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Se a construção/manutenção de uma identidade nacional é algo cada vez mais distante da realidade contemporânea, a visão “comunitarista” da cultura é encarada por Bauman (2012) com o mesmo grau de nocividade da ambição unificadora, homogeneizante. Tanto a promoção de uma “cultura nacional” quanto a visão comunitarista são, para o autor, opostas ao multiculturalismo. Se a ideia de cultura nacional achata as diferenças em nome de uma padronização, o comunitarismo ergue muralhas em torno de nichos culturais específicos e deixa de se abrir ao estranho, ao novo. Bauman (2012, p. 62) alerta: “há muito capital político no desespero dos despossuídos e na insegurança dos tantos outros que temem a privação como perspectiva possível – e existem inúmeros líderes comunitários em potencial ávidos por fazer uso dele com a ajuda das redes culturalistas”. Não parece ser esta a situação, ao menos da maioria, dos PCs aqui estudados, posto que – por se organizarem em rede – não assumem postura comunitarista, mas sim aberta aos intercâmbios com outros grupos e às influências externas.

As observações de Bauman (2012) levam a refletir: qualquer modelo que almeje “sufocar as diferenças e eliminar a ambivalência das escolhas culturais” é igualmente nocivo à pluralidade cultural. “Se o multiculturalismo, ao menos em algumas de suas versões, pode ser uma força unificadora e integradora, ‘inclusiva’, essa chance não é dada ao ‘multicomunitarismo’” (BAUMAN, 2012, p. 65). Ao fazer a ressalva “ao menos algumas de suas versões”, Bauman (2012) implicitamente remete ao cuidado que a palavra “multiculturalismo” requer atualmente. Embora a tendência multicultural tenha sido uma peça essencial na orientação política de esquerda a partir dos anos 1980, como explica Safatle (2007, p. 448), por conta do potencial de defesa das minorias, acabou se tornando “um dispositivo capaz de ser absorvido por todo espectro das tendências políticas”. Portanto, multiculturalismo16 também passou a representar o modo adotado pelos

governos para lidar com diferenças culturais dentro do país. Dessa perspectiva, pode-se desde já

conjeturar se a ação governamental de implantação/manutenção dos Pontos de Cultura é apenas um “multiculturalismo de governo” que funciona como maquiagem de tolerância à diversidade ou se, de fato, trata-se de mecanismo de valorização da diversidade.

Para Bhabha (2003, p. 69), é ainda mais importante pensar nas condições de hibridismo da cultura. Ele enxerga a possibilidade de uma cultura internacional baseada não no “exotismo do multiculturalismo”, mas na inserção e articulação do hibridismo da cultura. “[...] deveríamos lembrar que é o ‘inter’ – o fio cortante da tradução e da negociação, o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura”. Desse modo, o governo brasileiro assume uma postura de apoio ao pluralismo cultural (seja por interesse de um multiculturalismo apaziguador de interesses, seja por reconhecimento da importância da diversidade) e, uma vez reconhecida a inserção do Brasil nos processos globalizantes, não é viável adotar medidas que estimulem o comunitarismo nem voltar a insistir em uma identidade unificada. Também há que se estar ciente dos riscos que o pluralismo cultural encerra, afinal, como alerta Eagleton (2003, p.28), “é muito simples ter entusiasmo pela cultura como autodesenvolvimento humanístico”, mas quando o pluralismo cultural envolve formas malquistas pela maioria da sociedade ou pelas normas institucionalizadas, tal aceitação tende a virar conflito. Um exemplo bem catarinense da discussão de limites ao pluralismo cultural é a Farra do Boi17, proibida no estado desde 1997 e, no Brasil, desde 1998. A mutilação genital de meninas na

África é outro exemplo de que a tolerância cultural está sempre sujeita a limitações e adequações às normas do Direito, que também devem ser dinâmicas na condição de formas de concepção da vida em sociedade.

Outro ponto de conflito que se impõe é a dificuldade de se institucionalizar limites à tolerância, posto que tais limites sempre advêm de instituições dominantes, daí, novamente, a importância das relações de poder em toda e qualquer discussão acerca de cultura. Um exemplo recente que leva a refletir sobre tal dificuldade foi o atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo, em 2015, na França, berço do Iluminismo, cujo slogan “liberdade, igualdade e fraternidade” - tão fácil de gravar quanto “Je sui Charlie” – mostra-se muito difícil de praticar. Obviamente nada justifica a atitude extremista dos irmãos Kuachi e as mortes provocadas, afinal, a vida é o direito fundamental primeiro e o deveria ser para todos. Entretanto as charges do Charlie praticam a intolerância religiosa, étnica, cultural. Em nome da liberdade de expressão, a justiça francesa não acolheu as reclamações de associações islâmicas contra o conteúdo propagado por Charlie quando de suas primeiras edições. A mesma justiça francesa proibiu às muçulmanas, desde 2011, o uso do véu integral (niqab) em espaços públicos. A França abriga a maior comunidade muçulmana da Europa,

17 Folguedo popular de origem açoriana que costuma ocorrer na quaresma. O boi, depois de passar dias confinado, é solto

com seis milhões de pessoas, mesmo assim, o país também proibiu a realização da oração muçulmana das sextas-feiras na rua, uma prática que surgiu devido à falta de mesquitas suficientemente grandes, em particular em Paris18. É possível praticar a tolerância com um peso e duas medidas? O Estado francês tolera a cultura muçulmana, desde que esta seja praticada apenas em confinamento, ou seja, não se misture à genuína cultura francesa. É como dizer ao estrangeiro: “deixo você ficar, mas se adapte à minha cultura”. Entretanto, quando se trata de respeitar a cultura alheia para obter benefício financeiro, a tolerância parece não provocar tanta discussão. É o caso de frigoríficos brasileiros que adaptaram suas plantas fabris a fim de praticar o abate “halal”, permitido pelos islâmicos, no qual as faces dos animais precisam estar voltadas para Meca, além de outras exigências.

Bauman (2012, p. 81) enfatiza que “[...] o diálogo e a negociação também são fenômenos culturais”, com importância crescente e “decisiva” para o pluralismo. “Afinal, conviver, conversar uns com os outros e negociar com sucesso soluções mutuamente satisfatórias para problemas comuns são a norma dessa experiência, não a exceção”. Uma ação como os Pontos de Cultura, que facilite o diálogo entre governo e sociedade civil, pode vir a se constituir numa importante via de construção da tolerância cultural à medida que gera o intercâmbio entre grupos de culturas diferentes, possibilitando um multiculturalismo e, mais que isso, um hibridismo que brote dessas relações e não imposto de cima para baixo.

A analogia de Bauman (2003, p. 69) a qual compara a natureza das identidades culturais a um redemoinho parece bem pertinente:

As identidades mantêm sua forma distinta enquanto continuam ingerindo e vomitando material cultural raras vezes produzido por elas mesmas. As identidades não se apoiam nas singularidades de suas características, mas consistem cada vez mais em formas distintas de selecionar/reciclar/rearranjar o material cultural comum a todas, ou pelo menos potencialmente disponível para elas. É o movimento e a capacidade de mudança, e não a habilidade de se apegar a formas e conteúdos já estabelecidos, que garante sua continuidade.

Era de se esperar que a globalização com seu estreitamento de relações econômicas e comunicacionais entre países levasse automaticamente a essa abertura para o diálogo e para o hibridismo cultural. Entretanto os primeiros anos deste século XXI têm demonstrado fortes resistências ao entendimento, manifestadas sob forma do acirramento de fundamentalismos (políticos e religiosos, sobretudo), de nacionalismos exacerbados e discursos conservadores, daí ser possível verificar uma globalização que se firma apenas do ponto de vista econômico. O momento parece ser de uma dura transição entre tradição e tradução, para usar os termos de Hall (2003b), segundo o qual, a globalização provoca, sim, o deslocar de identidades fechadas de uma cultura

18 Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/09/justica-francesa-anuncia-primeiras-condenacoes-por-uso-

nacional, mas este é um efeito pluralizante que produz novas possibilidades e novas posições de identificação. No seio da globalização, gravitam tendências contraditórias: de um lado, a tendência à “tradição”, a manter a cultura nacional protegida de outras influências; de outro, os que tendem à “tradução”, isso é, que aceitam adaptar, transformar, alterar a cultura nacional aos novos tempos. São, conforme Hall (2003b), culturas híbridas, abertas ao novo, que rejeitam a idéia de pureza cultural ou absolutismo étnico. Mas a convivência entre “tradição” e “tradução” não é fácil. Um embate vigoroso entre a abertura ao hibridismo e o encerramento em casulos nacionalistas está em curso. É nesse cenário de incertezas que uma ação como a dos Pontos de Cultura pode se firmar e contribuir para a valorização da diversidade, abrindo portas ao hibridismo e ao intercâmbio intra e internacional ou, de outro lado, sucumbir aos obstáculos burocráticos a ponto de enfraquecer-se até desaparecer.