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Capítulo 2 Na Quinta do Mocho

2.7 Os problemas das margens

Como autores contemporâneos salientam, uma melhor compreensão dos fenómenos nas margens (considerando que a Quinta do Mocho se encontrava física, económica e simbolicamente na periferia do centro de poder e da capital) deve partir de um afastamento da perspetiva analítica weberiana que concebe o estado como uma forma de organização política fruto de administração racional que se vê enfraquecida no seguimento dos seus limites sociais e territoriais. Ao invés, Das e Poole (2004), as autoras responsáveis pela coletânea de textos que refletem sobre esta problemática, propõem uma Antropologia das margens do estado que conceptualiza os seus limites enquanto parte necessária da vinculação ao mesmo, tal como a exceção é uma componente necessária da regra. Assim, as margens funcionariam como periferias ou contentores naturais para os indivíduos considerados não suficientemente socializados dentro da lei.

Os destinatários das intervenções sociais têm efetivamente poucas formas de acesso às respostas do estado. Por um lado, estão relegados para as margens, sendo ao mesmo tempo vítimas e ameaças da estrutura; por outro, é exatamente esta posição de exclusão e marginalização que os torna recetores de intervenção social. A única forma que eles têm de aceder a uma modernidade individualizante é apresentar uma patologia social: Nguyen (2008) define esta condição como “cidadania humanitária”, isto é, a constituição de sujeitos detentores de direitos e responsabilidades na base de uma específica condição social. (Pussetti e Brazzabeni, 2011: 473)

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Neste contexto, a questão colocada pelas autoras acima citadas, prende-se com a necessidade de conhecer quais as tecnologias de poder (no sentido foucaultiano) utilizadas pelos estados para manipular ou pacificar estas populações através da força e pedagogia da conversão com o intuito de transformar sujeitos insubordinados em indivíduos cumpridores da lei do estado. A margem seria assim um espaço entre corpos, lei e disciplina, em que a produção de biocorpos se constituiria como a atividade primeira do poder soberano. As margens apresentar-se-iam como um ponto vantajoso de onde observar a produção de categorias patológicas através de táticas que são consideradas danosas à lei, mesmo quando estas mesmas estratégias empregues retiram os seus repertórios de ação da própria lei.

Miagusko (2014), na sua etnografia sobre Beatriz, uma moradora “sem-teto” em São Paulo ocupante clandestina de uma antiga prisão abandonada onde fixou a sua morada, reflete que a trajetória das instituições com as quais a sua interlocutora se cruzava e cujo objetivo seria melhorar o seu estatuto socioeconómico enquanto moradora de uma habitação clandestina, acabavam por definir também o seu estatuto nestes mesmos termos, naturalizando-o e solidificando-o. As tecnologias adotadas pelos programas e políticas públicas destinadas às populações vulneráveis funcionariam assim também com o propósito de produzir as mesmas situações que idealmente se destinavam a combater. A existência do poder fundava-se deste modo sobre a necessidade de constantemente produzir esta condição marginal em que Beatriz e tantos outros se encontravam.

Como refere no seu artigo:

as relações entre o que se considera ordem e desordem são mais entrelaçadas e produzidas pelas práticas desse mesmo estado do que comumente se concebe. Tanto a simples classificação de invasão ilegal que cobra do estado umas ações para coibir essas práticas e restabelecer uma determinada ordem ou a perspetiva de uma ausência do estado como agente de uma política de habitação impedem a perceção do jogo modulado que resulta das práticas desse estado em suas margens e como estas são ressignificadas pelas populações que são objeto dessa ação. (Miagusko, 2014: 34)

As margens são consideradas territórios inquestionáveis de controlo e legitimidade estatal, onde a natureza é imaginada como selvagem e fora de controlo, mas ao mesmo tempo onde o estado encontra sucessivamente maneiras e justificações para manter a ordem e criar a

107 lei. Inspirando-se na obra de Agamben (1998), os investigadores interessados nesta temática justificam etnograficamente vários casos em que a exceção faz parte da norma. Estes locais não se definem apenas territorialmente, mas enquanto espaços onde a lei e outras práticas do estado são colonizadas por outras formas de regulação que emanam das necessidades urgentes das populações que procuram assegurar a sua sobrevivência económica e política, como é o caso dos imigrantes. São assim incluídos apenas como exceção, não como sujeitos detentores de plenos direitos cívicos. Garante-se apenas a sua sobrevivência biológica, não a sua permanência sustentável na vida da cidade20. Assim, nas democracias modernas, o que se

encontrava tradicionalmente excluído da vida política, atualmente consiste na norma. O desvio tornou-se lei.

O desejo moderno de reforma parece ter abandonado meras formas de confinamento dos excluídos da comunidade sociopolítica. O campo enquanto forma de exclusão e de controlo total parece ter substituído a prisão foucaultiana como o modelo total de controlo sobre a vida. Porém um controlo absoluto sobre a vida e a morte apenas torna mais aguda a presença de terríveis formas de intimidade. (Aretxaga, 2003: 404)

Ong (2005) refere que em casos mais extremos alguns indivíduos só podem mesmo ser incluídos enquanto vida nua, visto que a retórica da globalização opera a uma escala demasiado vasta para lidar com casos específicos e situados. Estas populações não têm direitos porque estão escondidas ou vivem em estados falhados, ou porque como imigrantes são desprovidos destes no momento em que mudam de local.

Ong refere estas zonas de exclusão na sua crítica ao popular modelo defendido por

20 De acordo com a formulação clássica de Aristóteles (1995 ([350 a.C.]) a vida política encontra-se definida em

termos de inclusão e exclusão da vida nua (“bios”), ou seja, desprovida de direitos. O cidadão orientava-se pela procura de uma vida plena, a qual Aristóteles acreditava que apenas seria alcançada quando o homem se afastasse da sua natureza animal e se integrasse na cidade. A “polis” funcionaria assim como meio para alcançar um estado de “eudaimonia”, ou bem-estar, articulando-se todos os seus componentes no sentido de alcançar o bem comum. Aristóteles defendia que a formação da “polis” seria algo natural e os humanos que a compunham deveriam organizar-se espontaneamente em famílias, que por sua vez se associariam em vilas que dariam azo a cidades- estado. Assim surgiu uma das máximas da teoria aristoteliana: o homem é um animal político. A cidade serviria assim para que o homem alcançasse o seu potencial ou para que vivesse de acordo com a sua verdadeira natureza: o homem precisava da “polis”, caso contrário seria um projeto inacabado. Todas as associações orgânicas da cidade favoreceriam este fim: garantir os meios físicos, materiais, de lazer e educativos que permitissem aos cidadãos abraçar uma vida virtuosa.

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Anderson sobre comunidades imaginadas. Este autor relacionou uma ideia de nação estado a um território geograficamente definido, embora teoricamente os direitos dos cidadãos dependessem da pertença a um estado-nação. Todavia, contemporaneamente, na prática verifica-se que as reivindicações se processam ao nível de contingências globais fortemente influenciadas pelo mercado. Ao desvincularem-se dos estados, os direitos articulam-se a interesses capitalistas, agências transnacionais, elites globais e populações marginais.

De acordo com o modelo defendido por Anderson, todos os cidadãos possuiriam direitos iguais face ao estado. No entanto, à medida que os mesmos direitos se articulam com critérios neoliberais, estes podem até ser retirados aos cidadãos e oferecidos a não-cidadãos, de acordo com a tese de Ong. A questão da existência ou não dessas garantias torna-se um conceito cada vez mais difuso na medida em que a territorialização de direitos é constantemente contestada por reivindicações localizadas para além das fronteiras dos estados, motivadas mais por interesses de mercados do que por pertenças nacionais. Aqui a prerrogativa geográfica defendida por Anderson torna-se obsoleta em explicar estes casos.

Ong defende a existência de diversos processos que interferem com estas mutações na cidadania. Sugere a emergência de novos espaços políticos, na confluência de regimes com critérios neoliberais, em que a mobilidade dos indivíduos permite o surgimento de oportunidades várias para a mobilização política. Estes novos espaços incluem a cidade, mercados laborais regionais ou o ciberespaço, entre muitos outros. Para Ong, o espaço dos encontros (“assemblages”, no original) torna-se por excelência o local preferido de novas mobilizações políticas e reivindicações, e não o território da nação estado. Se em zonas de hipercrescimento o critério neoliberal de conhecimento e empreendedorismo se transforma em ideais de cidadania rivalizando com os limites legais, também novos espaços políticos estão a tornar-se rapidamente locais de articulação de reivindicações de recursos para lá do poder do estado. À fixidez das fronteiras e dos princípios estáticos de cidadania, Ong responde com a fluidez dos mercados e das prerrogativas de valores.

Os valores neoliberais de empreendedorismo têm assim diferentes implicações para a cidadania, consoante interações com ambientes políticos diferentes. Enquanto que nos EUA e em Inglaterra existe um foco no autogoverno e nas capacidades empreendedoras dos indivíduos enquanto participantes individuais na sociedade civil, nas zonas de crescimento asiáticas este discurso é articulado como contribuição para a sociedade ou para a comunidade nacional.

109 Ao contrário do que acontece nestas zonas, nas franjas da sociedade a inclusão de alguns indivíduos e as suas reivindicações apenas encontram eco se se basearem em pedidos baseados em doenças e apelos humanitários. O excesso de medicalização de situações motivadas por episódios de violência estrutural incorporados só encontram resposta nos programas políticos se reafirmarem essas mesmas políticas niveladoras e homogeneizadoras. Propagam-se os discursos humanitários e a resposta aos problemas daqueles apoiados por políticas compassivas e instituições repetem até à exaustão o mesmo discurso. Ong cita Fassin (2001) para explicar como os excluídos alcançam voz apenas na sua narrativa enquanto vítimas, mas podemos acrescentar a contribuição de Miagusko (2014) a esta retórica. Ong defende que estes processos em específico ocorrem preferencialmente em zonas de exclusão. Nestes territórios as reivindicações políticas centram-se preferencialmente não nos direitos legais, mas sim nos direitos dos indivíduos enquanto humanos que procuram a sua sobrevivência biológica.

Embora existam casos em que os indivíduos não têm como se impor senão pela sua identidade enquanto vítimas, Han (2012), como veremos num dos capítulos seguintes, mostrou através da sua etnografia em Santiago do Chile como esta situação não constitui norma inequívoca, sendo contingente a determinados contextos. Aliás, no caso estudado por esta antropóloga, os seus interlocutores encontravam maneiras originais de se afirmar, chegando mesmo a utilizar estratégias neoliberais em seu benefício, não em seu prejuízo. Como se tentará também demonstrar no decorrer desta tese, nem sempre a agência dos indivíduos é limitada ao seu papel de vítima, tal como nem sempre as estruturas neoliberais (ou outras) são responsáveis por anular por inteiro as suas reivindicações.

O aumento exponencial de ONGs dedicadas aos direitos humanos responde a estas situações de vitimização. Os indivíduos são agrupados em função das suas necessidades e doenças, como é o caso das instituições responsáveis por conter os efeitos da epidemia de HIV na Costa do Marfim. Este é um exemplo de “cidadania terapêutica” (Nguyen, 2005, cit. in Ong, 2005: 699), uma demonstração de como as reivindicações éticas se articulam em termos das necessidades básicas de sobrevivência dos indivíduos. Por outro lado, no caso por exemplo das organizações que apoiam a melhoria das condições de vida das empregadas no sudeste asiático, as ONG articulam o estatuto moral e os direitos humanos destes imigrantes enquanto seres humanos, focando-se mais neste aspeto do que na dimensão laboral da sua condição. Nestes

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agregados globais, organizações como ONGs, corporações e religiões atuam como defensoras da humanidade, fazendo com que este discurso humanitário se torne prevalecente sobre outros. Por seu lado, Rose (1999, cit. in Ong, 2005:698) defende que os indivíduos não são governados através de mecanismos opressivos de controlo, mas do exercício da sua liberdade, realizando escolhas em seu próprio benefício. Os governos não se interessam em tomar conta de cada cidadão, informando-os sim sobre como melhor deverão atuar como sujeitos livres capazes de tomar decisões informadas, calculadas e racionais. Do controlo das populações há agora um foco no autogoverno dos indivíduos e associações como a PROSAUDESC permitem alcançar esse objetivo, reforçando no local as políticas determinadas pelos órgãos decisores.

Como referiu Rodrigues,

As pressões comunitárias vão ter reflexo nas políticas sociais e nos programas de realojamento. Apesar de manterem uma abordagem marcadamente estatizada, a crescente articulação com as políticas de combate à exclusão social tem vindo a promover a implementação de projetos de intervenção social nos bairros. A responsabilidade pela execução destes projetos é delegada, essencialmente, nas organizações de solidariedade social, que além de prestarem apoio direto às populações carenciadas e representarem os seus interesses junto do poder local e central, assumem um claro papel socializador. A formação em competências pessoais e o apoio ao associativismo surgem como ações a implementar por via dos projetos. O tipo de envolvimento proposto não implica a transferência efetiva de poder e recursos para os moradores, mas sim a sua mobilização para ações devidamente enquadradas ao nível político-administrativo, geralmente de carácter lúdico-recreativo ou relacionadas com a manutenção das habitações e espaços comuns. (2012:3)

Este tipo de atuação das associações não é efetivamente do tipo “de baixo para cima” reproduzindo as decisões executivas ao nível local e implementando nestas margens sociais projetos que nem sempre convergem com os interesses dos moradores. Muitas vezes estas mesmas associações reproduzem o discurso assente na vulnerabilidade individual e em questões humanitárias, as quais motivam o desenvolvimento de programas em que se procura garantir a sobrevivência dos recipientes da ajuda, sem que se questionem verdadeiramente as causas ou se resolvam os problemas inerentes que os provocam, reproduzindo assim fenómenos de violência estrutural.

Quando o altruísmo é possível, ou seja, quando a ação desinteressada é recompensada num contexto onde prevalece um “habitus” (disposições, reflexos e formas de comportamento socialmente adquiridos) a ela

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favorável, a reduzida participação dos destinatários dos serviços e políticas sociais na sua conceção, execução e avaliação, propicia uma noção de “bem” que não é a sua mas a daqueles que controlam as políticas e serviços ou neles trabalham: aquilo que os agentes políticos e os dirigentes e técnicos das organizações de solidariedade social consideram como sendo bom para os destinatários não coincide necessariamente com o que estes consideram que é bom para si próprios.

Este facto pode propiciar dinâmicas de manipulação mútuas: das organizações em relação aos beneficiários, ao tentarem encaminhá-los para ações e serviços que consideram benéficos ou que têm a responsabilidade de implementar, mas que não são do interesse destes; e dos beneficiários em relação às organizações, ao adotarem uma postura que acreditam corresponder àquilo que é percecionado pelos técnicos como sendo adequado, mas que não corresponde à sua verdadeira forma de estar e ser. (Rodrigues, 2012: 8)

Embora Rodrigues reitere que a democracia portuguesa, especialmente ao nível habitacional, não consegue alcançar a população que se encontra mais vulnerável envolvendo- a e aos seus interesses nas decisões que a afetam, gostaria de aprofundar esta discussão no capítulo seguinte. De que maneira uma IPSS laborando nestes espaços onde a democracia aparentemente demora a chegar constrói a vulnerabilidade da população que serve e como é que este discurso fundamenta as práticas em que assenta o seu trabalho?

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Capítulo 3

Na PROSAUDESC

“As pessoas sabem o que fazem; elas frequentemente sabem porque o fazem e o que fazem; mas elas não sabem o que é que o que elas fazem, faz.” Michel Foucault (cit. in Heller, 1996: 87)

Este capítulo apresenta a associação PROSAUDESC - Promotores de Saúde, Ambiente e Desenvolvimento Sócio-Cultural - localizada na Urbanização Terraços da Ponte não só através do seu enquadramento no bairro, mas partindo da apresentação que a própria instituição faz de si própria. A noção de “Antropologia em casa” será relevante na discussão de como se construiu um objeto de pesquisa não só metropolitano, mas também geograficamente próximo, e os objetivos do funcionamento da associação serão igualmente enquadrados num quadro mais geral que procura perceber como IPSSs operam em locais onde o estado parece mais ausente. O intuito deste capítulo não se prende com o julgamento das políticas da própria associação, mas sim providenciar um espaço de reflexão no cruzamento de teorias antropológicas preocupadas com o assistencialismo e com a produção de uma população considerada vulnerável num contexto de mudanças macroeconómicas estruturais.

3.1 Antropologia dentro e fora de casa: a chegada à

PROSAUDESC

Uma investigação que cruza temas da Antropologia tão distintos como a imigração e a saúde (especialmente a mental), torna difícil de circunscrever o campo da pesquisa, não apenas ao nível metodológico, mas também teórico. Como Índias Cordeiro refere “a delimitação de um terreno de pesquisa que acaba por coincidir, em larga medida, com a delimitação do próprio objeto de estudo” (2010: 111) é um dos problemas centrais da Antropologia Urbana, tendo sido também um dos primeiros obstáculos com que me deparei no decorrer desta investigação.

Embora a cidade não tenha sido necessariamente o meu foco de pesquisa e esta tese pretenda contribuir para o campo de estudos da Antropologia Médica - embora a ablação seja

113 prática cirúrgica corriqueira, os antropólogos teimam em pilhá-la, como se a realidade social fosse tão fácil de amputar e reconstruir como a anatomia humana… -, a análise de como se construiu aquela “margem da cidade” que é a Urbanização Terraços da Ponte e que herdou muito do estigma da antiga Quinta do Mocho, tornou o espaço um dos elementos chave da reflexão, como procurei demonstrar no capítulo anterior. Esta investigação distancia-se das práticas e preocupações específicas explanadas no artigo de Índias Cordeiro e que são características da génese e desenvolvimento da Antropologia Urbana. Não obstante, algumas das inquietações que me detiveram corresponderam às que ditam os caminhos da disciplina em questão, especialmente na delimitação do objeto de estudo e terreno de pesquisa e, como tal, recorri aos seus ensinamentos sempre que se revelou oportuno galgar as fronteiras internas da Antropologia. Procurar um olhar de perto e de dentro, em que “a cidade deve ser olhada como um pano de fundo sobre o qual se analisam casos particulares, tão diversificados quanto possível, de modo a deixar transparecer as conexões e cruzamentos (redes de redes) que compõem a cidade” (2010: 114), tornou-se, assim crucial no enquadramento das experiências dos protagonistas que animam esta tese.

Cheguei assim à associação por volta das nove e um quarto da manhã em finais de maio. Estávamos em 2010. O doutoramento tinha começado oficialmente no ano anterior com as disciplinas curriculares para aperfeiçoamento do projeto, hipótese de pesquisa e metodologia a aplicar, e uma série de imersões preliminares tinham-me permitido delimitar aquele que seria o meu campo: reuniões com associações de apoio a populações consideradas vulneráveis na saúde, entrevistas com imigrantes, assistência de encontros destinados à formação e sensibilização de técnicos do ACIDI, exploração dos Roteiros da Saúde Imigrante por toda a cidade... Várias foram as tentativas de encontrar um local que reunisse as condições que procurava e que me permitisse, simultaneamente, também construir a minha hipótese de pesquisa face à realidade que me era apresentada.

Se teoricamente as fronteiras dos terrenos são bastante móveis e fluidas, do ponto de vista geográfico e prático, a escolha da PROSAUDESC como local privilegiado mostrou-se relativamente descomplicada. Após alguns contactos iniciais com a D. Virgínia, vogal, e com o Sr. Cristiano, presidente da associação, mostrei interesse em desenvolver a minha pesquisa para o doutoramento na PROSAUDESC, uma IPSS localizada na Urbanização Terraços da Ponte, em Sacavém. Situada na zona oriental do concelho de Loures e a poucos quilómetros de