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2.2 – O “Apêndice” do Primeiro Estatuto

No documento cristianooliveiradesousa (páginas 74-80)

Como vimos até aqui, apenas em 1761, ou seja, 15 anos após seu estabelecimento, a Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Vila Rica pôde se reger por seu “Estatuto Particular”. Este Estatuto irá definir a organização daquela instituição até 1805, quando o mesmo sofre uma série de alterações em razão da necessidade de um novo conjunto de regras que estivessem de acordo com a nova realidade daquela sociedade. Porém, conforme já mostramos a Ordem primeiramente já havia tentado se reger pelo estatuto da Ordem Terceira do Rio de Janeiro, estatuto este que não recebeu a aprovação dos Provinciais, ao qual a Mesa vilarriquenha tinha acrescentado 14 capítulos, incluídos em um apêndice ao final daquele estatuto os quais foram os únicos que haviam recebido aprovação dos Provinciais do Rio. Assim, antes de analisarmos o estatuto de 1761, faremos uma breve

apreciação de quais eram os pontos presentes no estatuto carioca que, segundo os terceiros vilarriquenhos, necessitavam de alterações para se ajustar ao cotidiano das Minas.

Os principais pontos alterados no apêndice adicionado ao fim do estatuto pelos terceiros de Vila Rica estão relacionados à questão dos valores de anuais e de esmolas que os oficiais deveriam pagar no momento de sua posse na Mesa. Assim, a primeira disposição se refere ao valor pago pelo Ministro, que no Rio de Janeiro era estipulado em 200 mil réis. Russel-Wood afirma que este mesmo valor era estipulado aos Irmãos Ministros da Ordem Terceira de São Francisco da Bahia (RUSSELL-WOOD, 1989, p. 76). Moraes afirma que em 1734 na Ordem Terceira de São Paulo a joia estipulada para o Ministro era 52 mil e 200 reis. Este valor teria chegado à quantia de 100 mil réis em 1761 (MORAES, 2010, p.393). Os Irmãos Terceiros vilarriquenhos, porém, decidem que ali o ocupante do cargo deveria dar uma contribuição de 300 mil réis. Este valor, que já era bastante alto no Rio de Janeiro e na Bahia, é inflacionado em 50% em Vila Rica, o que mostra que naquela região o poder aquisitivo era consideravelmente maior. Isto também pode ser visto como um indicativo de que o cargo de Ministro, cargo mais alto da Mesa que poderia ser ocupado por um leigo, era uma função restrita a poucos homens, que possuíam cabedal suficiente para bancar tal quantia.

A seguir são estabelecidos os valores da esmola para alguns dos oficiais que compunham a Mesa. Estes valores são estipulados em 150 mil réis para o Vice Ministro; 75 mil réis para o Secretário e o mesmo valor para o Procurador Geral; 37 mil e 500 réis para o Síndico, 100 mil réis para a Ministra; além de 20 mil réis mais “o que a mais sua devoção incitar” para cada um dos 12 definidores, que não eram oficiais de Mesa, mas compunham o Definitório34. Nos estatuto do Rio de Janeiro, não estavam definidos valores fixos para a esmola de outros oficiais além do Ministro. Em Vila Rica os Irmãos fizeram questão de deixar definido em estatuto os valores das esmolas de alguns dos membros da Mesa. Note-se ainda que àquele momento não estavam definidos os valores das esmolas que deveriam dar os demais integrantes da Mesa. Como veremos à frente, o Estatuto de 1761 estabelece o valor das esmolas de todos os Irmãos que ocupam cargos na Mesa.

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O Definitório era o nome dado ao conjunto de irmãos que se reuniam em juntas para tomar as decisões que a Ordem necessitava. Ele era formado na Ordem Terceira de Vila Rica pelo Comissário, Ministro, Vice Ministro, Secretário, Procurador Geral, Síndico, Vigário do Culto Divino, Mestre dos Noviços e mais 12 irmãos Definidores. Dependendo do tema a ser decidido eram acrescidos a estes os Ministro Jubilados (aqueles que haviam ocupado por pelo menos 3 vezes o cargo de Ministro), além da Mesa imediata, ou seja, aquela que havia servido no ano anterior.

Outra modificação em relação ao Estatuto do Rio é a inserção do cargo de Procurador Geral, inexistente até 1776 na Ordem Terceira Franciscana carioca.35A instituição vilarriquenha institui o seguinte:

“4. E suposto em dita Ordem 3a da Cidade do Rio de Janeiro se não pratica haver Eleição de Procurador Geral da Ordem, com tudo: Havemos por bem que nesta o haja, e dele se faça Eleição na forma dos mais oficiais, como determina a Palestra da Penitencia em a 6a Seção §5o e dará de sua Esmola de / Mesa setenta e cinco mil réis.”

Se formos à Palestra da Penitência, no referido parágrafo temos o seguinte:

“O Irmão Procurador Geral também por costume deve ser huma das pessoas principaes da Ordem, prompto, e expedido para os negócios dela, pois a sua conta está o saber das rendas, que tem; as suas despesas; fazer aplicar as cobranças, e dar conta na Mesa daquilo, que lhe parecer necessário remedearse. Deve ser muito assistente para dar noticia do que houver antes de votar, que sempre será primeiro que todos. He finalmente hum fiscal por

parte da Ordem; e por costume dá de esmola 144000 e a armaçao para o

dia da publicaçao da Eleiçao.” (BELÉM, 1736, p. 356)

Como podemos perceber, o cargo de Procurador Geral era um cargo de extrema importância no que se refere ao bem estar das finanças da Ordem. Era ele o responsável por cuidar pessoalmente do andamento dos “negócios” da Ordem, atuando como um “fiscal” dela. Na parte relativa ao ofício do síndico temos mais um indicativo da razão do porque da instituição deste cargo na Ordem:

“Sem embargo que o dito Capo

15, Sessão 9a n. 177 exiba ao Irmão Síndico daquela Ordem da Esmola de Mesa e inda dos anuais com que todos os oficiais costumam concorrer para as festividades, foi sem duvida por se atender a que sobre ele caía quase todo o trabalho daquela Ordem a quem falta o Procurador Geral; cujo trabalho fica nesta moderado ao Síndico dela, com a assistência do Procurador que tem a quem compete tratar dos negócios dela. E atendendo nós a que esta Venerável Ordem não tem mais rendas que as Esmolas que a Mesa, e seus Definidores costumam dar para a sua subsistência: Havemos por bem que o dito Irmão Síndico dê de sua Esmola de Mesa trinta e sete mil e quinhentos reis.”36

Por este trecho percebemos duas coisas. Primeiro que a criação do cargo de Procurador Geral servia também para desafogar o Síndico de parte de suas obrigações. Em segundo lugar, encontramos a justificativa do porque da preocupação em estabelecer explicitamente os valores com os quais os ocupantes da Mesa deveriam contribuir através da esmola. Conforme podemos perceber, a preocupação da Ordem é explicada pelo fato de, em seus primeiros anos, ainda não possuir fontes de renda para o sustento daquela instituição. Assim, em seu início percebemos que a Ordem Terceira de Vila Rica estava bastante

35 William de Souza Martins afirma que este cargo só passa a existir naquela instituição a partir da sugestão da

mesa de 26 de julho de 1776, quando o síndico propõe a criação deste cargo. Para maiores informações conf. (MARTINS, 2009, p. 147, nota 57).

preocupada com suas finanças e teria tomado precauções para que pudesse satisfazer todos os encargos que recaíam sobre ela como, por exemplo, os gastos com procissões, celebrações e o sufrágios dos irmãos defuntos. Além disso, cabe ressaltar aqui que o cargo de Procurador Geral existia também em outras irmandades que atuavam em Vila Rica naquele período.

É o caso da Irmandade do Santíssimo Sacramento, onde o Procurador “devia zelar por todos os bens móveis e imóveis da Confraria e pela cobrança de dívidas” (OLIVEIRA, 2010, p.52). As Irmandades do Santíssimo Sacramento eram as responsáveis pela promoção da Eucaristia, e também exigiam pureza de sangue de seus membros reunindo em seu meio apenas pessoas que reunissem tantas qualidades quanto às exigidas pelas Ordens Terceiras. Assim é bem provável que uma parcela significativa dos Irmãos professos na Ordem Terceira fosse também membros do Santíssimo Sacramento. Estes homens já teriam então o conhecimento da estrutura administrativa daquela irmandade, e talvez por isso tenham decidido criar também na Ordem Terceira o cargo de Procurador Geral, tendo em vista a importância deste cargo naquela irmandade.

O apêndice do primeiro Estatuto da Ordem Terceira estabelece ainda os valores pagos em anuais pelos irmãos terceiros de Vila Rica. Estes anuais, que serviriam para o pagamento dos sufrágios dos irmãos defuntos, ficam estipulados em mil e quinhentos réis, que seriam cobrados em parcelas pagas trimestralmente. Este valor era consideravelmente mais alto do que os valores aplicados por Ordens Terceiras de outras regiões do Império Português. Segundo Martins, na Ordem Terceira carioca, o valor pago pelos anuais chegava a 960 réis, que eram cobradas em parcelas mensais de 4 vinténs (MARTINS, 2009, p. 148). Já Moraes chama atenção aos baixos valores pagos em anuais pelos Irmãos Terceiros de Braga. Segundo esta autora, os terceiros bracarenses pagavam “meio tostão” (50 réis) pelos seus anuais. A mesma autora apresenta que, em Lisboa o valor pago pelos Irmãos Terceiros era de 360 réis (MORAES, 2010, p. 199).

Mais uma vez vemos que os valores estipulados pela Ordem vilarriquenha eram bem mais altos que os definidos por suas congêneres. Isso reafirma nossa ideia de que a Instituição Terceira Franciscana em Vila Rica se cercou de medidas para que apenas uma parcela da população – aquela possuidora não só dos requisitos de limpeza de sangue, mas também de avultados cabedais capazes de suportar as altas taxas cobradas pela Ordem – pudessem se filiar àquela instituição ou, principalmente, ocupar os cargos de direção daquela associação religiosa de leigos.

Juliana Moraes ainda afirma que, apesar dos baixos valores cobrados em anuais pela Ordem Terceira de Braga, eram constantes os atrasos ou ausência de pagamentos pelos

irmãos. Assim, a Mesa daquela associação define, em 1722, o valor de 1$000 para aqueles irmãos que desejarem ficar remidos, estando assim desobrigados dos pagamentos anuais (MORAES, 2010, p. 199). No Rio de Janeiro este valor estava estipulado em 19$200 réis. Em Vila Rica esta também era uma possibilidade prevista no apêndice do seu primeiro estatuto. Assim em sua cláusula 14, temos o seguinte:

“Havemos por bem que qualquer Irmão ou Irmã que quiser Remir os seus anuais os possa fazer, dando à Ordem vinte e quatro mil réis que postos a juros dê seis e um quarto por cento, rendem cada ano mil e quinhentos reis, porém não ficarão isentos de servirem os cargos da Mesa, em que pela pluralidade de votos se julgarem beneméritos, sendo Eleitos.”37

Como podemos perceber, o valor estipulado para que o Irmão se tornasse remido era baseado em um cálculo que levava em conta um rendimento em juros equivalente ao valor estipulado para o anual. Tendo em vista o valor de anual de 1$500 réis, e considerando juros de 6,25% este valou ficou definido como 24$000. O trecho citado ainda chama a atenção de que o pagamento da taxa para Irmão Remido não isentava aqueles irmãos das responsabilidades com a Ordem. Por se tratar de um valor alto, aqueles homens que se dispunham a dispender tal quantia de uma só vez se tratavam, provavelmente, de homens que possuíam algum cabedal e muito provavelmente homens que detinham não só capital monetário, mas também capital simbólico, o que sem sombra de dúvidas, como veremos mais à frente, os tornava homens elegíveis aos cargos administrativos da Mesa.

Ainda na questão dos valores, são estipuladas também as quantias cobradas pela recepção do hábito, quando os Irmãos iniciavam o seu ano de Noviciado, assim como o valor referente à profissão à Ordem. Assim, fica estabelecido que os irmãos que recebem o hábito deveriam pagar mil e oitocentos réis, sendo o mesmo valor pago também no ato da Profissão. Outro valor estabelecido neste apêndice é o relativo ao pagamento recebido pelo Padre Comissário, em razão de seus serviços. A esse respeito a cláusula 12 estabelece:

“E para que os Irmãos vivos e defuntos desta Venerável Ordem participem da Missa que faz dizer todas as 6as feiras ao Romper da Alva: Havemos por bem que o nosso R. Pe. Comissário Visitador a diga, ou faça dizer em o Altar de N. S. P. São Francisco, e a aplique pelos ditos Irmãos, e por Esmola dela, e do mais trabalho que lhe compete na Ordem, lhe dará esta por ano, cento e vinte mil reis.”38

William de Souza Martins afirma que no Rio de Janeiro o valor pago pelos préstimos do Comissário não eram destinados diretamente a ele, mas sim “destinavam-se coletivamente ao Convento de Santo Antônio” (MARTINS, 2009, p. 144). Em Vila Rica isso parece não ter

37 AHPNSC, Arquivo da Ordem Terceira de São Francisco, Estatutos (1754-56), MF 204. 38 AHPNSC, Arquivo da Ordem Terceira de São Francisco, Estatutos (1754-56), MF 204.

acontecido, sendo o valor estipulado (120$000) pago diretamente ao Comissário, para cada ano no cargo.

Além destas questões relativas aos valores, outro assunto tratado no apêndice ao primeiro Estatuto da Ordem diz respeito à quantidade de missas a ser realizadas à custa da Ordem no caso de algum Irmão terceiro falecer. Fica estabelecido então que seriam realizadas quarenta missas em intenção da alma do dito Irmão.39 A respeito das quantidades de missas celebradas em cada uma das instituições de Terceiros Franciscanos ao redor do Império Português, Juliana Moraes afirma que:

“A quantidade oferecida pelas Ordens seculares nos dois lados do Atlântico variava enormemente. Os irmãos terceiros da cidade do Porto, em 1751, recebiam 70 missas enquanto que, em Coimbra, os seculares franciscanos contavam com 25. Na associação terciária do Rio de Janeiro, em 1745, celebravam-se 40 missas após a morte de algum membro e os terceiros paulistanos podiam esperar 25 celebrações pela sua alma” (MORAES, 2010, p. 284-285)

Como podemos perceber pelo trecho acima citado, a quantidade de missas variava muito de acordo com a Instituição. Esta variação se explica pelas diferenças dos patrimônios de cada instituição e da quantidade de irmãos congregados nelas. Como vimos os valores pagos pelos anuais eram destinados aos gastos com as celebrações de missas oferecidas aos irmãos. Assim, levando em consideração o alto valor cobrado pela Ordem Terceira de Vila Rica era de se esperar que a quantidade de missas oferecidas aos irmãos defuntos fosse maior. Porém, temos que levar em conta também que, àquela época a Ordem vilarriquenha ainda não havia construído sua igreja, o que nos faz pensar que, talvez aquela instituição tenha estabelecido o número de 40 missas pensando em reservar algum patrimônio para poder ser investido na construção de sua capela.

Com as considerações aqui colocadas sobre os 14 pontos que constituíam o apêndice do Primeiro Estatuto da Ordem Terceira podemos, enfim, partir para a análise do Estatuto de 1761 pelo qual a Ordem irá se reger até 1804, conforme já relatado. Cabe ressaltar aqui que, apesar deste primeiro Estatuto de 1746 – ao qual estava vinculado o apêndice aqui analisado – não ter sido aprovado, as determinações nele estabelecidas e aqui discutidas foram, em sua maioria, mantidas na elaboração do Estatuto aprovado de 1761. Provavelmente estas definições permaneceram inalteradas por já terem sido aprovadas pelos providenciais, conforme já visto anteriormente. Assim, as questões aqui já definidas e abordadas não serão novamente retomadas, exceto em caso de terem sido alteradas no Estatuto de 1761 que a partir de agora passaremos a analisar.

No documento cristianooliveiradesousa (páginas 74-80)