2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 NARRATIVA E DIEGESE
2.2.2 O Modelo Atuacional
A partir da avaliação de trabalhos literários com contextos mitológicos e dos estudos sobre esses trabalhos, aliados ao conceito estrutural e taxonômico proposto por Propp (1968),
Greimas (1973) identifica que as funções definidas por essa morfologia são papéis desempenhados por palavras.
Considera-se o sujeito como alguém que realiza a ação e o objeto como alguém, ou algo, que sofre a ação, a qual muda o tempo todo promovendo, portanto, a variação dos atores ou sujeitos, mas garantindo o enunciado do que pode ser denominado “espetáculo”.
Dessa maneira, enquanto Propp (1968) enumera sete tipos de personagens, com suas funções e características fixas no conto como um todo, no que fora definido como “esfera de ação das personagens”, Greimas (1973) propõe a busca da relação recíproca e o modo de existência em comum dos atuantes de um microuniverso, de modo a encontrar o sentido da atividade atribuída aos atuantes, em que consiste tal “atividade”, com o objetivo adicional de identificar um quadro estrutural de transformações quando essa atividade é transformadora.
O modelo proposto na morfologia do conto fantástico (Propp, 1968) é denominado de ternário, pois cada função consiste basicamente de três elementos, o sujeito, o objeto e a ação propriamente dita, contextualizados na esfera de ação determinada ao sujeito (Greimas, 1973). Esse modelo fora considerado impreciso para o desenvolvimento da teoria do modelo atuacional, que trabalha o estudo a partir da natureza dos papéis distribuídos às personagens. Assim, Greimas (1973) substitui a formulação ternária por duas categorias binárias, denominadas "atuacionais", sob a forma de oposições como apresentado no quadro 1:
Quadro 1: Categorias atuacionais de substituição à formação ternária sujeito vs objeto
destinador vs destinatário Fonte: (Greimas, 1973), pg. 232
Esse modelo permite empreender extrapolações dentro do microuniverso, pois permite que surja a qualquer momento como uma estrutura denominada "atuacional", capaz de apresentar um espetáculo simples, ainda preservando o número dos atuantes e mantendo a apreensão do significado.
O foco dos estudos muda, portanto, da função para as ações realizadas dentro da função, mantendo a validade da estrutura definida por Propp (1968), mas permitindo um mais
elaborado, conciso, reduzido e dinâmico modelo para análise ou produção. Transforma-se, assim, um atuante sintático a seu estatuto semântico, reunindo as funções manifestadas num conjunto de elementos simbólicos e atribuídas a um só atuante semântico, correlacionando cada atuante manifestado à sua investidura semântica, com toda manifestação do conto representada pelo conjunto dos atuantes conhecidos.
Utilizar apenas a quantidade numérica de atuantes para a definição de uma função, assim como apresentar os atuantes sob a forma de um inventário, sem se interrogar sobre as relações possíveis dentre eles e seus traços específicos, coloca a análise num nível de formalização insuficiente.
Deve-se, portanto, identificar os atuantes constitutivos da categoria “sujeito” e “objeto” de modo a estabelecer a relação entre eles, mantendo a investidura semântica da relação.
Nessa primeira categoria pode-se representar a equivalência, com Propp (1968) por meio do quadro 2.
Quadro 2: Equivalência entre Sujeito e Objeto em Propp
Sintaxe Sujeito Objeto
Propp Herói Pessoa Buscada
Fonte: (Greimas, 1973), pg. 231
Ou seja, Greimas (1973) substitui o então denominado "Herói" em Propp (1968) pelo “sujeito” no "modelo atuacional", enquanto que a "Pessoa Buscada" é transformada no “objeto” desse modelo.
A segunda equivalência apresenta uma certa dificuldade por causa da manifestação sintática dos atuantes ou da agregação de dois atuantes sob a forma de um só ator.
No exemplo de um sujeito se casando com sua noiva, Greimas (1973) analisa uma narrativa sem intervenção sendo, então, o sujeito também o destinatário do benefício, ao passo que a noiva, ou o objeto, é ao mesmo tempo o destinador do benefício: o amor, representado pela figura 4.
Figura 4: Sujeito/Objeto -> Destinatário/Destinador. Fonte: (Greimas, 1973), pg. 232
Outro exemplo fornecido consiste numa narrativa do tipo “a procura do Santo Graal” em que quatro atuantes são articulados em duas categorias como demonstrado na figura 5:
Figura 5: Levantamento dos quatro atuantes. Fonte: (Greimas, 1973), pg. 232
As duas categorias "atuacionais" resolvem o problema apresentado pelo modelo ternário, porém, uma narrativa raramente é formada por sujeito e objeto e tampouco por apenas um destinador e destinatário.
Existem duas outras esferas de atividade que promovem duas funções distintas de acordo com o que fora proposto por Propp (1968):
• Trazer auxílio em relação ao objeto, seja no sentido do desejo ou na facilitação da comunicação;
• Opor-se à realização em direção ao objeto, seja no sentido do desejo ou dificultando a comunicação.
Esses dois feixes são atribuídos a dois atuantes distintos cujos nomes foram designados por:
Qaudro 3: Relação entre as personagens de apoio
adjuvante vs oponente
Fonte: (Greimas, 1973), pg. 234
Essa estrutura nos permite identificar os outros personagens propostos por Propp (1968) quanto à sua ação no contexto geral do conto ou do microuniverso, com o oponente e sua relação com o personagem denominado vilão, bem como o adjuvante que, na classificação mencionada, se divide em dois personagens, o doador e o ajudante, cada qual com responsabilidades específicas e diferentes, mas com o mesmo contexto semântico. Dessa forma é definido o "modelo atuacional". Esse modelo pode ser representado como ilustra a figura 6.
Figura 6: O modelo atuacional, seus componentes, atuadores e receptores. Fonte: (Greimas, 1973), pg. 236
Com o modelo atuacional, Greimas (1973) oferece uma nova abordagem para análise ou produção de contos, utilizando um conjunto reduzido de componentes ou ferramentas, cada qual com seu contexto semântico, mas também correlacionado aos outros, com enfoque na ação realizada ou recebida por cada um dos elementos.
Essa nova interpretação da relação entre os elementos da narrativa favoreceu o desenvolvimento do trabalho em relação às funções da morfologia do conto fantástico, reduzindo-as de trinta e uma funções narrativas para quatro funções com semânticas adaptáveis, apresentadas na seção seguinte.
Além disso, o “modelo atuacional” favorece a produção de guias tanto para a produção de narrativas, quanto para a proposição de significados ou correlações. Essa forma de utilização permitiu a criação de um esboço para a execução dessa pesquisa, identificando “o que” foi pesquisado, “por que” foi pesquisado, “para quem” foi pesquisado (ou “a quem” a pesquisa beneficia) e quais os fundamentos utilizados ou obstáculos encontrados ou esperados.