• Nenhum resultado encontrado

2. Os pilares teóricos e a “teoria geral do processo”

3.1. O que o ceticismo moderado é (e o que ele não é)

3.1. O que o ceticismo moderado é (e o que ele não é)

Dessa forma, o presente tópico se destina a aproximar o leitor daquilo que é aqui concebido como “ceticismo moderado”, com importância flagrante. É que, ao afirmarmos que essa leitura pode contribuir para o aprimoramento do processo, há algumas questões que surgem de maneira lógica: o que é essa abordagem? Quais são os seus diferenciais?

Iniciando essa investigação, podemos estabelecer de um modo geral que o approach

proposto possui como principal objetivo permitir que o discurso processual civil se aproxime

da sua aplicação concreta; viabilizar que os livros se alinhem à realidade, unindo as pontas em favor da atuação jurisdicional. Para tanto, a sua chave-mestra é a desconstrução, estabelecendo um percurso que rompe a apatia por meio de juízos mais críticos do que os tradicionais.

Nesse sentido, falar ceticamente no processo civil é colocar dúvidas sobre as certezas existentes em seu campo, percebendo a possibilidade de que toda afirmação absoluta seja esvaziada; é romper a imagem de naturalidade que marca a sua atual conformação, reconhecendo sua condição ilusória

164

. É, enfim, desestabilizar cada argumento de verdade relacionado à matéria, desmontando sua compreensão clássica e expondo a relevância de que o seu estudo adote também outros pontos de vista.

Com essas primeiras linhas, esboçando o que o ceticismo moderado é, podemos também tracejar o que ele não é. Para evitar possíveis ambiguidades, destaca-se de forma clara: não se trata de um ceticismo sistemático ou epistêmico, enquanto negativa filosófica da própria possibilidade de conhecimento

165

; não se trata de ser cético em sentido pirrônico, problematizando-se toda forma de conhecimento

166

. Não é esse o sentido atribuído ao termo, razão pela qual para os presentes fins essa polissemia deve ser rechaçada.

Desse modo, não pretendemos negar a possibilidade de que se construam discursos aceitáveis relacionados ao processo civil, ou defender uma descrença radical quanto ao seu conhecimento. Além de não ser esse o nosso propósito, devemos lembrar que ele dificilmente escaparia da contradição performativa: caso refutássemos qualquer chance de estudo sobre o processo, por qual motivo alguém deveria aceitar o presente trabalho, que nada mais é do que

164 Nas palavras de Bourdieu (1930-2002), “o sociólogo nunca conseguirá acabar com a sociologia espontânea e deve se impor uma polêmica incessante contra as evidências ofuscantes que proporcionam, sem grandes esforços, a ilusão do saber imediato e de sua riqueza insuperável. Sua dificuldade em estabelecer, entre a percepção e a ciência, a separação que, para o físico, exprime-se por uma oposição nítida entre o laboratório e a vida cotidiana, é tanto maior pelo fato de não conseguir encontrar, em sua herança teórica, os instrumentos que lhe permitiriam recusar radicalmente a linguagem corrente e as noções comuns”. Disso, conclui-se que o fato deve ser conquistado, construído e constatado. BOURDIEU, Pierre. A Profissão de Sociólogo. 3 ed. Trad.

Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Editora Vozes, 2002. p.23.

165 Na descrição de Hessen (1889-1971), “o dogmatismo converte-se muitas vezes no seu contrário: o cepticismo (...) enquanto que aquele considera a possibilidade de um contacto entre o sujeito e o objecto como algo compreensível por si mesmo, este nega essa possibilidade. Segundo o cepticismo, o sujeito não pode apreender o objecto O conhecimento, no sentido de uma apreensão real do objecto, é impossível para ele. Portanto, não devemos formular qualquer juízo, mas sim abster-nos totalmente de julgar”. HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. Trad. António Correia. 7 ed. Coimbra: Armênio Amado Editora, 1980. p.40.

166 “O cepticismo encontra-se, principalmente, na antiguidade. O seu fundador é PIRRÓN DE ELIS (360-270).

Segundo ele, não se consegue chegar a um contacto do sujeito com o objecto. À consciência cognoscente é impossível apreender o seu objecto. Não há conhecimento. De dois juízos contraditórios, um é, finalmente, tão exactamente verdadeiro como o outro. Isto significa uma negação das leis lógicas do pensamento, especialmente do princípio de contradição. Como não existem conhecimento nem juízo verdadeiros, PIRRÓN recomenda a abstenção de todo o juízo”. Idem. p.41-42.

um estudo sobre o processo? O que justificaria sua existência

167

?

Em verdade, a análise que se inicia concebe o ceticismo como parâmetro de conduta; como método; “como perspectiva, e não como teoria”

168

. Aproximamo-nos, com isso, de noção já trazida por Posner a respeito do tema, e merecedora de transcrição: “meu ceticismo é mais um estado de espírito ou uma atitude – uma disposição a enfrentar pretensões de certeza, a questionar afirmações poderosas (mesmo as minhas próprias) (...) e a não crer em entidades absolutas e não observáveis – do que uma teoria”

169

. É por esse motivo que falamos em “ceticismo moderado”: não se nega que o objeto possa ser conhecido, mas acredita-se que a incredulidade pode ser uma trilha necessária para a sua cognição.

Partindo desse viés, o caminho metodológico apresentado não obsta que se defendam alternativas para o processo civil e para os seus postulados. É assim, por exemplo, que o próprio Posner parte desse comportamento para construir seu pragmatismo moderado (ou praticalismo

170

), sustentando que o campo jurídico deve estar prospectivamente voltado à procura de ações mais efetivas

171

. A leitura não exclui esse discurso, possuindo um enfoque imediato mais limitado: defender uma conduta avessa ao conformismo com a dogmática tradicional e com a sua aparência auto-evidente. Firmada essa premissa, abre-se espaço para eventuais reconstruções.

Do mesmo modo, a postura moderadamente cética também não impede que se sustente a superioridade contingencial de determinado aspecto para o processo. O que se torna

167 “É evidente que o cepticismo radical ou absoluto se anula a si próprio. Afirma que o conhecimento é impossível. Mas com isto exprime um conhecimento. Por consequência, considera o conhecimento como possível de facto e, no entando, afirma simultâneamente que é impossível. O cepticismo cai, pois, numa contradição consigo próprio”. Idem. p.43.

168 POSNER, Richard A. The Jurisprudence of Skepticism. In. Michigan Law Review. v.86. Michigan:

University of Michigan Law School, 1988. p.829.

169 “My own skepticism is a mood or attitude - a disposition to scoff at pretensions to certainty, to question claims (even my own) (…) and to disbelieve in absolutes and unobservable entities - rather than a theory”. Idem.

ibidem.

170 “O pragmatismo de Posner não é um pragmatismo filosófico; é um praticalismo. É a arte de viver sem fundações. Ao se filiar ao pragmatismo jurídico, Posner abandonou completamente a possibilidade de que possa haver uma metafísica para o direito. O direito é para Posner algo instrumental e algo orientado para o futuro, mas mesmo o instrumentalismo não deve ser, diz Posner, guia para o direito. É possível optar-se por ser formalista – talvez até extremamente formalista – em bases pragmáticas. Se formalismo funcionar melhor, então sejamos formais”. SALAMA, Bruno Meyerhof. Direito, Justiça e Eficiência: a Perspectiva de Richard Posner.

Disponível em <http://works.bepress.com/bruno_meyerhof_salama/30/>. Acesso em 10 de janeiro de 2016.

171 Descrevendo a postura, o autor assim expõe: “the brand of pragmatism that I like emphasizes the scientific virtues (open-minded, no-nonsense inquiry), elevates the process of inquiry over the results of inquiry, prefers ferment to stasis, dislikes distinctions that make no practical difference—in other words, dislikes

"metaphysics"—is doubtful of finding "objective truth" in any area of inquiry, is uninterested in creating an adequate philosophical foundation for its thought and action, likes experimentation, likes to kick sacred cows, and - within the bounds of prudence - prefers shaping the future to maintaining continuity with the past. So I am speaking of an attitude rather than a dogma; an attitude whose "common denominator" is "a future-oriented instrumentalism that tries to deploy thought as a weapon to enable more effective action””. POSNER, Richard A.

The Problems of Jurisprudence. Cambridge: Harvard University Press, 1990. p.28.

necessário é que, nesse percurso, haja espaço para dúvidas e para alinhamentos entre premissas. Uma vez mais com Posner, “se um relógio não está funcionando, ele deve ser consertado. Nesse exemplo, o “deve ser” decorre de duas constatações: o relógio não estar funcionando, e a função do relógio ser apontar o horário”

172

. Ato contínuo, caso se defendesse que o relógio passou a ter escopo meramente decorativo, também a conclusão poderia ser diversa.

Enfim, ao adotarmos esse viés, procuramos conferir um novo suporte para o exame do direito processual civil. Mais que uma crítica a determinado instituto da matéria, trata-se de perceber que também aqui não há espaço para a imposição de argumentos míticos ou de conceitos “naturais”; de caminhar na contramão de quaisquer discursos (pretensamente) absolutos. Nesse sentido, pretendemos indicar que o processo civil não pode ser visto como um campo sempre compatível com certezas e com verdades, mas como um cenário propenso a escolhas e a interrogações.

Em suas linhas centrais, é esse o postulado que se espera trazer ao longo das próximas páginas, conduzindo a uma opção mais crítica e realista para o estudo do tema; a um percurso de dúvidas e de indagações. Afinal, o que é o processo civil? Quais são os seus objetivos e suas possibilidades? Existem limites objetivos ou teóricos para a disciplina? Como isso impacta suas garantias e sua atuação?

O leitor que nos acompanhar no curso da tese certamente se deparará com problemas

dessa natureza. E, de regra, verá algumas ressalvas às respostas usualmente fornecidas por

uma abordagem mais ortodoxa e convencional.

Outline

Documentos relacionados