Ficou mundialmente conhecido, principalmente depois de obter o apoio do famoso grupo musical, os Beatles. Mahesh Prasad Varma nasceu na Índia, em Jabalpur, Madhya Pradesh, em 12 de janeiro de 1917. Conforme seu biógrafo, Paul Mason, quando criança teve uma vida afortunada ao lado de uma família amorosa e equilibrada onde se praticava uma obediência venerada. Formou-se em física e matemática na Universidade de Allahabad e dizia-se insatisfeito com o que havia estudado na faculdade. Buscava algo completo “através do qual pudesse compreender tudo”. Apaixonou-se pelo Yoga e aos 23 anos conheceu o seu Mestre Swami Brahmananda Saraswati (1868-1953), que teria assumido a cobiçada posição de Shankaracharya. 12 Sobre o Mestre de Maharishi, Mason descreve:
No papel de Shankaracharya, Swami Brahmananda atuou na função de professor espiritual, salientando a essência dos tradicionais ensinamentos hindus para seu rebanho. Dizem que quando o swami encontrava homens sinceros em busca da verdade, às vezes os iniciava nos mistérios da meditação yogue. Esses ensinamentos eram necessariamente transmitidos num clima de fé e adoração, embora não se saiba ao certo qual a forma exata de meditação utilizada (MASON,1997:36).
O grifo é meu para indicar que, por milênios, a iniciação em práticas meditativas foi considerada (e ainda é, em algumas linhagens) um segredo que poderia ser revelado apenas para pessoas consideradas especiais, mesmo entre aqueles que viviam nos mosteiros, e o ritual da iniciação era muito complexo, tido até como mais importante que a prática em si. O próprio texto destaca o valor que era dado a questão da “fé e adoração”, dois elementos que nada têm a ver com os efeitos obtidos com a pratica, que não passa de pura técnica. Quanto à forma exata de meditação, tudo leva a crer que, sendo ele o Mestre, era a mesma ensinada por Maharishi no mundo ocidental com o nome de “Meditação Transcendental”, a MT como ficou conhecida.
Após a morte de seu mestre, Maharishi teria vivido um ano e meio, em reclusão, em Gyan Mandir, um ashram próximo de Rishikesh, no Himalaia. A seguir, foi para o sul da Índia onde realizou várias palestras com práticas de meditação destacando que : “você não precisa tornar-se um monge ou adotar um modo de vida monástico para experimentar a mais elevada das metas espirituais.”
Em 1958, Maharishi saiu de Calcutá e depois de visitar vários países no sudeste da Ásia chegou a São Francisco em 29 de janeiro de 1959. Dos Estados Unidos, ele seguiu para Europa tendo visitado Inglaterra, Suíça, Áustria, França, Alemanha e mais tarde Noruega, Dinamarca, Itália, Grécia e Suécia. Seu objetivo era formar professores de MT (Meditação Transcendental) para que a prática fosse divulgada em todo o mundo.
A intenção de Maharishi era também desmistificar a prática de meditação, mas devido a sua formação monástica acabava muitas vezes por confundir os seus adeptos. Ao dizer que a palavra (mantra) dada aos adeptos não tinha significado, confundia-os, quando alegava que “se a mente não estiver firme ao nome de Deus, a devoção não começou”, o que significava que a suposta palavra simbolizava o nome de Deus. Para ele, o ponto
os maths, onde sadhus e swamis, que viviam errantes pelo país, poderiam se reunir. A partir dele, todos aqueles que chegaram a sua posição, receberam o título de Shankaracharya.
básico do ensino de sua meditação era o sucesso da seleção e da aplicação dos mantras que eram, acreditam seus discípulos, individuais. Cada um deveria servir a um tipo específico de pessoa, mas, onde ele encontraria tantos mantras? Quanto a esta pergunta, Maharishi dizia que a humanidade podia se agrupada em categorias e que um determinado mantra servia para um grupo especificamente, assim como os grupos sanguíneos e “ a harmonia entre as vibrações do corpo e as vibrações do mantra, a harmonia entre eles determina a conveniência do mantra para o indivíduo”. (ibid:268). Logo, seus mantras não eram “individuais” mas “grupais”.
Nesta pesquisa, verificamos que o uso de mantra em meditação e, seus supostos poderes, gera muitas vezes opiniões diversificadas, mas, é a técnica mais usada pela maioria dos praticantes. Alguns acreditam que quem dá poder ao mantra é a pessoa, outros que a palavra (o mantra) tem por si só, um poder mágico. Para outros, o mantra não passa de um instrumento que pode ser usado apenas o tempo que se achar necessário, isto é, após alguns anos de prática ele pode ser deixado de lado. No caso da MT o mantra teria um poder especial pois seria escolhido especialmente para a pessoa e Maharishi fazia crer a seus discípulos que “seus mantras foram passados de mestre para mestre durante vários milhares de anos, que se originaram de uma tradição inteira de mestres que possuíam o conhecimento correto relativo à sua seleção”. (ibid:266).
A iniciação feita por Maharishi, embora ele tivesse a intenção de desmistificar a prática, incluía um ritual que seguia modelos tradicionais:
Pedia-se que os futuros alunos, antes de vir para o aprendizado, trouxessem algumas frutas frescas, flores, um lenço limpo de algodão branco e a doação do salário de uma semana. Na iniciação, essas oferendas eram colocadas diante de uma fotografia ou pintura de um idoso cavalheiro indiano, profundamente absorto em pensamentos. Uma vez que o aluno estava confortavelmente sentado ( a posição de pernas cruzadas era a mais recomendada), o Maharishi murmuraria uma oração de devoção que dificilmente o iniciado entenderia. Caso ele ou ela fosse estudante de sânscrito, o significado desse puja ou cerimônia tornar-se-ia evidente, mas, com maior freqüência, o estudante permanecia numa bendita ignorância do seu conteúdo ou significado. O cântico sonoro que estava sendo oferecido era uma invocação contendo os nomes daqueles particularmente famosos nos anais da tradição iogue (MASON, 1997:75).
Após a iniciação, com o recebimento da palavra ou mantra, a pessoa é estimulada então a participar das reuniões onde receberiam informações sobre a filosofia e a prática da meditação. É relevante notar que, dado o número tão grande de pessoas iniciadas e tão poucos professores que realmente tivessem experienciado a prática por tempo razoável, essas orientações acabavam sendo de pouca ou nenhuma relevância, mesmo porque o
próprio Maharishi não permanecia nas cidades por muito tempo. Este foi um dos grandes problemas legado por Maharishi: acreditar que a meditação podia ser realizada sem um acompanhamento adequado.
Maharishi esteve no Brasil, em São Paulo (julho de 1967) por pouco tempo, e a mídia13 foi muito severa com ele nas críticas, havendo mesmo alusão de que seu país de
origem seria Trinidad, uma pequena ilha na América Central e não Índia. A pergunta inicial é “Santo ou Charlatão?”. Seria ele um trapaceiro que vivia às custas da ingenuidade das pessoas e que cobrava caro pela iniciação e por suas “consultas” ( na época cinqüenta cruzeiros novos). Mason relata que no Rio de Janeiro Maharishi foi agredido verbalmente por um professor de yoga que o teria chamado de farsante, ao que ele teria respondido: “Você deveria se autodenominar professor de ginástica. Ioga significa 'união'. Você nunca vai alcançar a união com Deus apenas contorcendo o corpo”. (Ibid:133).
Concordamos plenamente com a colocação de Maharishi pois contorcionismo não é Yoga, ou talvez seja melhor dizer, não leva ao Yoga (estado de união). Já vimos até agora vários mestres que são da mesma opinião. Mas, apesar das controvérsias, seu movimento cresceu o que o levou a fundar a International University of Transcendental Meditation. Não se sabe ao certo quantas pessoas foram iniciadas até hoje e quantas se tornaram realmente praticantes. Muitos abandonam depois de um certo tempo e outros, é claro, sofrem os efeitos catárticos da técnica pois sem orientação adequada esta se torna muito difícil, principalmente quando se trata de adultos. Na visão do Mestre Bohdan, como veremos no capítulo terceiro, a prática precisa de um acompanhamento. O próprio Mason relata:
Os prolongados períodos de meditação custaram caro para alguns dos membros do curso, que se encontraram padecendo de alguns efeitos colaterais desagradáveis, especialmente o fenômeno de acordar os “elefantes adormecidos” da mente. Enquanto o meditador se aclimatava aos longos períodos de silêncio, havia inesperados momentos de angústia, explicados como sendo o desenrolar das profundas tensões acumuladas da vida. Às vezes eram experiências pessoais e portanto bem fáceis de lidar, mas outras vezes era difícil de identifica-las (MASON, 1987:191).
Atualmente, podemos reviver este quadro pois a meditação vem sendo praticada também como modismo, como veremos no segundo capítulo, e, na maior parte das vezes, sem orientação, o que leva o praticante muitas vezes a desistir da mesma. Muitas pessoas, experientes ou não, divulgam a prática da meditação como se a mesma provocasse apenas reações positivas, mas esta não é a realidade. Como relata Mason: “inesperados momentos 13- Revista Capricho, julho de 1967, página 18. Título do artigo:Um Beato Barbudo que Adora Mulheres.
de angústia” podem vir à tona e isto exige um acompanhamento de um técnico especializado. Daí também a insistência da pessoa do “guru”, nas escrituras é “aquele que dissipa a escuridão”.
Na década de 80, o movimento criado por Maharishi é envolvido por outras conotações como as competições de “vôo iogue” (a primeira foi realizada em 1986, em Delhi-Índia), onde seus discípulos deveriam fazer demonstrações de poderes como a levitação. Demonstrações foram realizadas também nos Estados Unidos. Deepak Chopra testemunhou o fato:
Estávamos em Cambridge acompanhando a “Olimpíada da Ioga”, como a imprensa apelidara a apresentação realizada em julho, na cidade de Washington D.C.. Com cerca de mil levitadores praticantes de MT, tornou-se evidente que dois ou três competidores ocupavam uma categoria especial. Acontecia tanto nos Estados Unidos como na Índia, onde fora realizada a primeira Competição Internacional de Levitação Iogue. ... tiveram oportunidade de ver algo único, que faltou na apresentação americana: duzentos alunos do Maharishi Nagar flutuavam em formação, todos movendo-se para cima e para baixo, obedecendo a um impulso interior. (CHOPRA, 1989:196).
Deepak Chopra conheceu Maharishi em 1985 e teria com ele iniciado a sua carreira dentro da medicina indiana, conhecida na época como Ayur-ved Maharishi. O mais irônico é que Chopra aprendeu a meditar com um americano em Boston e não na Índia.14 Ele foi
inclusive apontado como um possível sucessor na liderança das organizações do Maharishi tal o interesse do movimento pela medicina alternativa (uso de ervas, diagnóstico de pulso, uso de sons, etc.). Até mesmo um partido político foi criado, o Partido da Lei Natural que teve o apoio novamente do ex-Beatle George Harrison. Ao que tudo indica a meditação, em termos de Movimento Mundial da Era da Iluminação, foi sendo colocada em segundo plano, mesmo porque a taxa cobrada para a iniciação em 1994, na Inglaterra, deveria subir para 470 libras, uma “doação” que muitos não poderiam fazer. Por volta de 1995, Chopra cortou suas ligações com o movimento e decidiu abrir a sua própria empresa (MASON,1987) mas, conforme suas obras (muito conhecidas no Brasil), ele continua indicando e praticando a MT e o ayurveda15 para seus pacientes e colaboradores.
Maharishi se tornou uma pessoa polêmica sendo muitas vezes idolatrado por suas
14- Isto me faz lembrar que Mestre Bohdan também iniciou muitos indianos que na década de 70 viveram na cidade de Sorocaba por motivo de trabalho. Ficamos surpresos pelo fato deles não conhecerem ou praticarem a meditação
15- Ayur-veda, medicina tradicional da Índia, foi eclipsada pela medicina ocidental científica em seu próprio local de nascimento e fora da Índia, Tibete, Nepal, Sri Lanka e China (a acupuntura chinesa traz princípios da ayurveda) é praticamente desconhecida. Atualmente tem sido divulgada pelo Dr. Deepak Chopra, organizador da Associação Americana de Medicina Ayurvedica. Já esteve no Brasil.
sábias colocações e outras vezes criticado, como pelo fato de ter iniciado tantas pessoas na prática da meditação e nunca ter dado a elas a devida assistência. Apesar disso, desde que os Beatles se envolveram com a pessoa de Maharishi, o número de meditadores dos Estados Unidos nunca parou de crescer. Estima-se que, hoje, mais ou menos 10 milhões de pessoas usem da meditação, sendo que muitos deles aprenderam em hospitais ou clínicas mas isto não significa que a técnica usada seja apenas a MT. O grande mérito do guru indiano foi apresentar a prática no mundo ocidental para grandes massas. Outro ponto significativo foi ele ter despertado, também, a atenção de cientistas e médicos, pois foi com a MT que se iniciou um grande número de pesquisas no mundo ocidental. Isto tem mostrado ao público científico e leigo o inestimável valor da prática. Maharishi faleceu em 05/02/2008, na Holanda.
Outro nome que destacamos, é também uma personalidade polêmica que foi, e continua sendo, amada por uns e criticada por outros. Seu nome ficou conhecido nos últimos tempos por Osho, mas, quando veio para o Ocidente, em 1981, era Bhagwan Shree Rajneesh.