• Nenhum resultado encontrado

O Imaterial e a Teoria do Valor

III. Do Biopoder ao Trabalho Imaterial

IV. 3. O Trabalho Imaterial Modifica?

IV.3.1 O Imaterial e a Teoria do Valor

Segundo Hardt&Negri com o advento do trabalho imaterial e da bioprodução a teoria do valor de Marx deixaria de funcionar, por conta da incomensurabilidade da vida enquanto produção e consumo imateriais: “a produção biopolítica (bioprodução) é, por um lado, imensurável porque não pode ser quantificada em unidades fixas de tempo, e, por outro lado, é sempre excedente com respeito ao valor que o capital pode dela extrair porque o capital nunca poderá capturar toda a vida.237

Sendo assim, número e medida não mais sustentariam disciplina e controle, ou, em outras palavras, sem mensuração não poderia haver biopoder, pois o determinismo da economia e da administração se assentam na capacidade de reduzir fenômenos a números. Como foi lembrado anteriormente a essência de todo método científico está na capacidade de medir fenômenos, ou seja, “quando você pode medir a coisa sobre a qual está falando, e expressá-la em números, você sabe algo a respeito dela”238.

Marx construiu sua crítica ao capitalismo e seu exercício prospectivo sob a mesma racionalidade cientificista que anima economistas e administradores desde o século XIX

237 HARDT&NEGRI; Multitude; Op. cit.; pag. 146 238 Cf. citação acima na pág 16

até os dias de hoje. Hardt&Negri localizam Marx em uma tradição de medida que teria seu princípio em Aristóteles:

A grande tradição metafísica Ocidental sempre abominou o incomensurável. Desde a teoria aristotélica da virtude como medida até a teoria hegeliana da medida como a chave para a passagem da existência a essência, a questão da medida tem sido estritamente ligada aquela da ordem transcendente, Mesmo a teoria do valor de Marx presta tributos a esta tradição metafísica: sua teoria do valor é na verdade uma teoria da medida do valor.239

Em essência a teoria do valor de Marx revê a estruturação de valores constituída e praticada, no capitalismo industrial nascente de seu tempo, sob determinações de número e medida, de modo a desnudar suas contradições e em assim sendo identificar as implicações que levariam necessariamente ao seu fim.

Para Hardt&Negri a teoria do valor de Marx é em essência uma teoria quantitativa do trabalho240 que utiliza as mesmas referências de determinação científica presentes nas escolas de economia clássica, liberal e utilitarista, para confrontar práticas de valor na relação trabalho mercadoria vigentes à época no campo da economia política.

Partindo da hegemonia do trabalho imaterial Hardt&Negri indicam uma nova contradição interna ao capitalismo na sua tentativa de reduzir à medição o incomensurável: a vida como resultado da bioprodução excederia qualquer forma ou instrumento de medição241. Tal contradição estabeleceria de fato a inadequação da teoria do valor de Marx:

Marx estabelece a relação entre trabalho e valor em termos de quantidades correspondentes: uma certa quantidade de tempo de trabalho abstrato iguala uma quantidade de valor. Conforme esta lei de valor, a qual define a produção capitalista, valor é expresso unidades homogêneas e mensuráveis de tempo de trabalho. (...). Esta lei, entretanto, não pode ser mantida hoje na forma que Smith, Ricardo e Marx mesmo a conceberam. A unidade temporal do trabalho como a medida básica de valor não faz mais sentido hoje.242

A hegemonia do trabalho imaterial abriria uma nova perspectiva de crítica e antagonismo no interior do modo de produção capitalista contemporâneo que tem seu

239 HARDT &NEGRI; Empire; Op. cit; pág. 355 240 HARDT &NEGRI; Multitude;Op. cit.; pág. 145 241 Idem; pag. 146

paradigma central fundado a partir da cooperação, colaboração e comunicação implicando o comum:

No paradigma da produção imaterial, em contraste, o próprio trabalho tende a produzir os meios de interação, comunicação e cooperação para a produção diretamente. O trabalho afetivo sempre constrói diretamente uma relação. A produção de ideias, imagens, e conhecimentos não apenas conduzidas em comum – ninguém de fato pensa sozinho, todos pensamentos são produzidos em colaboração com o pensamento passado e presente de outros – mas também cada nova ideia e imagem convida e abre colaborações. A produção de linguagens, enfim, tanto linguagens naturais quanto às artificiais, como as linguagens de computadores e vários tipos de código, são sempre colaborativas e sempre criam novos meios de colaboração. Em todos esses caminhos, na produção imaterial a criação de cooperação tornou-se interna ao trabalho e assim sendo externa ao capital.243

A externalidade ao capital dos produtos do trabalho imaterial implicaria que o capital utilizaria tais produtos sem, contudo, ter de remunerá-los integralmente, o que por seu turno implicaria a impossibilidade do capital manter sua produção e uso sob controle integral. Assim, “hoje, uma teoria da relação entre trabalho e valor deve necessariamente ser baseada no comum. O comum surge nas duas pontas da produção imaterial, como pressuposto e como resultado”244.

Para Hardt&Negri o comum atravessa todo o processo produtivo e desse atravessamento emana um novo antagonismo uma vez que mantêm o princípio marxiano de associação direta entre o antagonismo e a exploração. Como “Marx insiste que qualquer conceito de exploração deve estar baseado em uma teoria do valor” e como a nova teoria do valor está baseada no comum, a exploração passa a ser a expropriação do comum. Ou seja, o comum teria passado a ser o locus da mais-valia.245

No entanto, a revisão da relação entre trabalho e valor empreendida por Hardt&Negri tem sido questionada, juntamente com outros elementos de seu pensamento. Desde o início do século XXI, ao mesmo tempo que os livros da trilogia

Império, Multidão e Commonwealth tornaram-se best-sellers, surgiram questionamentos

243 Idem; pág. 147 244 Idem; pág. 149 245 Idem; pág. 150

relevantes e bem fundamentados246, sobretudo quanto à novidade do trabalho imaterial e, portanto, quanto às implicações a ele atribuídas.

Tais críticas questionam como Hardt&Negri fundamentam seu argumento do impacto do trabalho imaterial sobre a teoria do valor em ao menos três aspectos: (i) a hegemonia do trabalho imaterial; (ii) a novidade da incomensurabilidade da produção imaterial, uma vez que produzem vida sob a forma de afetos, relações, valores, cultura e subjetividades; e (iii) o Comum como meio e resultado inevitável da produção imaterial. Ademais, também estão presentes questionamentos quanto à indeterminação na gênese da multidão e quanto à produção de subjetividades revolucionárias a partir do trabalho imaterial.