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Interacções e Temperamento

A TEORIA SOCIOCULTURAL DO DESENVOLVIMENTO DE VYGOTSKY

3. Revisão da investigação

3.2. Respostas parentais e estilos de interacção

As características temperamentais da criança, e as percepções que os pais constróem com base nelas, vão também implicar nestes uma determinada forma de reacção, moldando as suas atitudes disciplinares, o que, por sua vez, irá promover um clima de interacção característico. Apresentamos de seguida

Capitulo 4 - Interacções Sociais e Temperamento

alguns estudos que abordam estas noções, centrando-nos nas atitudes parentais como formas de reacção a determinadas dimensões temperamentais da criança.

Maccoby e Martin (1983) referem um dos estudos mais aprofundados sobre as relações entre o temperamento da criança e a natureza das interacções com os pais; foi elaborado por Bates et ai (1980) com crianças de 6, 13 e 24 meses e permitiu concluir que as mães de crianças com temperamento difícil apresentavam mais comportamentos de controlo do seu filho e encontravam-se nestas díades mais situações de conflito; as mães

usavam mais repetições de proibições ou avisos, bem como afirmações de poder e afastavam os objectos das suas crianças. Por seu lado, as crianças persistiam mais nas situações problema, tendiam a ignorar as tentativas de controlo das mães e reagiam a essas tentativas com protestos.

Também Kuczynski e Kochanska (1995) referem que provocam, nos pais, mais comportamentos de restrição da acção e de controlo de interacções sociais, e menos pressão para um comportamento social competente, as crianças que tendem a resistir-lhes mais activamente.

Katainen et ai (1997) realizaram um estudo sobre a estabilidade e relações entre características de temperamento da criança, como a emocionalidade, a sociabilidade e a actividade, e as práticas maternas. Os resultados mostraram que, nos rapazes, o nível de actividade tendia a aumentar à medida que a tolerância da mãe baixa; nas raparigas, o nível actividade predizia um estilo disciplinar rígido por parte da mãe. Ou seja, os rapazes reagem aumentando o nível de actividade face à hostilidade das mães, enquanto um aumento no nível de actividade, menos tolerada nas raparigas, aumenta as atitudes disciplinares nas mães para com elas. A forma como as mães reagem ao nível de actividade e agressividade dos rapazes é mais tolerante; nas raparigas são encorajados os comportamentos de sociabilidade e a agressão é punida. Também Bell (1979) e Janssen (1988) afirmam que uma criança com um nível de actividade alto, em comparação com uma outra cujo nível de actividade é baixo, elidam nos seus pais mais comportamentos de controlo e de afirmação de poder.

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Entre os 3 e 6 anos, segundo Katainen et ai (1997), a emocionalidade negativa e a baixa sociabilidade nos rapazes prediziam um estilo disciplinar materno rígido, enquanto que nas raparigas eram mais consequências do estilo disciplinar rígido. As crianças com atitudes mais rígidas ou com humor negativo são menos ajudadas pelas suas mães do que as crianças percebidas como mais maleáveis ou positivas no humor. (Dunn & Kendrick, 1980; citados por Allen & Prior, 1995; Lee & Bates, 1983). Segundo Katainen et ai (1997) estas diferenças sistemáticas são indicativas do processo pelo qual os problemas de comportamento se estabelecem. Os comportamentos das mães e crianças do grupo de temperamento fácil tende a ser observado como recíproco, o que não acontece no grupo das crianças difíceis. No entanto, como referem os autores, tornar independente o comportamento negativo da criança e o comportamento da mãe implica uma predisposição intrínseca que é difícil conseguir. Os autores acrescentam ainda que a interacção é mais calorosa e cooperativa nas crianças do grupo de temperamento fácil. No grupo das crianças difíceis, as percepções maternas mais positivas eram características das díades mãe- criança que não referiam problemas comportamentais.

van den Boom e Hoeksma (1994), observaram diferenças no comportamento interactivo das mães de bebés irritáveis e não irritáveis durante os primeiros 6 meses de vida: aos primeiros era dado menos envolvimento visual e físico, um nível muito baixo de estimulação efectiva (vocalizações positivas, estimulação para o jogo, contacto afectivo) e um clima menos agradável. A responsividade materna aos sinais positivos do bebé mantinha-se em níveis baixos até aos 6 meses. Assim, os autores concluem que a irritabilidade infantil parece produzir uma história de comportamento interactivo mãe-criança que é diferente do criado pelos bebés não irritantes.

Estes estudos sublinham a estreita relação entre o temperamento e os cuidados maternos e confirmam que o temperamento da criança pode afectar as atitudes do caregiver para com ela. Todos os trabalhos apresentados revelam claramente influências bidireccionais, isto é, o impacto das

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características da criança nas atitudes do adulto e as consequências dessas atitudes em termos do desenvolvimento daquela.

Os dados mostram também interacções específicas por sexo entre dimensões temperamentais e atitudes maternas. Parecem então estar aqui envolvidas dimensões que têm a ver com ideias parentais estabelecidas a propósito das características típicas de rapazes e raparigas. A este respeito, recordamos os trabalhos desenvolvidos sobre este assunto por Sigel (1985, 1986) e McGillicuddy-DeLisi (1982a, 1982b, 1985). Também Bugental, Caporael e Shennum (1980) salientam que o efeito do comportamento da criança no adulto depende das cognições do adulto e concepções gerais que ele tem sobre a competência da criança. O aumento da ênfase nas influências socio- culturais no desenvolvimento da criança, tanto mediadas através da família, como directamente através de experiências fora do grupo familiar, são, segundo Thomas e Chess (1977), qualquer que seja a idade da criança, compostas por muitos factores, que vão desde os valores, aos padrões e objectivos parentais.

A respeito desta forma de influência, Buss (1981) levanta o problema da sobreposição de aspectos genéticos entre os pais e a criança; apresenta como exemplo sobre esta questão os seus trabalhos sobre excitabilidade; dado que esta é considerada uma disposição de base genética (Buss & Plomin, 1975; Freedman & Freedman, 1969, citado por Buss, 1981) o autor sublinha que pode esperar-se que as crianças mais excitáveis tendam a evocar mais expressões de aborrecimento nos pais, do que as menos excitáveis, porque os pais daquelas crianças poderão ser eles mesmos mais excitáveis do que a média. Consequentemente, as expressões de aborrecimento parental podem ser função de um limiar baixo de tolerância, bem como uma reacção a um alto nível de excitabilidade exibido pela criança.

Maccoby e Martin (1983) referem um outro aspecto que, em sua opinião, revela ainda maior complexidade na abordagem desta temática. Segundo estes autores, os participantes numa interacção não reagem somente àquilo que o outro faz numa dada situação, mas sim à sua interpretação daquilo que o outro está a fazer ou à sua antecipação daquilo que poderá fazer. Cada um traz para

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a interacção a sua história das interacções com outro, atribui traços ao outro e faz a avaliação desses traços.

Os factores genéticos que contribuem para as diferenças de comportamento entre crianças podem também contribuir para diferenças no comportamento dos seus pais para com elas e consequentemente a relação temperamento-meio é um processo transaccional e não é fácil interpretar a direcção dos efeitos. O uso de dimensões simples, como a emocionalidade negativa, ou globais, como um temperamento difícil, pode não revelar relações significativas entre dimensões distintas de temperamento e ambiente de cuidados à criança (Katainen et ai, 1997).

4. Síntese

Os adultos, tal como as crianças, têm capacidade e flexibilidade para responder de forma diferenciada e selectiva a uma grande variedade de situações externas, salvo se forem portadores de uma perturbação mental acentuada (Thomas & Chess, 1977). Assim, o comportamento dos adultos em geral para com as crianças, e em termos mais específicos as atitudes parentais, não são vistos, nesta linha, como sendo determinados por padrões de personalidade inteiramente formados e pré-existentes. Como os autores referem, em cada momento a resposta é moldada por aspectos da estrutura da personalidade individual, que não é homogénea, global ou insensitiva à natureza da realidade externa. Estudos longitudinais provam que um traço específico do temperamento da criança pode afectar a atitude e comportamento dos pais de muitas maneiras; foi possível identificar respostas diferenciadas dos pais aos seus filhos com diferentes padrões de temperamento. Os autores constataram também que no período de infância, as respostas parentais são mais frequente e fortemente influenciadas pelo estilo temperamental da criança: fácil ou difícil. O efeito do temperamento da criança no adulto não é determinado de maneira uniforme pela congruência ou falta de congruência dos pais e características das crianças. Por vezes é difícil aos pais entender uma criança com traços temperamentais diferentes dos seus

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(Thomas & Chess, 1977). Como regra geral a natureza da resposta dos pais ao temperamento da criança foi determinada não só pelo grau de congruência com as suas próprias características de personalidade como também pela consonância nos objectivos e valores. Assim, a necessidade de os pais conhecerem e respeitarem o temperamento dos seus filhos é um aspecto essencial.

Pelo conjunto de todos os elementos presentes e suas inter-conexões, Thomas e Chess (1977) concluem que a relação entre pais e criança é tão fundamental e complexa que é impossível, de forma breve, abordar todas as suas possíveis manifestações mesmo na área do temperamento da criança e do seu papel na interacção pais-criança.

PARTE II

Interacções Educadora-Criança e Temperamento