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Louis Pasteur (1822-1895) e o século XIX: da teoria dos germes ao surgimento da medicina de laboratório

PERCEPÇÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS

I.3 Louis Pasteur (1822-1895) e o século XIX: da teoria dos germes ao surgimento da medicina de laboratório

"Pasteur não era médico, era químico e biólogo" (ROMAIN, 1985, p. 86). Entretanto, suas descobertas em química, biologia e bioquímica chocariam os círculos da classe médica de seu tempo. Os resultados decorrentes do progresso científico pasteuriano sortiriam efeitos tais que impactariam, de modo irreversível, as ciências médicas no século XIX. Seus estudos, a partir das descobertas e da manipulação científica de germes e bactérias43, contribuiriam para o progresso dos saberes médicos no Oitocentos. Não obstante, registra-se o fato de que diante dessas descobertas e de suas respectivas demonstrações práticas, incontestáveis para químicos e biólogos da época, a classe médica reagiu, em um primeiro momento, colocando- se como adversária da cientificidade dos feitos pasteurianos.

Foi, paradoxalmente, na medicina que Pasteur encontrou os seus primeiros verdadeiros adversários. Se os médicos queriam aumentar o seu próprio prestígio com a ajuda do prestígio da ciência, não estavam prontos a, para tanto, admitir que o laboratório tornasse caduca uma parte dos seus conhecimentos e se transformasse numa corrente da sua profissão (ROMAIN, 1985, p. 89).

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De conformidade com estudiosos das ciências biomédicas na atualidade, a diferença conceitual entre "germe" e "bactéria" está no fato de que o primeiro termo diz respeito aos rudimentos microbianos de um novo ser e o segundo termo refere-se ao seguinte: "São seres unicelulares, procariontes, que vivem isolados ou em colônias. Podem ser classificadas como: cocos, quando são esféricas; bacilos, quando apresentam forma de bastão; espirilos, quando são em forma de espiral; e vibriões, quando possuem forma de vírgula" (VILLELA e FERRAZ, 2015, p. 42).

74 Ao que sugere, essa reação da classe médica valida os postulados de Porter (2004), já mencionados, sobre trabalho e perfil do profissional de medicina em relação a seus pacientes. Nesse sentido, ressalta-se que a citação logo acima corrobora o fato de que os médicos do século XIX ostentavam aquela postura de "profissional superior" baseada em aprendizado livresco, no empirismo, na capacidade de sua memória, em suas percepções de discernimento e em seu jeito clássico para lidar com pacientes, contribuindo assim para preservar o brilho do verniz tradicional e reconfortante de sua profissão (PORTER, 2004). Avessos às experiências de laboratório, esses profissionais da medicina oitocentista não acatariam de imediato as descobertas que impactavam suas práticas neo-hipocráticas em vigência. "Para admitir o pasteurismo, foi precisa uma geração, o tempo para os 'pasteurianos' se organizarem e proporem à sociedade um conjunto de medidas higiênicas; o tempo de operar uma 'tradução' da linguagem bacteriológica a todos os níveis de compreensão e de decisão" (ROMAIN, 1985, p. 89/90). As sociedades contemporâneas a Pasteur tornaram-se complexas com o aumento populacional nos centros urbanos. Em face desse fenômeno social, a necessidade por maior demanda de médicos era patente. A exemplo do microscópio, as tecnologias surgiam e evoluíam em tempo oportuno para viabilizar o estabelecimento e práticas de uma medicina de laboratório, que se mostraria eficaz no processo relacionado a avanços das ciências médicas.

Segundo percepções de Rosen (1994), uma dentre as múltiplas consequências da Revolução Industrial (1750-1870) foi o aumento inesperado das populações nas cidades. Esse fenômeno dificultaria a organização da vida numa sociedade urbano-industrial que se tornava complexa. Entre esses obstáculos, citam-se as dificuldades no processo de ordenação das comunidades para se protegerem contra moléstias. Essa situação se agravava, pois que os problemas inerentes à saúde pública eram característicos de uma civilização nova e industrial.

O processo criador de economia de mercado, da fábrica e do ambiente urbano moderno [...] trouxe à luz problemas que tornaram necessários novos meios de prevenção da doença e de proteção da saúde. [...] esses problemas primeiro atraíram a atenção pública. Durante o inverno de 1795, a disseminação do tifo exantemático [...] tinha levado à formação de um Conselho de Saúde, voluntário. [...] enquanto o século XIX avançava, o crescimento das condições insalubres em muito superou as tentativas de melhoria (ROSEN, 1994, p. 163-164).

Pessoas habitando em moradias congestionadas, em bairros de cidades onde não havia um tratamento adequado de águas, sistema de esgotos apropriado, condições adequadas de higiene, estavam sujeitas a situações favoráveis ao florescimento e propagação de doenças. Nesse contexto nosológico, a vulnerabilidade aumentava e os seres humanos adoeciam e morriam de "doença infecciosa". O conjunto desses fatores incitariam a curiosidade científica

75 de Louis Pasteur, pois foi a partir de suas vivências nesse cenário de mudanças políticas, econômicas e sociais que o químico se engajaria, de modo determinante e efetivo, no estudo das ciências visando contribuir para o entendimento de questões intrigantes relacionadas a germes, vírus, bactérias, vacina, imunologia, entre outras. De maneira paulatina, ocorria o estabelecimento progressivo da química, da biologia e da medicina. "[...] Pasteur era um mestre exigente, amando a ordem e pouco propenso à contestação, quer política, quer científica [...]" (ROMAIN, 1985, p. 86).

O microscópio apresentou-se como um "parceiro" inseparável do químico francês. "Sua primeira descoberta importante se deu no campo da Química, em 1848, ao elucidar a verdadeira natureza do ácido tartárico e estabelecer a existência da assimetria molecular [...]" (ROSEN, 1994, p. 238). Na verdade, essa "primeira descoberta" resultou de uma série de outras, cujo resultado final foi conforme conteúdo da citação sinóptica logo acima. Para se ter noção sobre a tipologia desse fenômeno químico, a partir do que a futura ciência pasteuriana progrediria, é necessário conhecer um mínimo sobre os experimentos de uma década. Seus primeiros estudos abordavam questões pertinentes à natureza do

[...] ácido tartárico e substâncias correlatas e o modo pelo qual afetavam o plano de polarização da luz. [...] Biot não havia encontrado explicação para esse fenômeno. Em 1848 [...] o cientista [Pasteur] estudava os cristais de tartarato [...] com a ajuda do microscópio e verificou que nem todos os cristais eram iguais. Eram sutilmente assimétricos: alguns cristais eram a imagem em espelho dos outros. [...] Pasteur obtivera os cristais a partir de uma solução que não girava o plano de polarização da luz e imaginou imediatamente que o fato podia ser explicado pela ação diametral- mente oposta dos dois tipos de cristais misturados (ASIMOV, 1974, p. 369).

Essas primeiras experiências envolvendo a química marcariam o início de exposição pública do cientista. A fama do "Químico" não ocorreria e o pesquisador não seria visto como tal. Os estudos e as descobertas científicas do mestre exigente "[...] seriam completamente eclipsadas pelas realizações no campo da biologia e [sobretudo] da medicina" (ASIMOV, 1974, p. 370). Esse apotegma não se tornaria um "problema" que interferisse na continuidade das pesquisas de Pasteur. Conforme já mencionado, os frutos de seus primeiros trabalhos forjaram "[...] a chave para toda a obra posterior de Pasteur [...]" (ROSEN, 1994, p. 238). Ocorria que uma descoberta tornava-se trampolim para que outras e ciências aparentemente fronteiriças se encontrassem no campo da microbiologia, por exemplo. Foi assim que ocorreu quando de suas descobertas em cristalografia, ao utilizar-se da química. O mesmo ocorreria no ano de 1845, quando o cientista iniciou seus estudos orientados para a fermentação. Quase uma década depois, os resultados dariam origem à teoria microbiana da fermentação.

76 O Homem conhece a fermentação desde a Antiguidade. A produção de cerveja, vinho, pão e leite, por exemplo, data de tempos em que as civilizações se concentravam na região oriental do Mediterrâneo. Acredita-se que técnicas simples, baseadas na observação informal, eram utilizadas para a produção e preservação desses produtos, que provavelmente duravam por um curto período de tempo, antes de azedarem e ficarem estragados. Cientificamente, o conhecimento sobre as causas reais da fermentação para a conservação de vinho, cerveja, leite, entre outros produtos, deu-se na segunda metade do século XIX. Em 1856, Pasteur se interessou pelos problemas de azedamento da cerveja e dos vinhos franceses e, com seu inseparável microscópio, passou a estudar o fenômeno bioquímico da fermentação. Era uma ocasião apropriada para comprovar ou descartar os fundamentos dos estudos do químico alemão Justus von Liebig (1803-1873), o qual "[...] insistia em afirmar que a fermentação não passava de um fenômeno puramente químico sem relação com organismos vivos" (ASIMOV, 1974, p. 370). Pasteur foi o primeiro a demonstrar que no processo da fermentação não havia necessidade de uso do oxigênio e que, paradoxalmente, envolvia a presença de seres vivos − os microrganismos −, além de uso do levedo na medida certa. Era mais uma contribuição do bioquímico francês para com a ciência. Dessa vez, Pasteur proporcionaria um considerável avanço no campo da microbiologia, ensejando o avanço de teorias, tais como: a) Teoria dos germes, ou teoria dos micróbios44 (teoria microbiana); b) Teoria microbiana da fermentação; e c) Teoria microbiana da doença. Em relação ao item b), registra-se que na

Teoria microbiana da fermentação, Pasteur explicou o porquê acontecia a contaminação por álcool durante o processo de fermentação. Ele descobriu a presença de diversos micróbios, denominados leveduras, que utilizavam o açúcar presente nas frutas e os convertiam em álcool na ausência de oxigênio. Já na presença do oxigênio o azedamento das bebidas se [dava] pela presença de micróbios diferentes, que transformam o álcool em ácido acético, vulgarmente conhecido como vinagre. Como forma de solucionar este problema [...] Pasteur aqueceu essas bebidas o tempo suficiente para matar esses micróbios, que ocasionavam o problema e este processo recebeu o nome de seu criador: Pasteurização. (DIAS, [2015?], p.1).

Após essa demonstração científica da fermentação − efetuada por meio da interface entre química e biologia −, alguns cientistas europeus passaram a informar e também a alertar a sociedade sobre a possibilidade de os micróbios estarem relacionados com as origens de moléstias que acometiam tanto os animais quanto os seres humanos. Essa era a teoria natural

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A diferença na definição de germe e micróbio não é rigorosa. Com o intuito de esclarecer essa particularidade em microbiologia, fornecem-se as definições de um e de outro, como seja: "Germe − Diz-se de micróbios, ou dos rudimentos de um novo ser. [...] Micróbio − Denominação dada aos organismos diminutos, sobretudo aos patógenos" (VILLELA e FERRAZ, 2015, p. 180-258). Percebe-se que a diferença é sutil. Daí a origem do uso de duas modalidades de estudiosos fazerem referências à teoria microbiológica pasteuriana: (a) Teoria dos germes (mais usual); e (b) Teoria microbiana (ou teoria dos micróbios).

77 microbiana da doença, a qual contrariava a teoria sobrenatural das enfermidades, conforme já referenciado mais acima. "A sociedade tinha dificuldade de compreender e entender a teoria microbiana da doença, pois, muitos na época acreditavam que as doenças eram uma forma de Deus os punir contra os seus pecados" (DIAS, [2015?], p. 2).

Estavam abertos caminhos e possibilidades para o que Rosen (1994) denominou de a "Era Bacteriológica". Técnicas voltadas para a esterilização dos meios de cultura de germes, ou micróbios, seriam decisivas no processo de aperfeiçoamento e adequação orientados para o desenvolvimento da bacteriologia, ainda embrionária em meados do século XIX. "Pasteur derrubara assim definitivamente a doutrina da geração espontânea adotada no século XIX" (ASIMOV, 1974, p. 370). Importa anotar que a denominada "Era Bacteriológica" não diz respeito exclusivamente as descobertas científicas de Louis Pasteur. Este contribuiu, com a sua teoria dos germes, entre outras, para, juntamente com descobertas de outros cientistas, viabilizar melhorias teóricas e práticas nos saberes médicos clínicos e de laboratórios. Vale lembrar que a bacteriologia é em si mesma uma ciência cujos especialistas − nominados de bacteriologistas − estudam as bactérias (VILLELA e FERRAZ, 2015). Outrossim, o campo bacteriológico, conforme notação sinóptica feita em nota de rodapé acima, é bastante amplo e de natureza complexa. As bactérias "São seres ubiquistas, estando presentes em todos os ambientes. A maioria é útil à natureza, embora algumas espécies ocasionem doenças para homens, animais e vários vegetais" (VILLELA e FERRAZ, 2015, p. 42).

Importa saber que com o surgimento da "Era Bacteriológica"45, a vida das pessoas em geral mudaria consideravelmente: a frequência com que as moléstias infecciosas adoeciam seres humanos passou a diminuir. A melhoria no processo de diagnóstico de determinada doença sinalizava para a prevenção de enfermidades e manutenção da saúde.

Assim, em países como os Estados Unidos, doenças outrora temidas − febre amarela, febre tifóide, difteria e malária − pertencem ao passado. Em consequência, decênios se somaram à extensão da vida. E esse processo levou a uma alteração drástica na estrutura da população, pois muito mais pessoas passaram a sobreviver até a meia- idade e a velhice. Esses efeitos se originaram da demonstração indiscutível, de final de século XIX, de que criaturas microscópicas específicas, e não vagos miasmas químicos, causam as doenças infecciosas (ROSEN, 1994, p. 231).

45 A denominada "Era Bacteriológica" tem como fundamento a medicina de laboratório, quando o microscópio

possibilitou a operação das pesquisas experimentais microbiológicas. "O surgimento da microbiologia data do último quartel do século XIX, num contexto de desenvolvimento da medicina experimental, e de consolidação de uma prática médica higienista cada vez mais voltada para a intervenção no corpo social" (TEIXEIRA, 1995, p. 13). Para que essa Era do nascimento e desenvolvimento da microbiologia acontecesse, importa saber que toda uma comunidade internacional de estudiosos das mais diversas vertentes das ciências médicas, biológicas, químicas, bioquímicas, etc. seria necessária. Louis Pasteur e Heinrich Hermann Robert Koch são tão somente dois nomes de grande projeção que fizeram parte de uma comunidade formada por muitos cientistas, de diferentes nacionalidades. Enumerar todos os nomes desses pesquisadores, visando aprofundar o assunto e explicitar a relevância da "Era Bacteriológica", é aqui reconhecidamente inviável.

78 Tomando-se como suporte a citação acima, entende-se que os acontecimentos da "Era Bacteriológica", assim como os da Revolução Científica dos séculos XVI e XVII, foram possíveis graças ao "coletivo de pensamento" em Fleck (2010), em Kuhn (2003) e em outros pensadores. "[...] o processo de conhecimento não é o processo individual de uma 'consciência em si' teórica; é o resultado de uma atividade social, uma vez que o respectivo estado do saber ultrapassa os limites dados a um indivíduo" (FLECK, 2010, p. 81/82). Certamente, Louis Pasteur tinha consciência das inferências do conhecimento de outros pensadores, as quais contribuíam para a elaboração de suas teorias e concretização de suas descobertas. Com o surgimento da medicina social de Estado, urbana e do trabalho, nascia a saúde pública. Isso permitiu que as ciências médicas se internacionalizassem no século XIX (PANCRÁCIO, 2012). Pasteur foi sabidamente um cientista típico do século XIX e suas descobertas deviam contribuir como aporte indispensável para o progresso dos saberes médicos em um estágio de comunidade científica internacional no Oitocentos.

A teoria dos germes, também conhecida como "A Teoria do Germe Patógeno", está quase sempre associada, de modo enfático, ao nome de Pasteur. Entretanto, há os estudiosos que defendem a hipótese segundo a qual a teoria dos germes influenciou e recebeu inferências de outros cientistas, o que está em conformidade com o princípio fleckiano do "coletivo de pensamento". Com base nas notações de Jeppesen (2010), é fato que o médico e cientista alemão Heinrich Hermann Robert Koch (1843-1910) destacou-se como um dos precursores da moderna bacteriologia, sendo mais reconhecido como descobridor do bacilo do carbúnculo e do bacilo da tuberculose. "Suas teses não aumentaram a expectativa de vida e melhoraram a saúde da população apenas na Alemanha, mas continuam, até hoje, sendo consideradas verdadeiros fundamentos da microbiologia moderna" (JEPPESEN, 2010, p. 01). Assim como Pasteur foi um cientista de e atento ao seu tempo, caracterizando a centúria em que viveu − o século XIX −, Koch também o foi, de modo diferenciado:

[...] viveu em uma era de muitas viagens de descobertas e novas pesquisas. Ele próprio viajou muito, a fim de entender melhor os agentes causadores de doenças e suas vias de transmissão. No Egito e na Índia, Koch pesquisou o causador do cólera; na antiga Rodésia (hoje Zimbábue), dedicou-se ao estudo da peste bovina e da febre aftosa; na Itália, no leste da África e na Indonésia, realizou pesquisas sobre a malária (JEPPESEN, 2010, p. 02).

Em face de tais aportes comparativos, não há necessidade para se fazer uma trajetória "tortuosa" em busca de perceber que o microscópio, os micróbios e as bactérias eram elementos comuns nos processos de pesquisas de Pasteur e de Koch. Contudo, é pertinente

79 definir-se o "lugar" de cada um no que diz respeito às descobertas e contribuições para tornar viável a elaboração da teoria dos germes, sabendo-se que esses dois cientistas utilizaram direções e modalidades diferenciadas de investigação e metodologias. Em acordo com os postulados de Teixeira (1995), no caso das pesquisas de Koch, é preciso ter em mente que sua preocupação central estava direcionada para e relacionada aos rigores de um processo de desenvolvimento técnico-metodológico no trato de seu objeto principal de pesquisa: o cultivo e estudos das bactérias. Com isso, Koch contribuiu para edificar "[...] normas que davam coerência teórica ao processo de descoberta de um microorganismo e atribuição de seu papel na etiologia de determinada doença" (TEIXEIRA, 1995, p. 15). Já em se tratando das pesquisas de Pasteur e, na sequência, dos trabalhos de seus colaboradores, importa registrar o fato de que desde cedo os estudos pasteurianos

[...] voltaram-se [...] para os mecanismos de infecção, criando ou possibilitando a criação de técnicas de prevenção das doenças - como a assepsia, a antissepsia - e desenvolvendo profiláticos e terapêuticos biológicos de uso animal e humano. As descobertas empreendidas por Pasteur e seus colaboradores seriam uma alavanca para o desenvolvimento deste novo campo do saber. Para os historiadores, que nos últimos anos se detiveram no estudo da medicina do século passado, seus trabalhos configuram uma revolução na forma de constituição dos saberes e práticas médicas, por seu caráter experimental, pela constatação irrefutável do papel dos micróbios na origem de diversas doenças e, principalmente, pela amplitude das conseqüências da aceitação dessa postulação (TEIXEIRA, 1995, p. 15).

A citação acima serve como indicador termométrico quando o problema diz respeito às discussões sobre a "verdadeira" autoria (ou "propriedade") da "Teoria dos Germes". Com o intuito de corroborar, ao estilo kuhniano, a emergência das teorias científicas em face das crises, infere-se que a teoria pasteuriana dos germes foi pensada, desenvolvida e aplicada na prática em ocasiões críticas do século XIX em que moléstias epidêmicas rodeavam o mundo por inteiro, ceifando vidas em números surpreendentes. Há os que consideram a teoria dos germes como tendo sido o maior aporte do século XIX à medicina: "A figura mais representativa no campo da Bacteriologia é Louis Pasteur" (PANCRÁCIO, 2012, p. 17). Hoje, há os pesquisadores que denunciam o esgotamento dessa teoria e discordam dela alegando ter a mesma contribuído para a "má fama"46 das bactérias enquanto responsáveis

46 Pesquisadores recentes em ciências médicas contestam a funcionalidade da Teoria dos Germes, atribuída a

Pasteur, Koch e Ehrlich. A discussão aqui desenvolvida sobre a ciência de Pasteur tem como objetivo contextualizar tanto o químico e suas descobertas científicas no século XIX quanto a historiografia sobre os resultados dos exercícios práticos de seu trabalho no enfrentamento da doença no Oitocentos. Para informar pessoas interessadas em saber mais sobre essa corrente de pensamento na atualidade, recomenda-se a leitura do Artigo intitulado de "O esgotamento da teoria do germe e a crise cultural da medicina oficial", da autoria de Eduardo Almeida, disponível no site: <http://www.arzt.com.br/artigos/crise-de-paradigma---o-esgotamento-da- teoria-do-germe-na-medicina>

80 únicas como causadoras de doenças. Ainda assim, vale imprimir aqui o postulado de Porter (2004) segundo o qual não se pode atribuir a Pasteur exclusivamente a invenção da "teoria microbiana", que consiste no seguinte fenômeno biológico:

[...] a doença é causada pela invasão do corpo por organismos microscópios vivos −, pois ela era veiculada desde longa data. Mas ele [Pasteur] foi o primeiro a mostrar, através de demonstrações experimentais convincentes, que determinados micróbios efetivamente causavam determinadas doenças − no gado, nos suínos, nas aves domésticas e, por fim, nos seres humanos (PORTER, 2004, p. 108).

Já se relatou neste capítulo que as teorias científicas são dinâmicas e como tais estão sujeitas a reinterpretações que lhes permitam renovação e progresso. Por conseguinte, "[...] fenômenos novos e insuspeitados são periodicamente descobertos pela pesquisa científica [...]" (KUHN, 2003, p. 77/78). A teoria dos germes não foi a única contribuição de Pasteur para com as ciências médicas e bioquímicas. Importa saber que seus estudos foram marcados por uma certa frequência de fenômenos biológicos que viabilizavam suas descobertas.

Estudando a fermentação, Pasteur descobriu também a existência da vida anaeróbica, viu que certos organismos não crescem em presença do ar mas somente em sua ausência; e foi ele o primeiro a usar, em 1863, os termos "aeróbico" e "anaeróbico". Essa observação teve imensa importância, pois levou-o a investigar a putrefação e à