FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3. AFECTIVIDADE E APRENDIZAGEM
3.3. Afectividade no processo de Ensino-Aprendizagem
3.3.1. Modelo Afectivo de Kort, Reilly e Picard
Kort, Reilly e Picard, investigadores do Massachussets Institute of Technology, trabalham no campo da Engenharia Informática e têm desenvolvido investigações nesta área, especificamente ligadas à programação de computadores. Embora, este campo de estudo pareça ser distinto do âmbito do estudo que nos propomos fazer, pensamos que esta proposta de modelo afectivo é pertinente, dada a relação que estabelece entre as emoções e a aprendizagem.
Os autores, num artigo intitulado “An Affective Model of Interplay Between Emotions and Learning: Reengeniring Educational Pedagogy – Building a Learning Companion”, propõem um novo modelo, que procura identificar o papel das emoções no processo de aprendizagem, através do reconhecimento de diferentes estados emocionais do indivíduo nas diferentes fases do processo de aprendizagem. Segundo os autores, existe uma reciprocidade e interacção complexas e profundas entre emoções e aprendizagem, dado que não foi profundamente analisado pelas teorias da aprendizagem. Deste modo, os autores avançam com esta hipótese de modelo, numa tentativa de explicar a relação entre os factores afectivos e a aprendizagem.
Kort, Reilly & Picard (2001:1) fazem, ainda, a advertência, que este modelo ainda não foi testado e é apenas um primeiro passo da investigação em curso. Esta tem, assim, dois
grandes objectivos e que são os seguintes: “conceptualize the impact of emotions upon learning, and then, build a working computer-based model that will recognize a learner’s affective state and respond appropriately to it so that learning will proceed at an optimal pace.”
O modelo afectivo de Kort et al. (2001) identifica diferentes estados emocionais que fazem parte do processo de aprendizagem, sendo de extrema importância reconhecer o carácter cíclico dessa mesma aprendizagem. Os autores defendem que as emoções constituem uma parte inerente e natural ao processo de aquisição de conhecimentos e ambas as emoções, negativas e positivas, devem ser identificadas e geridas como pertencentes a um todo, chamado aprendizagem. Este caminho conduzirá a uma maior eficácia do processo de aprendizagem por quanto se torne mais gratificante por parte dos alunos.
Os autores propõem um modelo que descreve uma série de estados emocionais que ocorrem durante a aprendizagem. Este modelo, inspirado numa teoria do campo da Engenharia que é utilizada para descrever sistemas complexos de interacção, não pretende explicar como é que funciona a aprendizagem em si, mas, fornecer um enquadramento, no qual possamos pensar e reflectir sobre o papel das emoções na aprendizagem.
Este modelo tem limites de aplicação. Assim, o modelo não pretende descrever, de uma forma exaustiva, todos os aspectos da interacção entre as emoções e a aprendizagem, mas pretende proporcionar a descrição das emoções-chave para a aprendizagem, facto este, que os autores consideram ter sido negligenciado pela Pedagogia da aprendizagem. Os mesmos referem, ainda, que a capacidade de identificar o estado cognitivo e emocional do aluno é um indicador crucial de como dar-lhe o apoio e a resposta adequada para que consiga atingir um elevado grau de compreensão quanto à eficiência e ao prazer do processo de aprendizagem.
No modelo de Kort et al. (2001) é apresentado um conjunto de emoções que podem ter relevância para a aprendizagem. Os autores identificam cinco eixos básicos, aos quais correspondem diferentes estados emocionais específicos, que se situam entre dois extremos, negativo e positivo. Estas cinco dimensões, integram outras seis emoções, situadas entre os dois extremos já referidos. Na figura dois apresentamos os cinco eixos
base, do extremo mais negativo para o positivo, e as emoções que se localizam entre os extremos de cada eixo, tendo como base um esquema apresentado no artigo dos referidos autores. Vejamo-lo:
Tabela 1 – Emoções na aprendizagem
A figura três é uma tentativa de interligar os eixos da emoção, indicados na figura anterior, com a dinâmica cognitiva do processo de aprendizagem. O modelo afectivo de Kort et al. (2001) considera três eixos que relacionam as emoções com as várias etapas da aprendizagem. São eles: o eixo da aprendizagem (eixo vertical), o eixo das emoções (eixo horizontal) e o eixo do conhecimento, que não está representado, pelos autores, na sua representação gráfica do modelo.
Figura 2 - Eixos da Emoção e Processo de Aprendizagem
O eixo horizontal ou emocional poderá ser um dos eixos básicos apresentados na figura anterior, ou pode simbolizar um vector n de todas as emoções relevantes para a aprendizagem, permitindo, assim, uma combinação multidimensional das emoções. Do
lado direito do modelo, situam-se as emoções que provocam efeitos positivos no indivíduo e que correspondem a um maior prazer, em termos de emoções. Do lado esquerdo do modelo situam-se as emoções que provocam efeitos contrários, isto é, negativos, que correspondem a sensações mais desagradáveis, de desprazer.
O Eixo da Aprendizagem ou vertical corresponde ao processo de construção e desconstrução de conceitos. Este simboliza, também, a construção de conhecimento (seta em direcção para cima) e a desconstrução de erros da aprendizagem, de concepção ou de apreensão (seta em direcção para baixo). Estes autores referem que não entendem o processo de aprendizagem, apenas, como um processo de construção e de desconstrução ou de soma e subtracção de informação, mas, esta terminologia é apenas uma projecção de um dos aspectos ou perspectivas que podemos adoptar, quando pensamos sobre a aprendizagem. Desta forma, muitos outros aspectos poderiam ser incluídos ao longo deste Eixo da Aprendizagem.
Este modelo incorpora um terceiro eixo, o Eixo do Conhecimento (não desenhado na figura), que é situado e descrito por Kort et al. (2001:3) como:
“…A third axis (not shown), can be visualized as extending out of the plane of the page – the Knowledge Axis. If one visualizes the above dynamics of moving from quadrant I to II to III to IV as an orbit, then when this third dimension is added, one obtains the an excelsior spiral when evolving/developing knowledge.”
O indivíduo, regra geral, começa no quadrante I ou II, numa fase em que está curioso ou fascinado com um tópico do seu interesse (quadrante I) ou pode estar confuso e expectante (quadrante II). O indivíduo, em qualquer um destes casos, encontra-se situado na parte superior do espaço, uma vez que está focalizado em construir ou em testar o seu conhecimento. À medida que a aprendizagem avança, vai ocorrendo movimento neste espaço.
No quadrante I, a antecipação e a expectativa são grandes, enquanto o indivíduo constrói as suas ideias e conceitos e os experimenta. No quadrante II, a taxa de conhecimento diminui e as emoções negativas surgem, à medida, que o progresso não é tão rápido como esperado. No quadrante III, o estudante tenta eliminar as ideias e os conceitos que não se adequam ao problema. No quadrante IV, o estudante recupera a esperança, o
entusiasmo e adopta uma atitude positiva, à medida, que foram removidos os conceitos improdutivos e ineficazes, reiniciando-se o ciclo.
É importante salientar que a órbita não se fecha sobre si mesma, mas, move-se para cima ao longo da terceira dimensão, o Eixo do Conhecimento. Estes autores vêem este processo como o acompanhar do aprendente na sua viagem de aprendizagem, estando atento ao seu estado afectivo e dando-lhe uma resposta adequada. O objectivo é potenciar a experiência de aprendizagem e tentar manter o estudante em movimento, não evitando o quadrante III, mas antes, ajudando-o a continuar em movimento, não ficando ali preso ou retido.
Este modelo pode ajudar os indivíduos num processo metacognitivo, a reconhecer a sua experiência de aprendizagem, sobretudo incentivando-os ou predispondo-os a identificar e a gerir as emoções negativas, naturais e intrínsecas ao processo de aprendizagem, duma forma mais produtiva e gratificante.
Os autores deste modelo explicam que a sua intenção não é a de conseguir uma pedagogia que mantenha o indivíduo sempre no quadrante I, mas a de levar o indivíduo a compreender o carácter e a natureza cíclica da aprendizagem. Kort et al. (2001:3) afirmam que “Our aim is to help them to keep osbiting the loop, teaching them how to propel themselves especially after a setback”.
No enquadramento de um contexto educativo que toma em consideração uma pedagogia interactiva das emoções e do conhecimento, como aquela referida pelo modelo de Kort, Reilly e Picard (2001), vamos, agora, tentar reflectir sobre uma relação pedagógica afectiva que proporcione aprendizagem com sucesso.