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O “queixado” e a “queixada”: agentes da cena

Os espaços privados, historicamente definidos como “o lugar das mulheres”, assim como os espaços públicos, reservados aos homens, definem os cenários da VCM na zona urbana e também na zona rural10 de Conceição do Coité. A área de maior incidência, com mais de 60% das cenas analisadas, foi a zona urbana, o que não significa que a zona rural seja menos violenta em relação às

9 O empoderamento feminino é aqui interpretado como “[...] a alteração radical dos processos e estruturas que reduzem a posição de subordinação das mulheres como gênero”. (COsta, 2005, p. 7) na visão feminista de empoderamento, uma pessoa não empodera a outra, pois o empoderamento feminino exige a consciência crítica e a autonomia da mulher para agir, reagir e transformar as estruturas que lhe oprimem.

10 levando em conta as palavras do responsável pela invenção do nordeste citadas acima, utilizei o endereço da mulher protagonista da cena, a que sofreu a violência denunciada, para definir o sentido das categorias “urbana” e “rural”. sem entrar na discussão da geografia ou mesmo da história, o sentido aqui atribuído é dado pelos sujeitos que vivem e constroem o lugar, ou seja, homens e mulheres com os quais dialoguei durante o processo da pesquisa e pela minha própria experiência como moradora/eleitora da zona urbana de Conceição do Coité - Ba. assim, a categoria zona urbana compreende a sede, os bairros centrais e periféricos da cidade, e a categoria zona rural compreende o seu entorno, formado pelo distrito de salgadália e pelos povoados.

mulheres, principalmente se levarmos em conta as dificuldades específicas das moradoras da zona rural para formalizar uma de- núncia na delegacia de Conceição do Coité, ação que exige uma logística nem sempre acessível para uma mulher em situação de violência.

Conceição do Coité, como lugar de produção de VCM, tanto na zona rural como na zona urbana, é marcador que condiciona a percepção do mundo circundante e o pensamento que a constrói, funcionando como um crivo através do qual o mundo é apreendi- do pelo sujeito. Nessa perspectiva, o espaço da violência é com- preendido como eixo de subordinação na construção do sujeito que a pratica e vivencia.

O pertencimento de Conceição do Coité a um território de Identidade evidencia marcadores sociais estigmatizantes do espa- ço e constrói uma violência comum a toda a sua população, cujo efeito é especialmente sentido pela massa de homens e mulheres pobres, brancos e negros, analfabetos, ou com baixa escolaridade, que buscam a vida em grandes centros urbanos, como o fizeram as levas de trabalhadores rurais, fugindo das secas que castigaram sertanejos e sertanejas da região sisaleira do nordeste baiano. Essa violência é definida por Albuquerque Júnior (2007) como “pre- conceito de lugar”.11

Os diversos preconceitos que constroem e estigmatizam tanto as mulheres como os homens de Conceição do Coité, carecem de investigação. Mas as imagens difundidas por Euclides da Cunha (2002) de sertanejos, especialmente das sertanejas, ainda se fazem presentes no imaginário social como insumos para preconceitos,

11 O preconceito, quanto à origem geográfica, é justamente aquele que marca alguém pelo simples fato deste pertencer ou advir de um território, de um espaço, de um lugar, de uma vida, de uma cidade, de uma província, de um estado, de uma região, de uma nação, de um país, de um continente considerado por outro ou outra, quase sempre mais poderoso, mais poderosa, como sendo inferior, rústico, bárbaro, selvagem, atrasado, subdesenvolvido, menor, menos civilizado, inóspito, habitado por um povo cruel, feio, ignorante, racialmente ou culturalmente inferior. (alBUQUerQUe JÚniOr, 2007, p. 11)

uma vez que o sujeito é produzido pela linguagem, que institui o real, e o estereótipo é a deformação do real.12

Muito embora as queixas analisadas não permitam construir uma imagem física ou psicológica dos protagonistas das cenas de violências analisadas, é possível afirmar que o movimento por um Sertão mais justo13 ressignificou a imagem da sertaneja e construiu mulheres de “fibra e resistência”. Essa nova imagem é norteadora do esboço de um perfil aqui traçado das mulheres que romperam o silêncio em torno da VCM, em Conceição do Coité. Por sua vez, a imagem do agressor da violência denunciada, diante do meu olhar estrangeiro, marcado pelos meus próprios preconceitos de lugar e experiências, se encaixa na imagem de “macho” construída por Albuquerque Júnior (2006).14

A ação do “macho”, enquanto agressor de mulher em Con- ceição do Coité, é individual e também grupal, pois os machos constituem bandos que atacam mulheres em diferentes espaços, públicos e privados. O sexo do macho é masculino e também fe- minino, pois o “macho” está no plano das ideias, é um conceito que dá forma ao ser que, independente do sexo, assimila o princí- pio que o constrói.

12 Contrapondo-se ao discurso de Cunha (2002), que constrói imagens de sertanejas medonhas, repulsivas, bruxas, megeras e esquálidas, extravasando nessas imagens sua aversão às figuras femininas (COsta; aras, 2001), albuquerque Júnior (2003), ao falar da invenção do falo, ressalta que a mulher sertaneja ainda é vista como “lutadora e honesta”, seja rica ou, seja, pobre, “cheia de filhos”, que ela cuida com amor e carinho. O autor também ressalta que a mulher sertaneja “provê as necessidades domésticas, trabalha nas pequenas indústrias caseiras e é poderosa auxiliar nos serviços do marido, compatíveis com o sexo, substituindo-o em caso de necessidade, na direção dos negócios e nos trabalhos reclamados”. (alBUQUerQUe JÚniOr, 2003, p. 24) 13 liderado por mulheres de 14 municípios do território do sisal.

14 na perspectiva de albuquerque Júnior (2006), um macho que se preze é agressivo na vida e com as pessoas, se caracteriza pela vontade de poder, de domínio, exige subordinados e subordinações, notadamente das mulheres. Um macho não deixa transparecer publicamente suas emoções e, acima de tudo, não chora, não demonstra franquezas, vacilações, incertezas. Um macho tem opiniões firmes e incontestáveis, tem uma só palavra, não aceita ser contrariado ou contestado, notadamente por mulheres. Um macho não adoece, não tem fragilidades nem físicas, nem emocionais, frescuras. Um macho sempre sabe o que faz, aonde quer chegar e ai daquele que se colocar em seu caminho. Um macho é um ser competitivo, está sempre disputando com outros machos a posse das coisas e das pessoas. Um macho é objetivo, racional, até frio e cruel, calculista, não se deixando levar por sentimentos. Um macho é desleixado, sem vaidade, é um homem natura.

Os “machos” agressores são identificados nas queixas como “o queixado” e a “queixada”. De acordo com Saffioti (1995, p. 32), o “[...] gênero constitui uma verdadeira gramática sexual, nor- matizando condutas masculinas e femininas”. Nessa perspecti- va, com a qual concordo, entendendo que a referida gramática é construída por uma sociedade racializada e heterossexualizada, são os homens que na vida cotidiana fixam os limites da atuação das mulheres e determinam as regras do jogo pela sua disputa, caracterizando assim o falocentrismo da sociedade, que torna os homens os principais agressores das mulheres.

A presença de mulheres na condição de agressoras evidencia que homens e mulheres se agridem e isso confirma a violência como um fenômeno plural, sem o determinismo de mão única que atribui ao homem o papel de agressor e à mulher a condição de vítima exclusiva dos homens. Essa noção reforça a construção da VCM como um elemento constitutivo da ordem falocrática que constrói a supremacia do homem branco, adulto e heterossexu- al. Sob esse olhar, a mulher agressora de outra mulher é compre- endida como uma reprodutora da referida ordem, um agente do “pensamento hetero”,15 que escraviza as mulheres.

No que diz respeito à idade, ao estado civil e à procedência desses sujeitos, é grande o silêncio da fonte; nenhuma delas traz esse tipo de informação, o que inviabiliza a tentativa de constru- ção de um contorno do perfil desses sujeitos.

15 O “pensamento hetero” é apresentado por M. Wittig (1980) como um fenômeno que divide a sociedade entre homens e mulheres, faz da linguagem um forte instrumento de dominação dos sistemas teóricos modernos e das ciências sociais. a partir da linguagem, que produz, reproduz e difunde discursos que se interpenetram, reforçam-se, auto-originam-se e dão origem uns aos outros, a sociedade heterossexual é fundamentada pelo “pensamento hetero”. nessa perspectiva, é o discurso que homogeneíza os sujeitos e produz uma leitura científica da realidade social, tomando por certo que a base de qualquer sociedade é a heterossexualidade.