3.6 Modelo de análise da temporalidade nas narrativas dos
3.6.2 O eixo de referência temporal do texto 1 de ACFS
O momento da enunciação (ME) do texto é o agora/hoje do enunciador, e o momento de referência (MR) é o passado (anterior ao ME), marcado no texto por uma expressão temporal com dia e hora (Lundi dernier vers 22 heures). O momento do enunciador é o presente, marcado no texto pelos dêiticos temporais (“lundi dernier”, “hier”, “hier soir”).
A origem do eixo de referência temporal – passado foi colocado, de uma vez por todas, com a expressão de tempo “Lundi dernier vers 22 heures”, ao iniciar o texto. Entretanto, a escolha de ACFS em inserir os depoimentos da vizinha e do
concierge, em discurso direto, implicou novos MR que foram incluídos no texto. Por
esta razão, mesmo o início do processo sendo desencadeado por “lundi dernier vers 22 heures”, temos pelo menos dois outros eixos temporais inseridos pelos depoimentos: “Il était presque 22 heures”, para o depoimento da vizinha; e “lundi dernier”, para o depoimento do concierge. A estrutura do texto com a inclusão dos depoimentos pode ser nitidamente observada na grille 2. Assim sendo, essas partes devem ser analisadas separadamente, em seu eixo temporal, mas no interior do eixo principal colocado no início do texto.
O papel do narrador é o de relatar os fatos ocorridos. No referido texto, ele o faz apresentando o acontecimento que desencadeou o relato – “l‟appartement a été cambriolé” – e o faz apoiando-se nos relatos de testemunhas e instituições envolvidas no caso (a polícia) o que lhe confere veracidade.
O relato, feito pela figura do narrador-jornalista, foi realizado dentro de sua ordem cronológica (sucessão objetiva), ou seja, conforme os fatos aconteceram a partir de um momento de referência passado: “Lundi dernier vers 22 heures”. Os tempos verbais do relato mostram a localização dos processos em relação ao eixo de referência temporal que foi constituído pelo decorrer do processo narrativo. Mostram-nos uma ordem que reproduz, ou que parece reproduzir os acontecimentos da diegese/história. Isso quer dizer que eles estão colocados em uma localização isocrônica em relação ao eixo temporal. A localização isocrônica é marcada pelo PC (a été cambriolé, a téléphoné, s‟est passe, a donné, a réussi, a emporté, n‟a pas été récuperée, a été interrogé, a dit, est rentré, a fait, a visité) e pelo imparfait (était, il y avait, étaient).
A última parte do relato do narrador-jornalista (a partir do recorte 37) tem outro MR, não dêitico “le lendemain du cambriolage”, que indica posterioridade em relação à origem dêitica instalada no enunciado e que desencadeia outra série de ações, agora praticadas pelo proprietário do apartamento assaltado. Essas ações são descritas com expressões que indicam sua enumeração (d‟abord, puis) em uma
sequência narrativa e seguem uma localização isocrônica em relação a esse novo eixo, marcado pelo MR com verbos no PC (est rentré, a fait, a visité).
Nesse momento, o eixo temporal chega à atualidade do enunciador – jornalista e anda em paralelo com a atualidade, quando o narrador faz uso dos verbos no presente, anunciando que o proprietário “offre une généreuse récompense” e vai além dessa atualidade, projetando para o futuro o fato de recompensar aquele que encontrar e devolver a coleção de selos do proprietário assaltado. É um futuro não definido – não se sabe quando eles serão encontrados, nem se o serão - que foi enunciado com o presente (à ce qui trouve) e um infinitivo (et lui rendre)82. “Trouve” indica posterioridade em relação ao presente “offre”. Não
82 O infinitivo foi a escolha da aluna no lugar de outro presente, como esperado. Acreditamos que
esta escolha se deva pela influência da construção da língua materna nesse caso: “à ce qui trouve et lui rendre sa collection de timbres” – “para quem encontrar e devolver sua coleção de selos”. Essas escolhas, ora correta ora errônea, mostram que a aluna ainda não domina tal tipo de construção na LE, pois vacila entre uma e outra.
sabemos, o narrador não explicita isso, quando o proprietário fez a oferta de uma recompensa (Il offre): mas sabemos que foi em um momento anterior ao momento do enunciado, embora ele presentifique esse momento anterior, uma vez que ele repercute no presente. É um presente que se estende em direção ao passado (continuidade do passado).
3.6.2.2 O eixo de referência temporal do texto 1 de ACFS – a vizinha O narrador-jornalista inclui o testemunho de uma vizinha “la gentille dame qui habite au troisième étage de l‟immeuble avec son petit chat noir” e faz esse “encaixe” do discurso secundário ao discurso principal com o discurso direto. Primeiramente, ele faz a inclusão com o verbo de “dizer” (“[La dame] a donné son témoignage”) no discurso principal; posteriormente, encaixa o discurso da vizinha por meio do procedimento tipográfico “aspas”, ainda dentro do primeiro parágrafo. O discurso direto é explicitado pelos pronomes e adjetivos de primeira pessoa que ali aparecem (je, j‟, ma, m‟).
O MR que inicia o depoimento da vizinha é a expressão de tempo “Il était presque 22 heures”, a partir do qual se desenvolve seu relato. Os tempos verbais mostram que há uma localização isocrônica em relação ao eixo de referência temporal e aparecem com verbos no PC (j‟ai entendu, m‟a semblé, j‟ai regardé, j‟ai vu, j‟ai tout de suíte appelé, a été) e no imparfait (il était, je lisait, était, je savais, il était), marcando a sucessão dos processos em sua ordem natural, cronológica.
3.6.2.3 O eixo de referência temporal do texto 1 de ACFS – o concierge O testemunho do concierge, discurso secundário, também é encaixado no discurso principal com o discurso direto, e a inclusão é realizada pelo verbo de “dizer”: “Il a dit dans son temoignage”, no discurso principal. A marca tipográfica utilizada para encaixar o discurso direto foram também as aspas. O discurso direto pode ser reconhecido por meio dos pronomes de primeira pessoa (moi, je).
O MR que desencadeia o depoimento do concierge é a expressão dêitica “lundi dernier” e os tempos verbais, a partir do MR, estão no PC (je n‟ai rien vu ni
entendu) marcando a localização isocrônica da sucessão dos processos com o eixo
temporal. Boa parte do depoimento do concierge deu-se no presente do enunciador (enunciador do discurso relatado e:, o concierge) uma vez que ele faz uma descrição do sistema de segurança do prédio. O tempo verbal utilizado nessa descrição é o presente (est, habite, doit, ont, est), pois ela ainda faz parte da atualidade do enunciador.