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O E STEREÓTIPO DOS P ROFISSIONAIS DA ÁREA

4.4 OS PROFISSIONAIS DE COMPUTAÇÃO: QUEM SÃO E O QUE QUEREM

4.4.1 O E STEREÓTIPO DOS P ROFISSIONAIS DA ÁREA

O dicionário Michaelis define estereótipo como uma “imagem mental padronizada,

tida coletivamente por um grupo, refletindo uma opinião demasiadamente simplificada, atitude afetiva ou juízo incriterioso a respeito de uma situação, acontecimento, pessoa, raça, classe ou grupo social1”. Mas antes de analisar o estereótipo dos profissionais da área, vamos abordar duas características importantes baseadas em números: 83% dos profissionais do mercado de TI no Brasil são homens2

e, em sua grande maioria, são jovens abaixo dos 35 anos3. Esse mundo é, portanto, essencialmente masculino e jovem.

Porém, além de homens jovens o que mais (achamos que) sabemos sobre os profissionais de desenvolvimento de software? Seu estereótipo incorpora bem o famoso e popular “Nerd”. Um dicionário da língua inglesa define o termo como “Uma pessoa [...] que

não tem habilidades sociais ou é aborrecidamente estudiosa4”. Sites sem pretensões

cientificas propõem definições convergentes:

O Nerd é aquele cara que não obedece os padrões, principalmente físico e intelectual, da sociedade tornando-se uma pessoa marginalizada, tímida e solitária, tendo apenas o computador e o videogame como companhia5.

1 http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=estere%F3tipo 2 http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Dilemas/noticia/2015/08/por-que-ha-menos-mulheres-no-setor-de-tecnologia.html 3 http://stackoverflow.com/research/developer-survey-2015#profile 4 http://www.oxforddictionaries.com/pt/defini%C3%A7%C3%A3o/ingl%C3%AAs/nerd?searchDictCode=all 5 http://www.angelfire.com/ms/internerd/guianerd.html

Os traços de um nerd incluem diversas características. Entre elas: interesse extremo e obsessivo com livros e estudos, introversão, dificuldade para se relacionar socialmente; e diversas habilidades mais desenvolvidas devido ao gosto por games, filmes, ciência e computadores6.

Paira sob os profissionais da área de TI uma “imagem mental padronizada”, que também foi encontrada nas respostas dos participantes da nossa pesquisa, quando se referiam espontaneamente ao perfil “comum” dos “engenheiros de software” ou profissionais de “computação”. A Tabela 6 resume as características mencionadas pelos nossos respondentes.

Tabela 6 - Características dos Profissionais de Computação

CARACTERISTICA TRECHO

Workaholic

[...] até porque em computação [...], se você não fosse apaixonado pelo

trabalho, você era uma pessoa estranha assim, então isso em computação tem muito disso, as pessoas são muito workaholic, então isso é meio chato pra quem não é. (Desenvolvedor)

Inteligência cognitiva alta

[...] o grande desafio era trabalhar com engenheiro de software, com

gêniozinhos, com pessoas que tinham uma inteligência emocional baixa, e uma inteligência intelectual, cognitiva alta. (Cargo Executivo)

Inteligência emocional baixa

[...] o público além de muito jovem aqui, tem [NA EMPRESA] o seu

primeiro emprego, então ele saiu da universidade veio para cá que tem o clima muito parecido com a universidade, então algumas vezes ele confunde, essa falta de maturidade faz com que ele confunda. (Cargo

Executivo)

Introspectivo [...] tem muita gente, principalmente nessa área de computação, tem

muita gente introspectiva, né, que não se relaciona, que o negócio dele é no computador, e se ele falar o menos possível com as pessoas melhor”.

(Desenvolvedor) Dificuldade de

relacionamento Problemas de

comunicação

[...] na computação tem muito isso também né, as pessoas acabam que

não se comunicam muito bem com outras pessoas né, são bem introspectivas. (Desenvolvedor)

Workaholic é um termo em inglês que faz referência a pessoas que são viciadas em

trabalho, que trabalham compulsivamente. Esses profissionais se estendem muito além da carga horária padrão de trabalho e, para eles, o desafio intelectual se torna algo prazeroso. O estereótipo de profissional de computação workaholic gosta do que faz, se dedica ao máximo à sua atividade, e prioriza o trabalho no lugar do lazer.

Por outro lado, o estereótipo de profissional de computação, apresenta uma inteligência emocional baixa ou imaturidade. A imaturidade é refletida quando alguém apresenta um comportamento abaixo do que é esperado para a idade, por exemplo, quando um adulto age como uma criança. Esse profissional não tem autopercepção sobre o que sentem ou

como se comportam; e possuem pouca ou nenhuma responsabilidade sobre os seus atos. Essa imaturidade emocional, somada a uma personalidade originalmente introspectiva, tenderia a gerar um comportamento pouco profissional no ambiente de trabalho, pois esse estereótipo apresentaria desconforto e inibição em situações de interação social, acarretando problemas significativos para se comunicar e se relacionar com outras pessoas.

Resumindo essas características, identificamos um perfil de homens jovens e inteligentes cognitivamente, que aprendem rápido, são interessados em adquirir novos conhecimentos, mas são introspectivos e imaturos, e consequentemente apresentam dificuldades em se comunicar e se relacionar com outras pessoas. A Figura 10 resume e relaciona essas características.

Figura 10 - Características pessoais e comportamento observável do estereótipo

Ao compararmos o ambiente organizacional (flexível, descontraído e informal) discutido na Seção 4.2.1, com o estereótipo que traçamos dos profissionais de computação (introspectivo e com baixa inteligência emocional) identificamos um problema conhecido na área: a baixa maturidade profissional dentro das empresas.

[...] o fato da gente ter uma cultura muito flexível, e um grau de maturidade muito

pequeno, a gente faz com que essa flexibilidade seja confundida com permissividade. [...], o fato da gente ter uma cultura que às vezes permeia a permissividade ou dá muita voz ao colaborador, faz com que ele ache que ele pode tudo, ele não tem limites, entendeu? (Cargo Executivo)

Sendo assim, à primeira vista, parece haver um descompasso ou descasamento entre o estereótipo do profissional de computação e os contextos organizacionais flexíveis e sem hierarquia das empresas da área, onde as regras são mínimas e há uma grande demanda por autogestão, comprometimento e proatividade.

Um segundo descompasso parece existir entre o estereótipo dos profissionais de computação e o contexto organizacional das empresas de software. Profissionais

introspectivos, com problemas de comunicação e dificuldade em se relacionar, teriam dificuldade em se adaptar a contextos organizacionais flexíveis, informais e sem hierarquia, onde a interação entre as pessoas precisa ser constante e a comunicação é fundamental. Seria essa combinação entre o profissional e o ambiente organizacional, portanto, fadada ao insucesso? Para responder a essa pergunta precisamos ir além dos estereótipos.