inspectora alfandegária
“A história das ciências é feita de migração de conceitos”.
Morin (2003, 169)
A utilização de conceitos oriundos de diferentes ciências é algo que se alimenta de forma recorrente sendo precisamente tal facto a força motriz do progresso da ciência, dizendo-se mesmo “a história das ciências é feita de migração de conceitos” (Morin, 2003, 169). Contudo, esta ocorrência carece e necessita de algum controlo alfandegário para que estes conceitos não viajem clandestinamente conduzindo a sua utilização desenfreada e irreflectida a ideias falaciosas e desconexas com alguma inépcia.
A filosofia concede toda a sustentabilidade epistemológica deste paradigma da complexidade. Paradigma que epistemologicamente pode ser definido como “um tipo de relação lógica (inclusão, conjunção, disjunção, exclusão)
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entre um certo número de noções ou categorias-mestras” (Morin, 2003, 162).
Relativamente à definição de paradigma, Sérgio (2003) inspirado em Thomas Khun, refere que paradigma é uma realização científica que encontra um consenso no universo científico, que procura resolver um conjunto de problemas e soluções para uma categoria profissional. Kuhn utiliza mesmo o termo paradigma como sinónimo de teoria, sendo este a representação de um processo de reciclagem oriundo de uma revolução científica (Feitosa, 1993).
Termos como caos, acaso, entropia (desordem), quantum, sistémico, determinismo, e até mesmo complexidade, são conceitos que migraram de várias ciências como a física, matemática, cibernética, teoria da informação, etc., para o universo do paradigma da complexidade. Este trânsito de conceitos apenas reflecte o carácter integrativo e multidimensional deste paradigma.
O facto de a complexidade ir contra a simplificação, a disjunção e a redução significa que a sua definição acaba por se tornar complexa e intrincada para uma mente pouco elucidada. Tal como se vem referindo, a complexidade contempla a conjunção de binómios, a ruptura com um pensamento dualista. O facto de se discutir os problemas da relação entre os fenómenos físicos e os fenómenos mentais desta forma tão binária acarreta um antagonismo tão abissal entre ambos que impossibilita a sua relação. Implícita no antagonismo entre o corpo e a mente está a ideia de que os fenómenos por ambos desencadeados não podem recrear ambos os termos, ou seja, o fenómeno ou é mental ou físico (Searle, 1998). Desta forma, e em consonância com Heidegger (cit. in Devlin, 1999, 334), é equivocado conceber uma simples atitude objectiva que apresente um universo apenas físico, e é igualmente um equívoco conceber uma simples atitude subjectiva em tudo o que é gerado por pensamentos e
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sentimentos. Tal como se vem defendendo, nenhuma destas realidades existe uma sem a outra, e devem ser inseridas num sistema complexo integrador.
Segundo Morin (2003, 20) a complexidade pode ser encarada como “o tecido de acontecimentos, acções, interacções, retroacções, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal”. Desta forma compreende-se que a definição de limite está confinada a uma forma simplista de estabelecer uma teoria fácil onde só algumas críticas se encontram inseridas num círculo bem definido, e todas aquelas que põe em causa essa teoria são automaticamente indexadas como pouco importantes. Pelo contrário Gell-Mann (1997) sugere a necessidade de especificar um limite para o nível de minudência em que determinado sistema é relatado. Mas tal processo de definição de limite só deverá ser realizado com uma elevada flexibilidade e respeito pela intercomunicação fenomenal sendo esse limite puramente imaginário e solidário com o meio envolvente.
Com a Antropologia, Morin (1991) faz germinar o conceito de hipercomplexidade, que se apresenta como o salto qualitativo e quantitativo da complexificação do cérebro da hominização para a humanidade. Este sistema hipercomplexo é um sistema com menos restrições, menos hierarquizado mas mais magnificente nas capacidades heurísticas, organizativas e mais dependente das inter-relações, absorvendo assim uma maior entropia.
A entropia é outro dos termos que se encontra inserido em muitas explicações teóricas de determinadas áreas, muito diferentes da área que lhe deu origem, a termodinâmica. O termo entropia provém da 2ª lei da termodinâmica onde, utilizando o enunciado de Kelvin-Planck, “é impossível, para qualquer dispositivo que funcione num ciclo, receber calor de uma única fonte e produzir trabalho” (Çengel e
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Boles, 2001, 259), podendo-se mesmo referir que esta situação não se aplica unicamente a um ciclo, sendo também considerados sistemas ou dispositivos que funcionem ciclicamente. O facto da 2ª lei da termodinâmica originar termos que envolvem desigualdades, entre as quais a desigualdade de Clausius (1822-1888), surgiu a necessidade de criar uma nova propriedade, a que Clausius em 1865 designou de entropia (Ibidem).
Contudo, dentro da própria termodinâmica existe um consenso entre os investigadores que o termo entropia representa uma propriedade algo abstracta, sendo a definição física algo difícil de apresentar. Mas havendo uma definição, Çengel e Boles (2001) referem que entropia é uma medida de desordem molecular; à medida que um determinado sistema se torna desordenado, as moléculas apresentam um comportamento cada vez mais caótico, aumentando a entropia.
Gell-Mann (1997, 242) estabelece uma relação íntima entre informação e entropia, sendo uma “medida de ignorância”, ou de um modo muito geral, a quantidade de informação (nº de bits) necessária para definir um microestado3 de um determinado sistema inserido num macroestado. Ou seja, se um determinado sistema se encontrar num dado macroestado, a entropia desse macroestado mede o grau de “ignorância” sobre a definição do microestado respectivo, uma vez que cada macroestado é constituído por vários microestados, sendo todos possíveis.
É neste contexto que o conceito entropia entra no discurso do desenvolvimento motor, epistemologia e mesmo no discurso popular, como sinónimo de desordem.
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“Um sistema fechado completo pode existir numa variedade de estados (microestados), (…), em mecânica quântica, esses estados são agrupados em categorias (macroestados) (Gell-Mann, 1997, 241) ”.
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E muitos outros conceitos transitam de uma margem para outra, de um universo para outro. Tal trânsito é desejável e estimulado, mas o controlo é necessário e exigido.