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4. AS INFLUÊNCIAS FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO NA PROPOSTA DE ENSINO

4.2 John Dewey e o pragmatismo norte-americano

Ao pensar o seu programa de ensino de filosofia para jovens e crianças, Matthew Lipman é influenciado diretamente pelo pensamento de Dewey e pelo pragmatismo norte- americano acerca da função da filosofia para a formação do homem e da sua realidade vivida na sociedade, conforme apresenta Dewey: “O homem é cercado de problemas, os quais se originam dos conflitos e dificuldades da vida social.” (DEWEY, 1959b, p. 357).

Dewey leva em consideração a proposta de fazer uso do pensamento filosófico para buscar compreender o todo dessas relações a partir das particularidades de cada uma delas, conforme o pensamento de Dewey: “Esta atitude perante os fatos e coisas que nos rodeiam

deve ser também orientada por novas percepções; o sujeito que é sensível a novas percepções e que percebe suas relações ente si terá uma atitude filosófica.” (DEWEY, 1959b, p.358).

Para Dewey, 1958, o pragmatismo renova a função da filosofia na medida em que o pensamento filosófico se torna instrumento para indagarmos os problemas que resultam das mudanças advindas das relações do mundo moderno ocasionados pelo avanço do capitalismo e pelas diversas revoluções: científica, industrial, política. Portanto, afirma o filósofo e educador norte-americano sobre a relação entre a intencionalidade da filosofia perante as influências do pragmatismo: “Uma filosofia ajustada ao presente deve tratar daqueles problemas que resultam de mudanças que se processam num setor humano-geográfico em escala cada vez mais ampla e com poder de rapidez e de penetração cada vez mais intenso.” (DEWEY, 1958, p. 3).

Segundo Brocanelli, 2010, o programa de ensino de filosofia para crianças em Matthew Lipman possui pontos em comum com o pensamento sobre o ensino de filosofia em Dewey nas seguintes questões referentes ao ensino de filosofia. “Pensar melhor ou pensamento eficiente, o pensamento reflexivo, a possibilidade de ensinar a pensar, a curiosidade do aprendiz criança, a função do professor em sala de aula, a experiência, os significados, a educação como busca de uma melhora de vida, e por fim a lógica da investigação.” (BROCANELLI, 2010, p.42-43)

Matthew Lipman entra em acordo com Dewey quanto ao pensar melhor ou pensamento eficiente, como também sobre o pensamento reflexivo, referindo-se Dewey em sua obra Como Pensamos afirma que é possível pensarmos melhor. (DEWEY, 1959a, p.11). E sobre este pensar Dewey argumenta: “o pensar reflexivo abrange um estado de dúvida, hesitação, perplexidade, dificuldade mental que dá origem ao ato de pensar, seguido por um ato de pesquisa, procura, inquirição, para encontrar material que resolva a dúvida, assente e esclareça a perplexidade.” (DEWEY, 1959a, p. 22) A influência de Dewey, 1959a, em Lipman pode ser analisada a partir da seguinte perspectiva:

[...] o homem pode sempre melhorar suas técnicas e habilidades para o pensamento e a reflexão através de um pensar sobre o pensar. Não podemos dizer a ninguém como respirar ou como circular o seu sangue nem mesmo como deverá pensar. [...] O pensamento é algo que flui no ser humano sem que possa parar de fazê-lo. Porém, podemos melhorar este pensar de forma que se torne um pensamento eficiente. [...] A melhor maneira de pensar, a ser considerada nessa obra, é chamada pensamento reflexivo: a espécie de

pensamento que consiste em examinar mentalmente o assunto e dar-lhe consideração séria e consecutiva. (DEWEY, 1959a, p. 13)

Segundo Brocanelli, 2010, “Lipman considera o raciocínio como uma habilidade fundamental do homem, e o seu aperfeiçoamento é possível porque ele é um ser aberto a novas descobertas e tem a capacidade de acumular conhecimentos.” (p. 44) Assim, Lipman, 2014, discorre sobre a habilidade que a criança desde cedo possui em relação a forma de organizar seus raciocínios, de como a criança consegue usar a lógica e a gramática para formular e enunciar suas falas, apesar de fazê-las muitas vezes de forma automática:

Certamente é maravilhoso o que uma criança consegue fazer ao organizar as palavras em enunciados gramaticais. Uma das coisas mais extraordinárias que conhecemos é que tudo isso é realizado todos os dias, por crianças em todo o mundo, em todas as línguas imagináveis. [...] Outra coisa surpreendente é o fato de relacionarem os pensamentos entre si, tanto de uma forma lógica como de uma forma gramatical. Evidentemente as crianças possuem essas disposições de organizar seus pensamentos e suas falas de uma forma gramatical e lógica. (LIPMAN, 2014, p. 40)

Matthew Lipman, 2014, admite que a escola tenha seu papel em encorajar o ensinamento do pensar, no entanto, põe um questionamento levantado por Dewey sobre o ensino da filosofia:“O que é discutível é se o pensar pode ser ensinado, mas não há dúvida de que pode ser encorajado. E a instrução nos procedimentos do raciocínio pode ser útil para o desenvolver a arte de pensar.” (LIPMAN, 2014, p.41)

Matthew Lipman, 2014, considera a criança como aquela que possui a curiosidade e o questionamento como caráter para o seu pensamento filosófico como podemos observar na argumentação a seguir:

Constantemente ocorrem às crianças, porque elas se admiram e se questionam não só sobre elas mesmas, mas também sobre o mundo. De onde veio o mundo? Como chegou a ser do jeito que ele é? Até que ponto somos responsáveis por ele? E se não o formos, quem será? As crianças olham para suas unhas e perguntam de onde elas vêm. Como é possível que uma coisa assim cresça no corpo? ( LIPMAN, 2014, p. 59)

Este pensamento de Matthew Lipman é influenciado pelo pensamento de Dewey, 1959a, em relação à curiosidade que a criança possui na construção dos seus raciocínios, conforme a seguinte citação:

[...] existem três níveis de curiosidade: um que é pura energia orgânica que faz a criança intrometer-se em tudo e tocar as coisas para conhecê-las. Este nível está longe do ato de pensar, mas sem ele não se chegaria ao

pensamento. Outra fase é a das perguntas para conhecer as coisas: por exemplo, o por quê? A criança descobre que pode recorrer aos mais velhos e experimentes para que satisfaçam sua sede de aprender sobre os objetos. Por fim, a curiosidade se eleva e se torna intelectual a ponto de a criança ser capaz de encontrar respostas às perguntas e inquietações. (DEWEY, 1959a, p. 45)

Dessa maneira, Brocanelli, 2010, comenta sobre o pensamento lipminiano em relação à importância que é dada ao professor em sala de aula, pois o mesmo deve promover a curiosidade filosófica, encorajando os alunos ao pensamento, sobre questões que tocam o universo da criança, seu ser e a sociedade que a rodeia, dentro da sala de aula. “Na escola, a curiosidade pode ser percebida pelo professor e orientada de forma que se transforme também em motivo de discussão entre os alunos, levando-os a pensar sobre suas vidas e a sociedade em que vivem.” (p. 48)

Matthew Lipman se identifica com o pensamento de Dewey quando considera que as experiências que as crianças possuem com o ambiente em que vivem levam-nas a obterem significado e a dar significado às coisas. Segundo Dewey, 1959ª, “aprender a significação de uma coisa, de um acontecimento ou de uma situação é ver a coisa, acontecimento ou situação, em suas relações com outras coisas: notar como opera ou funciona, que consequência traz, qual a sua causa ou possíveis aplicações.” (p.140) Assim, Lipman, 2014, considera útil o pensamento de Dewey quando compartilha o seguinte argumento:

A relação entre educação e significado deveria ser considerada algo inquebrantável. A educação está onde surge o significado, que pode acontecer na escola, em casa, na igreja, no lazer ou em qualquer situação da vida da criança. [...] as escolas que consideram a educação como sua missão e seu propósito são escolas que se dedicam a ajudar as crianças a encontrarem significados relevantes para suas vidas. (LIPMAN, 2014, p. 32) Neste sentido Matthew Lipman leva em consideração o pensamento de Dewey quando considera que o ensino de filosofia entra em consonância com a promoção de uma educação como busca de uma melhora de vida, na medida em que as experiências da vida cotidiana são ponto de partida de reflexão filosófica. Assim, quanto mais se contém uma corrente de experiências contidas e acumuladas durante a vida e quanto mais essas experiências são qualitativas, mais as experiências se tornam significativas para a construção do pensamento filosófico. Dessa maneira podemos observar a consonância do pensamento de Lipman com o pensamento de Dewey, 1980, a partir da seguinte citação:

Determinado trabalho termina de modo satisfatório; um problema recebe sua solução; um jogo é executado completamente; uma situação, seja ela fazer uma refeição, jogar uma partida de xadrez, manter uma conversação, escrever um livro, ou tomar parte em uma campanha política, é tão íntegra que seu fim é uma consumação e não uma cessação. Tal experiência é um todo e traz consigo sua própria qualidade individualizadora e sua autosuficiência. É uma experiência. (DEWEY, 1980, p. 89)

Desta maneira, Matthew Lipman, considera a importância de um ensino de filosofia para crianças que esteja em pauta à qualidade de suas experiências e sua relação com o trabalho filosófico. “Assim, com relação à infância, para Lipman, o mais importante primeiramente é o envolvimento com atividades filosóficas, com as discussões de conteúdos filosóficos.” (BROCANELLI, 2010, p. 55-56)

Sobre o aspecto da importância da lógica da investigação o pensamento de Dewey se torna relevante para Matthew Lipman. A investigação, conforme Dewey, é aquela que cada sujeito compreende no todo, os acontecimentos e situações vividas, para tanto, se faz necessário a presença da lógica nos ato do pensar direcionado e organizado a fim de obterem conclusões consistentes, rompendo-se com tudo aquilo que é dado como pronto. “Quando um significado sugerido é aceito imediatamente, a investigação se interrompe.” (DEWEY, 1980, p.64). Dessa forma Dewey expõe em seu pensamento que as investigações científicas possuem uma continuidade de conexões de construção de conclusões que são “meios materiais e de procedimento, para a conclusão de investigações ulteriores.” (DEWEY, 1980, p. 71). Assim, Lipman, 2014, considera o pensamento de Dewey e enfatiza que ensino de filosofia para crianças deve incentivá-las a serem lógicas.

Em Filosofia para Crianças, lógica têm três significados. Significa lógica

formal, com regras orientando a estrutura das frases e as conexões entre elas;

e também significa dar razões, o que implica buscar e avaliar as razões de algo que se diz ou faz. Formalmente, a lógica significa agir racionalmente e se ocupa dos padrões para o comportamento racional. (LIPMAN, 2014, p. 199)

Podemos inferir sobre a importância do pensamento da lógica no programa de ensino de filosofia para crianças em Matthew Lipman, 2014, que seu interesse primário é que as crianças tenham um agir racional e aplicá-lo em sua vida cotidiana, assim esclarece a seguinte explicação:

A lógica formal mostra às crianças que elas podem pensar de uma forma estruturada e clara, e a abordagem das boas razões mostra que o pensar organizado tem muitas implicações na vida do dia-a-dia. Ambos os tipos de

lógica podem incentivar as crianças a usarem o pensamento reflexivo por sua conta, mas nenhuma lógica tem isso como seu foco principal. Por isso, Filosofia para Crianças se volta para a lógica da ação racional e para suas orientações para se conseguir um comportamento razoável. O principal propósito dessa lógica é incentivar as crianças a usarem ativamente o pensamento reflexivo em suas vidas. (LIPMAN, 2014, p. 222)

Dessa forma, podemos observar o quão Matthew Lipman foi influenciado pelo pensamento de Dewey. O professor e filósofo Lipman, no entanto, se apropria das ideias de Dewey, e elabora seu Programa de Filosofia para Crianças na perspectiva da valoração do conteúdo filosófico e da lógica como um método de pensar organizado, com maior rigor, coerência e consistência, ao incentivar às crianças ao pensamento reflexivo no seu cotidiano. Mediante isso, podemos constatar na seguinte citação de Lipman, 1999:

A contribuição de John Dewey, é preciso reconhecer, minimiza a de todos os outros, sobretudo, devido as colocações em filosofia da educação. Sem dúvida foi Dewey quem previu, nos tempos modernos, que a filosofia tinha que ser redefinida como o cultivo do pensamento ao invés de transmissão de conhecimento; que não poderia haver diferença entre o método pelo qual os professores eram ensinados e o método pelo qual seria esperado que eles ensinassem; que a lógica de uma disciplina não devia ser confundida com a sequência das descobertas que constituiriam sua compreensão; que a reflexão do estudante é melhor estimulada pela experiência viva do que por um texto desidratado, formalmente organizado; que nada melhor que a discussão disciplinada para aguçar e aperfeiçoar o raciocínio e que as habilidades de raciocínio são essenciais para ler e escrever com sucesso; e que a alternativa para não doutrinar os estudantes está em ajudá-los a refletir efetivamente sobre os valores que constantemente são impostos a eles. Rejeitando tanto o romantismo como seus oponentes, Dewey não viu a criança como ‘anjo’ nem como ‘capeta’, mas como um ser tão criativamente promissor que exige de nossa parte um domínio da civilização como um todo para compreender o significado e o portento de sua conduta em desenvolvimento. (p. 20-21)

Nesse sentido, podemos analisar que o pensamento de Dewey concede a Lipman uma visão sobre educação a favor do pensamento crítico e reflexivo, onde se prima pela racionalidade filosófica, no qual é capaz de formar crianças e jovens na perspectiva de evitar qualquer tipo de doutrinação, ajudando-os a refletirem efetivamente a partir de sua própria vida, seus valores, sua cultura, os problemas sociais, e qualquer tipo de indagação que toca o universo da criança e do jovem.