O estudo da história do proibicionismo como ferramenta de política pública antidrogas e suas consequências, os modelos regulamentadores existentes em nível nacional e internacional, e a própria estrutura jurídica da Lei 11.343/06 permitem a formação das linhas gerais de uma nova regulamentação a ser realizada para substâncias consideradas atualmente como ilícitas no cenário jurídico brasileiro.
A principal premissa de um modelo regulamentador é que não ocorra uma liberação completa e irrestrita, em face da possibilidade de agravar problemas originados da própria proibição. Ademais, a liberação sem regulamentação implicaria na “legalização” do próprio tráfico de drogas, comprometendo a atuação do Estado no combate ao crime organizado.
Cumpre ressaltar, também, que existem substâncias que por sua natureza e elevado grau de toxidade, são incompatíveis com a adoção de modelos regulamentadores sendo de se reconhecer a manutenção da tutela penal focada em sua repressão, ou seja, de forma que a regulamentação ocorra apenas sobre as substâncias de risco reduzido e de fácil controle por parte do Estado. Desta forma, o Poder Público poderá atuar na repressão das condutas que realmente demandem tutela penal, pelo elevado risco oferecido aos usuários. Dentre as substâncias incompatíveis com a regulamentação do mercado podem ser observadas a heroína, a cocaína e principalmente o crack, drogas que pela alta toxidade, potencial para dependência e método nocivo de preparo não conseguiriam se adequar a um modelo regulamentador. Neste sentido, observa-se que os modelos internacionais de regulamentação mantiveram sua atuação focada sobre a maconha e sobre as chamadas pílulas de festa, ou seja, limitando a “liberação” as substâncias menos agressivas.
Os mesmos modelos não autorizaram o consumo de substâncias como a folha de coca e o ópio, visto que embora dotados de uma quantidade muito reduzida de princípio ativo podem facilmente ser utilizadas como precursores de substâncias mais fortes, violando um dos pressupostos de um modelo regulamentador que é o controle pelo Poder Público do que é ingerido pelo usuário, buscando prevenir e controlar os danos causados a sua saúde.
Portanto, alinhando-se com a tendência dos modelos norte-americanos, um modelo regulamentador brasileiro deve iniciar-se tão somente pela regulamentação do comércio da maconha, substância de menor risco e com uso mais difundido275.
Uma nova regulamentação do mercado brasileiro, por consequência, possuiria as seguintes premissas:
I. A regulamentação da cadeia produtiva, do comércio e do uso de substâncias dotadas de baixo risco, atualmente de uso proibido, com especial enfoque para a maconha.
II. A manutenção da criminalização das condutas do capítulo III da Lei 11.343/06 quando praticadas sem autorização legal dentro de um sistema de licenças.
III. O cadastramento dos usuários controlando o consumo pela criação de limites mensais de aquisição.
IV. A criação de um sistema de licenças e autorizações para produção, comercialização e consumo que limitem o acesso e controlem a cadeia produtiva, estabelecendo-se barreiras etárias e de limites de consumo diário e mensal.
V. A criação de critérios objetivos na quantidade de posse voltada ao consumo, acima dos quais o usuário licenciado cometeria infração administrativa. VI. A proibição do cultivo doméstico, visto que a intenção do modelo
regulamentador é controlar a quantidade consumida e o os índices de princípio ativo presentes na substância comercializada, bem como de evitar o desvio.
VII. A tributação da cadeia produtiva e do comércio, voltado ao controle dos preços e da quantidade consumida.
275 O que varia é o método de cultivo e preparo, podendo resultar em variações no teor de THC
VIII. Regras rígidas quanto ao funcionamento dos estabelecimentos licenciados, sendo vedada a proximidade de escolas, parques, hospitais e centros de recuperação para dependência.
IX. A proibição do consumo em locais públicos, adotando-se uma sistemática similar a existente para o tabaco.
X. Seguindo o sistema existente para a indústria farmacêutica, as embalagens devem estar acompanhadas de documentação que informe a dosagem existente do princípio ativo, seus efeitos esperados e colaterais, riscos gerais (condução de veículos, consumo concomitante com álcool e outras substâncias, assim como em contexto de gravidez ou doenças em geral) e específicos (toxidade aguda, crônica e potencial para dependência), contraindicações e medidas domésticas de controle de danos (controle de princípio ingestão e contramedidas para uso excessivo), fontes adicionais de informação na rede mundial de computadores e telefones de contato para órgãos de saúde e de apoio ao usuário.
XI. O controle do processo produtivo como forma a reduzir a quantidade de princípio ativo na substância comercializada, priorizando formas de liberação mais lenta e garantindo a qualidade, protegendo o usuário contra a presença de contaminações.
XII. A proibição da propaganda, entrega gratuita e patrocínio de eventos.
Estabelecendo as linhas gerais de um modelo de regulamentação de mercado para o uso recreativo e medicinal da maconha, com base nas experiências internacionais e nos mercados nacionais de álcool, tabaco e medicamentos, cumpre agora analisar seus efeitos.
CAPÍTULO VII
7 OS EFEITOS DE UMA NOVA POLÍTICA ANTIDROGAS VOLTADA PARA A
REGULAMENTAÇÃO PARCIAL E CONTROLADA DA PRODUÇÃO,
COMERCIALIZAÇÃO E CONSUMO DE MACONHA
Como resultado da análise sistemática do processo histórico de formação da dinâmica proibicionista vigente, em conjunto com suas consequências para a ordem social, econômica e política, há que se admitir a necessidade de uma revisão da política antidrogas brasileira.
Por meio da análise conjunta dos diversos modelos regulamentadores utilizados por outros países (maconha e pílulas de festa) e pelo Brasil (álcool, tabaco e medicamentos), bem como das linhas gerais de sua aplicação para substâncias atualmente consideradas como ilícitas, mostra-se possível a delimitação de diversos efeitos positivos e negativos possíveis de uma mudança na política pública dominante para o tema.
Nos termos do relatório O problema das Drogas nas Américas, Organização dos Estados Americanos.
As consequências da disponibilidade legal – para o bem e para o mal – dependem das drogas que estejam disponíveis, dos detalhes do regime ju- rídico e da capacidade das instituições governamentais e não governamentais para regular a oferta, moderar a demanda e manejar tanto os transtornos pelo abuso de substâncias como as condutas de intoxicação.276
Dentre os diversos efeitos possíveis da regulamentação do mercado da maconha em solo brasileiro, alguns podem ser obtidos da própria compreensão das consequências do proibicionismo vigente (Capítulo III) demonstrando a necessidade de alterações na sistemática e admitindo-se inviabilidade de qualquer modelo de liberação completa e irrestrita.