PARTE I – POLÍTICAS PÚBLICAS E EDUCAÇÃO
Capítulo 1 – Políticas públicas
2.3 Ideologia e modelos educativos
2.3.1. Modelo Estado-social
No virar do século XIX para o século XX, Estado-social foi a designação usada pelos socialistas para marcar a forma política como o Estado faria a transição para o socialismo. Curiosamente, foi também com esta designação que Marcelo Caetano tentou rebatizar o “Estado Novo”, e é esta também a designação que consta da Constituição portuguesa de 1976 (Santos, 2012, p.87). Nas ciências sociais, e consoante as filiações teóricas, as designações mais comuns têm sido a de Estado-providência, ou a designação anglo-saxónica “welfare state” (Estado de bem-estar).
O Estado-social ganhou expressão, após o colapso europeu, em 1918, e no período entre guerras, consolidando-se de modo particular como o modelo de regulação social dominante nos países europeus mais desenvolvidos, logo depois da Segunda Guerra Mundial (Barata, 2014, p.38).
Para Boaventura de Sousa Santos, o Estado-social é o resultado de um compromisso histórico entre as classes trabalhadoras e os detentores do capital, originado por uma dolorosa memória recente de guerras, lutas sociais violentas e crises económicas graves. Nele, a classe trabalhadora viu reconhecidos os seus direitos sociais, culminando, assim, um largo processo de autonomia e de emancipação (Santos, 2012).
O Estado tutela a negociação entre o capital e o trabalho e transforma os recursos financeiros, que lhe advêm da tributação do capital privado e dos rendimentos salariais, em “capital social”, ou seja, num vasto conjunto de políticas sociais. Essas políticas traduzem- se num forte intervencionismo estatal na produção de bens e serviços que aumentam, a médio prazo, a produtividade do trabalho e a rentabilidade do capital (formação profissional, investigação científica, etc.) (Santos, 2012).
Os desequilíbrios financeiros dos Estados, provocados pela redução da atividade económica surgida nos anos 1980, fizeram diminuir as receitas destinadas às contribuições sociais e provocaram a crise do Estado-social (Santos, 2012); em consequência, agravaram- se as desigualdades e a exclusão social, o que provocou um conflito entre política económica e política social, ameaçando o “círculo virtuoso do pós-guerra”.
Para Robéria Lopes (2005, p.149), as políticas sociais são as políticas públicas que decorrem dos direitos económicos e sociais dos cidadãos. Traduzem-se em despesa em bens e serviços consumidos por estes gratuitamente ou a preços subsidiados: educação, saúde, habitação, etc., e possuem como característica a universalidade dos direitos, conduzindo a uma estatização da sociedade e, simultaneamente, a uma socialização do Estado.
Boaventura Sousa Santos (2012) atribui a estas políticas uma tripla função:
Primeiro, criam condições para o aumento da produtividade (de atividades) que pela sua natureza ou volume, não podem ser realizadas pelas empresas individuais, abrindo assim caminho para a socialização dos custos da acumulação capitalista, razão por que a redução dos lucros a curto prazo redundará, no médio prazo, em expansão dos lucros. Segundo, aumentam a procura interna de bens e serviços através de investimentos e consumos coletivos e individuais. Terceiro, garantem uma expetativa de harmonia social porque assentam na institucionalização dos conflitos entre o capital e o trabalho e porque proporcionam uma redistribuição de rendimentos a favor das classes trabalhadoras e da população carenciada, fomentando o crescimento das classes médias, em todos criando um interesse na manutenção do sistema de relações, políticas, sociais e económicas que torna possível essa redistribuição. (Santos, 2012, p.87).
Richard Titmuss (1974), o académico fundador da disciplina hoje conhecida por “Política Social”, propõe também três modelos de Estadosocial, neste caso tipificados a partir dos mecanismos de atendimento da procura social:
Modelo Residual ou Liberal, que se caracteriza por atendimentos ex-post e temporários, no qual a política social intervém quando o indivíduo, a família, o mercado ou as redes comunitárias se mostram insuficientes para satisfazer as suas necessidades básicas. A intervenção é seletiva e de tempo limitado, focando-se apenas sobre os grupos ou indivíduos vulneráveis, cessando quando a situação de emergência for superada;
Modelo Meritocrático-Particularista ou Conservador, que parte do princípio de que é o indivíduo quem deve resolver as suas necessidades, com base no seu mérito, capacidade e trabalho. A intervenção da política social ocorre para corrigir distorções geradas pelo mercado ou por desigualdade de oportunidades; Modelo Institucional-Redistributivo ou Social-democrata, que tem por base a
cidadania como direito. Para ser exequível, o Estado deve produzir e distribuir gratuitamente os bens e serviços sociais necessários para uma vida digna do cidadão.
Esta segmentação identifica o Estado-social como uma tendência de modernização das relações entre Estado, sociedade e economia, própria do capitalismo do pós-guerra.
Gosta Esping-Andersen (1993, p.26-27) analisa o Estado-social avaliando as estruturas estatais de execução das políticas sociais, os seus efeitos na sociedade e na dinâmica das suas lutas. Estratifica o Estado-social em três conceções básicas da relação entre o mercado, as famílias e o próprio Estado, são elas:
a liberal, que traduz uma política de estratificação social, na medida em que as políticas sociais funcionam como agentes de pressão do mercado, de segregação e estigmatização social. Os benefícios são tipicamente modestos, com o Estado a encorajar o mercado através do subsídio atribuído a privados para fins de mecanismos de apoio social;
a corporativista conservadora, onde os direitos estão associados à classe e ao
status. Predomina a preservação das diferenças de classe e status e os direitos a
eles associados. O Estado substitui-se aos privados na atribuição de apoios sociais; a social-democrata, que desenvolve políticas voltadas para a emancipação dos
com a execução de políticas sociais cada vez mais universais, mas onde o Estado permite uma saudável convivência entre benefícios públicos e privados.
No entanto, considera, ainda o mesmo autor, que nenhum Estado, mesmo aqueles que tiveram idêntico desenvolvimento económico e social, aplicou na essência apenas um dos modelos, mas sim sempre uma mistura de vários. Mesmos os que aplicaram um modelo social-democrata não estão isentos de elementos liberais (Esping-Andersen, 1993, p.28).
O risco do colapso do Estado-social não depende do seu custo, mas sim das características da estratificação social. Da classe média nos estados sociais-democratas (como os escandinavos) aos corporativistas (como o alemão) assente em lealdades. Em contraste com o liberal (como o norte-americano, canadiano e britânico), que depende de lealdades de um estrato social e político numericamente fraco. Assim, as coligações nos sistemas não justificam apenas o seu passado, mas poderão garantir o seu futuro (Esping- Andersen, 1993, p.33).