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nascer do dia frag: mentos do ermo a esmo

No documento Rosalume (páginas 39-44)

A aparição das coisas, ao abolir-se no seu próprio aparecer, é um apelo silencioso que transparece nas palavras contíguas. * A minha pátria só a encontro na extrema redução da vigília,

no abandono às potências elementares que povoam o sono e o tornam a receptividade pura da branca integridade das energias tranquilas da terra inicial.

* O sagrado é o retorno ao corpo como dimensão total e plenamente erótica

e, por conseguinte, o regresso ao princípio do mundo como nascimento no encontro entre a subjetividade e a ardente matéria da terra, entre o corpo e a totalidade do real.

António Ramos Rosa

I. As palavras que faltam são sempre as primeiras e as derradeiras.

II. Faz dos arcanos asas para o atravessar a floresta. Da alma sair-te-ão eles ecos dos Antigos que nela farão então ouvir a sua voz.

III. Caminho válido é aquele descaminho que te valida o caos e com ele te faz crisol e cinzas de certa fénix inumana.

IV. É da sombra, desde a sua treva, que vês a luz com a mais inteira clareza: ofuscantemente!

V. Do que se trata é de fazer pontes, do que se trata é da falta de pontes. Do que se trata é de haver ainda necessidade de pontes, do que se trata é de ter ainda de haver pontes sem se saber se haja sequer quem nelas entre: e não fique entre.

VI. Ainda que tudo o que dizes seja ressonância daquilo que jamais consegue ser dito inteiramente, mais valerá não sê-lo, do que sê-lo e nisso não estares inteiro.

VII. Realidade é aquilo que tu consegues ver, ou é aquilo que tu não consegues ou não queres ver? É aquilo que é não: de quanto consegues e segues.

     

VIII. O eixo do mundo é o mundo fora dos eixos.

IX. Só não confundimos a rocha com a flor porque aquela tem o sangue cor do centro da terra e esta a seiva cor do centro do céu.

X. A nuvem que passa é a passagem do que fica.

XI. O silêncio está em toda a parte - exactamente onde tu estás: em parte alguma. Aí precisamente te perdes, aí exactamente te encontras!

XII. Usufrui e partilha: isso é indivisível. O segredo da partilha é que não se parte: dá-se e recebe-se sempre o todo de tudo – e, ainda que não pareça, re-parte-se. É quando não te parece, que mais recebes; é quando mais dás, que menos perdes.

XIII. Cega-te, da força do que tem poder, e do que é firme e nobre e mais fecundo: como uma árvore, como uma flor, como a montanha, como o mar. Como a mulher.

XIV. Confia até ao fim, isto é, confia até ao verdadeiro começo. Mas não te fies em demasia, não vás tu acabar desconfiado - o que não é, de todo, bom começo. XV. Por vezes, uma única árvore é toda a floresta; por vezes, a árvore é tão-só uma

miragem que te distrai das tuas próprias raízes. Por vezes ainda, por vezes nem a árvore permanece. Aí, então, floresces...

XVI. Do olho escancarado do vulcão do nada, do êxodo dir-se-ia caótico das aves que confirmam os presságios indiferentes, brota a pulsação do nenhures: por toda a parte.

XVII. Cegueira é o estar da alma que em si não está: ou por defeito dos olhos, ou porque em défice do olhar, ou porque em superabundância de ambos. É então que se fica cego de vez: deslumbradamente, deslumbrantemente!

XVIII. Não existem momentos da verdade: há apenas momentos de verdade.

XIX. O que há por toda a parte é este haver, e este haver mistério de havê-lo, fulgurante da mais pura e mais simples veracidade e ocultação.

XX. Tal como as formigas nos parece viverem aceleradas em demasia, assim também nós a algum outro ser deveremos parecer formigas, apressadas e sem porquê. Quando formos esse ser, veremos o formigueiro.

XXI. Imenso é confim, não com fim; o enfim é incomenso.

XXII. Olhar é recta guarda de um além: desde o de fronte do sem rosto. Sem ida nem regresso. Puro habitar da casa, fora de portas.

     

XXIII. Raro, o segredo do silêncio, e seu degredo do frívolo, sustêm-nos em sua mesma insuspensão.

XXIV. A voz sussurrante da sibila só se te fará ouvir quando a tua se silenciar, à proximidade da lâmina temível dos seus lábios.

XXV. A verdade é sempre tranquila, quase como o sussurro de uma boa mentira: a única diferença pode ser a tua indiferença.

XXVI. Para diante é já aqui: o nenhures é sempre de um qualquer algures.

XXVII. A tua verdadeira casa é o nenhures onde a tua pele parece estar em toda a parte.

XXVIII. Permanece sem palavras, para que o Antigo palavras do nunca agora te segrede. XXIX. O som é anagrama do caos feito sentido do sem-sentido.

XXX. Lembras-te quando, num passado a haver, tu voavas? Não te esforces: voa apenas!

XXXI. Tudo é sem porquê, até lhe conferires o teu. Se o lograres, isso ferir-te-á a cada passo.

XXXII. Um dia - sem que possas dizer que hora seja essa, pois estarão ali todos os teus momentos -, um dia, a palavra em ti calar-se-á, a fala emudecer-se-te-á, e escutarás então certo silêncio que é o rei de ti: então, serás reino também. E serás guerra intérmina de uma paz inabalável!

XXXIII. A respiração é o que nos faz afins do oceano: como os habitantes do mar continuamos a engolir água, mas agora em vapor. Trabalhamos ainda ... a vapor. XXXIV. O paraíso é ali onde estás (perdido) em ti: aí, tudo é sem ti. Em ti, que não serás

mais tu.

XXXV. A tua morada é onde não precises de habitá-la: aí tudo habita em ti, aí em tudo habitas.

XXXVI. Alguma coisa haverá, em ti, em que tenhas sempre de cometer suicídio: para que, nessa morte, a todo o momento renasças!

XXXVII. O pizzicato é a pura ascese do som; o sal do silêncio, o sabor da ascese.

XXXVIII. Lâmina imperturbável, certo abraço rigoroso algo virá nalgum momento reclamar-te. Mas é isso que mais importa deixes evolar até ao repouso do pó, para que assim reapareças: com a nitidez do gelo jovem e a translucidez do diamante eterno.

     

XXXIX. Diante do oceano, não existe relevância alguma em nós: o relevante é estarmos diante do oceano - e estar diante do oceano é ser engolido por si mesmo. XL. Poderás ser harpejo lira dos dias, mas se não souberes escutar a melodia que

neles emerge orfaico da alma, de nada te servirá, pois tais sons de tudo te serão dissonantes.

XLI. Apenas aceitando percorrer sozinho os locais abandonados da alma, poderás esperar o encontro com o que jamais te abandonou.

XLII. Quando corpo e alma são uma só coisa, para cantar nem quase é necessária voz: o corpo é a voz!

XLIII. Quando perdemos o sentido da hospitalidade, perdemos o sentido da casa e, nisso, o próprio direito a habitá-la.

XLIV. Só existe princípio e fim para o homem, pois só ele confere novidade àquilo que é apenas renovar dos ciclos e estações na natureza.

XLV. É verde como as folhas, o teu corpo e, como a fertilidade da terra, castanha a verdadeira cor do teu sangue. És homem verde, e desconhece-lo.

XLVI. Voamos inaparentes no vazio, na mais laboriosa alquimia dos sonhos, mas a cabeça temo-la em fogo, porque nos incandesce o sangue e Janus é o nome de guerra: eros e thanatos desdobrando Abraxas.

XLVII. Sonho? Realidade. Realidade? Sonho. Entre uma e outro, a ilusão que sustenta os mundos, com cujo insustento nos iludimos conscientes.

XLVIII. A intimidade da alma é a geografia do rosto afeiçoando-se à arquitectura de tropeços e afectos: mais sempre quando sem porquê...

XLIX. A verdade nunca vem de uma só vez. A sua ausência surge mais quando menos se espera.

L. E ag’Hora vou… daqui onde per’tenso.

Desenho de António Ramos Rosa

     

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|poesia  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“coroemo-­‐nos

\\:|

 

de  poesia”  

 

josé     valle  de  figueiredo    

   

 

Cada  palavra  é  uma  abertura  para  o  insondável   antes  de  ser  uma  relação  horizontal  com  as  outras  palavras.     *     A  urgente  vocação  do  poema  é  o  espaço.   *      Ser  dito  é  uma  sede  submersa     que  desejaria  beber  o  horizonte  do  mundo.  

 

     

 

josé    

No documento Rosalume (páginas 39-44)