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José Marques de Melo e a Igreja Católica: o comunicar libertador

No documento PORTCOM (páginas 73-76)

Luís Erlin Gomes Gordo

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O artigo “O Pensamento de José Marques de Melo sobre o Relacionamento da Igreja Católica com os Meios de Comu- nicação”, publicado como Epílogo do livro “Comunicação Eclesial: Utopia e Realidade” é uma síntese da dissertação de Mestrado defendida por Stollmeier no Instituto di Scienza

della Comunicazione Sociale da Universidade Salesiana de

Roma.

O título da dissertação de Stollmeirer foi: “Comunicação So- cial e Sociedade Brasileira. O pensamento de José Marques de Melo”. O Epílogo é a integra de um texto apresentado pelo autor no 19º Congresso Brasileiro de Comunicação, promovido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisci- plinares da Comunicação (INTERCOM), na Universidade Estadual de Londrina.

Na apresentação do Epílogo o autor escreve:

O presente trabalho pretende apresentar o professor e jornalista José Marques de Melo e, a partir de seus escritos sobre o fenômeno da comunicação na cami-

1. Sacerdote Claretiano, filósofo, teólogo e jornalista, mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, tendo como seu orientador o Professor José Marques de Melo.

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nhada da sociedade brasileira, o relacionamento da igreja Católica com os Meios de Comunicação (STOLLMEIER, 2005, p. 149).

O primeiro item do artigo é uma breve biografia de José Marques de Melo, em que o autor frisa a importância do percurso histórico como jornalista e pensador de Comunicação Social do professor Marques e a sua importância no processo comunicativo da Igreja no Brasil.

José Carlos Stollmeier termina os dados biográficos afirmando: “José Mar- ques de Melo é um atento jornalista, professor e pesquisador da sociedade brasi- leira. Nos seus estudos e escritos tem um relacionamento contínuo com a Igreja Católica, e isso quero passar nestas poucas páginas” (2005, p. 150).

Assim como o autor, podemos perceber uma sintonia do pensamento de Marques de Melo com a forma de comunicar da Igreja Católica, sobretudo no período da efervescência da Teologia da Libertação, o livro “Comunicação e Libertação”, escrito pelo professor Marques no ano de 1981, é um marco do pensar o papel do comunicador como agente de libertação de todas as amarras, na apresentação deste livro ele escreve:

Comunicação e Libertação é um livro destinado principalmente aos edu-

cadores, compreende-se desde os pais e mães, aos professores primários e secundários, aos recreadores, aos orientadores educacionais e aos agen- tes de educação informal. Pretende ainda ser útil ao trabalho pastoral de tantos leigos e religiosos que estão engajados na missão de cons- cientizar o nosso povo para a descoberta de seus direitos e para o reconhecimento de que a vida só vale a pena ser vivida plenamente quando da ação material e espiritual dos homens constitui um pa- trimônio coletivo repartido fraternalmente (MARQUES DE MELO, 1981, p. 9 – grifo nosso).

No segundo ponto do artigo, Stollmeirer trabalha a “Comunicação e a Igreja Católica em José Marques de Melo”, o autor elenca uma série de livros escritos pelo professor Marques em que há uma aproximação com o comunicar católico.

Elencamos alguns:

- “Comunicação/incomunicação no Brasil” – Editado pela Loyola no ano de 1976, Marques de Melo fez a compilação desse livro.

- “Comunicação e Libertação” – publicado pela editora Vozes, ano de 1980. - “Igreja e comunicação” – capítulo do livro (Comunicação, Igreja e Estado na América Latina) – Paulinas, em 1985 (a partir da página 61).

Outro item tratado pelo autor neste artigo é a relação da Igreja com a Co- municação. O autor apresenta dois momentos dessa relação com base no pen- samento de José Marques de Melo:

- No cristianismo primitivo, a Igreja não estava institucionalizada nem estrutu- rada e sua prática era a participação de todos na interpretação da Palavra de Deus.

- Em um segundo momento, a Igreja se organizou em uma instituição ecle- sial e estabeleceu códigos para a leitura e interpretação do evangelho. Deixa de ser horizontal para estruturar-se verticalmente. Conserva sua originalidade não na estrutura global, mas apenas em pequenas comunidades. O modo de viver o cristianismo desce da hierarquia às bases.

Nesta descrição histórica da relação da Igreja com os meios, algumas consta- tações são importantes ressaltar:

- censura e repressão (de Inocêncio VIII até o século XIX) abrangendo, sobretudo o período doloroso da inquisição;

- aceitação desconfiada (pós-Vaticano II), a sociedade muda e a Igreja tam- bém deseja mudança;

- maravilhosos instrumentos (A Conferência Episcopal de Medellín em 1968, percebe e incentiva a utilização dos meios modernos de comunicação no serviço evangelizador);

- avaliação crítica (a Conferência de Puebla de 1979, a Igreja se reavalia, inclusive faz críticas sobre si mesma).

A Conferência de Puebla é o marco e o início da grande mudança no enten- dimento do uso das inovações tecnológicas. Sem esquecer a “opção preferencial pelos pobres”, compromisso assumido ainda em Medellín, a Igreja com base no Documento de Puebla se preocupa em dar voz e vez aos que até então estavam “à margem” da sociedade.

Stollmeier, embasado no pensamento de Marques de Melo, salienta três indi- cadores dessa mudança conceitual e prática da Igreja com relação a comunicação:

a) reinstauração do diálogo no culto, dando lugar à participação ativa dos fiéis. É o momento privilegiado da comunicação eclesial. A participação cria comunhão;

b) leitura do Evangelho não como código dogmático, mas a partir de interpretação dos sinais da realidade. Faz-se uma leitura contemporânea, junto com os fiéis, contextualizada;

c) adoção de mecanismos democráticos nos processos decisórios dentro da estrutura eclesial. Dá-se significação à participação dos leigos, reduzindo o poder da hierarquia não no sentido de autoridade episcopal ou ministerial,

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mas de neutralidade da arbitrariedade. A autoridade é interprete da voz do povo, das suas necessidades, das suas aspirações (2005, p. 153).

O autor trabalha em outro item desse artigo, uma breve síntese do livro “Comunicação e libertação” em que José Marques de Melo analisa o que foi escrito sobre os meios de comunicação nas duas Conferências Episcopais latino- -americanas: Medellín (1968) e Puebla (1979):

Se em Medellín se pensava na possibilidade de fazer um desenvolvimento a partir de presenças cristãs e humanitárias nos meios de comunicação, em Puebla se denuncia o monopólio exercido pelos centros de poder que manipulam esses meios, não em favor da justiça e do bem comum, mas por interesses próprios (2005, p. 154).

O autor termina o artigo tratando de uma ambiguidade não resolvida, nesta parte conclusiva do artigo são levantados alguns questionamentos do discurso e da prática da Igreja e que são destacados no pensamento de Marques de Melo:

Embora a Igreja constate o caráter massificante dos grandes meios e proclame a prática da comunicação dialógica, horizontal e participativa, externamente ocupa espaços nas rádios, televisões, na imprensa, no cine- ma para difundir suas mensagens do Evangelho. José Marques de Melo coloca uma questão: se evangelizar quer significar traduzir a mensagem bíblica para o cotidiano do cristão a partir da realidade, como superar as contingências técnicas, étnicas e culturais dos meios de comunicação de massa? Como evitar o monopólio? (2005, p.155).

O autor termina dizendo que a Igreja sabe destas ambiguidades e tem dado passos decisivos na solução desses impasses, um deles foi a criação da “Associa- ção Católica Latino-Americana” (UNDA-AL), e por meio dessa Associação foi possível absorver novos conceitos de comunicação que envolvem participação, democracia, liberdade, diálogo, mas sobretudo o compromisso de refletir sobre as suas práticas de comunicação.

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