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Interacções e Temperamento

A TEORIA SOCIOCULTURAL DO DESENVOLVIMENTO DE VYGOTSKY

3. O Nível de actividade da criança

3.2. O nível de actividade no contexto escolar

Tendo em consideração os efeitos desta dimensão temperamental ao nível comportamental, de relacionamento interpessoal e de linguagem, que se acabaram de expor, será também provável o seu impacto no contexto escolar. Assim, procuramos perceber como se manifestariam esses efeitos nesse contexto, nomeadamente no que se refere ao desempenho escolar.

Martin (1983, citado por Jewsuwan et ai, 1993) observou crianças no primeiro ano de escolaridade e descobriu que a actividade auto-dirigida e construtiva da criança, estava associada a um baixo nível de actividade e distractibilidade e alta persistência e adaptabilidade. Neste trabalho o autor concluiu que o temperamento é preditivo dos resultados obtidos na leitura e na matemática e que os melhores desempenhos nestas áreas estavam também associados à alta persistência e adaptabilidade, baixa distractibilidade e boa abordagem de situações novas.

Num trabalho posterior, Martin (1989, citado por Rothbart & Ahadi, 1994a) veio também confirmar estes resultados, num estudo onde o temperamento foi avaliado pelo professor. Verificou que o melhor desempenho escolar se encontrava associado a uma alta persistência e a um baixo nível de actividade e distractibilidade. O autor refere relações longitudinais negativas entre nível de actividade temperamental e desempenho na leitura e no cálculo; inversamente, indica relações positivas entre a persistência e os resultados do desempenho nessas áreas.

No entanto, considera também existir uma relação entre o temperamento da criança e a percepção do professor relativamente à capacidade de ela aprender; o autor levanta como hipótese que a percepção do professor acerca da situação de aprendizagem, privilegie a criança que é capaz de estar fisicamente tão imóvel quanto possível, dado que o movimento motor amplo pode impedir a sua atenção para a aprendizagem e/ou pode criar estimulação ambiental que perturba a atenção de outros. No entanto, conclui que esta associação não está ainda firmemente estabelecida (Keog, 1989; Martin, 1989; citados por Rothbart et ai, 1994a).

Capítulo 3-O Temperamento

As características temperamentais da criança, podem também influenciar as atitudes e as expectativas dos professores. Martin (1983, citado por Jewsuwan et a/, 1993) concluiu que as crianças a quem os professores estavam mais ligados eram os mais bem adaptados, mais próximos e persistentes. O grupo menos favorecido correspondia às crianças mais activas e distractíveis. Estes resultados sugerem que uma criança muito activa e distractível tende a evocar reacções negativas por parte dos seus professores.

Este autor acrescenta ainda no âmbito deste seu estudo que as diferenças de comportamento que as crianças revelam na entrada para a escola são muitas vezes atribuídas a imaturidade, mas a imaturidade é insuficiente para explicar esses comportamentos. O temperamento é também um aspecto importante; porque os temperamentos são diferentes, as crianças vão diferir na forma como reagem à separação. As variações são normais e não devem ser categorizadas como boas ou más; pelo contrário, as características temperamentais devem ser acomodadas nos procedimentos profissionais usados para ajudar a criança na entrada para a escola.

Guerin et ai (1994, citado por Guerin, Gottfried & Thomas, 1997) observaram correlações significativas entre os relatos parentais do temperamento das suas crianças e a qualidade de relação estabelecida com os professores no final da infância: as crianças classificadas pelos pais como mais activas, menos adaptáveis, de humor mais negativo, menos persistentes e mais distractíveis, foram referidas como possuindo níveis mais altos de conflito e mais interacções negativas com os professores.

4. Síntese

Segundo Mcintosh e Cole-Love (1996) as investigações na área do temperamento basearam-se no trabalho pioneiro de Thomas e Chess (1977), mas a relação directa e causal entre temperamento e aprendizagem e problemas comportamentais está ainda por determinar. Há, no entanto, consenso relativamente ao facto de o temperamento da criança influenciar as suas transacções pessoais-sociais, reduzindo ou intensificando problemas

Capítulo 3-O Temperamento

potenciais. Assim, após o segundo ano de vida, dado que começa a apresentar maior estabilidade, o temperamento pode predizer o comportamento futuro.

Os modelos de temperamento que explicitamente ligam a acção dos traços com circunstâncias ambientais estão em concordância com o princípio de que os indivíduos são continuamente activos e adaptativos ao longo da vida. A adaptação ocorre relativamente a características temperamentais particulares e às condições de adaptação requeridas. Ou seja, como afirma Rothbart, Ahadi e Hershey (1994b), os sistemas psicobiológicos não são apenas organísmicos, mas também incluem o âmbito físico e social do indivíduo. Assim, as características temperamentais das crianças estão relacionadas de forma preditiva com o desenvolvimento social, na medida em que as diferenças individuais no temperamento têm consequências na forma como o indivíduo percebe e reage ao meio. Assim, terá também consequências na aprendizagem e consequentemente no desenvolvimento e socialização da criança.

CAPÍTULO 4

INTERACÇÕES SOCIAIS E TEMPERAMENTO

1. Introdução

Uma das ideias essenciais que a revisão da literatura apresentada ao longo dos capítulos anteriores permite extrair é que o desenvolvimento não pode ser entendido unicamente como o resultado de uma série de influências externas, mas é sim fruto de um processo complexo no qual coexistem forças internas e externas. Como Palácios et ai (1991) sublinham, se considerarmos que a criança em interacção traz para a actividade conjunta uma dinâmica interna própria, um calendário maturativo e uma história pessoal, teremos também de assumir que esses aspectos irão certamente condicionar os possíveis resultados dessa actividade.

Este capítulo procura explorar aspectos que dizem respeito aos efeitos da variável temperamento nas interacções sociais, interacções estas focalizadas essencialmente na interacção com os pais; no início do capítulo apresenta-se uma análise teórica dos aspectos envolvidos na articulação dois conceitos, que salienta, sobretudo, o papel activo que a criança tem no seu desenvolvimento, bem como o carácter bidireccional das influências mútuas que se estabelecem entre os participantes numa interacção. Os pontos seguintes são relativos, essencialmente, ao resultado de uma revisão da investigação efectuada neste domínio, organizada em torno de dois conceitos, a percepção parental do temperamento da criança, e as respostas parentais que os diferentes traços temperamentais evocam, referindo-se ainda o impacto que estes aspectos têm ao nível das interacções pais-criança.

Capítulo 4 - Interacções Sociais e Temperamento