CAPÍTULO I : SAÚDE, ALIMENTAÇÃO E COMUNICAÇÃO
1.3. Nutrição e Educação: família, escola e sociedade
A forte presença da publicidade na indústria alimentar, particularmente nos meios audiovisuais, influencia negativamente o público em geral. O poder de persuasão, atinge principalmente as crianças e os adolescentes, mais suscetíveis aos anúncios, uma vez que associam energéticos e alguns alimentos, inclusive os processados, à força física ao esporte e bem-estar. O ambiente escolar é considerado o principal meio de educação e formação individual e social. É um espaço onde existe grande troca de informações, vivências e aprendizagem. Apesar de algumas tentativas de reduzir os alimentos processados nas cantinas escolares, elas ainda são promotoras da má alimentação, com raras exceções. Entre os produtos comercializados regularmente nas cantinas escolares estão salgadinhos fritos e industrializados, balas, sorvetes e outros produtos ricos em açúcar, gordura e sal. Poucas são as cantinas que vendem frutas, por exemplo. Ou a crianças e os adolescentes levam merendas saudáveis de casa ou são obrigados a consumirem produtos nocivos à alimentação saudável e que provocam hábitos inadequados e obesidade pelo alto teor de gordura e açúcar.
O aumento do consumo de alimentos industrializados pelo público infantil aliado ao sedentarismo são apontados como uma das principais causas da obesidade infantil. O uso de embalagens coloridas, atrativas e com personagens de desenhos animados, são formas de comunicação publicitária focada neste público. Por não sabe ler rótulos e ainda não possui conhecimento suficiente para discernir sobre a qualidade do alimento como mostra uma pesquisa elaborada pelo Instituto Alana, 2009, p9:
Até aproximadamente os oito anos de idade, elas misturam fantasia e realidade. Por exemplo, uma criança de mais ou menos quatro anos, quando está assistindo ao seu desenho preferido na TV e ocorre uma interrupção pelos intervalos comerciais, não entende que o programa acabou e iniciou-se um intervalo. E mesmo depois que consegue fazer tal distinção, é só aproximadamente aos 12 anos que tem condições de compreender o caráter persuasivo da publicidade.
Segundo Hartung e Karageorgiadis (2017), as crianças e adolescentes já possuem em sua defesa parte de uma interpretação sistemática da CF/88, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei n. 8.069/199067), da Convenção das Nações Unidas sobre as Crianças (Decreto n. 99.710/199068), do Código de Defesa do Consumidor (CDC, Lei n. 8.078/199069) e da Resolução n. 163 de 13 de março de 2014, publicada no Diário Oficial da União em 4 de abril de 2014, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). O Conanda legisla sobre toda a publicidade dirigida a esse público seu caráter ilegal e violação dessas leis. Seu objetivo principal é proteger as crianças e adolescentes contra qualquer forma de exploração, violência ou violação da integridade física e psicológica.
A promoção de uma alimentação de qualidade composta por alimentos in natura, está sendo incentivada pelo governo brasileiro com a publicação do “Manual das cantinas escolares saudáveis promovendo a alimentação saudável” produzido pelo ministério da saúde15. Nele, são
esclarecidas informações sobre o que é saúde, o que é alimentação saudável, higiene dos alimentos, alimentos industrializados e maneiras de tornar a cantina escolar saudável. Brasília, Amazonas e Curitiba são exemplos de lugares que já implementaram leis que regulamentam as cantinas sobre o que pode ou não ser comercializado no ambiente escolar. Estas medidas têm o propósito de promover hábitos alimentares saudáveis nos ambientes escolares e buscam influenciar na melhoria da alimentação familiar.
Como explica Bortoliero (1999), a educação na escola, na família e em grupos sociais, a partir do conhecimento científico especializado é essencial para a construção de saberes coletivos.
São saberes profissionais construídos não só no ambiente de trabalho, nas relações com outros profissionais, mas também resultados da educação na escola, na família, do convívio em seu grupo social”. (BORTOLIERO, 1999, p.141).
A alimentação inadequada e seus malefícios para a saúde atingem não apenas as crianças e adolescentes, mas também adultos e idosos. A pesquisa “Antropometria e Estado Nutricional de Crianças, Adolescentes e Adultos no Brasil” (IBGE, 2010, p75) detecta o rápido crescimento da obesidade que atinge crianças, adolescentes e adultos:
Em todas as idades, a partir de 5 anos, confirma-se a tendência de aumento acelerado do problema. Em crianças entre 5 e 9 anos de idade e entre adolescentes, a frequência do excesso de peso, que vinha aumentando modestamente até o final da década de 1980, praticamente triplica nos últimos 20 anos, alcançando entre um quinto e um terço dos jovens. Em adultos, o excesso de peso vem aumentando continuamente desde meados da década de 1970 e, no momento, é encontrado em cerca de metade dos brasileiros.
A ausência de uma educação alimentar em meio familiar e escolar, aliadas à informação nem sempre adequada da mídia e da publicidade, torna as pessoas mais vulneráveis a uma má alimentação, contribuindo para a ampliação do índice de obesos e portadores de DCNT. A aplicação de ações estratégicas voltadas para o ambiente escolar, como a implantação de cantinas e merendas escolares com alimentos de qualidade com nutriente balanceados, acompanhados de um ensino sobre a qualidade dos alimentos, são medidas que contribuiriam para a prevenção doenças e a queda do índice de obesidade no país.
O cidadão é ora um usuário (do governo e da tecnociência), ora um consumidor e um cliente (de bens e serviços), ora um agente econômico ou um empresário (de si mesmo) ou, ainda um elemento ativo da população (que deve ser suscitada, regulada, fomentada). É um sujeito, em suma, que não segue mais palavras de ordem, mas que “participa”, “interage”, que exige muito mais que a divulgação e do qual a governabilidade não quer apenas um consentimento tácito e sem informado, uma delegação para a tomada de decisões. (CASTELFRANCHI, 2008, P.233)
A partir da divulgação científica de conteúdos de interesse público, em diferentes meios de comunicação, nas escolas, na família e na sociedade; possibilita que as pessoas adquiram conhecimentos para que assumam a direção de suas ações de forma consciente, exercendo seus diferentes papeis individuais sobre duas decisões de vida.
Diante desta infinidade de conteúdos sobre saúde, alimentação e bem-estar, é importante refletir e discernir sobre a qualidade dos múltiplos conteúdos oferecidos pela mídia. Evidências científicas precisam ser incluídas nas informações veiculadas ao público em geral, para que se tornem mais confiáveis. Caldas lembra que:
A mídia é, sem dúvida alguma, um importante agente no desenvolvimento de uma cidadania ativa, em que a ação transformadora seja um passo natural à formação de uma consciência individual e coletiva. Desvelar o mundo científico construído pela mídia implica em ajudar as pessoas a encontrarem um sentido nas aparências para a formação plena da cidadania. (CALDAS, 2011 p.26)
Segundo o pesquisador Wilson da Costa Bueno, há necessidade de se analisar de forma aprofundada a divulgação na área de saúde e de verificar como o cidadão entende a aplicabilidade deste conteúdo em seu dia a dia.
A experiência brasileira de comunicação para a saúde, apoiada na ação dos meios de comunicação de massa, esbarra ainda em alguns vícios e preconceitos. A mídia tem transformado o universo da doença (e a sua cura) em um grande espetáculo, movido por lances mágicos ou sensacionais, onde prevalecem o mito da técnica onipotente, a ideologia da novidade e o conflito maniqueísta do bem contra o mal. (BUENO, 1996: p.13)
O fácil acesso da sociedade a vários tipos de informações sobre saúde, bem-estar e alimentação, pode muitas vezes confundir, em lugar de ajudar na solução de problemas. Além disso, pode criar falsas expectativas sobre curas de doenças e prevenção, que devem sempre seguir orientação de especialistas.
Dessa forma, cabe ao jornalista em geral e ao jornalista científico em especial dirimir dúvidas com o auxílio de fontes confiáveis para um melhor entendimento dos métodos e do tempo da ciência. Isto porque as próprias pesquisas, às vezes, apontam resultados controversos ou que são modificados pelo avanço do conhecimento, seja no caso de algumas doenças como no consumo de alimentos. Alguns exemplos são: ovo, café, manteiga, chocolate, condenados e reabilitados em diferentes momentos em função de novos conhecimentos. O jornalismo científico necessita acompanhar a atualização dos resultados das pesquisas cientificas com o objetivo de garantir a qualidade da informação.Como também explica Bueno:
O jornalismo científico deve apresentar, antes de tudo, um compromisso com a qualidade da informação e não pode ficar à mercê do frenesi da sociedade do consumo. Deve, sim, convidar o leitor à reflexão, e até contrariá-lo se for o caso, buscando trazer antes conhecimento que informações fragmentadas, contaminadas por interesses mercadológicos ou comerciais. (BUENO 2001: p.179).