Com poemas tudo se acende
Tudo é composto de poemas, do que muda e permanece,
tudo é composto de verso e reverso, do que é vivo e falece.
Mas nem tudo o que é mudança muda como acontece
quanto cresce e é criança.
Todo o mundo é composto de poesia, ora se esconde e falece,
ora se vê e nos tece. Com tudo se acende: a palavra acesa no poema faz-‐se à vida
-‐ e vai além da vida.
Consoamentos
I
Diria de outra Idade, dos versos Consoados também pela manhã, indo mais Além, como poemas vivos
que descobrem outra ânsias, mais altas, sempre mais altas, mas que já são de outras distâncias, como se partíssemos sempre desta vida e por dentro fossemos a navegar -‐ e ao chegar,
estivéssemos já de partida.
II
As aves vêm de manhã.
Pousam em versos encobertos. Viajaram de céus abertos, vieram com a esperança vã de povoarem lugares abertos. Encontraram terra chã e a sombra da Ave
que anunciava o Descoberto. Voltaram. Mas não voltaram. Entre o Céu e a Terra
andam nos versos secretos que tão cedo nos criaram.
Bailia
Acrescentam-‐se versos e poemas ao rosto que amanhece:
como se fossem palavras a crescer noite e dia em mais poesia,
como fogo-‐posto que entretece almas e corpos
que já não pedem nada a tanta melancolia.
Como se, depois de se saberem, recolhessem mais sós
à casa que renascia.
Desvelamento
Mudo de poema, habito outros versos, voam aves e aves tantas, aguardo e espero outro universo.
Mudam-‐se os tempos e a vontade, calo e esqueço,
vai crescendo a Quinta Idade, e destes tempos me despeço.
antónio
cândido franco
leonor teles
Eis a rola real no esplendor da beleza! Eis a rosa encarnada na graça da realeza! A nora de Constança, a herdeira de Inês a espiral do fogo, a roseira, o fulgor da luz cujo rugido de Amor é tão canoro e altivo qu’inda agora no imo do Sol se vê.
Foi esta leoa de cabelo em lume que preferiu dar sete voltas ao mundo e morrer de fome num fojo de espinhos os ossos dando às pedras do caminho do que pôr a juba na mão dos domadores do Portugal feito jardim-‐zoológico.
Eis a peregrina, a loba do fim, a rainha maldita. Eis a Senhora que nunca perdeu o anel da vida.
12 de Julho de 2011
retrato de
francisco palma dias
Quem é este homem pintado a branco e tinto?
Um cigano de camisa preta ou Camões no Lusitânia-‐Express com a fúria de levantar o Mar
ao espelho, debaixo da Lua, depois de cantar o Fado e de gritar Saravah no ardor do álcool
com o olhar de aço, duas sardas de prata nos cabelos um mover de águia nos lábios finos.
Esteve este homem destinado a ser o varão do leme do Quinto Afonso e a olhar de frente o Adamastor. Quis o Fado que não e fê-‐lo nosso, sem madre Tethys sem Ilha do Amor, sem barco à vela e sem monstro. Ficou o tabaco de enrolar e o furor do mosto. Ei-‐lo sentado à mesa do deserto, duplo ás a falar da cobra una dos Himalaias e do degolado de Suassuna.
11 de Julho de 2011
*
Na fotografia, da esquerda para a direita, Paulo Borges, António Cândido Franco, Francisco Palma Dias e José Emílio Calvário, em Évora, em Agosto de 1992.
joão raposo
hora de névoa (1990)
Intenso nevoeiro onde o olhar penetra o desejo de alcançar estrelas.
No limiar da aurora um silêncio grita: É a Hora!
Quatro mãos sobre o piano deslizam como almas encobertas de Saudade.
A Arrábida espreita com seu oráculo de terra húmida.
Um Verbo que é um rochedo de cilícios penitentes.
Da brancura nasce o Poema que nunca completará a Obra.
Hora de Névoa
em que se verte o Sôma e se atravessa a tragédia incólume no Dharma.
Suicídio Ausência tudo o silêncio revela
em poema ou prosa juntando as extremidades da Obra.
Tão longe a Índia tão Lusa a vontade de abrir caminhos de Saudade.
Só a memória cavalga a Cabala em que se perde para se encontrar a Verdade.
Na busca de Deus com a cruz ao alto se rompe a névoa.
E não há desejo mais forte do que retornar à vida
pelo caminho mais curto da morte.
Língua-‐Lusa sacrifício cósmico de navegar estrelas no ofício da luz.
Tudo despertará no Quinto o mar se metamorfoseará em deserto
e as areias se projectarão no espaço
até que se descubra o Encoberto.
A Lua mergulhará nas águas e o Sol será a noite mais intensa de todas as sombras
e de todas as saudades.
Os braços se transformarão em asas os anjos em peixes
a luz cobrirá de negro a lembrança
e o futuro deixar é de ser esperança.
Um sapateiro coserá as solas do mundo e uma criança será coroada
imperadora da sílaba língua extrema
do Espírito Santo da Poesia.
Serão visões eterno retorno não haverá trono nem rei nem povo tudo será de novo os homens voarão no espaço
Deus habitará a terra solitário e silente sua clausura será sem sofrimento nem bem nem mal apenas guardião do Santo Graal.
ethel
feldman
Esperei-‐te em silêncio, num recanto qualquer da minha existência Esperei sem descanso
Abriste a janela
Deixaste entrar o vento Tuas mãos pintaram a cor no meu corpo febril. fosses tu, o meu desejo eu seria o compasso em que respiras vazio que se completa em cada beijo
um sopro suave feito da vontade de outro beijo meu corpo suado molhado, em ti foz, de um novo rio.
Quando o nosso olhar vazio, procurar o tempo serei tua noite quente
Deixa que o rio se estreite Conta-‐me tudo, sem pressa Conta-‐me o resto
Deixa-‐me agora descansar nesse teu estar.
Devagar, estar em ti No cheiro que adormece preguiçoso em teu corpo Deixa-‐me estar
entre a vontade e o desejo de continuar a estar
Deixa-‐me agora que durmo em silêncio enquanto me esqueço... tantos abraços dei enquanto partias beijos vencidos na despedida
no despertar, entre o que sou. fosses tu de pedra
inventava o amor eterno esse que o tempo gasta sem que os olhos vejam
Divino é o pó
em que tornas ao mundo na terra, no ar, nos oceanos Multiplicas-‐te em todos em cada um
Esperei-‐te em silêncio num recanto qualquer No meu corpo salgado
Estás em tudo e em todos Eterno é o nosso descanso
benjamin
Na partida, Benjamin avisou-me que teríamos de fazer uma paragem. Perguntei onde e porquê, mas Benjamin pediu-me paciência.
- Há coisas que não se explicam, Hannah...
O nosso destino era vago: alcançarmos o Extremo Oriente. Vi homens baixos, vi outros tão altos que mal lhes reconheci o contorno da cabeça. Dormi debaixo de árvores gigantes que me abrigaram nas noites chuvosas. Sem pressa, deixei que o corpo se adaptasse ao calor húmido da floresta e ao ar rarefeito das montanhas. Acompanhei o sol, e a noite foi sendo sempre noite no meu corpo viajante. Alguns dos nossos companheiros ficaram em Goa, outros seguiram caminho para oeste. Eu e Benjamin, continuámos a caminhar para leste.
Benjamin acordou cedo. Retirou da mochila um pião rendado, em prata. - O que é isso, Ben?
- É a encomenda que tenho de entregar...
Já tinha esquecido. Há tantos meses a viajar, só agora dei conta que o meu amigo limpava a peça todas as manhãs.
Lembro-me do pião que o meu pai me deu, num passe de mágica rodopiava, ganhava velocidade. Da pequena peça de madeira só vislumbrava o tempo que voava. Uma bruma fina envolvia o brinquedo que parecia imóvel, centrado em si mesmo. Depois, cansado, cambaleava como se estivesse bêbado, acabando por cair tombado de lado. Memórias que o tempo roubou e tu, Benjamin acabas de me devolver.
- Ben, lembras do dreidel*?
- Em cada face uma letra do alfabeto hebraico: Nun, Gimmel, Hehand Shin... - "Nes Gadol Hayah Sham" ("Um grande Milagre Aconteceu")...
Benjamin é meu amigo infância. Na escola aprendemos a ler, cantámos as letras do alfabeto hebraico, uma a uma a formarem palavras encantadas. Na escola, cantou comigo no Pessah* - Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot? (Porque esta noite não é em nada igual a todas as outras noites?).
- Lembras, Ben? Hailala hazé...
Depois da escola primária, mudei de cidade, cresci longe de Ben. O yiddish foi sendo esquecido e do hebraico só sei escrever o meu nome: הַנְנַה
Um pequeno pião de prata lembrou-me criança. - Isto é um pião estranho, Ben...
Benjamin sorriu.
- Nem tudo que parece é, Hannah.
Continuámos a viajar, agora junto ao mar. Em cada aldeia, um novo peixe. Nossa pele mudou de cor. Meu corpo salgou no corpo de Benjamin. Semente de um novo amor.
- Por onde me levas, Ben?
À noite casávamos as nossas vontades. De manhã, ríamos delas. - Para onde vamos, Ben?
- Sempre a oriente, Hannah...
Quando o corpo está apaixonado pede o corpo do amado. Sem ele, parece morrer. Com ele encontra a morte, feliz, num breve e longo instante.
O dia encontrava a noite. A noite amanhecia. Benjamin, todas as manhãs, delicadamente limpava o pião de prata. Quinze minutos diários, focados na renda fina.
- Que pião é esse, Ben?
- Em breve, Hannah, vais saber. Quando a hora for hora...
Benjamin nunca teve pressa com nada. Quando dança, rodopia, sempre centrado no eixo. Quando pára, tomba devagar.
Um longo abraço marcou o reencontro com Leo, nosso companheiro de viagem. - Como vieste aqui parar, se seguiste para ocidente? - perguntei
- Fiz um desvio e outro, pelo caminho. Perdi-me, encontrei-me. Entre um e outro, parei...
Os meus amigos sempre foram assim. Entre o sim e o não … existem.
Com Leo, fomos ficando na aldeia à beira-mar. De madrugada, acordavam e partiam com os pescadores. À tarde, regressavam com o jantar. Cansado Ben, salgava meu corpo, lentamente.
- Está na hora de partir, Hannah... - Quando?
- Amanhã. Não leves nada contigo, a não ser a roupa que trazes vestida. Uma mochila leve, com um pequeno agasalho...
- Mas o que faço com o resto?
- Dá a quem precisa, Hannah. Alivia o peso. Não precisas de mais nada, senão do teu corpo leve.
Contrariada, deixei minha mala de viagem. Nela, meus sapatos novos, livros e roupas usadas. Enrolei meu diário velho no casaco que guardei na mochila.
- Hannah, o que viveste está desenhado no teu corpo... - Tenho medo de esquecer, Ben.
Nessa noite, adormecemos abraçados. Senti seu coração, ritmado com o meu. Um ar morno, manso, viajou entre as nossas bocas.
Antes do sol nascer, despedimo-nos de Leo. Um abraço prolongado, silencioso, marcou o nosso adeus.
Antes, Ben afagou de novo o pião. Desta vez, enrolou-o cuidadosamente num longo pano de linho branco. Deu voltas e voltas, até que o pião deixasse de ser a peça de prata rendada e não fosse mais que uma trouxa de pano. Em seguida, guardou-o na sua velha mochila.
- É esta a tua única bagagem, querido? - Sim, Hannah...
Sei quando Ben não quer falar. Aprendi com ele a gostar de cada intervalo pausado, dar espaço a todos ruídos, encontrar o som do vento, identificar o canto diferenciado de cada pássaro, ou simplesmente ouvir o som mudo do silêncio que se alonga no outro.
Caminhámos calados, passo a passo, entre aldeias. Caminhámos de mãos dadas, sem nunca nos tocarmos. Ben seguia ao meu lado, tranquilo. Uma paz estranha tomou conta de mim.
Poucas semanas antes, soube do falecimento da minha avó. Meu coração ficou pequeno. Apertado, encontrou a dor. Chorei de mansinho, junto com a noite - toda a noite. De manhã entreguei ao mar a saudade que sinto dela. Desembocou no oceano, espalhou-se por todos os mares, encontrou outras águas, doces e salgadas, irrigou o campo, semeou a terra. Até já, avó.
O sol disse adeus antes do anoitecer.
- Vamos descansar. Ainda temos umas horas de caminho.
Ben sentou-se em cima de um pedaço de pedra. Eu sentei-me no chão, junto a ele. Com a cabeça em seu colo adormeci.
- Acorda, Hannah. Temos de seguir...
Em que instante mudamos? Uma dor estranha aparece no peito, como uma flor que desabrocha, a mesma que nos acolhe quando nascemos. Quantas vezes mudamos, antes de morrermos?
Quanto mais rápido rodopia o pião, mais imóvel parece ao nosso olhar.
- Ben, para onde nos levas? - perguntou meu coração baixinho. Uma nova flor desabrochava em meu peito.
- Para um lugar sem nome, que te acolhe sem nada te perguntar. - respondeu-me, sem falar.
Já passava da meia-noite quando chegámos a esse lugar, que nada pergunta, nem quer saber. Onde a lua nasce e volta a nascer, todas as noites. Dia após dia.
Não me lembro se vi alguém. A aldeia é pequena. O chão de terra batida, vermelho. As casas pequenas, brancas. Em todas, chega-se à sala depois de descermos três degraus. Parece que nunca saímos do mesmo lugar. Como o pião, veloz. Imóvel. Benjamin entrou em três casas. De cada uma trouxe uma coisa. Na primeira, um cobertor, na segunda duas tigelas de arroz, na terceira ervas para o chá. Convidou- me a entrar na quarta casa da vila.
- Descansa agora, Hannah. Vou ter de sair.
Quieta, vi Benjamin abrir a mochila, e tirar a trouxa branca de linho. Antes de sair, abraçou-me carinhosamente. Calou meus anseios em seus lábios. Doce, cantou baixinho, Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot ...
- Até já, pequena Hannah...
Cansada, adormeci sem nada questionar. Meu corpo colava ao colchão de algodão. Um tapete vermelho, cobria o chão do ar fresco da noite. No ar, o cheiro da madrugada. Meu corpo cansado, fugia da dor anunciada. Não me lembro da cor do céu. Sei das estrelas a dançar de par em par. Não me lembro de nada até aquela manhã, quando acordei quase sem ar. Uma flor nascia no ventre, teimava em desabrochar. Com medo, eu não permitia.
Saí de casa, apressada.
- Ben, qual foi a casa que te abrigou nesta noite que não regressaste ao corpo da mulher amada?
Como resposta, um silêncio profundo pesou no meu corpo.
importava em saber a resposta.
Uma nuvem branca, saía da chaminé da casa que nos deu de comer: a casa do meio. Corri, sem pensar. Em algum lugar do meu ser, eu sabia a resposta. Essa que adivinhei desde o primeiro dia da nossa viagem. Alcançar o extremo oriente, era o nosso destino.
Onde fica o extremo do nada? Caminhámos, sem destino sabendo dele, desde que partimos. Onde fica a chegada, se não existe o fim? Se nada existe, explica-me esta dor que dilacera o meu peito, Ben!
A casa tinha a porta aberta. Três degraus levam o visitante à sala. Cheira ao ar manso, morno da boca de Ben. O vento entra e faz rodar um pião de prata rendada. O pião espalha pelo ar, um pó branco, fino, formando uma nuvem branca, por toda a sala. A mesma que vi sair da chaminé.
Aspiro o ar. “Nes Gadol Hayah Sham”
- Ben! - meus olhos choram, meu corpo treme entre a alegria e a tristeza, canto: Esperei-te em silêncio, num recanto qualquer da minha existência Esperei sem descanso tantos abraços dei enquanto partias beijos vencidos na despedida fosses tu de pedra inventava o amor eterno esse que o tempo gasta sem que os olhos vejam
Divino é o pó
em que tornas ao mundo na terra, no ar, nos oceanos Multiplicas-te em todos em cada um
Esperei-te em silêncio num recanto qualquer No meu corpo salgado Estás em tudo e em todos Eterno é o teu descanso Até sempre, Benjamin.
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* Dreidel - (Yiddish; sevivon em hebraico) é um pequeno pião quadrado comummente dados as crianças durante Hanukkah (festa que dura oito dias e comemora a reedificacão do templo de Jerusalém feita por Judas Macabeu).
* Pessach - também conhecida como Páscoa judaica celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Shemot (Êxodo).
fátima vale
êxtase-‐ganapatyas
aparece desnuda a ilha wali
na magia aquiescente da frágil campina liliputiana folhagem
amarela palha fulgura-‐se nela
a coroa de espuma cósmica sorriso desdobrado
fios de ébano no peito das velas dobam o descanso
rendilham a dádiva ao ouvido oh ganesha ganesha ganapati om vinayaka om vinayagar om pillayar om vinayakudu om entre o campo da tessitura planam as aves
véu livre na duna do silêncio mimesis da memória
hermética dissolvência da resenha pura palavra erecta
brune o epicarpo gogado eira de sol inflamada plurificada
lavoura fundente
que abafa de caruma a brasura da soenga olorante incenso venal
metamorfose alotrópica do amor gramática híbrida que se gera
brunus brunus
magnanima sapientis criatura fumo da terra
erva-‐moleirinha
tratado teínico dos milagres
toda a mundanidade se pia no mergulho nocturno
pelo ósculo tépido das águas
(circula âmbar cristalizado dentro do olho)
a arena muda
afia o sorvo embriagado na fonte (carícia que desponta da língua no tablado fértil da galeria reservada) vínica vox
extensa flammula
brunus brunus
brincam dois sóis no leito terracota que o vento embala
perfurando as luras floridas atinge-‐se a dourada cinza do sono viagem única
líquida semente dentro do nenúfar
que alarga pelo calor da fricção falo sublime
fígulo solar
pedestre humildade do sonho habitado