4. AS INFLUÊNCIAS FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO NA PROPOSTA DE ENSINO
4.1 Sócrates e o pensamento da filosofia grega
Para escrever seu método de ensino de filosofia, Matthew Lipman encontra em Sócrates e no pensamento da filosofia grega fundamento específico, que se refere ao método grego antigo do diálogo. De acordo com Brocanelli, 2010, o método de Lipman objetiva proporcionar a discussão e o incentivo à investigação de problemas e verdades que no cotidiano da vida são dados como certos, pondo-se a investigar cuidadosamente a vida por meio da discussão, este método retoma o pensamento socrático da filosofia grega, como podemos observar na seguinte argumentação:
Na história da filosofia, um momento reconhecido como salto a novas perspectivas para a educação é a implantação do método do diálogo. Isso ocorreu com maior força no século V a.C, quando a Filosofia foi diretamente relacionada com a investigação por meio do diálogo. O principal e maior autor dessa forma de filosofar foi o histórico Sócrates, descrito por Platão, seu discípulo; seu pensamento tinha por objetivo principal mostrar aos cidadãos de Atenas o que significava examinar cuidadosamente a vida por meio da discussão. (BROCANELLI, 2010. p.39)
O método Socrático levava as pessoas a um exame rigoroso da alma com a finalidade de estimular a conversação levando-as ao pensamento crítico sobre a realidade, na insistência do abandono das ilusões do saber limitado, tal qual o que acontece com o filósofo que se liberta das sombras da caverna, relatado no Mito da Caverna, do filósofo Platão, e percebe um novo mundo, que até então não o conhecia. Conforme argumenta Matthew Lipman:
Sócrates envolve as pessoas nas conversações: um, fato que, ao menos superficialmente, parece ser pouco extraordinário, mas se levado em conta o contexto da sua insistência para que vivamos com reflexão, a exigência da conversação se torna mais compreensível e significativa. Quando nos envolvemos no diálogo, devemos estar intelectualmente alertas – não há lugar para o raciocínio desleixado ou para comentários involuntários ou brincadeira impensadas. (LIPMAN, 2014 – p. 13).
Assim, o método de Sócrates trazia duas colunas que o sustentava: a refutação e a maiêutica; na refutação Sócrates utilizava da ironia como uma espécie de simulação que o próprio Sócrates utilizava para levar o seu aprendiz a dar-se conta do próprio pensamento equivocado e erros na sua argumentação, e o segundo é a maiêutica, momento este que
Sócrates conduzia seu aprendiz a dar à luz a um novo entendimento da realidade, fazendo brotar de dentro da alma do próprio aprendiz, um novo pensamento, permitindo trazer para fora, uma nova dimensão de entendimento sobre a realidade. De tal maneira que acontece no método socrático, em que o aprendiz ouve o filósofo e deixa ser questionado, Matthew Lipman, propõe em seu método de ensino de filosofia o que ele chama de Comunidade de Investigação, momento em que a sala de aula torna-se lugar para discussão filosófica, em que cada estudante tem o dever de ouvir os demais, mas também de pesar suas próprias palavras e argumentos no intuito de abrir os horizontes do conhecimento, porém, alerta Lipman, que sua proposta de Comunidade de Investigação “não deve ser uma mera imitação da dialética socrática, mas servir-se de instrumento para se pensar num método próprio de acordo com a realidade educacional atual.” (LIPMAN, 2014 – p. 13).
Este novo método de ensino em Matthew Lipman, inspirado no socrático, segue alguns passos para que se possa trabalhar a filosofia para crianças em sala de aula, conforme explicita Brocanelli, 2010:
Para tanto. Os educadores devem seguir algumas lições importantes para o trabalho com as crianças na Comunidade de Investigação: primeiramente, os conceitos importantes e complexos devem ser operacionalizados e postos em sequência. Um segundo ponto que se destaca no diálogo de Sócrates e na Comunidade de Investigação é a investigação intelectual que deve se iniciar com os interesses dos estudantes. Em terceiro, para Lipman, o bom pensamento é lógico e tem seu fundamento na experiência, aproveitando cada ideia para o enriquecimento da discussão. (p.41)
De acordo com Matthew Lipman, 1990, o método socrático de filosofar não restringe ninguém, pois esta é uma filosofia praticada e vivida, portanto a filosofia não se tratava em formar filósofos, mas de uma forma de vida pensante, tal como demonstramos na seguinte argumentação sobre Sócrates e seu método:
Para ele não se tratava de uma aquisição nem de uma profissão, mas de um modo de vida. O que Sócrates nos exemplifica não é uma filosofia conhecida nem aplicada, mas praticada. Este nos desafia a reconhecer que como obra, como forma de vida, a filosofia é algo a que qualquer um de nós pode dedicar-se (LIPMAN, 1990, p. 28)
Sobre as influências de Sócrates e da filosofia grega, podemos inferir que Matthew Lipman constrói um novo método de ensino de filosofia para crianças a partir do que o chama de Comunidade de Investigação. “Quando as crianças são incentivadas a pensar filosoficamente, a sala de aula se transforma numa Comunidade de Investigação.” (LIPMAN,
2014, p. 76). Sua preocupação é que a filosofia contribuísse com o diálogo reflexivo e critico com vistas na formação de jovens e crianças, na perspectiva do pensar bem e do resgate dos valores éticos e morais através do exame cuidadoso da vida, assim servia-se da filosofia grega quanto à promoção do diálogo em sala de aula, ao qual se dá pela via da investigação, e pela busca pelas novas respostas aos questionamentos humanos, pondo à prova as verdades dadas na sociedade. Conforme a seguinte citação:
Quando as pessoas se envolvem num diálogo, são levadas a refletir, a se concentrar, a levar em conta as alternativas, a ouvir cuidadosamente, a prestar muita atenção às definições e aos significados, a reconhecer alternativas nas quais não havia pensado anteriormente e, em geral, realizar um grande número de atividades mentais nas quais não teria se envolvido se a conversação não tivesse ocorrido. (LIPMAN, 2014, p. 46)
Neste sentido podemos vislumbrar como o método socrático permite a Matthew Lipman construir uma metodologia de ensino de filosofia que possibilita a formação do pensamento autônomo e crítico das crianças e jovens, pois assim como Sócrates confiava no potencial da razão de seus discípulos, Lipman constrói seu método influenciado pela premissa socrática de que o conhecimento se manifesta a partir da dialética e da indagação filosófica, referentes aos problemas e verdades que aparecem no cotidiano da vida, desse modo Lipman acredita que as crianças podem aprender a pensar de maneira mais crítica buscando respostas mais coerentes e firmes através da reflexão.