do dia a dia, facilmente se percebe a influência da língua portuguesa, que acaba se constituindo em uma nova
25 Kloss refere-se à coexistência de mais línguas/dialetos de parentesco próximo, ou seja, colocando
variedade: o Donauschwäbisch de Entre Rios (nova diglossia). A utilização de palavras em Língua Portuguesa, dentro do dialeto, apresenta-se, por exemplo, apenas na nova diglossia: Mir mese hait ne trabalho vorstella. No programa de rádio, a frase seria: Mir mese hait ne Arwait vorstella.
Assim, pode-se dizer que a comunidade de suábios usa diferentes variedades linguísticas de forma diglóssica. É difícil afirmar que se tenha maior prestígio em alguma dessas variedades utilizadas. O contexto de fala tem um papel muito relevante para a escolha da variedade a ser utilizada. Na rádio, a variedade de
Donauschwäbisch que denomino de original, é a variedade H, enquanto que a nova
parece obter o papel de variedade L. Se comparado à variedade de língua alemã
standard (variedade H), há na comunidade, inclusive, iniciativas que atribuem
prestígio e status à variedade baixa, que seria o Donauschwäbisch, como esquetes e peças teatrais, programa de rádio, encontros de suábios para falar Schwowisch (como sua língua é chamada pelos suábios do Danúbio), aulas em que se utiliza a variedade no colégio, entre outras. Vale lembrar que no contexto de Entre Rios permanece o
Donauschwäbisch sendo a língua materna de muitos dos descendentes de suábios.
2.3.3 O papel das mídias locais na manutenção das tradições e da preservação das