Apêndice X: Composição do investimento – SCN antigo
3. Aspectos metodológicos: potencialidades e limitações das diferentes fontes de dados e
3.4. International Standard Industrial Classification of All Economic Activities (ISIC)
A International Standard Industrial Classification of All Economic Activities (ISIC), desenvolvida pela Divisão de Estatísticas das Nações Unidas, corresponde à classificação internacional de referência de todas as atividades econômicas consideradas dentro da fronteira de produção do System of National Accounts (SNA). Tendo como base um conjunto específico de conceitos, definições, princípios e normas de classificação, a ISIC corresponde a uma estrutura hierárquica de atividades econômicas, formada por níveis de categorias, em que as categorias pertencentes a um mesmo nível são construídas de forma a serem mutuamente excludentes. O princípio ordenador básico consiste no grupamento de unidades produtivas em atividades econômicas, detalhadas de acordo com similaridades na produção. Para tal, levam-se em consideração os insumos, os processos produtivos e a tecnologia, assim como as características dos produtos gerados e suas utilidades. Identificam-se, na versão mais atualizada da ISIC, em ordem de maior a menor abrangência, quatro níveis de categorias, a saber: (i) seções; (ii) divisões; (iii) grupos; e (iv) classes. As seções são construídas de acordo com um código alfabético, enquanto que as divisões, os grupos e as classes, são identificados, respectivamente, por códigos numéricos de dois, três e quatro dígitos (UN, 2008).
A origem da ISIC remonta ao ano de 1948, quando a Comissão Estatística24 das Nações Unidas aprovou o primeiro rascunho de classificação de atividades econômicas aplicável internacionalmente. De uma forma geral, o documento organizava-se em três níveis de categorias, seguindo apenas códigos numéricos: (i) divisões (um dígito); (ii) grandes grupos (dois dígitos); e (iii) grupos (três dígitos) (UN, 1949: p. 8). Devido às constantes transformações da realidade econômica e à subseqüente reorganização das atividades produtivas, a classificação original passou por uma série de revisões metodológicas ao longo dos anos, embora sempre visando manter a comparabilidade entre as distintas versões. A primeira delas, conhecida como ISIC Rev. 1, foi iniciada em 1956 e publicada em 1958, após a décima sessão da Comissão Estatística. Dita revisão tinha por objetivo principal esclarecer alguns dos princípios subjacentes à classificação, além de incluir novas atividades econômicas e reordenar as já existentes. Apesar das mudanças introduzidas, a estrutura de três níveis de categorias manteve-se inalterada (UN, 1958: p. 1).
24 A Comissão Estatística supervisiona o trabalho da Divisão Estatística e faz parte do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.
Dez anos depois, em 1968, com a conclusão da décima quinta sessão da Comissão Estatística, publicou-se a ISIC Rev. 2, cujo processo de elaboração havia sido iniciado em 1965. Desta vez, as mudanças introduzidas foram mais significativas, reorganizando as atividades econômicas em quatro níveis de categorias, identificadas também por códigos numéricos: (i) grandes divisões (um dígito); (ii) divisões (dois dígitos); (iii) grandes grupos (três dígitos); e (iv) grupos (quatro dígitos) (UN, 1968b).
Em 1990, após a vigésima quinta sessão da Comissão Estatística, ocorrida em 1989, publicou-se uma terceira revisão, chamada de ISIC Rev. 3, que, ao contrário das revisões anteriores, foi elaborada levando-se em consideração a harmonização com outras classificações de bens e serviços existentes, requisito este que conferiu maior complexidade, especificidade e detalhamento, principalmente no que se refere à classificação das atividades econômicas ligadas aos serviços (UN, 1990: pp. 3-4). A nomenclatura do sistema de codificação, por sua vez, também sofreu alterações. Deste modo, a ISIC Rev. 3 passou a ser estruturada de acordo com os seguintes níveis de categorias: (i) seções (código alfabético); (ii) divisões (dois dígitos); (iii) grupos (três dígitos); e (iv) classes (quatro dígitos) (UN, 1990: p. 30).
Como se viu no início da presente seção, a nomenclatura proposta pela ISIC Rev. 3 permanece vigente até os dias de hoje. Entretanto, as alterações observadas na estrutura produtiva, fruto dos avanços tecnológicos, do surgimento de atividades econômicas e da nova divisão do trabalho, fez com que, em 1999, o Grupo de Expertos em classificações internacionais econômico-sociais das Nações Unidas recomendasse, em sua quarta reunião, a elaboração de uma versão atualizada do documento de 1990, resultando na publicação, em 2002, da ISIC Rev. 3.1 (UN, 2002: p. 9). Não obstante, cientes de que uma revisão mais completa da estrutura de classificação seria necessária para se adaptar às novas necessidades analíticas, iniciaram-se, concomitantemente, as preparações necessárias para a construção da ISIC Rev. 4, a qual foi publicada finalmente em 2008 e corresponde à versão mais recente da classificação internacional de atividades econômicas (UN, 2008: p. x).
3.4.1. Classificação segundo intensidade tecnológica – OCDE
A classificação segundo intensidade tecnológica tem como objetivo principal identificar as atividades econômicas e os produtos que compreendem a chamada alta
tecnologia. Segundo a OECD (2005: pp. 166-167), a tecnologia corresponde ao estoque de
tecnologia, além de ser o estoque de conhecimento disponível mais avançado, progride a um ritmo superior e se caracteriza pelo alto grau de complexidade e por demandar esforços contínuos em pesquisa e uma base tecnológica sólida.
A determinação do nível a partir do qual um estoque de conhecimento pode ser considerado como alta tecnologia, no entanto, é uma tarefa normativa que requer a criação de uma ordenação de referência. Neste sentido, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tem dedicado esforços, ao logo dos anos, para avaliar o impacto da tecnologia sobre o desempenho setorial, notadamente a indústria, devido à ausência de informações para o setor de serviços. De acordo com Hatzichronoglou (1997: p. 4), as empresas intensivas em conhecimento inovam mais, ganham novos mercados, utilizam recursos de forma mais produtiva e, em geral, oferecem remunerações mais altas aos seus empregados. As indústrias de alta tecnologia, por sua vez, se caracterizam por sua forte expansão no comércio internacional e pelo fato de que seu dinamismo ajuda a melhorar o desempenho dos demais setores da economia.
Os primeiros trabalhos analíticos voltados a este objetivo surgiram na década de 1980 e se baseavam em uma classificação produzida nos Estados Unidos, a qual foi posteriormente aplicada aos demais países integrantes da OCDE25. Dita classificação, apesar de permitir, pela primeira vez, a comparação internacional em termos de intensidade tecnológica, tinha a desvantagem de extrapolar as características da economia norte- americana aos demais países. Por conseguinte, em 1984, a Secretaria da OCDE elaborou uma nova classificação, empregando uma amostra de onze países, com dados entre 1970 e 1980. Para tal, utilizou-se o conceito de intensidade direta em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), isto é, a razão entre os gastos diretos com P&D e o valor adicionado ou a produção26. Mediante a ponderação de cada país e de cada atividade econômica segundo seu peso no conjunto de produção, foi possível definir três categorias de intensidade tecnológica para a indústria de transformação: (i) alta; (ii) média; e (iii) baixa. A principal vantagem desta classificação residia no fato de ser uma ferramenta simples e consistente para realizar comparações internacionais. Não obstante, ela também tinha limitações largamente relacionadas à falta de informações desagregadas por tipo de atividade econômica e ao fato de
25
Ver “International Trade in High Research and Development-Intensive Products” (OECD, 1980). De acordo com Hatzichronoglou (1997), existe também, um memorando de circulação interna da OCDE, chamado “International Tradein High Technology Products: An Empirical Approach”.
26 A classificação de 1984 foi divulgada em outro memorando de circulação interna, chamado “Specialization and Competitiveness in High, Medium and Low R&D Intensity Manufacturing Industries: General Trends” (Hatzichronoglou, 1997). De acordo com o INE (2011), os países que participaram da amostra foram: Austrália, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, França Itália, Japão, Holanda, Reino Unido, Suécia e Dinarmarca.
que não se considerava, na construção da classificação, a intensidade indireta de P&D, ou seja, a tecnologia incorporada em bens intermediários e de capital, adquiridos no mercado internacional ou importados. Objetivando preencher esta lacuna, a OCDE realizou, em 1994, uma revisão da classificação de 1984, incluindo a intensidade indireta de P&D nos cálculos (Hatzichronoglou, 1997: p. 4).
Levando em consideração as mudanças tecnológicas ocorridas desde a primeira classificação, sentiu-se a necessidade de elaborar uma nova metodologia. Deste modo, em 1997, Hatzichronoglou publicou duas novas classificações com base em uma amostra de dez países durante o período entre 1980 e 199027. A primeira, caracterizada por sua abordagem
setorial, identificava quatro categorias segundo intensidade tecnológica para a indústria de
transformação de acordo com a ISIC Rev. 2: (i) alta; (ii) média-alta; (iii) média-baixa; e (iv) baixa. Para os indicadores de intensidade direta, ponderou-se cada atividade econômica de acordo com sua participação na produção ou valor adicionado total, utilizando as paridades de poder de compra dos países da amostra como taxas de câmbio. Para os indicadores de intensidade indireta, multiplicou-se a intensidade direta pelos coeficientes técnicos de produção obtidos a partir das matrizes insumo-produto. A segunda classificação, criada para complementar a primeira, centrava-se na identificação dos produtos de alta tecnologia.
De acordo com a OECD (2003: p. 155), com a subsequente publicação da ISIC Rev. 3, realizou-se uma atualização da classificação de Hatzichronoglou, desta vez empregando dados referentes a doze países integrantes durante o período entre 1991 e 1999. De maneira similar, identificaram-se as mesmas quatro categorias para a indústria de transformação, apesar de haver, em alguns casos, reclassificação das atividades econômicas devido à própria evolução tecnológica de cada uma delas. O Apêndice A, mostra a última versão da classificação segundo intensidade tecnológica da OCDE, elaborada de acordo com a ISIC Rev. 3. Realiza-se ainda, no Apêndice A, a equivalência entre a ISIC Rev. 3 e a ISIC Rev. 3.1 que, como será explicado mais adiante, constitui o primeiro passo necessário para a construção das classificações propostas nesta dissertação.
3.4.2. Classificação segundo intensidade em conhecimento – Eurostat
De acordo com o Manual de Oslo (OECD; Eurostat, 2005: p. 28), o conceito de
economia baseada em conhecimento é utilizado para descrever a tendência observada em
economias avançadas no sentido de maior dependência do conhecimento, informação e altos níveis de especialização, além da crescente necessidade de pronto acesso a esses fatores pelos setores privado e público. Segundo Manjón (2008: p. 67), uma das singularidades das economias baseadas em conhecimento consiste no aumento da importância do setor de serviços, tanto em termos de participação no pessoal ocupado, quanto em termos de participação no valor adicionado. No entanto, a grande heterogeneidade existente entre suas diferentes atividades econômicas, faz com que o setor como um todo desempenhe papéis muito díspares a nível econômico.
A fim de situar o setor de serviços dentro da economia, faz-se necessário analisar algumas de suas características. Em primeiro lugar, como destaca Manjón (2008: p. 68), ao contrário dos produtos ou bens, os serviços são considerados intangíveis, isto é, eles não têm existência física e, portanto, não podem ser tocados. Além disso, serviços são produzidos e consumidos simultaneamente, o qual inviabiliza sua acumulação em estoques ou a análise prévia de sua qualidade. Finalmente, os clientes desempenham um papel importante no processo de produção dos serviços, podendo participar de forma passiva ou ativa.
A heterogeneidade dos serviços, portanto, é explicada pela sua própria natureza, sendo possível identificar suas atividades econômicas segundo intensidade em conhecimento e segundo intensidade tecnológica. Por um lado, a ideia de intensidade em conhecimento centra-se nos distintos graus de conhecimento necessários para a prestação de um serviço, seja por parte do provedor, seja por parte do consumidor, ou ambos. Por outro lado, a intensidade tecnológica de um serviço refere-se à sua capacidade de produzir, distribuir e utilizar tecnologia. Assim, levando em consideração esta dualidade do setor de serviços, a Statistical
Office of the European Community (Eurostat) desenvolveu, em 2008, uma classificação
própria, utilizando a nomenclatura de atividades econômicas da União Européia, a NACE Rev. 1.1. Como se mostra no Apêndice B, os serviços são, primeiramente, classificados em duas categorias: (i) serviços intensivos em conhecimento28; e (ii) serviços menos intensivos em conhecimento29. Dentre os serviços intensivos em conhecimento é possível distinguir: (i.1) serviços intensivos em conhecimento de alta tecnologia; (i.2) serviços de mercado intensivos em conhecimento; (i.3) serviços financeiros intensivos em conhecimento; e (i.4) outros serviços intensivos em conhecimento. No caso dos serviços menos intensivos em conhecimento, temos: (ii.1) serviços de mercado menos intensivos em conhecimento; e (ii.2) outros serviços menos intensivos em conhecimento (Manjón, 2008: p. 68). O Apêndice B
28 Knowledge-intensive services (KIS). 29 Less knowledge-intensive services (LKIS).
inclui, ademais, o segundo passo necessário para a construção da classificação proposta nesta dissertação, isto é, a equivalência entre a NACE Rev. 1.1 e a ISIC Rev. 3.1.
É importante destacar que a classificação desenvolvida pela Eurostat baseia-se na classificação segundo intensidade tecnológica da indústria de transformação da OCDE. No entanto, ao contrário da OCDE, o critério utilizado pela Eurostat não se respalda em nenhum cálculo de intensidade em P&D ou qualquer outra ferramenta. Na verdade, a classificação das atividades econômicas relacionadas aos serviços é feita em função de seu grau de relação
aparente com as indústrias de alta intensidade tecnológica sendo, portanto, dotada de certa
arbitrariedade.
Neste trabalho, adotar-se-á, para os serviços, a classificação mais ampla proposta pela Eurostat, isto é, distinguido-os em termos de sua intensidade em conhecimento. Contudo, como será visto mais adiante, devido à própria natureza do Sistema de Contas Nacionais (SCN) do IBGE, não é possível aplicar de forma direta a classificação da Eurostat às estatísticas brasileiras, sendo necessário criar uma versão adaptada, onde as atividades econômicas ligadas ao setor de serviços são ordenadas de acordo com três categorias de intensidade em conhecimento, quais sejam: (i) alta; (ii) média; e (iii) baixa.