III. Do Biopoder ao Trabalho Imaterial
III. 5. Produção Imaterial e Subjetividade
III.5.1 O Biopoder e suas Subjetividades: Naturalização
Na perspectiva do biopoder, que entendo ser a perspectiva do capital, a qual tem atualmente no neoliberalismo seu mais qualificado representante, a subjetividade é tratada como uma condição “natural” de ser humano em vida civilizada, se aplica tanto a indivíduos quanto à grupos, e em ambos os casos é múltipla no tempo e no espaço, em um constante processo de ascensão e decadência de subjetividades, segundo padrões civilizatórios de produção e consumo.
Sobre a naturalização do contínuo processo de construção de subjetividades Hard&Negri declaram que:
Uma das teses centrais e mais comuns das análises institucionais, propostas pela teoria social moderna é que a subjetividade não é pré-determinada e original, mas pelo menos em algum grau formada no campo das forças sociais. Neste sentido, a teoria social moderna progressivamente esvaziou qualquer noção de uma subjetividade pré-social e ao contrário ancorou a produção de subjetividade no funcionamento das grandes instituições sociais, como a prisão, a família, a fábrica e a escola.182
Em cada configuração espaço-temporal seriam estabelecidas subjetividades individuais e grupais que representariam a melhor adequação humana às condições materiais vigentes, de tal modo que cada subjetividade é vivida como condição natural da existência, individual e social, naquele tempo e localidade. O que ascende e decai, portanto, são modelos de subjetividade, ou formas de vida, e sua ocorrência prática; o sistema capitalista mantém, ou mesmo aprofunda, as assimetrias de poder e bem-estar através da produção de novas subjetividades, segundo as condições particulares de uma época em um local. Essa produção de subjetividades é provida por instituições estáveis que atravessam o tempo de mãos dadas com o capital, justamente por sua função produtora de subjetividades, conforme apontam Hardt&Negri.
Dois aspectos desse processo de produção devem ser destacados. Primeiro, a subjetividade é um constante processo social de geração. Quando o chefe te chama no chão de fábrica, ou o diretor da escola te cumprimenta no corredor da escola, uma subjetividade é formada. As práticas materiais estabelecidas para o sujeito no contexto da instituição (seja ajoelhando-se para rezar, trocando centenas de fraldas) são processos de produção de subjetividade. De maneira reflexiva, então, através de suas próprias ações, o sujeito é constituído, gerado. Em segundo lugar, as instituições fornecem acima de tudo
um lugar discreto (casa, capela, sala de aula, o chão de fábrica) onde a produção de subjetividade é performada. As diferentes instituições da sociedade moderna devem ser encaradas como um arquipélago de fábricas de subjetividades. No decurso de uma vida, um indivíduo passa linearmente para dentro e para fora destas várias instituições (da escola para o quartel para a fábrica) e é formado por elas. A relação entre dentro e fora é fundamental. Cada instituição tem suas próprias regras e lógicas de subjetivação: 'a escola nos diz: você não está em casa mais; o exército nos diz: 'Você já não está na escola.'. No entanto, dentro das paredes de cada instituição o indivíduo é pelo menos parcialmente blindado das forças das outras instituições; no convento, normalmente se está a salvo do aparato familiar, em casa normalmente se está fora do alcance da disciplina da fábrica. Este lugar claramente delimitado das instituições é refletido na forma regular e fixa das subjetividades produzidas.183
Ou seja, na essência do capitalismo, desde sempre, estaria uma plasticidade frente todas as subjetividades e sua produção por instituições conhecidas, controladas, compatíveis e a serviço do capital e do biopoder. Tal plasticidade ensejou, conforme o biopoder se estabeleceu, uma capacidade de continua absorção de antagonismos sob a forma de reconfigurações, extinção, ou acréscimos de subjetividades. Essa absorção é efetiva e rápida por conta de uma rede de instituições que identificam, estudam, concebem e produzem subjetividades à feição do biopoder. A rigor, tais instituições são parte integrante do biopoder. Exemplo eloquente desse fato é a resistência, já para mais de século, a qualquer mudança significativa nas instituições educacionais, desde os ensinos na infância até os da maturidade.
O biopoder encontra no neoliberalismo instrumentos privilegiados para submeter a produção de subjetividades ao seu interesse de manutenção das relações econômicas e sociais assimétricas. As considerações de Hardt&Negri sobre globalização e pós- modernidade ilustram com precisão a dominação exercida:
A situação pós-moderna é eminentemente paradoxal, quando é considerada do ponto de vista da Biopolítica — entendida como um circuito ininterrupto de vida, produção e política, globalmente dominada pelo modo de produção capitalista. Por um lado, nesta situação, todas as forças da sociedade tendem a ser ativadas como forças produtivas; mas, por outro lado, estas mesmas forças são submetidas a uma dominação global que é continuamente mais abstrata e, portanto, cega para a consciência dos aparelhos da reprodução da vida. Na pós-modernidade, o 'fim da história' é efetivamente imposto, mas de tal forma que, ao mesmo tempo, paradoxalmente, todos os poderes da humanidade são chamados a contribuir para a reprodução global do trabalho, da sociedade e da vida. Neste quadro, a política (quando esta é entendida como a administração e gestão) perde toda sua transparência. Através de seus
processos institucionais de normalização, o poder se esconde ao invés de revelar e interpretar as relações que caracterizam seu controle sobre a sociedade e a vida.
A estratégia fica clara: faz parte integrante de toda subjetividade um padrão de velamento que retira da consciência o processo em si que produz aquela subjetividade. Daí ser importante atentar para a necessidade de dar estatuto de conceito ao processo de naturalização, pois é ela o instrumento padrão que produz tal velamento. Na subjetividade “dada” pelo biopoder não há que se questionar a origem e propósito nem daquela subjetividade em uso, nem do porquê de sua existência. O fato de que uma subjetividade fora produzida enquanto um tipo, uma forma, de vida nunca deverá entrar em questão, esse fato, a produção de subjetividades, simplesmente não existe!