Capítulo 2 Na Quinta do Mocho
2.3 Na Quinta do Mocho: o nascimento do bairro antigo
85 maiores bairros de construção informal do país14. Localizada em Loures, município integrante
da AML, pertencia à zona urbana deste concelho e estimava-se que fosse habitada por quase quatro mil indivíduos, a maioria adulta e de origem africana.
Analisando o contexto da Quinta da Vitória Cachado (2013a) mapeou a fixação geográfica das comunidades migrantes na AML. O processo de realojamento dos moradores da Quinta do Mocho na Urbanização Terraços da Ponte é bastante anterior à realização desta etnografia, razão pela qual se procurou encontrar paralelismos em alguns artigos de Cachado. A sua obra é rica, extensa e mergulha profundamente no contexto da Quinta da Vitória, focando as políticas habitacionais do qual foi alvo e analisando o realojamento de diversos ângulos, inserindo-o em políticas municipais, nacionais e internacionais igualmente relevantes para esta investigação nos Terraços da Ponte. Não se pretende aqui assumir que o contexto da Quinta do Mocho e da Quinta da Vitória são iguais apenas porque se tratam ambos de “bairros de construção informal”, sendo importante destacar as suas especificidades e diferenças (especialmente considerando a prevalência de hindus neste bairro, ao contrário do que acontecia na Quinta do Mocho onde a maior parte dos moradores era de ascendência africana). Realça-se, porém, a pertinência e a valiosa contribuição da investigação de Cachado para este campo do saber antropológico, utilizando como referência de análise os pontos em que se aproxima da situação da Quinta do Mocho, a qual não acompanhámos durante a sua existência. A Quinta do Mocho, tal como outros bairros de construção informal que foram alvo de políticas de realojamento a partir da década de noventa, ergueram-se no que a antropóloga apelidou de “antigas trincheiras da Estrada Militar” (2011: 4). Esta escolha de local para construção de habitações informais promoveu uma certa confusão entre quem teria o direito de a impedir - se as autoridades militares ou as civis -, originando a proliferação do edificado informal ao longo deste trilho sem que qualquer um dos poderes envolvidos interviesse ou o bloqueasse. A Estrada Militar manteve assim o seu perfil de linha de defesa do centro da cidade face a estas comunidades que se fixavam no espaço urbano, delimitando simbolicamente as fronteiras da capital.
14 Adota-se aqui a designação “bairros de construção informal” avançada por Cachado e não “bairros de barracas”
destacando, no entanto, a importância de discutir a complexidade deste tipo de habitação, de não reproduzir a “cultura da pobreza” a ele associada e das diferentes conotações que adquire consoante o contexto geográfico (Cachado, 2011, 2013b).
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Pelo menos em dois artigos diferentes, Cachado discute questões de acesso à cidade, bem como os conceitos de segregação e de exclusão dos moradores. A autora descreve o apoio prestado pelo Grupo de Trabalho “Direito a Habitar” da Associação Solidariedade Imigrante nas reivindicações dos moradores por uma habitação condigna. A antropóloga destaca que, apesar das características físicas e simbólicas do bairro o colocarem numa posição de margem face ao centro urbano, a etnografia realizada na altura da intervenção da associação na comunidade permitiu-lhe concluir que “a segregação não tem sempre de ser entendida como um fator negativo” (Boal, cit. in Cachado, 2007: 8). Citando também White, a autora defende que “a exclusão é um conceito relativo” (Cachado, 2007: 8), na medida em que os grupos que o poder político entendia como excluídos poderiam desenvolver estratégias criativas de exercício da sua participação e de cidadania no espaço público.
Contribuindo para a discussão sobre a complexidade destes fenómenos, a autora, baseando-se no trabalho do sociólogo Manuel Castells, defende que, apesar dos imigrantes moradores dos bairros localizados nas trincheiras da Estrada Militar não estarem geograficamente muito distantes do centro, do ponto de vista simbólico (pela falta de acesso a infraestruturas e na participação efetiva nas decisões, por exemplo), encontravam-se apartados do centro de produção de poder simbólico.
As populações estabeleceram-se assim em antigas quintas - como o Mocho e a Vitória - construindo à medida das suas possibilidades.
Na realidade, nos processos de imigração recente tudo parece indicar que a instalação num determinado território, entendido aqui ao nível do concelho, decorre mais de fatores estritamente circunstanciais, do que de opções evidentes. A proximidade de Lisboa, a oferta de trabalho e de habitação relativamente barata (incluindo aqui a possibilidade de autoconstrução e de realojamento), a prévia existência de redes de suporte de parentesco, de conterrâneos ou conhecidos, facilitadores de uma inserção residencial e laboral, parecem ser alguns dos fatores determinantes na direção dos fluxos migratórios - razões de atração migratória partilhadas pela maior parte dos concelhos da área metropolitana de Lisboa.
A existência, em Loures, de uma diversidade grande de imigrantes, provenientes de várias origens, sociais e geográficas, que ocupam tanto as suas áreas menos povoadas como as mais densas, leva-nos a considerar que […] este município constitui, sem sombra de dúvida, um lugar de observação privilegiado - uma espécie de laboratório onde o aprofundamento do estudo do fenómeno imigratório é, não só possível, como desejável. (Cachado, 2007: 40-41)
87 algumas famílias da Europa da Leste, estabeleceram-se entre os anos setenta e noventa em quatro torres inacabadas, fruto de um investimento imobiliário mal conseguido, na antiga Quinta do Mocho. A este respeito, Baptista e Índias Cordeiro notam que
no segundo processo de regularização de estrangeiros (de 11/06 a 11/12 de 1996), dada a importância da população imigrante aqui instalada, o concelho de Loures teve um centro de receção de pedidos, entre os 16 situados na área da grande Lisboa, que contou com cerca de 13% (3.871) dos pedidos da Direção Regional de Lisboa. Destacaram-se, então, os pedidos de angolanos, guineenses e, em menor quantidade, cabo-verdianos, santomenses, indianos e paquistaneses. (2012: 24)
Quando em 1974 esta urbanização foi repentinamente abandonada ainda por concluir devido à insolvência da empresa responsável, começaram a chegar os seus primeiros moradores. A afluência aumentou exponencialmente no período das grandes obras públicas do início dos anos noventa, época de crescente necessidade de mão de obra pouco qualificada que trabalhasse nesses empreendimentos.
Procurando fugir ao processo de descolonização e atraídos por melhores condições de vida do que as que possuíam à partida, estes moradores ocuparam inicialmente as quatro torres, de um total de doze que inicialmente a construtora projetara edificar no local. Os poços dos elevadores vazios, as paredes nuas e a falta de condições mínimas de habitabilidade contrariaram-se com engenho. Areia, tijolos e azulejos foram trazidos pelos próprios moradores (visto que muitos encontravam trabalho na construção civil) tentando colmatar o esqueleto dos prédios onde se instalaram provisoriamente e onde acabaram também por se estabelecer até ao realojamento na nova urbanização.
Em torno das torres começaram a surgir vários tipos de construções para albergar aqueles que não conseguiram instalar-se nos andares abandonados. Nasceu também algum comércio, pequenos cabeleireiros de bairro, mercearias e cafés que serviam a comunidade. Alguns destes espaços foram ocasionalmente também arrendados a recém-chegados que tomarem posse em fases posteriores da ocupação das torres devolutas. A procura manteve-se apesar das condições, num local que durante vários anos albergou quase quatro mil pessoas, não obstante a escassez de eletricidade, de água canalizada e de uma rede de esgotos operacional.
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