6.1 PODER BRANDO, PODER INTELIGENTE E DISPUTAS HEGEMÔNICAS: A PRIMAVERA
6.1.1 O Poder Brando e o Poder Inteligente: da teoria “limpa” à prática “suja”
Só em haver um debate sobre a legalidade no uso de drones onde não há guerra declarada, isso já pesaria contra seu uso, pois diminuiria a empatia internacional à causa das guerras com drones. Esse tipo de poder, geralmente de ordem moral, capaz de interferir no comportamento dos Estados e de outros atores no Sistema Internacional foi denominado de “poder brando” por Joseph Nye: “o poder brando é a capacidade de afetar outros utilizando meios cooptativos de ajuste da agenda, persuasão e produção de atração positiva para a obtenção dos resultados preferidos” (NYE, 2012, p. 44). Os recursos de poder brando de um país seriam a cultura, os valores políticos e a política externa, conforme Nye:
O poder brando de um país se baseia pesadamente em três recursos básicos: sua
cultura (em locais onde ela é atrativa), seus valores políticos (quando ele so
cumpre interna e externamente) e suas políticas externas ( quando os outros as veem como legítimas e possuindo autoridade moral. As condições entre parêntesis são fundamentais para determinar se os recursos potenciais do poder brando se traduzirão no comportamento de atração que pode influenciar os outros na direção de resultados favoráveis. (NYE, 2012, p. 119, Grifo Nosso).
No início de seu livro O Futuro do Poder (2012), Joseph Nye transcreve algumas citações que reforçam a utilização do Poder Brando e do Poder Inteligente pelos tomadores de decisão nos Estados Unidos. Obama teria pautado que o poder aumenta com seu uso prudente e enalteceu os critérios da justiça, a força do exemplo americano, e a humildade e moderação (NYE, 2012, p. 09); Já Hillary Clinton teria defendido o uso do “[...] que tem sido chamado ‘poder inteligente’, toda extensão de instrumentos à nossa disposição” (NYE, 2012, p. 09); e o Secretário de Defesa Robert Gates sugeriu que os EUA deveriam aumentar recursos financeiros e o poder brando “[...] porque os militares sozinhos não conseguiriam defender os interesses da América no mundo todo”. (NYE, 2012, p. 09).
Mas o poder brando deixa de ser “limpo” e passa a ser “sujo” quando se utiliza de ações que poderiam até ser consideradas ilegais, ou no mínimo imorais: Os recursos midiáticos, de internet e de espionagem via aparelhos celulares foram à exaustão como forma de conseguir ampliar a rede de informações e ainda tentar transmitir informações subliminares numa espécie de guerra psicológica em prol dos EUA. A ideia foi bem variada: havia a pornografia, que poderia ser oferecida por celular, onde o cliente deveria fazer uma espécie de cadastro antes de ter acesso ao conteúdo. A empresa U-Turn foi contratada para viabilizar um programa de baixo orçamento chamado “‘Tcheca’ Meus Seios”, que exibia imagens de um homem em praga pagando 500 coroas tchecas para as mulheres mostrarem os seios; outra opção muito atraente para os EUA foi na área de games para celular que poderiam ser baixados por todo o Oriente Médio e que “poderiam solucionar dois problemas de uma vez só: o fato de que um grande número de pessoas no mundo islâmico não gostava dos Estados Unidos, e o fato de que os Estados Unidos sabiam muito pouco sobre quem eram essas pessoas” (MAZZETTI, 2016, p. 192). Assim, conclui Mazzetti: “os espiões não precisariam ir à caça de informações; estas chegariam até eles” (MAZZETTI, 2016, p.193).
Mesmo que Nye tenha alertado para o fato de que o poder brando não é “nem mau nem bom”, ele praticamente nada mostra sobre essa vertente menos ética desse poder não militar, mas que se revela um complemento direto deste. Talvez por essa razão ele diz se opor à tese de que os EUA estariam em declínio rumo a uma transição de poder para a China. Para
ele, o perigo maior está na “difusão de poder” para os atores não estatais na era da informação cibernética:
[...] a transição clássica do poder entre os grandes estados pode ser um problema menor do que a ascensão dos atores não estatais. Em um mundo baseado na insegurança cibernética, a difusão do poder pode ser uma ameaça maior do que a transição do poder. (NYE, 2012, p. 13).
Diante da percepção de que o poder brando “[...] não é a solução para todos os problemas” (NYE, 2012, p. 14), Nye parte para um conceito mais completo: o poder inteligente, que é “[...] a combinação do poder duro da coerção e do castigo com o poder brando da persuasão e da atração”.
As mídias têm um papel importante para o poder, segundo Nye, pois “as estratégias inteligentes devem ter um componente de informação e comunicações. [...] Essa estruturação é mais que mera propaganda” (NYE, 2012, p. 13). E ele exemplifica que faz diferença o papel da CNN, da BBC ou da Al Jazeera, mostrando que a forma como a notícia é mostrada interfere, onde, por exemplo, “[...] ao descrever os eventos em março de 2003, podíamos dizer que as tropas americanas ‘entraram no Iraque’ ou que elas ‘invadiram o Iraque’” (NYE, 2012, p. 43). O papel da mídia como forma de complemento militar fica claro quando ele relata que “[...] no início de 2006, o secretário de Defesa, Donal Rumsfeld, disse, sobre a guerra global ao terror da administração Bush: ‘Nesta guerra, algumas das batalhas mais importantes podem não ocorrer nas montanhas do Afeganistão ou nas ruas do Iraque, mas nas redações dos jornais em Nova York, Londres, Cairo e outros lugares” (NYE, 2012, p. 48).
Os tipos de recursos associados ao poder brando com frequência incluem fatores intangíveis como instituições, ideias, valores, cultura e a legitimidade percebida das políticas. (NYE, 2012, p. 44). Então se pode observar que o poder brando sempre está associado a algo moralmente “do bem” e alerta que o Poder Duro também pode acarretar em poder brando e vice-versa, quando, por exemplo, o uso de poder duro gera instituições que, mais a frente, irão gerar poder brando; ao mesmo tempo o “[...] comportamento cooptativo pode ser usado para gerar recursos de poder duro na forma de aliança militar ou ajuda econômica” (NYE, 2012, p. 45). De acordo com Nye o que determina se certos recursos produzem um comportamento brando ou duro é a mente do observador (NYE, 2012, p. 45). Talvez por isso, dominar a mente do observador seja o grande desafio do comportamento cooptativo e a busca constante do controle da mídia.
Uma descrição de Nye sobre a duração limitada do efeito de superioridade da tecnologia parece ser uma transcrição fiel do modus operandi utilizado na Primavera Árabe:
[...] uma tecnologia nova, como a cavalaria no caso de Genghis Khan ou a pólvora para os conquistadores, pode proporcionar uma vantagem que permite que um número pequeno prevaleça sobre um grupo maior até que a tecnologia seja difundida. [...] Mas o segredo desse sucesso foi mais que tecnologia. Inclui a capacidade de dividir a população-alvo e cooptar parte dela para torná-la aliada local (NYE, 2012, p. 51).
Esse argumento de Nye parece justificar o porquê a Primavera Árabe foi tão acelerada, uma vez que sua operação seria bem-sucedida se fosse mantida em segredo, levando os analistas internacionais a não perceberem o real significado das revoltas. Os conflitos mundiais se transformaram e novos atores precisam ser levados mais em conta, como sugere Nye:
A guerra interestatal tornou-se menos comum do que as guerras intraestatais e transnacionais envolvendo atores não estatais. Dos 226 conflitos armados importantes ocorridos entre 1945 e 2002, menos da metade foram travados entre estados e grupos armados na década de 1950, mas, na década de 1990, essa foi a forma dominante de conflito armado. Esses grupos podem ser divididos em
insurgentes, terroristas, milícias e organizações criminosas (NYE, 2012, p. 58,
Grifo Nosso)
Nye defende o uso correto do poder brando com o poder duro, mas não define o que seria “correto”, apenas ratifica que ao longo da história várias superpotências não souberam aproveitar ou tirar vantagem suficiente das Revoluções nos Assuntos Militares, onde relembra uma citação de Max Boot:
‘[...] a história está repleta de exemplos de superpotências fracassando em tirar vantagem (nas revoluções nos assuntos militares) [...] Os mongóis perderam a Revolução da Pólvora; os chineses, os turcos e os indianos perderam a Revolução Industrial; os franceses e britânicos perderam partes importantes da Segunda Revolução Industrial; os soviéticos perderam a Revolução da Informação’ (NYE, 2012, p. 61)
Assim, segundo Nye, é preciso utilizar a “força” de forma a tirar proveito dela e evitar seus efeitos negativos, onde, por exemplo, “[...] um ataque aéreo que mata um insurgente e muitos civis demonstra um poder geral para destruir, mas pode se provar contraproducente para uma política de contrainsurgência” (NYE, 2012, p. 28). Isto porque, segundo Nye, a eficácia da ação militar está diretamente ligada à sua legitimidade. No caso dos drones, sua legitimidade, mesmo quando há guerra declarada, está ligada diretamente aos princípios internacionais de uso da força, como discriminação e proporcionalidade. Dessa forma,
[...] a indiferença aos princípios de discriminação e proporcionalidade da guerra justa pode destruir a legitimidade. A eficiência da invasão militar americana inicial no Iraque em 2003 pode ter causado admiração aos olhos de alguns iraquianos e moradores de outros países, mas esse poder brando foi enfraquecido pela subsequente ineficiência da ocupação e pelas cenas de mau tratamento dos prisioneiros (NYE, 2012, p. 121-122).
Embora o exemplo dado por Nye, de maus tratos aos prisioneiros ilustre bem o exagero da força e sua perda de legitimidade, causa certa estranheza o fato de que Nye se limita a não dar maiores exemplos, nem positivos nem negativos, sobre o uso de drones, algo que seria até mais coerente. Tanto Nye como Mearsheimer evitam falar sobre drones em seus textos, e parecem sempre dar mais ênfase às características dos EUA que se pareçam mais legítimas. Isso é visível naquilo que Nye chama de “admiração inicial na invasão ao Iraque em 2003” que não se configura como algo concreto diante dos inúmeros países que se opuseram a tal invasão e que a única forma de legitimação que se percebe naquela invasão parece ser aquilo que Buzan (2012, p. 366) retrata como formas discursivas pós-colonialista, pós-estruturalista e feminista:
A visão pós-colonialista “[...] legitimava a guerra por ser desenvolvimentista; que tornava a identificação do ‘universalmente bom’ a única prerrogativa do Ocidente superior” (BUZAN, 2012, p. 366);
Na visão pós-estruturalista estaria “o interesse em qual tipo de ator figuravam os ‘terroristas’ [...] pela teorização da importância da emoção, da paixão e dos sentimentos. [...] (onde) o argumento não era, portanto, se os ‘terroristas’ eram racionais ou irracionais, mas a forma pela qual as premissas de racionalidade/irracionalidade eram utilizadas em diferentes discursos” (BUZAN, 2012, p. 366). Buzan retoma o caso de 2004 quando foi revelado ao mundo uma foto de carcereiros dos EUA torturando e humilhando detentos em Abu Ghraib, ato que Buzan define como “maior desafio à constituição de uma identidade superior, benigna e racional do Ocidente” (BUZAN, 2012, p. 368). Havia preocupação não só com a divulgação, mas também com o comportamento de humilhação dos carcereiros e principalmente na “[...] importância das novas tecnologias midiáticas, tanto para tirar essas fotos quanto para disseminá-las. [...] (uma vez que) o material visual pode ser utilizado para gerar resistência, e quais são as implicações de se tornar público tais materiais” (BUZAN, 2012, p. 369). Buzan observa que desde a Guerra do Golfo de 1990-91 as redes de televisão foram as principais fornecedoras de imagens e que a era pós 11 de Setembro representava uma “[...] mudança radical na relação entre os produtores e os consumidores”, onde a onipresença de videofones, câmeras digitais e laptops tornou qualquer um, um produtor potencial de conteúdo em escala mundial (BUZAN, 2012, p. 369).
E, na visão feminista, a guerra contra o Afeganistão “[...] era legitimada por meio de referências, não apenas à al-Qaeda e a Bin Laden consideradas ameaças à segurança ocidental e mundial, mas também ao suplício das mulheres que viviam sob o regime (não ocidental, bárbaro e masculino) do Talibã” (BUZAN, 2012, p. 370).
Todas essas visões trazidas por Buzan servem como exemplos de poder brando utilizado pelos EUA para tentar legitimar suas invasões, principalmente depois do fracasso da coalizão em encontrar Armas de Destruição em Massa, “[...] que seriam a razão mais imediata para entrar em guerra contra o Iraque, causando uma mudança dentro do discurso ocidental, enfatizando que a guerra foi empreendida em defesa da população iraquiana, dos direitos humanos universais e da civilização” (BUZAN, 2012, p. 367, grifo nosso).
No entanto essas justificativas não foram procedentes. Muniz Bandeira traz um relato bem documentado de como os EUA “fracassaram no Afeganistão” sem conseguir por fim ao terrorismo, deixando o país arrasado e cheio de viúvas, onde a única saída foi realizar negociações secretas com o Talibã através da diplomacia da Alemanha (BANDEIRA, 2013, p. 201-212). Isso poderia mostrar que tanto a legitimação havia se esvaziado como o uso da força estaria apresentando seus limites: o uso bem-sucedido de drones em matar lideranças terroristas tinha um limite ou a rede terrorista tinha se diversificado e aprendido contramedidas de segurança que a mantivesse em operação e até se expandindo, como o efeito blowback.
O sucesso e as limitações no uso de drones podem ser deduzidos de uma passagem de Nye, alegando que Donald Rumsfeld, quando se tornou secretário de Defesa,
[...] buscou uma transformação militar baseada em novas tecnologias. Uma combinação de poder aéreo militar de alta tecnologia e forças especiais limitadas aliada aos combatentes afegãos em terra inicialmente funcionou bem no Afeganistão, e o sucesso rápido da invasão do Iraque em março de 2003, com apenas 33 mortos, mostrou a força quanto a fragilidade dessa abordagem. Os americanos não estavam equivocados em investir na revolução nos assuntos militares; estavam equivocados em pensar que isso fosse suficiente. [...] A tecnologia é uma faca de dois gumes. Ela, no fim, se dissemina e se torna disponível para adversários que podem ter capacidades mais primitivas, mas também são menos vulneráveis à dependência de tecnologias avançadas (NYE, 2012, p. 61).
O exemplo mais assertivo dessa citação de Nye foi a vulnerabilidade apresentada pelos drones em 2009, quando os militares americanos
[...] descobriram que os insurgentes estavam invadindo os canais que permitiam baixar os dados do avião não tripulado Predator usando um software que custa menos de 30 dólares. Enquanto isso, a dependência crescente de satélites elaborados e sistemas controlados de rede de computadores torna os Estados Unidos mais vulneráveis que alguns de seus adversários (NYE, 2012, p. 62).
Então, Nye observa que de nada adiantou toda tecnologia contra a insurgência que fabricava bombas baratas e carros bomba que causaram tantos danos aos militares dos EUA, que crentes apenas na tecnologia, não investiram em treinamento, polícia militar, linguistas e outras necessidades. Por isso os EUA tiveram que passar a adotar medidas de contrainsurgência que estavam esquecidas desde o Vietnã, que vinham sendo usadas apenas
pelas forças especiais (NYE, 2012, p. 62). Foi assim que o poder brando se integrou na estratégia militar, segundo Nye: “O poder duro era usado para limpar uma área de insurgentes e controla-la, e o poder brando atuava em seguida, construindo estradas, clínicas e escolas” (NYE, 2012, p. 63). E a nova estratégia de contrainsurgência (COIN) era a seguinte: “em vez de calcular a quantidade de tropas necessárias de acordo com o número de combatentes opostos, o manual da COIN se concentra nos habitantes e recomenda um mínimo de 20 constrainsurgentes para cada 1.000 residentes” (NYE, 2012, p. 63).
Embora a teoria de Nye de poder brando e poder inteligente sejam de fácil entendimento, há muito que ser trabalhado em relação a essas políticas “sujas” dos EUA que são tomadas com certa naturalidade por parte da mídia, fazendo-as parecer legítimas e legalizadas, a menos que sejam realizadas pela Rússia ou outro “inimigo” político dos Estados Unidos. Essas ações estão cada vez mais tomando o lugar do poder militar direto como medida principal da PEX dos EUA. Por esse aspecto de dominação através de Instituições dos EUA dentro de praticamente todos os países, os Estados Unidos parecem exercer um poder
brando “renovado” e mais agressivo, dando uma proeminência maior aos defensores liberais da era pós Obama do que aos realistas da era pós Bush até o começo da era Trump, onde novas modulações do realismo parecem seguir na direção de por em prática a teoria de Mearsheimer e até ultrapassá-la, pois, segundo Mearsheimer, nenhum país poderia ser o hegemon total do Sistema Internacional devido às dimensões do mesmo e dos efeitos bloqueadores da água entre os continentes. Então ultrapassar esses limites e se tornar o hegemon é algo que ultrapassaria a visão de Mearsheimer.
Será preciso compreender que ainda há muitas informações indisponíveis a completar o entendimento sobre a Primavera Árabe, mas essa confusão parece ser exatamente uma das características do poder brando “sujo”, evitando toda e qualquer análise séria dos eventos que, pela falta de informações – já que seriam ultrassecretas – poderiam cair em mera especulação e teorias da conspiração. Assim, aparições difusas surgiram desde então no cenário internacional, como a Primavera Árabe, que desde a Tunísia até a Síria, teriam sido reflexo primeiro dessas políticas bem sucedidas de “delegação” a grupos pró-ocidente com a ajuda de drones dos EUA e outros aparatos militares aliados, mas depois fracassadas quando chegaram à Síria e não conseguiram derrubá-la pela aliança desta com a Rússia.
A Primavera Árabe teria sido ora uma aplicação de “poder inteligente” por parte dos EUA, patrocinando grupos pró-ocidente e mercenários em prol de uma “justificativa legal” como a democracia para derrubar governos que já não interessavam mais aos EUA, como Egito ou Síria; ora um movimento de oposição aos EUA, visando derrubar governos
apoiadores dos EUA e suas políticas para o Oriente Médio, como Iêmen e Arábia Saudita, cujos locais a Primavera Árabe passou a ser combatida pelos EUA, uma postura oposta assumida em relação à Primavera Árabe nas outras regiões. Podem ter sido até as duas coisas: os EUA se aproveitaram da vontade de parte da população para derrubar alguns líderes e a al- Qaeda pode ter se aproveitado das intervenções dos EUA nesses países, que sem os antigos líderes ficaria mais fácil para a al-Qaeda obter espaço político e cooptar militantes.
Stuart Jeanne Bramhall resumiu parte do modus operandi da Primavera Árabe, retirado do polêmico livro Arabesque$ de Ahmed Bensaada, onde as manifestações teriam seguido o modus operandi da luta estratégica não violenta teorizada por Gene Sharp. Bramhall lista quatro características descritas por Bensaada: Nenhum conflito foi espontâneo (foram planejados por cerca de 5 anos pela CIA, fundações de George Soros e lobby pró Israel; Os conflitos visavam derrubar apenas o líder político desprezado e não o regime que o apoiava; nenhum protesto fez referência ao poderoso sentimento anti-americano sobre a Palestina e o Iraque; e todos os jovens que se rebelaram eram jovens de classe média e bem educados que desapareceram misteriosamente após 2011 (BRAMHALL, 2015, on-line).
Então o aumento da escala da guerra pode ser argumentado com mais ênfase na oposição da Rússia ao projeto dos EUA de derrubar o regime sírio durante um levante supostamente forjado de chegada da Primavera Árabe até a Síria. E isso levou ao surgimento cada vez maior da possibilidade de conflito entre grandes potências, recaindo então na teoria de Mearsheimer sobre o desejo constante de obtenção de poder que sempre culmina na disputa entre grandes potências. Esse aumento na escala da guerra teria sido possível com a utilização de drones como ferramenta cada vez mais utilizada em combates conjuntos e ainda mais evidente pela tentativa dos EUA de sempre obter o domínio do espaço aéreo. A ação de domínio do espaço aéreo não seria para evitar a morte de civis por um “governo tirano” e disposto a realizar ataques de revanche sobre a população – como os EUA alegavam ao Conselho de Segurança da ONU –, nem seria para os EUA colocar tropas em solo, algo que ainda é muito combatido pela sociedade americana, mas seria para a utilização de armas aéreas, principalmente drones, onde o exemplo mais claro dessa estratégia foi visto na Líbia.
Se o início dessa expansão – com várias estratégias de poder inteligente, combinando poder brando com poder duro (soft and hard power) – se encaixa no pensamento político de Joseph Nye, a expansão e a possibilidade de conflito entre grandes potências, por outro lado, faz parte de um conjunto teórico mais evidente no pensamento de Jonh Mearsheimer.
Recentemente, um documentário confrontou a visão desses dois autores em relação à China e se ela pode crescer sem ameaçar os EUA. Nye defendeu que a China poderia crescer
de forma benigna e os EUA poderiam conter possíveis futuros confrontos com uso de poder brando; Mearsheimer, ao contrário, acredita que a China, assim como qualquer outra potência ao longo da história, não tende a ser uma potência situacionista, ou seja, conformada com a posição do sistema internacional no futuro e irá fazer uso de seu poder conquistado para