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O movimento transformador: Community Colleges 1970/1990

PARTE II – ESTUDOS DE CASO

5.2. Community Colleges Americanos

5.2.2. Breve apontamento histórico ao desenvolvimento dos Community Colleges

5.2.2.2. O movimento transformador: Community Colleges 1970/1990

Ultrapassada a conjuntura do pós-grande guerra, a década de 70 ditou um novo percurso educativo dos Community Colleges. Em apenas uma década, os Community Colleges evoluíram de uma instituição dedicada fundamentalmente a uma missão propedêutica, para uma instituição de topo no que concerne à oferta educativa vocacional e ocupacional de pós-secundário.

Foram vários os factores que ditaram este momento de viragem:

Alteração do contexto económico: Como consequência da crise petrolífera mundial, em inícios da década de 70, os EUA viram-se confrontados com uma forte recessão económica e social, e com a consequente necessidade de se organizar com vista a uma maior e melhor racionalização dos seus recursos. Um dos resultados desta nova postura organizativa traduziu-se numa severa contenção financeira nos sectores de actividade ligados à Administração Pública, em particular, o sector governamental, o sector educativo e o sector da investigação e desenvolvimento. Um dos impactos negativos mais significativos desta reorganização económica recaiu sobre a estrutura de emprego dos graduados, que entrou em forte recessão. Neste cenário, a educação académica confrontou-se com o decréscimo de oportunidades de emprego e consequentemente com uma desvalorização enquanto factor de mobilidade e progressão económica e social.

Segundo um estudo levado a cabo por Richard Freeman, sobre a evolução do comportamento das dinâmicas do mercado de trabalho de graduados entre 1969 e 1972, o número líquido28 de novos licenciados à procura de trabalho, relativamente ao total necessário de mão-de-obra masculina necessária triplicou. Em consequência deste desfasamento entre a oferta e a procura laboral, muitos graduados foram obrigados a ocupar posições profissionais muito aquém das suas expectativas iniciais.

Among students receiving Bachelor’s and master’s degrees in 1972, for example, slightly over 30 percent of men and 25 percent of the women took nonprofessional and nonmanagerial jobs (Freeman, 1976, pp: 20).

A crise do mercado de trabalho qualificado foi, de acordo com a literatura, o grande motivo subjacente à transformação educativa dos Community Colleges, no sentido do reconhecimento definitivo do seu projecto vocacional (Brint e Karabel, 1989; Dogherty, 2002; Cohen e Brawer, 2003). Segundo so autores, perante os constrangimentos económicos e suas consequências, o vocacionalismo emergiu como uma escapatória educativa, ao mesmo tempo que se conformava como uma das soluções mais viáveis de mobilidade social e económica. Pela primeira vez, desde décadas de existência, o vocacionalismo ganhou a atenção dos estudantes, que viram neste percurso a sua única alternativa de inserção profissional e oportunidade de valorização individual e social. A tabela abaixo indicada permite observar a evolução das escolhas estudantis, evidenciando uma clara alteração de preferências por percursos vocacionais, no decorrer da década de 70.

Tabela 10: Associate degrees conferidos entre 1970 e 1980

Anos Total General Programmes % total Occupational/vocational

Programmes % Total 1970-71 253 635 145 473 57,4 108 162 42,6 1971-72 294 005 158 496 53,9 135 509 46,1 1972-73 318 234 161 291 50,7 156 943 49,3 1973-74 347 173 165 520 47,7 181 653 52,3 1974-75 362 969 167 634 46,2 195 335 53,9 1975-76 395 393 176 612 44,7 218 781 55,3 1976-77 409 942 172 631 42,1 237 311 57,9 1977-78 416 947 168 052 40,3 248 895 58,7 1978-79 407 471 158 738 39 248 733 61 1979-80 405 378 152 169 37,5 253 209 62,5

Fonte: Brint and Karabel, 1989, pp: 117, adaptado de Cohen and Brawer, 1982

28Calculado a partir do número de novos licenciados menos o número de estudantes matriculados pela primeira vez no ensino

Incentivos sociais e institucionais: O projecto vocacional dos Community Colleges saiu igualmente reforçado por um conjunto de atitudes sociais e políticas de reacção ao ambiente económico vigente.

Em inícios da década de 70, o debate político em torno do futuro do ensino superior americano era dominado pelas recomendações da Comissão Carnegie para o Ensino Superior (Carnegie Commission on Higher Education, 1970)29. Esta comissão defendia, por um lado, uma estrutura de ensino superior hierárquica e institucionalmente bem segmentada, e por outro, a manutenção do carácter selectivo das instituições de elite. A visão veiculada pela Comissão estava directamente associada ao modelo californiano30, que assumia a estrutura de ensino pós-secundário constituída por três segmentos educativos bem definidos e distintos na sua missão e funcionamento: Universities, Colleges e Community Colleges. À semelhança do Master Plan da Califórnia, a Comissão defendeu o aumento do número de alunos a frequentar os Community Colleges como contrapartida da diminuição dos alunos a frequentar os Colleges ou Universidades. Para estas últimas, a Comissão defendeu um sistema de alocação selectivo, que permitisse apenas a entrada de alunos intelectualmente mais capazes. No outro extremo, os Community Colleges deveriam ser instituições abertas, sem restrições e a baixos custos, acessíveis a todos os estudantes com o ensino secundário completo ou com condições para seguir um percurso educativo31.

A Comissão defendeu igualmente um modelo curricular polivalente32 para os Community Colleges, mas colocava especial enfoque na missão vocacional e ocupacional.

Embora a Comissão Carnegie tenha constituído um importante elemento de suporte moral e político ao crescimento dos Community Colleges e do seu projecto vocacional, o suporte de outras instituições e organizações foi também fundamental para o seu sucesso.

29 Fundada em 1967, esta Comissão assumia como principal missão a definição de um plano de política para o desenvolvimento do

ensino superior americano. O modelo proposto pela Comissão teve um impacto positivo na consolidação do projecto vocacional nos Community Colleges.

30 Durante a década de 60, sob a reivindicação social de um acesso mais democrático ao ensino pós-secundário, a grande maioria

dos estados desenvolveu planos de acção para o desenvolvimento dos Community Colleges, entendidos politicamente como uma solução viável de democratização do acesso e promoção de igualdade de oportunidades. O modelo de plano de acção subjacente à grande maioria dos planos desenvolvidos foi o Master Plan desenvolvido para o sistema de ensino pós-secundário californiano – California Master Plan for Higher Education. No âmbito deste plano foi proposto um sistema de ensino hierarquizado e segmentado em três patamares institucionais: Universities, Colleges e Community Colleges, e um processo de distribuição e alocação de estudantes com base na média do seu desempenho escolar. Foi ainda proposto um sistema que de alguma forma permitisse o afastamento de um número elevado de estudantes dos percursos superiores ministrados pelos 4-year Colleges e Universidades. Como forma de efectivar este processo de selecção e distribuição de alunos pelas diferentes trajectórias de ensino, o plano recomendou igualmente a definição de novos critérios de admissão para os Colleges e Universidades, nomeadamente pela implementação de numerus clausus e pela imposição de médias de entrada. Paralelamente, os Community Colleges manter-se-iam abertos ao acesso (sem restrições). Limitando o acesso aos segmentos superiores do sistema, o Master Plan vincou as fronteiras hierárquicas pré-existentes entre as várias instituições, ao mesmo tempo que reforçou o papel dos Community Colleges enquanto instituições filtro ao serviço dos 4-year Colleges e Universidades.

31The Open-Door Colleges: Policies for Community Colleges, Carnegie Commission, June 1970.

32 Por modelo curricular polivalente, a Comissão entendia a disponibilização de um modelo de ofertas educativas diversificado, que

contemplava não apenas percursos de formação vocacional, mas também outros percursos educativos complementares, como por exemplo, a formação propedêutica e outras tipologias de formação de apoio às comunidades sócio-económicas locais.

Neste sentido, o papel das entidades governamentais foi igualmente determinante. Entre 1969 e 1973, o Governo Federal, sob a Administração Nixon, contribuiu com cerca de 6% do pacote orçamental destinado aos Community Colleges (Brint e Karabel, 1989). Para além do reforço financeiro decorrente da implementação de legislação favorável, a Administração Nixon contribuiu igualmente para o reforço dos Community Colleges e do vocacionalismo através da promoção do conceito de “carreira educativa” (carrer education). Subjacente a este novo conceito estava a ideia de que toda a população deveria ter oportunidade de desenvolver uma carreira educativa. Esta questão veio ajudar a desmistificar os programas vocacionais enquanto percursos educativos socialmente segregados e apenas ao serviço dos mais carenciados e intelectualmente menos capazes (Brint e Karabel, 1989).

No apoio institucional e político, os autores destacam igualmente o papel de um conjunto de fundações33 e da própria comunidade empresarial, que após décadas de indiferença, começou a demonstrar interesse pelos Community Colleges e pelo seu projecto vocacional, contribuindo com recursos financeiros substanciais e com o desenvolvimento de parcerias. Entre 1970 e 1975 o suporte destas instituições ascendeu a mais de um milhão de dólares anuais destinados à formação vocacional nos Community Colleges.

O vocacionalismo foi, para muitos, a resposta ideal para uma sociedade ambiciosa, mas social e economicamente desequilibrada, e para um contexto sócio-económico e político particularmente difícil. O vocacionalismo ressurgiu, assim, como uma solução política de democratização do ensino pós-secundário americano, proporcionando, por um lado, maiores oportunidades de acesso, e por outro, permitindo a concretização de expectativas educativas distintas ao ensino académico. Da conjugação destas duas potencialidades, o vocacionalismo veio permitir a gestão da ambição individual de uma forma mais eficaz, garantindo, à partida, a satisfação social (toda a gente conseguiria encontrar o seu lugar na sociedade) e económica (pela satisfação das necessidades de uma estrutura laboral altamente hierarquizada) (Brint e Karabel, 1989).

Durante a década de 70, os Community Colleges viveram um período de expansão e crescimento acentuado. De acordo com os dados do US Bureau of Census (1987), o número de estudantes matriculados quase triplicou, passando de 1,6 milhões em 1970 para 4,5 milhões em 1980, correspondendo a uma evolução de 24% para 41 % dos alunos matriculados no ensino pós-secundário. Grande parte deste crescimento deu-se pela via do seu projecto vocacional, e das consequentes oportunidades geradas por este, através da captação de públicos não-tradicionais, como sejam as minorias étnicas, os indivíduos oriundos de meios

33 Entre 1970 e 1975, 16 fundações forneciam um apoio financeiro de cerca de 1 milhão de dólares anuais para a Associação dos

Community Colleges, sendo que metade destes fundos foi utilizada para financiar programas vocacionais. Entre estas contavam-se a Kellog Foundation, Commonwealth Fund, the Robert Wood Johnson Foundation, the Alfred Sloan Foundation, the Aerospace Foundation e a National Science Foundation (Brint e Karabel, 1989).

sócio-económicos desfavorecidos e os indivíduos em idade não-escolar (Brint e Karabel, 1989) (cf. tabela 11).

Tabela 11: Percentagem de estudantes matriculados, pela raça ou etnia, em diferentes instituições de Ensino Superior, Outono de 1978

Grupo Instituições Públicas Instituições Privadas

Universities 4-year Colleges

Community Colleges Universities 4-year Colleges Community Colleges Brancos 19,7 24,8 33,2 6,5 14,6 1,3 Negros 9,7 30,6 39,3 4,3 13,5 2,7 Hispânicos 8,6 25 53,3 4,1 7,9 1,1 Nativos americanos 12,5 22,4 53 2,9 7,1 2,1 Total 18,4 25,2 34,5 6,4 14,1 1,4

Fonte: Brint and Karabel, 1989, pp: 117, adaptado de Austin, 1982

Em inícios da década de 80, a consolidação dos Community Colleges e do seu projecto vocacional no sistema de ensino pós-secundário americano era já uma realidade.