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COREIA DO NORTE:

A política internacional parece ter seguido o rumo de uma Revolução Militar: do micro ao macro. O uso de drones teria sido o estopim de uma escalada militar dos EUA em direção a uma guerra infinita, onde parar significa fatalmente perder a vantagem da máquina de guerra já em movimento. Não é possível neste trabalho listar todos os eventos que se seguiram desde 2001, mas dois deles se tornam fundamentais para o término momentâneo da Revolução Militar em curso, defendida neste trabalho: a saída do Tratado de Mísseis Antibalísticos pelos EUA (2001) e a nova Doutrina Nuclear dos Estados Unidos (2018). Esses dois eventos parecem soar como o início e o fim de um ciclo, mas representam apenas um núcleo duro de política internacional, voltado para ameaças estatais, enquanto o núcleo está repleto de uso de drones, práticas de regime change (mudança de regime) e novas táticas para conflitos assimétricos.

6.5.1 Anti-Ballistic Missile (ABM) Treaty: A saída dos EUA do Tratado

Ainda em 24 de agosto de 2001, ou seja, antes mesmo de ocorrer o 11 de setembro, os EUA anunciavam que iriam deixar o Anti-Ballistic Missile (ABM) Treaty, que havia sido assinado em Moscou em 26 de maio de 1972 com a Rússia e entrado em vigor em 03 de outubro de 1972, conforme anunciado em matéria de Richard Norton ao The Guardian [on- line]. De acordo com Norton, foram feitas várias modificações desde então e havia reuniões a cada cinco anos. Mas Bush teria declarado, segundo Norton, que a vontade de deixar o tratado era para melhor proteger os EUA das ameaças do século XXI, como ele teria dito: 136 (isto) “dificulta nossa capacidade de manter a paz, de desenvolver armas defensivas necessárias para defender a América contra as verdadeiras ameaças do século 21”. (NORTON, 2001, on- line).

Ainda de acordo com a matéria de Norton, os EUA justificaram a vontade de deixar o tratado por não se sentirem mais ameaçadas por amas nucleares da Rússia e para melhor se

136

Tradução livre para: (it) “hampers our ability to keep the peace, to develop defensive weapons necessary to defend America against the true threats of the 21st century”. (NORTON, 2001, on-line).

protegerem contra os estados considerados “desonestos”, como Coréia do Norte, Irã e Iraque ou contra lançamentos acidentais de mísseis (NORTON, 2001, on-line). Na teoria, segundo a matéria, o tratado se baseava numa doutrina de destruição mútua assegurada, onde a melhor maneira de manter a paz seria deixar os dois lados completamente expostos a um ataque nuclear, uma vez que ambos seriam destruídos. Já na prática, haveria a criação de dois sistemas de mísseis antibalísticos que depois foram reduzidos para apenas um em torno de Moscou e Grand Forks. O objetivo era cessar a corrida armamentista e tomar medidas para a redução de armas estratégicas, o desarmamento nuclear e o desarmamento em geral. (NORTON, 2001, on-line).

O desejo dos EUA se concretizou em 13 de dezembro de 2001, conforme anunciado em matéria ao The New York Times por Terence Neilan. Bush havia anunciado naquele dia, segundo Neilan, que os EUA precisavam se proteger de ameaças vindas de países terroristas ou desonestos e que o tratado impedia o desenvolvimento de defesas efetivas (NEILAN, 2001, on-line). Bush havia informado a decisão à Putin, a quem considerava um “amigo” na época e mantinham boas relações, algo que pode ser confirmado nas estrevistas que Putin concedeu a Oliver Stone. A Rússia não se sentiu ameaçada pela saída dos EUA do tratado, mas considerou um equívoco tal decisão, chegando a anunciar em televisão para toda a Rússia que o tratado significava uma “pedra angular na segurança mundial” (NEILAN, 2001, on- line).

Portanto mais uma vez se percebe como o 11 de setembro foi importante para uma série de ações políticas dos EUA rumo à maior liberdade no uso da força militar, mesmo salientando na época que a saída não reperesentaria ameaça à Rússia ou à China.

No entanto, enquanto a Revolução dos Drones se expandia pelo Oriente Médio e eliminava as ameaças dos EUA naquela região, o fim dessa história dos ABM seria a nova Doutrina Nuclear dos EUA, lançada em 2018, provavelmente devido ao fato de que a Primavera Árabe não teria chegado até o Irã e foram falhas as iniciativas para invadí-lo por outros meios, restando a invasão unilateral ou o ataque nuclear, que agora ficou extremamente viável, uma vez que os EUA poderiam lançar um ataque nuclear contra ataques convencionais. A cada nova ação na política internacional, mais vai fazendo sentido a narrativa de uma revolução militar, tanto pelas transformações que vão aquecendo as disputas entre as grandes potências quanto pelas transformações que passam a ocorrer em diversos países do mundo com interferência do poder brando ou do poder inteligente (quando se tem uso de poder duro militar ou financeiro, ainda que secreto).

6.5.2 Nuclear Posture Review (NPR) dos Estados Unidos da América (fev. 2018):

possibilidade de uso de armas nucleares contra ataques convencionais à Rússia, China, Coréia do Sul, Irã e demais países.

Em 02 de fevereiro de 2018, segundo o site Sputnik137 (2018, on-line) os Estados Unidos da América divulgaram um documento de 100 páginas inesperado e alarmante para a segurança internacional como um todo: trata-se da Revisão de Postura Nuclear, ou Nuclear Posture Review (NPR), que alega em seu Prefácio três eixos principais: Rússia, China e Coréia do Sul, mas a Rússia parece como eixo mais importante, não apenas pela alegada modernização nas forças nucleares estratégicas e não-estratégicas, mas claramente pela intervenção russa e a consequente anexação da Criméia, que teriam configurado uma estratégia militar respaldada no poder nuclear, pelo que pode ser deduzido do Prefácio da NPR, escrito pelo Secretário de Defesa Jim Mattis:

[...]ainda mais preocupante é a adoção por parte da Rússia de estratégias e capacidades militares que dependem da escalada nuclear para seu sucesso. Estes desenvolvimentos, juntamente com a tomada da Criméia pela Rússia e ameaças nucleares contra os nossos aliados, marcam o retorno decidido de Moscou à competição Great Power.138 (NUCLEAR POSTURE REVIEW, 2018, P. I).

Segundo matéria de David Sanger e William Broad ao The New York Times em 04 de fevereiro de 2018, Trump, em discurso recente, teria omitido qualquer fator sobre Putin ou sobre o arsenal da Rússia, concentrando-se na luta contra o terrorismo e na Coréia do Norte, mas a matéria mostra que o próprio Secretário de Defesa, Jim Mattis, teria dito que “[...] a grande concorrência de poder – e não o terrorismo - é agora o foco principal de Segurança Nacional dos EUA” (SANGER & BROAD, 2018, on-line).

De acordo com o site Sputniknews, no dia seguinte ao lançamento da NPR dos EUA, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia declarou decepção diante da decisão e considerou leviana a declaração sobre as ameaças russas, onde a NPR teria alegado comportamento agressivo, intervenções, violações de acordos de controle de armas por parte da Rússia que, de acordo com o Ministério russo nada condizem com a realidade, uma vez que a Rússia, em sua Doutrina Militar, teria limitado o uso de armas nucleares a duas

137 SPUTNIK. Moscow Disappointed by Content of New US Nuclear Doctrine. 03 fev. 2018. In: Sputnik [on- line]. Disponível em: <https://sputniknews.com/russia/201802031061327966-russia-us-nuclear-doctrine/>. Acesso em 19 fev. 2018.

138 Tradução livre para: “Even more troubling has been Russia’s adoption of military strategies and capabilities

that rely on nuclear escalation for their success. These developments, coupled with Russia’s seizure of Crimea and nuclear threats against our allies, mark Moscow’s decided return to Great Power competition”. (NUCLEAR POSTURE REVIEW, 2018, P. I).

situações: uma contra ataques também nucleares e outra contra ataques convencionais, somente se, o ataque convencional colocasse em risco a existência do Estado (SPUTNIK, 2018, on-line). Ainda de acordo com a matéria, o Ministério da Rússia declarou que a NPR é hipócrita quando diz que os EUA buscam cooperação construtiva e relações estáveis, quando na verdade os EUA e suas medidas irresponsáveis são responsáveis pela degradação da Segurança Internacional e regional, alertando, por fim, que a Rússia irá levar em conta o teor da NPR e tomar providências no sentido de garantir a segurança da Rússia (SPUTNIK, 2018, on-line).

Uma charge bastante intrigante, mostrada na Figura 55, com apenas um comentário dizendo que o governo de Trump estava solicitando armas menores, foi publicada no The New York Times três dias após a divulgação da NPR. Ela mostra o Twitter como nova arma nuclear miniaturizada. A charge talvez tentasse fazer menção a um debate recente e anterior à publicação da NPR onde havia o desejo dos EUA de responder um ataque cibernético com uma arma nuclear, debate este que ainda não se confirmou após a criação da NPR. Mas há outra leitura possível e talvez mais contundente: o uso das redes sociais como ferramenta de poder, tão ou mais eficaz que uma arma nuclear, visto que houve pouco desgaste político das intervenções através do uso das redes sociais, até porque poucos sabem de sua existência.

FIGURA 54: TWITER É A NOVA ARMA NUCLEAR - CHARGE DE PATRICK CHAPPATTE EM 05 FEV. 2018

Fonte: The New York Times139

Outra matéria do Sputnik140, de 18 de fevereiro de 2018, traz uma análise pouco mais contida e ao mesmo tempo alarmante sobre a NPR de um observador político por nome de

139 Disponível em: <https://www.nytimes.com/2018/02/05/opinion/twitter-the-new-nuclear-weapon.html>. Acesso em 19 fev. 2018.

140

Disponível em: < https://sputniknews.com/analysis/201802181061787462-us-nuclear-doctrine-implications- analysis/>. Acesso em 19 fev. 2018.

Rostislav Ishchenko. Ele aponta para o fato de que os EUA teriam alegado sua declinante influência global e a NPR seria uma forma de demonstrar que estariam dispostos a tudo para evitar essa queda, pois lembra que geralmente a disposição de uso de armas atômicas se dá quando as armas convencionais estão em declínio (SPUTNIK, 2018, on-line).

Mas existe também uma leitura não abordada pela mídia ou analistas internacionais, até o momento, e que tem haver com a história dos EUA desde 2001: uso de drones, ataques de falsa bandeira, busca de legitimação para ataques militares e uso de poder brando para desestabilizar Estados. Uma ligação entre esses fatores disponíveis até agora pela análise de uma Revolução Militar dos Drones pode revelar um futuro bem diferente do que essas análises sugerem. Primeiro é importante notar que os sistemas de entrega nuclear dos EUA é essencialmente pelo ar, conforme Figura 56, e que o avanço na tecnologia de drones dos EUA já produz protótipos secretos, como o X-37B, capazes de realizar missões na órbita baixa da Terra e por isso chamados de Veículos de Teste Orbital ( OTV em inglês), podendo com isso transportar armas nucleares a qualquer ponto do planeta. Em matéria ao The Avionist [on- line], Tom Demerly, em 08 de maio de 2017, destaca o desconhecido teor da missão do X- 37B que ficou em órbita por 717 dias, aterrissando em 07 de maio de 2017, mas que não foi o primeiro voo, tendo iniciado em 22 de abril de 2010 e cuja matéria sugere que o referido programa já havia deixado sua fase experimental, deixando evidente que poderia se tratar de missões reais e não testes. A matéria ainda aponta para a possibilidade de o X-37B ser ou uma plataforma de armas baseada no espaço, ou uma plataforma de coleta de informações ou um projeto de pesquisa, mas a matéria vê pouca possibilidade nesta última opção, pelo nível de segredo sobre Programa (DEMERLY, 2017, on-line).

Então, mesmo com esses eventos acontecendo de forma tão recente é possível conjecturar uma estratégia de uso semelhante ao que vem sendo utilizado pelos EUA de forma agressiva e ao mesmo tempo sutil e constante, em que poderia haver a utilização de ataques de falsa bandeira, mais provável de acontecer envolvendo Israel e Irã, cuja deflagração do conflito já está em andamento (2018) com ataques mútuos entre os dois Estados que recairia numa postura de ameaça nuclear direta por parte dos EUA para a proteção de Israel, servindo de exemplo para a Coreia do Norte. Muitas possibilidades existem diante de tantas jogadas acontecendo de forma tão rápida, mas é inevitável observar que o uso de drones alterou de forma significativa as relações internacionais e impulsionou o mundo a um Aumento da Escala da Guerra em várias dimensões.

FIGURA 55: SISTEMAS DE ENTREGA NUCLEAR DESDE 2010

Fonte: Nuclear Posture Doctrine (recorte digital)

6.6 ENTRE AS “SHADOW WARS” E O BALANCEAMENTO OFFSHORE: QUAL

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