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O encontro pleno e definitivo com o Senhor

O ENCONTRO COM JESUS CRISTO: CAMINHO DE FORMAÇÃO INTEGRAL DO DISCÍPULO MISSIONÁRIO

2.6 O encontro pleno e definitivo com o Senhor

O encontro com Jesus Cristo é vivido pelos seus seguidores, no tempo presente, mas também carrega a esperança escatológica da plenitude que não se dará aqui, mas será no dia final. Em Cristo, nós contemplaremos face a face a felicidade e a realização plena, prometida por Ele.

151 DA 248. 152 DA 249.

Na Encarnação Deus, veio ao nosso encontro e se fez próximo a nós de maneira real, a fim de que todos vivessem na sua presença. E, na experiência de estar, na presença de Deus, podemos, no dia em que chegar a nossa morte, estar, na sua presença sem os obscurecimentos da finitude desta vida, sem o pecado, que nos afasta de sua presença.

Podermos estar na presença do criador e vê-lo como Ele é. Nós ansiamos por essa presença. Desejamos, pois, repousar em Deus e sentir o céu junto de nós. A nossa experiência de fé suscita, em nosso coração humano, o desejo e a felicidade do encontro com Deus.

A liturgia da Igreja celebra essa esperança e antecipa, na vida da graça, a vida eterna que virá, mas é a celebração do mistério; nem se compara com o dia da plenificação e da eterna presença de Deus na nossa vida. Essa presença já não será sacramental, mas real e eterna, será a total e plena realização.

A teologia vai chamar este dia de parusia. Na linguagem bíblica, é a segunda vinda do Senhor, que se dará, na ressurreição, na hora de nossa morte, ou seja, do nosso encontro pleno e definitivo com o Senhor. Porém, essa parusia vai penetrando a nossa história. Na peregrinação da vida, vamos experimentando já e ainda não esse fim glorioso.

No fim, o Senhor virá ao nosso encontro e viveremos plenamente com Ele. Esse conhecimento é libertador, pois aquele que foi ao encontro do Senhor, e a partir do seu relacionamento pessoal, viveu a prática da justiça, este permanecerá com Deus (cf. Sl 73, 18). “Ainda não se existe a ideia de como Deus agirá, apenas a confiança de que “no fim” ele estará presente e que, enquanto os malfeitores perecem, os justos podem estar com ele”153.

Contudo, não podemos esquecer que, Cristo faz-se presente em toda a nossa vida, até nos sofrimentos. Pois o próprio Senhor passou pelo sofrimento da cruz. Esse encontro é solidário. Cristo se solidarizou com todos, principalmente com os pobres e oprimidos. Por isso, aceitou estar presente em todas as situações da vida humana, até na morte. O passar pela morte é consequência natural da vida de Jesus, uma vez que ele se encarnou, pois “a morte é um fato maior que configura decisivamente toda a existência e confere forma definitiva a todo projeto humano”154. Portanto, a morte é condição de todo ser humano e o próprio Jesus

assumiu sobre si a nossa condição.

Mas a morte de cruz, certamente, Deus não a queria para seu Filho ou o próprio Jesus não a desejou para si. “a Cruz é um produto terrível do pecado... se a encararmos na perspectiva humana, é manifestação do amor levado até as últimas consequências, se a

153 NOCKE, Franz-Josef. Escatologia. In Manual de Dogmática II. Petrópolis: Vozes, 2000, p.379. 154 QUEIRUGA, Andres Torres. Recuperar a Salvação. São Paulo: Paulus, 1999, p. 180.

olharmos na perspectiva de Cristo”155. Esse é o duplo sentido da cruz. Primeiro Jesus morre, na cruz, porque não aceita a situação do pobre e do oprimido. E, por segundo, o opressor quer calar a voz de Jesus que não se cansa. “Jesus morreu porque se colocou do lado dos oprimidos, sem retroceder diante das consequências; porque foi fiel à sua missão, doando-se sem reservas”156.

Jesus morre na cruz por amor à humanidade e também por afirmar ser o Filho de Deus. A afirmação da sua identidade é comprometida até as últimas conseqüências. Ir ao encontro de Jesus Cristo é assumir a sua missão e o seu destino doando inteiramente a vida em favor de todos, principalmente dos pobres e oprimidos.

O discípulo de Jesus Cristo não pode ignorar a realidade da cruz. A cruz nos identifica com a vida e a missão de Cristo. É no encontro com Jesus Cristo que se torna evidente o sentido da cruz.

Ao participarmos desse fim, experimentamos a definitiva presença do Senhor e o sentido de nosso encontro definitivo com Aquele que, por amor, veio até nós para nos salvar, ou seja, nos garantir vida plena.

Este fim está próximo de cada homem. Pois o Senhor está sempre vindo. E cada vinda do Senhor, enquanto última e escatológica presença de Deus coloca cada um diante da opção radical em torno da qual todas as demais decisões tomam sentido e se organizam. Essa parusia do Senhor em cada dia de nossa existência adquire na morte o esplendor da transparência. Aquilo que já éramos pelo definitivo de tantos encontros com o Senhor, na oração, nas celebrações, na caridade fraterna, é assumida pela glória da aparição do Senhor da Glória157.

Esse encontro é para todos e não há privilégios de uns e de outros. Todos serão chamados ao encontro pleno e definitivo com o Senhor. Ninguém está excluído dessa esperança. São Paulo nos ajuda a compreender melhor esta definição: “Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida nós, os vivos que estivermos lá, seremos arrebatados com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor” (1 Ts 4, 13-18).

155 Ibidem, p. 180. 156 Ibidem, p. 181.

Entre Cristo e nós, estabelece-se o sentido do encontro com o ressuscitado. A partir da ressurreição o Senhor acolhe todo o nosso corpo no seu corpo.

A expressão paulina é um “corpo espiritual”. Corpo para indicar que não renuncia a sua humanidade, mas continua o de sempre, um de nós, Jesus de Nazaré; mas espiritual, porque já passou pela porta e rompeu o limite: seu corpo está totalmente transpassado pela divindade, é pura transparência espiritual, liberdade absoluta, presença ilimitada 158.

No encontro com o Ressuscitado, compreendemos o nosso encontro definitivo. A experiência da vida nova em Cristo já pode ser vivenciada por todos aqueles que desejam estar com o Mestre e permanecerem com Ele.

Nas narrativas sempre está presente a iniciativa do Ressuscitado, o processo de reconhecimento por parte dos discípulos e a missão que faz deles as testemunhas daquilo que “ouviram e viram com os próprios olhos e contemplaram e tocaram com as próprias mãos (cf. 1Jo 1,1)159.

O encontro com o Ressuscitado transforma os medrosos e fugitivos discípulos em corajosas testemunhas de Jesus. Depois desse encontro com o Cristo Ressuscitado, os discípulos anunciam corajosamente que “Deus o ressuscitou da morte, e disto nós somos testemunhas” (At 3, 15).

Ao comunicar seu Espírito, o Senhor estabelece conosco um encontro de vida plena, ressuscitando-nos e tornando-nos plenos e definitivamente íntegros, sem condição mortal, mas eternamente vivificados Nele.

O Espírito de Deus é o poder vivificador, no ser humano mortal. Sujeito da ação, o que ressuscita, é claramente o próprio Deus. Deus, porém, não fica no plano exterior em seu agir, mas age por meio de seu Espírito, que habita em vós. O ressuscitamento por meio de Deus acontece como vivificação a partir de dentro160.

158 QUEIRUGA, Andres Torres. Recuperar a Salvação. São Paulo: Paulus, 1999, p. 194. 159 FORTE, Bruno. Exercícios Espirituais no Vaticano. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 90.

O nosso encontro com Cristo deve ser permanente, integral, decisivo e definitivo. É esse encontro que nos dá a verdadeira vida. O limite da morte física se torna relativo quando fazemos nossa opção por Cristo e estabelecemos, a partir do encontro pessoal com Ele, vínculos de verdadeiro amor. “porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 8).

Para João, a vida eterna já é agora, ou seja, Aquele que crê tem a vida eterna. Para crer, é preciso fazer um encontro pessoal de fé com o Senhor. “Em verdade, em verdade, vos digo: quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a julgamento, mas passou da morte à vida” (Jo 5, 24).

Jesus é a glorificação de Deus. Quem ouve suas palavras e faz um encontro definitivo com Ele tem a vida em plenitude. “Em Jesus a salvação está presente. Por isso o encontro com ele significa o momento decisivo: rejeitá-lo (descrença) significa morte, aceitá- lo (crer nele) significa vida eterna”161.

É no encontro de fé, no Senhor, que já alcançamos a salvação, porém a negação para estabelecer esse encontro é que nos introduz ao juízo. “Quem nele crê não é julgado; quem não crê, já está julgado” (Jo 3, 18). Na morte o nosso encontro com Cristo será o encontro de nós verdadeiramente como somos diante do verdadeiro amor. “Sendo assim, o ser humano encontra na morte aquele que durante sua vida na terra nunca condenou ninguém; pelo contrário, chamava a si próprio de bom pastor. Aquele que segue suas ovelhas quando elas se desgarram”162.

O encontro do homem com Deus é pleno e definitivo quando se está diante da morte, pois o homem se vê a si mesmo, com suas mazelas e suas esperanças.

Diante da morte o cristão tem uma atitude essencialmente de confiança em Deus, seu Pai. É ele que o chamará no final da vida. Ir ao Pai e entrar finalmente, na sua paz, para experimentar plenamente seu amor, só pode nos fazer esperar aquele dia com serenidade163.

161 Ibidem, p.386.

162 BLANK, Renold J. Escatologia da Pessoa. São Paulo: Paulus, 2000, p. 169.

163 HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana. São Paulo: Paulus, 2002, p. 147.

No encontro com Jesus Cristo, nós já experimentamos a serenidade de suas palavras, a expressão da sua vontade e a harmonia desse relacionamento pessoal com o Mestre. Esse encontro também se dá no juízo; quando “todos os homens com seus corpos comparecerão “diante do tribunal de Cristo” para prestar contas de suas ações, para que cada um receba o que lhe toca segundo o que fez quando estava no corpo, seja de bem ou de mal (2 Cor 5, 10)”164.

Na vida, há sempre um recomeçar, um corrigir, uma meta a alcançar. Jesus quando chama os discípulos, pede que estes deixem tudo e o sigam, porém diante das limitações humanas do caminho é preciso parar, rever a atitude equivocada e prosseguir a caminhada. O Senhor nos concede essa oportunidade, assim como concedeu a Pedro, Tomé e tantos outros. Porém, “na morte o homem será aquilo que fez de si mesmo, e não há mais nenhuma possibilidade de refazer algo. O homem se torna definitivo e também tudo aquilo que ele fez se torna definitivo”165.

A realidade da morte causa um questionamento: o que acontece conosco quando entramos na realidade da morte, na eternidade? Vamos ao encontro da presença de Deus. Mas para que essa presença seja plena é preciso estar totalmente purificado, limpo de toda a culpa. Por isso, precisamos de uma purificação que nos leve à santidade. O homem necessita dessa santidade para poder estar plenamente com Deus. No encontro com Jesus Cristo, é preciso que haja o arrependimento, mas também o desejo e o ato sincero de que a santidade irá ser uma constante na nossa vida. A teologia vai chamar essa purificação em vista da santidade, como critério para a vida eterna e feliz, de purgatório.

O purgatório é esse processo doloroso, como todos os processos de ascensão e educação, no qual o homem, na morte, atualiza todas as suas possibilidades, se purifica de todas as pragas com que a alienação pecaminosa foi estigmatizando a vida, pela história do pecado e suas conseqüências...166.

O purgatório é um estado de purificação que nos prepara para o encontro definitivo com Deus, para que a sua presença não seja obscurecida por nenhuma sombra de pecado.

164 BENTO XII. Benedictos Deus. In Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral.

São Paulo: Paulinas, 2007, p.323.

165 BLANK, Renold J. Nossa vida tem futuro. São Paulo: Paulus, 1991, p. 117. 166 BOFF, Leonardo. Vida para além da morte. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 56.

Esse encontro com o Senhor permite-nos fazer a experiência de estar na presença de Deus. Esse encontro é livre e decisivo, por isso, cada um de nós, na sua liberdade, pode escolher romper esse encontro e se fechar a essa graça, concedida mediante o encontro com o Senhor. Nesse caso, a morte o conduzirá àquilo que chamamos inferno. Esse estado infernal é escolha do homem que não quis estabelecer um encontro pleno e definitivo de amor com Deus e se fechou em si mesmo e no seu egoísmo. Rompeu todo e qualquer relacionamento com Deus e negou-se definitivamente a abrir-se para Ele.

O inferno é o total desencontro, a total infelicidade e ausência de bem. É uma realidade qual a qual temo a certeza de que “quando o homem se petrifica no seu mal e assim morre, entra num estado definitivo de absoluta frustração de sua existência”167.

Contudo, para o discípulo fiel e prudente que souber reconhecer no seu Mestre o seu verdadeiro rosto, ou seja, o rosto misericordioso do Pai, para este, a porta se abrirá. O discípulo missionário de Jesus Cristo é aquele que deseja estar com o Mestre em qualquer situação da realidade. É no encontro com Jesus Cristo que nós no sentimos inseridos no seu corpo, portanto, fazemos parte dele e nos configuramos cada vez mais a ele. A porta aberta será uma consequência de nosso seguimento.

A morte é a porta que, finalmente, se abrirá e do outro lado dela encontraremos o Pai, que nos receberá com um grande abraço de amor e misericórdia, o abraço da imortalidade. Enfim, estaremos com o Pai face a face e ele nos amará além de toda medida168.

O nosso encontro com Deus é eterno, definitivo, pleno. Sua presença nos impulsiona a viver o seu verdadeiro amor. Um amor sem medida. Essa abertura e essa disposição nos conduzem ao encontro de sua presença eterna, que denominamos céu. Esse encontro, pleno e definitivo com o Senhor, constitui a verdadeira vocação do homem e seu mistério mais profundo. Seremos de tal forma inseridos no mistério do próprio Deus. E nossa história será uma articulação da própria história divina.

167 Ibidem, p. 89.

168 HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana. São Paulo: Paulus, 2002, p. 147.

CAPÍTULO III

IGREJA: COMUNIDADE QUE VIVE E PREGA O ENCONTRO COM