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Para Padilla (1992, p. 203), “tanto a palavra como a ação (social) apontam para o Reino de Deus. A missão da igreja é uma extensão da missão de Jesus.” Não se pode separar dentro da perspectiva missionária a ação do serviço social da palavra porque uma se conecta a outra, de forma que uma não existe sem a outra. Para Padilla, o reino se torna visível e uma realidade presente por meio da igreja que realiza boas obras. Assim, estas não podem ser consideradas como apenas um anexo, mas devem fazer parte integral da missão. A evangelização e a responsabilidade social precisam caminhar juntas, até porque Jesus e seus discípulos não fizeram uma divisão entre elas, nem nos parece que tenham priorizado uma em detrimento da outra.

Padilla recorda em uma recente entrevista (apud REY, 2010, p. 3) de como se preocupava com o evangelho integral, mesmo quando ainda era um jovem pregador:

[…]coisas que para mim eram essenciais, como a comunhão cristã em um nível mais profundo, a responsabilidade (social) para com o próximo, em especial com os mais necessitados, a pregação da palavra como algo central na vida das igreja, a feitura regular de boas obras por parte de muitos membros da igreja, o surgimento de liderança local, a formação de jovens, enfim, estes foram fatos que representaram para mim, oportunidades de crescimento e de serviço.

A missão deve compreender a proclamação da palavra, o anúncio do evangelho voltado para a salvação de almas e do conforto que pode oferecer, aliviando em muito o sofrimento que o espírito pode ter de enfrentar. No entanto, as atitudes cristãs devem contemplar também as questões sociais, porque são nelas que se manifesta a face de Jesus, no exemplo prático e concreto da vida. Aí as pessoas poderão perceber a presença do Senhor Jesus por meio das ações de seus discípulos, que são todos os membros da igreja, sejam eles clérigos ou leigos (termo não usual entre os batistas). Gosto da ilustração que Padilla (1992, p. 207) faz quando em seu texto, comenta assim:

Se a evangelização e a ação social são consideradas essenciais na missão, não necessitamos de um manual que nos diga qual vem primeiro e qual vem depois. Por outro lado, se não são consideradas essenciais, o esforço para entender a relação entre ela é um exercício acadêmico inútil: tão inútil como entender a relação entre a asa esquerda e a direita de um avião, quando se acredita que um avião pode voar com uma asa só. E quem pode negar que a melhor maneira de entender a relação entre as duas asas de um avião é voar nele, ao invés de especular a respeito? A missão integral, que é uma forma completa de se levar a mensagem de Deus ao mundo, não prioriza a palavra nem a ação social. Ela coloca ambas de forma indissociável, correndo juntas, indissociáveis. Não se pode separar ou classificar em ordem de importância o que vem primeiro, se a proclamação da palavra ou a ação da responsabilidade social. Padilla coloca esta questão como inútil, ilustrando com a importância das asas de um avião. Todos nós sabemos que as duas asas são importantes, não se pode voar com apenas uma delas. Portanto não existe uma que seja “mais” e outra “menos” importante. Isto se aplica a missão integral: não se pode alçar o evangelho pelo mundo sem a “asa” da proclamação e sem a “asa” da ação social, porque as duas são imprescindíveis.

Um tema marcante na missão integral, diz respeito ao Reino de Deus. Resolvi incluir este assunto nesta parte da pesquisa porque observando os principais textos de Padilla, ele trata do Reino de Deus quase sempre quando escreve sobre a ação da responsabilidade social e a feitura das boas obras.

Reimer (2008, p. 855, 856), trata o verbete “Reino de Deus” no AT:

No AT a ideia de um reino de Deus já era expressa e de alguma forma, parece haver uma relação de proximidade entre o imaginário simbólico de um reino de Deus e o seu referente terreno, isto é, reinados históricos. A ideia de um rei forte e poderoso, capaz de subjugar inimigos, mas também de prover justiça é projetada para o próprio Deus. O reino de Yahveh se dará sobre a comunidade que observa a Torá; observa-se então que também há grupos claramente excluídos deste governo. Sendo considerado o Deus criador de todo o cosmo, Yahveh pode ser celebrado como o Senhor absoluto de todo universo. Esse governo se dará especialmente através da observância dos preceitos da Torá, na qual a prática da justiça e da misericórdia, sobretudo em relação às pessoas empobrecidas, constitui elemento importante. Os herdeiros deste reino de Deus eterno serão os crentes que se mantiverem fiéis (a Yahveh somente e a sua Torá) até o tempo final.

No AT, existem aproximações de um reinado simbólico, de um reinado histórico (terreno) e indícios de pessoas excluídas, ou seja, aquelas que não observavam as leis da Torá. Por ser Yahveh o Deus absoluto e criador do universo, não sobrava espaço para a formação de outro deus; só um reina e pronto. Como seria impossível tratar do Reino de Deus sob a perspectiva do AT nesta pesquisa, seja pelo espaço, e objeto da pesquisa deste pesquisador, o que faço é apenas um mínimo resgate histórico, para de imediato voltar a me dedicar a esta questão do reino, bem direcionada ao evangelho de Jesus e com vistas ao tema da missão. Por fim, cabe lembrar que “essa esperança pela realização do reino de Deus será traço marcante na espiritualidade judaica do período” (REIMER, 2008, p. 857).

Retornando a Reimer (2008, p. 857-858), em se tratando do verbete “Reino de Deus” no NT, temos os seguintes recortes:

O termo e conceito Reino de Deus tem o seu desdobramento mais importante nos textos do NT, através das ações e falas de Jesus. Ele compartilha o conhecimento e a esperança pelo Reino de Deus, presentes na tradição judaica de tempos anteriores. A expressão Reino de Deus (escatológica) está muito presente nas parábolas que aparecem em Mateus – aqui a prática da justiça e da misericórdia é o tema central juntamente com o desafio de dar preferência ao Reino de Deus diante de outros compromissos. Anuncia-se um novo tempo de justiça para as pessoas empobrecidas, doentes, marginalizadas e abandonadas na estrada da vida. Este acontecimento, no entanto, ainda não está pleno e permanece em aberto até o final, quando todas as pessoas serão julgadas de acordo com sua prática da justiça. Em lugar nenhum se encontra uma definição clara e direta sobre o Reino de Deus. Jesus falava sobre ele como uma realidade conhecida, que está próxima e já presente na realidade histórica e nas pessoas, mas que também ainda continua aberta para o futuro. Permanece impossível, porém, querer encerrar o Reino de Deus numa definição.

O Reino de Deus, conforme a descrição feita por Reimer, se manifesta na pessoa de Jesus não somente na fala relacionada ao presente, mas também em sua escatologia e nas ações das obras que espelhavam o que ele dizia. É uma combinação de palavra e ação, nunca desassociando uma da outra. A prática da justiça e da misericórdia se faz necessária para se viver agora e se alcançar no futuro o Reino de Deus. Cabe citar o evangelho segundo São Lucas 17.20, 21: “Interrogado (Jesus) pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: a vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus

está no meio de vós”. Portanto, o Reino de Deus é uma realidade atuante no presente e, no entanto, se refere também ao futuro.

Retornando à teologia de Padilla, quando ele trata do Reino de Deus em relação ao fato de que todos estão convidados a participar deste reino, seja homem, seja mulher, está querendo assim dizer que isto ocorre por meio do perdão, da justiça e da paz, da misericórdia e do convite feito pelo evangelho. Para Padilla (1996, p. 55), “a obra de Jesus Cristo foi cumprida em sua morte e ressurreição e dirige-se à totalidade da existência humana. Não tem exclusivamente a ver com a salvação da alma em um futuro distante, nem se limita ao aspecto religioso da vida”. Assim ele descreve o contexto do evangelho de Jesus, indicando um reino presente e ao mesmo tempo futuro, bastando ao ser humano aceitar o convite para entrar neste reino.

É pela pratica da justiça e pela forma como vivemos neste mundo nos relacionamentos pessoais e sociais que seremos julgados por Deus e convidados (ou não) a fazer parte de seu reino. Não se deve esperar por um futuro distante (eternidade) para se vivenciar a alegria do Reino dos Céus, porque ele já se fez presente entre nós, por meio de Jesus. Ainda hoje, a igreja tem o Espírito Santo para executar seu reinado. É pela palavra, pelos gestos de solidariedade e de amor fraterno, e pelo amor até aos inimigos (possível só pela misericórdia de Deus) que se vive no presente a dimensão existencial do Reino de Deus. Entra aqui um fator fundamental: o desapego ao dinheiro. É pelo bom uso deste símbolo, materializado em todos os tipos de bens de consumo, que muito do coração do ser humano se manifesta aos olhos da sociedade. O jeito como se lida com este recurso mostra muito do senso de justiça e da forma como vive o cristão, se realmente ele se dispõe a uma vida integral e a ser um missionário que pratica a missão integral no sentido mais amplo e pleno desta expressão.

A justiça que se apresenta como elemento fundamental do Reino de Deus, pode perfeitamente ser compreendida como “amor cristão”. Este amor ao próximo realizado pela pregação do evangelho e pela concretude das ações sociais, juntamente com a máxima “amar a Deus sobre todas as coisas”, pode moldar a forma como as pessoas se relacionam entre si, expressa em gestos, pensamentos, ações e sentimentos, que venham a demonstrar as atitudes de verdadeiros cristãos dispostos a proclamar o Reino de Deus

como um evento presente tão bom, que faça brotar o desejo sincero de querer que este Reino de amor, paz, justiça, misericórdia e de cura signifique um real novo nascimento.

A vida cristã precisa ser dinâmica, demonstrando em atos o que se pronuncia em palavras, para que a luz do evangelho realmente ilumine corações e mentes de tal forma que se possa ver que “Cristo vive em nós”.

No entanto, cabe lembrar que é impossível querer compreender por completo e tentar conceituar por definitivo, o que afinal vem a ser o Reino de Deus. Padilla (1992, p. 197) nos alerta para o seguinte: “cada tentativa de definir a relação entre o Reino de Deus e a igreja por um lado, e entre o Reino de Deus e o mundo, por outro, será necessariamente incompleta”. No entanto, estas dificuldades não nos impedem de refletirmos teologicamente sobre os assuntos do Reino de Deus, baseando-nos aqui na Teologia da Missão Integral de Padilla.

Padilla (1992, p. 198) elabora uma definição, dentro do possível, sobre o que vem a ser o Reino de Deus:

O Reino de Deus é, portanto, uma realidade presente e ao mesmo tempo uma promessa que será cumprida no futuro: ele veio (e está presente entre nós) e virá (de modo que esperamos seu advento). A premissa básica da missão de Jesus e o tema central de sua pregação não é a esperança da vinda do Reino numa data previsível, mas o fato de que em sua própria pessoa e obra o Reino já se tenha tornado presente com grande poder.

O evangelho é uma mensagem que procura despertar no ser humano o amor próprio, ao próximo e a Deus sobre todas as coisas. Seu Reino se constituiu na história humana no passado, com o nascimento, vida e obra de Jesus e deixou um legado aos homens repleto de exemplos de como conviver melhor, fazendo do tempo presente um momento de alegria. Infelizmente, a meu ver, a lição deixada por Jesus não foi aprendida pelos homens. Esta é a razão principal do sofrimento humano. Esta realidade presente, marcada pela dor, tem possibilidade de ser alterada, pela esperança que se tem na palavra e nas ações que Jesus nos deixou como exemplo. A volta de Cristo e o Reino futuro, são fatos que se esperam.

A missão de Jesus em nosso tempo foi realizada pela pregação da palavra e ações sociais quando se contemplaram duas necessidades do ser humano: as coisas do

espírito (alma) e as do corpo. As duas dimensões do ser humano foram abordadas por Jesus, que nos deixou uma mensagem de fé e esperança de uma vida melhor. Porém, para que esta vida melhor se concretize, é necessário que os homens façam uma adesão irrestrita ao evangelho, para que consigam cumprir as exigências necessárias para viverem no presente e na posteridade as alegrias do Reino de Deus. Esta alegria se expressa aqui e agora pela fraternidade, justiça (ética) e respeito entre os seres humanos, tendo como ponto de referência o amor que Jesus ensinou. Fazer parte do Reino do presente século é promover e viver sua justiça, com os olhos da fé fixados na segunda parte do Reino. Conforme as palavras do evangelho atribuídas a Jesus, este tempo “está próximo”.

As questões do Reino de Deus entraram na história e afetam a vida da humanidade em todas as suas dimensões física, psicológica, material, social e espiritual, não deixando de fora qualquer dimensão da vida do homem. Para lidar com esta situação tão ampla, que atinge o natural e o sobrenatural, precisamos viver segundo o evangelho, para que possamos compreender e praticar aquilo que Jesus nos ensinou por meio de seus discípulos, pela missão da igreja e pela vida pessoal de cada cristão disposto com toda sinceridade a servir ao rei Jesus, com seu exemplo de vida, por meio da prática da justiça caracterizada pelo amor dedicado ao próximo e, em nossos dias, pela responsabilidade social, ambiental e espiritual.

A missão da igreja é proclamar as boas novas a todos os povos e não pode ser entendida independentemente da missão de Jesus. Esta missão (da igreja) segundo Padilla (1992-b, p. 125) “é a manifestação, ainda que não completa, do Reino de Deus tanto por meio da proclamação como por meio da ação e do serviço social”, dando testemunho do amor de Deus, quando o ser humano se dispõe com seriedade e afinco a realizar em sua vida o que lhe manda o evangelho, isto é, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Isto deve ser externado em palavras e nas boas obras, demonstrando a presença da justiça divina existente entre os homens, por meio da vida exemplar que cada cristão deve perseguir, olhando para Jesus Cristo.

A reflexão que Padilla apresenta sobre o “reino e a igreja” apontam para uma missão na qual Jesus tinha a intenção de ficar rodeado por sua comunidade, onde suas promessas pudessem ser cumpridas. Ladd (apud Padilla, 1992, p. 201) assim se

expressa: “a igreja (é) a comunidade do Reino, mas nunca o próprio Reino (…) o reino é o reinado de Deus; a igreja é uma sociedade de pessoas”. Isto é, “o Reino de Deus irrompeu na história em Jesus Cristo (o qual) continua atuando por meio do Espírito Santo”. O Cristo rei que subiu aos céus continua operando na terra por meio de seu Espírito Santo, tendo como sua maior expressão a igreja, uma assembleia de pessoas que precisam e devem estar comprometidas com a palavra e as obras sociais, pois “a igreja é o resultado da ação de Deus por meio do Espírito”. E conclui: “a igreja depende do Espírito para sua própria existência”.

O ministério integral a ser promovido pela igreja deve no mínimo focar em quatro pontos, para se avaliar seu crescimento e comprometimento com o evangelho e com a missão integral. Padilla (1997, p. 31-33) aponta o crescimento numérico, que precisa ser tratado com outros elementos da missão, para que ela não corra o risco de se preocupar em demasia apenas com a salvação de almas, ou com atitudes superficiais que indiquem apenas crescimento em número, sem o devido cuidado com a palavra e com a ação social pleno; o crescimento orgânico, que significa o governo, a estrutura financeira e a vida cultural da igreja, sempre pautados no evangelho; o crescimento conceitual, relacionado à inteligência da fé, isto é, na reflexão teológica; e, por último, o crescimento diaconal, para se verificar em qual intensidade a igreja se dedica (serve) ao mundo, com a intenção de prestar serviço ao Reino de Deus, por sua presença no mundo.

O evangelho traz uma mensagem escatológica que indica um evento: a vinda do Reino. Mas este Reino já opera por meio de Cristo. Quando ele volta aos Céus, o Espírito Santo inaugura a igreja, que tem o compromisso de se fazer presente nas vidas das pessoas. Para aderir à fé, primeiro é necessário acontecer o arrependimento, por meio do pedido de perdão dos pecados pessoais e sociais, dirigindo este pedido a Deus. Estar na igreja e agir pela igreja, é uma forma de se fazer missão integral, envolvendo- se o cristão com as carências físicas, sociais, psicológicas e teológicas das pessoas, muitas delas de fora e outras já participantes da igreja. Padilla (1992, p. 78) afirma que “a característica mais distintiva do ensinamento de Jesus quanto ao Reino de Deus é que, em antecipação ao final do tempo, a era do Reino já está em meio aos homens por meio de sua pessoa e seu ministério”.

CAPÍTULO III – O CONCEITO DE MISSÃO NO PENSAMENTO