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Sustentabilidade e Vida como Política

III. Do Biopoder ao Trabalho Imaterial

III.1.3 Sustentabilidade e Vida como Política

É certo que o Desenvolvimento Sustentável (doravante referido por DeS) e as discussões ambientais se tornaram o principal discurso de contraposição ao modelo neoliberal desde a última década do século XX, no entanto, todos os indicadores de desigualdade e de qualidade ambiental pioraram, como mostraram os relatórios do clube de Roma e da ONU.

Após quase cinco décadas o DeS gerou mais resultados indiretos e paliativos do que os diretos e definitivos pretendidos. Se por um lado, o esgotamento dos recursos naturais e a destruição do meio ambiente adquiriram centralidade no debate econômico social, por outro, resultados efetivos estão longe de atender a gravidade dos prognósticos. O relatório Limits to Growth: The 30-year Update, de 2003, atualizou o estudo original do Clube de Roma101 e estabeleceu, com eloqüência, a timidez dos resultados e o

100 Ibid idem; pág. 81

101 Limits to Growth: The 30-year update.Considerando os limites de um artigo como este tomo alguns

agravamento dos problemas e riscos para a humanidade. A atualização é fiel à estrutura original de compilação, interpretação de dados, e modelos preditivos, conforme a teoria de dynamic modeling102. Indicadores por tema e agregados sintetizam e demonstram a relação entre humanidade e natureza.

Dentre os indicadores apurados dois servem de maneira precisa ao meu propósito crítico, através de sua inter-relação: Pegada Ecológica da Humanidade (Ecological Footprint - EF) e Capacidade de Carregamento da Terra

(Carrying Capacity – CC).

Através da relação entre EF e CC, no período que vai de 1960 até 2000, o gráfico ao lado (fig. 13)

mostra a evolução cronológica de quantas “Terras” são consumidas

pela humanidade, em dado

momento, considerando os ciclos

de reposição dos recursos naturais vis-à-vis seu consumo.

Os dados cobrem o período desde a década de 60 até o final do século XX e mostram um pequeno decréscimo no início da década de 80, para logo em seguida retomar o movimento ascendente, a tendência inercial ascendente da curva EF (vale dizer de agravamento do problema) antes e depois do DeS não sofre alterações significativas. Há um segundo movimento de estabilidade e ligeira queda no início dos anos 90 revertido logo a seguir.

piora absoluta e relativa da sustentabilidade global apontados na bibliografia são os relatórios da agência norte americana do meio ambiente https://www3.epa.gov/ e os dados apurados pelo Bnaco Mundial disponíveis em http://data.worldbank.org/indicator#topic-6.

102 FORRESTER. JAY W.; Industrial Dynamics MIT Press, Cambridge, Mass., USA; 1961, Urban Dynamic”

MIT Press, Cambridge, Mass., USA; 1969, World Dynamics MIT Press, Cambridge, Mass., USA; 1971. O trabalho de modelos matemáticos desenvolvido por Forrester culminou com a publicação de World Dynamics, de tal forma que Limits to Growth é considerado um texto sucessor e decorrente, conforme o prefácio à segunda edição de World Dynamics em 1973. Originalmente Limits to Growth era o 4º capítulo de Worlrd Dynamics..

O indicador Ecological Footprint (Pegada Ecológica), apurado pela Global Footprint

Network da ONU, sintetiza diferentes indicadores ambientais: desde o consumo em si de

recursos naturais (petróleo, minérios, gás, etc.), passando pelo aumento da emissão de gases de efeito estufa por tipos de atividade, e incluindo outros indicadores específicos como qualidade da água em rios, mares e aquíferos, aquecimento global, geração e manuseio de detritos sólidos orgânicos e não orgânicos, desmatamento, etc.

A piora na Pegada Ecológica, representada no gráfico (fig. 14) por seu aumento,

reflete, por definição, a piora generalizada de todos os indicadores específicos103.

Em síntese, a humanidade consumia uma Terra em 1978 e passou a consumir 1,2 Terras em 2000 e 1,5 Terras em 2010. Todos os

acompanhamentos em curso

indicam que a piora persiste e aumenta104 em direta correlação

com o aumento de renda conforme mostra estudo do Banco Mundial no gráfico. Por outo lado, é essencial destacar como a assimetria econômica resulta em mais desperdício, pois apenas a elite de alta renda consume hoje quase 6 Terras!

103 Em termos absolutos, todos os indicadores pioram. Em termos relativos há variação no ritmo de

degradação conforme o tema, o tipo de indicador e a região. Indicadores específicos podem ser

acompanhados por ONG’s ambientais, por estudos publicados em revistas cientificas, por estatísticas de governos, pela imprensa e ONU. Para os fins deste artigo não cabe detalhar cada indicador e seus significados, daí o valor de um índice com o Ecological Footprint, apoiado em uma metodologia transparente, comparável no tempo a partir de organizações sérias e reconhecidas como o Clube de Roma e o MIT.

104 Dados de ONG’s dizem que em 2010 o Ecological Footprint já ultrapassou 1,50. Ver em World

Ecological Footprint and Biocapacity. (2009). In UNEP/GRID-Arendal Maps and Graphics Library. Retrieved 17:54, February 2, 2010 em http://maps.grida.no/go/graphic/world-ecological-footprint-and-biocapacity.

O segundo conjunto de informações ambientais vem dos modelos de simulação de cenários futuros adotados pelo Clube de Roma. Ainda que sejam passíveis de críticas e contestação, mais do que o prognóstico (que será sempre disputado), interessa destacar o registro do real plotado nas curvas (fig. 15) de 1900 até 2010, incluindo, portanto, o

marco de 1987 do DeS.

O período de dados reais pós-DeS (de 1987 a 2010)

evidencia aumento de

população, produção/consumo e poluição geral com redução dos recursos naturais, sem modificação significativa, a

partir do relatório Brundtland, da tendência histórica de esgotamento de recursos e degradação do meio ambiente. As atualizações disponíveis para 2010 indicam manutenção dessa curva com piora continuada.

O histórico do Desenvolvimento Sustentável (DeS) mostra que da mesma forma que ocorreu com o marxismo, após os anos 70 do século XX, o DeS não logrou uma contraposição efetiva ao modelo neoliberal, ao contrário, seu antagonismo foi absorvido de maneira gradual e constante de tal modo que as questões ambientais foram incorporadas ao mercado sob a forma de valor monetário em mercadorias “verdes”, uma rede de ONG´s ávidas por verbas públicas e direitos financeiros como no caso do mercado de créditos de carbono.

Essas considerações sobre duas acepções de biopolítica implicam alguns questionamentos essenciais dada a relevância que o termo passou a ter nas duas primeiras décadas do século XXI:

Vivemos então, com o neoliberalismo, um mecanismo perfeito de auto sustentação de um estado de coisas baseado na constante absorção em formas de valor-mercado de todos os antagonismos, sempre em favor de elites financeiras e políticas?

Trata-se do fim da história preconizado por Francis Fukuyama?

Existe alguma nova abordagem que indique o contrário e aponte caminhos de mudança na direção de uma sociedade menos assimétrica no acesso e distribuição de riquezas?

As respostas a essas perguntas são atravessadas por uma escolha fundamental que determina os possíveis desdobramentos teóricos e práticos.

Por um lado pode-se partir da aceitação do fracasso das abordagens ditas revolucionárias, desde a revolução francesa no século XVIII até o operaismo europeu do XX, passando pelas experiências comunistas e socialistas que tiveram seu fim simbolicamente determinado com a queda do muro de Berlim na década de 80 do século XX e em seguida o esfacelamento da União Soviética, considerando então que o final do século XX mostra uma derrota definitiva do ideário revolucionário de uma vida comunitária com reduzidas assimetrias no acesso aos benefícios do trabalho e aos bens sociais, econômicos e culturais comuns.

Nessa visão o neoliberalismo seria o resultado de um movimento histórico inexorável de afirmação de relações sociais e econômicas necessariamente assimétricas, baseadas no poder do mais forte e mais adaptado à competição, modelo que teria amadurecido ao longo da história humana e, portanto, representaria seu melhor resultado.

Ou, por outro lado, poder-se-ia partir da constatação que os instrumentos revolucionários em si foram falhos ao se constituírem em bases conceituais pouco sólidas ou insuficientes, ou falharam em responder com atualizações conceituais às mutações do capitalismo, ou mesmo, falharam em empreender uma autocrítica que questionasse suas próprias bases conceituais e condições sociais objetivas de sucesso.

Nesta visão a assimetria nas relações de poder entre capital e trabalho poderia ser resolvida se estabelecidos os fundamentos e instrumentos adequados e corretos. Os fracassos revolucionários seriam, então, passos de um aprendizado que vem aperfeiçoando e viabilizando a mudança; seriam momentos de confronto que indicariam o alargamento das contradições internas do sistema capitalista e por consequência tais contradições confirmariam as possibilidades de mudança.

É nessa segunda perspectiva, de rever criticamente a fundamentação do pensamento revolucionário, que a biopolítica introduzida por Foucault tem sido vista como uma inovação fundamental, capaz de revitalizar o debate e a prática sobre as assimetrias sócio econômicas próprias do capitalismo neoliberal, assimetrias que continuam a se apresentar sob a forma de alienação, discriminação, reificação, exploração e abuso.