5. DIRETRIZES PROJETUAIS
5.1 MAPA SÍNTESE, O CONCEITO E O PARTIDO
Para propor um projeto arquitetônico que atenda aos valores e diretrizes projetuais desenvolvidas neste capítulo, é necessário, primeiro, retomar as condicionantes principais do terreno e buscar entender como um programa mínimo inicial poderia se encaixar em seus limites.
O mapa síntese do terreno, a seguir, apesar de ser apenas uma amostra mais imediata do entorno ao redor do estádio, ilustra como o estádio pode aproveitar as condições de ventilação e como o projeto da cobertura deve estar atento à insolação, uma vez que, às 16h, o sol já está num ângulo que pode causar incômodo visual aos atletas e torcedores de alguns setores do estádio. Além disso, às esquinas destacadas no estudo dos caminhos da torcida coincidem com pontos
importantes de permanência e confraternização dos torcedores que costumam se concentrar tanto entre a igreja e a loja da Império Alviverde quanto nas ruas Amâncio Môro e Mauá, no caso desta, especialmente em frente ao bar.
O mapa mostra ainda que a Rua Floriano Essenfelder é a ideal para acesso e escoamento de torcidas visitantes, pois tanto o fluxo reduzido comparado às outras ruas, quanto a existência de apenas duas esquinas, facilitam operações de controle de acesso realizadas pela polícia atualmente. Ainda a respeito desta rua, considerando que ela estará fechada aos veículos, o caminho para os torcedores que saem do estacionamento pela rua Ubaldino do Amaral e necessitam virar à esquerda para acessar as ruas 21 de Abril e Mauá é complicado e gera congestionamento por mais, no mínimo, duas quadras, já que a Rua Itupava (mapa de trajetos no capítulo 3) só permite fluxo no sentido contrário.
Figura 31 - Mapa Síntese do Entorno Imediato do Terreno Fonte: elaborada pelo autor.
Durante a definição dos itens a seguir, ocorreu sempre a sobreposição dos estudos sobre o mapa síntese, de forma a sempre observar como os conceitos e ideias se relacionam com o terreno. Além dos diagnósticos e estudos realizados,
outro ponto de extrema importância e ainda não mencionado foi a parte final do questionário, onde torcedores poderiam, caso desejassem, deixar sugestões, comentários ou qualquer tipo de contribuição. Visando cumprir o objetivo de dar voz aos torcedores na concepção do projeto, algumas sugestões comuns entre eles (exemplo abaixo) são consideradas na elaboração do conceito e partido.
Figura 32 - Exemplo de Sugestões da Torcida no Questionário Fonte: adaptada de Google Forms.
Após a leitura das sugestões e dos estudos realizados até então, foram estabelecidos os conceitos principais que o projeto deverá refletir, sendo eles representados por 3 palavras: identidade, diversidade e interação.
Figura 33 - Conceitos Fonte: elaborada pelo autor.
Esses três conceitos estiveram presentes desde o início da pesquisa, que durante todo momento buscou compreender como clubes, torcidas e as cidades interagem uns com os outros, identificando-se mutuamente mas também tendo conflitos, gerados por atitudes de todas as partes e que podem afetar negativamente a todos.
As diretrizes projetuais, então, devem buscar ao máximo evidenciar como o terreno e o estádio são locais nos quais deve haver interação dos mais diversos tipos de usuários, durante os mais diversos cenários e momentos, valorizando e respeitando as diferentes escalas de interação: desde um morador local, passando brevemente pela rua Mauá, quanto os milhares de torcedores que anseiam por um
local agradável e confortável para confraternizar antes, durante e depois das partidas, ou até mesmo em dias nos quais não haja qualquer evento específico no local, sem perder o sentimento de identificação e pertencimento existente com o atual estádio.
Figura 34 - Partido a partir do Conceito. Fonte: elaborada pelo autor.
O partido do projeto, conforme ilustra a imagem anterior, no que diz respeito ao conceito de “identidade”, consiste em: um estádio que cumpra tanto as normas de segurança e conforto quanto o programa necessário para bom funcionamento e valorização da história e imagem do clube; dar mais visibilidade para a estátua Dirceu Krüger, a loja e o museu do Coritiba; formas curvas com atrás dos gols,
semelhantes ao Couto Pereira atual e ao conceito inicial destadion
; proporcionar um
setor sem assentos para aqueles que costumam assistir em pé; e trazer soluções arquitetônicas que fortaleçam a imagem de um clube que busca se modernizar mantendo suas tradições e que respeita sua cidade, utilizando técnicas sustentáveis de construção e manutenção.
O projeto arquitetônico e paisagístico do novo Couto Pereira deve, seguindo o conceito de “diversidade”, ser acessível a todos e proporcionar espaços e usos que atendam também à população do entorno, tendo a praça aberta como um dos principais elementos do projeto. Além disso, considerar a crescente busca por uma cidade multimodal e acrescentar ao terreno tanto um bicicletário, quanto uma área para instalação de uma estação do sistema de bicicletas compartilhadas em Curitiba (previsto pelo IPPUC e em desenvolvimento).
Todos esses fatores e decisões projetuais devem sempre ser analisados buscando entender como podem afetar a cidade ao redor e os usuários. O conceito “interação”, além do que acaba de ser mencionado, também reforça a importância da praça como peça chave do projeto e indica as preocupações que devem ser tomadas para recepção e atendimento a turistas, torcedores visitantes, profissionais de imprensa e autoridades ou pessoas com status VIP nos eventos.
Figura 35 - Etapas 1 e 2 da evolução do partido. Fonte: elaborada pelo autor.
O processo de desenvolvimento do partido arquitetônico a ser seguido foi dividido em algumas etapas, num estudo básico inicial de implantação seguindo os pontos já mencionados. A respeito disso, a imagem anterior mostra as duas primeiras etapas que foram: o posicionamento do estádio na única região e com única orientação possível do terreno; a consolidação da praça da praça aberta no ponto mais alto e que abrange a esquina da Praça Portugal (Igreja) e da Loja da Império Alviverde; os pavimentos de estacionamento abaixo do nível do campo de jogo e das arquibancadas, assim como nas três referências dos estudos de caso; e o eixo de fluxo e acesso de veículos ligando a rua Ubaldino do Amaral ao estacionamento e à rua Mauá.
Figura 36 - Etapas 3 e 4 da evolução do partido. Fonte: elaborada pelo autor.
A seguir, destacaram-se os fluxos pedonais de maior importância, ou seja, dos torcedores locais e dos visitantes, além do acesso dos ônibus das delegações, que devem ser privados. O quarto passo foi a marcação do acesso VIP e dos profissionais de imprensa, que, segundo a FIFA, deve acontecer pela principal chegada ao estádio, sendo direcionados a locais privados no interior do terreno. Além disso, também foram marcadas as áreas de possível localização dos portões de acesso para a parte interna do estádio. Finalmente, levando em consideração às necessidades de espaços executivos e também espaços multiuso, destacou-se uma área intermediária entre a praça e o estádio.
Figura 37 - Etapa 5 da evolução do partido. Fonte: elaborada pelo autor.
A quinta etapa é fundamental para o cumprimento de vários objetivos traçados, envolvendo os três conceitos principais do projeto. Nesta fase, a busca por um plinth positivo se concretiza através da implantação de áreas para diversos usos diferentes, tanto no térreo da praça, quanto nas fachadas do estádio com as ruas Amâncio Môro e Mauá. Após identificar as fachadas de divisa de lotes que não podem ser de forma alguma permeáveis, posicionam-se (apenas a título de partido, ainda sem escalas ou precisão) lojas, bares e outros tipos de serviços ao longo do térreo da fachada, entre os módulos estruturais, portões de acesso e saídas de emergência a serem projetados e ocupando o espaço de fachada do estacionamento. Além disso, visando dar mais visibilidade, a loja oficial do clube, o
Memorial Coxa e a estátua Dirceu Krüger devem estar em local de destaque no pavimento térreo do estádio, do edifício multiuso anexo a ele, no caso da estátua, num ponto de destaque da praça.
Figura 38 - Etapa 6 da evolução do partido Fonte: elaborada pelo autor.
Por fim, a última etapa da evolução do partido consiste no ideal de setorização do estádio, semelhante aos moldes atuais do Couto Pereira no que diz respeito à variedade de possibilidades financeiras e de comportamento da torcida. Um dos setores da torcida da casa deve ser mantido sem assentos, para aqueles torcedores que preferem assistir aos jogos em pé, ideal defendido pelos torcedores do Coritiba no questionário e por muitas torcidas ao redor do mundo que lutam para recuperar esse tipo de espaço, conforme estudado no capítulo 2. Deve haver um setor com assentos, porém num nível de conforto padrão, visando torná-lo um setor intermediário e mais acessível do que o setor social proposto. Este deve ter níveis de conforto maiores. Além desses setores, há o setor visitante e destaca-se a importância da cobertura para todos os torcedores, sem necessidade de teto-retrátil.