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O Raiar do Sol: representações de poder à entrada episcopal

Por alguns instantes, Faetonte sentiu-se senhor do mundo. Terras, povos e nações desfilavam abaixo de seus pés, recebendo as benesses dos raios que seu carro emitia. A Queda de Faetonte

Dom frei Manoel da Cruz bem procurara esquivar-se da excessiva pompa preparada para sua Entrada Triunfal. Ordens régias, no entanto, ditavam que tudo fosse preparado com a máxima solenidade14. Não é de se estranhar a exigência de dom João V. Na Europa, vicejava longa tradição

festiva, que estabelecia a magnificência como palavra-chave15. Montesquieu, Bossuet e outros

teóricos políticos coevos atribuíram importante função política ao esplendor cerimonial: impactar o observador, suscitar respeito e obediência. Um estudioso alemão observara, à altura de 1720, que, entre as gentes do povo, a imagem e as impressões físicas impactavam mais do que a própria linguagem, dependente que era esta última da razão e do intelecto16.

Decerto tais ideias influenciariam Francisco Gomes da Cruz – importante organizador do cortejo do Áureo Trono Episcopal. O relato descreve rica síntese cerimonial, a combinar palavra e cenografia. A chegada do Bispo ainda enfermo foi saudada com três dias de luminárias na cidade; em arquitetura luminosa eram projetadas cruz e estrela, ladeando mitra e báculo episcopal em torno da Catedral. Dezenas de ministros régios haviam ido receber o prelado e oficiais de Ordenanças lhe fizeram as honras. Enquanto o bispo abstinha-se de visitas, a organização cuidava da elaboração do cortejo, que se abriu em 28 de novembro de 1748:

A estas alegres danças seguia-se o primeiro carro triunfante tão cheio de primor, e lustre que o seu Autor empenhado fazendo-o andar pelos ares entre nuvens de diáfanas safiras, parece que quis despojar a quarta esfera do carro de Apolo. E não me engano: porque aquele andante ou movido sólio sustentava a Mitra do Sol, ou o Sol Mithren, como glorioso hieróglifo do Preclaro Pontífice Marianense17

Essa dança de índios sucedia um figurante que levava, sobre uma nuvem, uma Mitra decorada de estrelas com a inscrição bíblica Splendor ejus, ut lux erit 18. Outras passagens bíblicas

se referiam ao esplendor da hierarquia celeste: Aulae esplendor e Conttulit ei splendor; Collatus honore e Dabo tibi stellam19. Predominante entre os emblemas, o sol remetia à luz, à Suprema

Sabedoria, ao Princípio Divino e à Doutrina a ser ensinada aos gentios da terra. Como antonomásia do bispo, o sol, associado ao ouro, reforçava a ideia de sua incorruptibilidade20.

O solene tríduo em honra a Nossa Senhora da Assunção, padroeira do Bispado, seria outro ponto alto. Na ocasião, o Dr. José de Andrade e Morais apresentara as justificativas teológicas para a transmutação do orago de Nossa Senhora da Conceição, da antiga igreja paroquial, para o de Nossa Senhora da Assunção, tradicionalmente destinado a todas as igrejas catedrais. Seriam dois fundamentos: canônico e teológico. O primeiro, da bula Candor Lucis Aeternae, de 1745, na qual

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Bento XIV sancionava a criação da Diocese de Mariana. O segundo, por ordem de sucessão: a Graça, que acompanhava Maria desde a sua pura concepção, precedia a Glória Celeste da sua Assunção aos céus. A construção se concluía com a exaltação da autoridade episcopal:

Senhores, quereis conhecer como a geração de Maria foi pura? Pois olhai para a geração de Jacob. Jacob gerou doze filhos (...) e tanto os filhos como os pais parecem coisa celeste. O pai é um sol; porque assim como o Sol é o maior astro, e a todos comunica lustres, assim Jacob foi o maior Príncipe entre seus filhos e os encheu de lustre a todos21.

Jacob seria o correspondente bíblico do bispo, expressando as expectativas de que formasse luminosa linhagem de sacerdotes. O número quatorze dos cônegos do cabido remetia à soma resultante dos doze filhos gerados e dos dois adotados pelo patriarca hebreu. O décimo- quinto degrau da escada do sonho de Jacob seria o bispo, que assumia Mariana após sete anos de trabalho no Maranhão, como Jacob trabalhara sete para Labão22. Essa exaltação da autoridade

episcopal apresentava-se também em versos e cânticos do Cortejo do Áureo Trono, dando encadeamento aos eventos da festividade e reforçando o cerne das discussões contrarreformistas: a autoridade.

Essa perspectiva também possibilitava que as representações de honra e poder migrassem dialeticamente para o extremo oposto: fragilidade, tribulação, privação de Deus, confirmando a tendência barroca de imbricar tropos de glória e dor23. No cortejo, um pelicano assentado sobre

um ninho de flores tinha o peito rasgado e bicado por três passarinhos - alusão ao amor paternal de Cristo24. Prefiguravam-se, dessa forma, tópicas pastorais tridentinas: o sacrifício era valorizado

nas pregações jesuíticas tão apreciadas por dom frei Manoel, e encontrava base no Concílio de Trento e nos Exercícios Espirituais. Antigos textos da literatura cristã, anteriores a Trento e escritos para monges, destacavam também o sentido cristão do sofrimento25.

Finalmente, sucedendo-se ao rico desfile de emblemas, Dom Frei Manoel da Cruz surgia a ostentar os símbolos de sua autoridade apostólica26. Encontrava-se, por outro lado, guarnecido

pelos representantes do rei27. A cena, nada fortuita, lembrava o Padroado Régio Ultramarino

confirmado pelo Concílio de Trento; teatralizava a harmonia da aliança entre Estado e Igreja. A presença cerimonial dos dignitários reais, a um só tempo, forjava a ilusão de ubiquidade do rei naquelas possessões e lembrava o estatuto do bispo como membro do seu real conselho28. Os

impasses de tal situação nem de longe se insinuariam no cortejo29: os ministros reais haviam ido

ao encontro do Bispo desde Vila Rica, quando, combalido, entrara pela primeira vez à cidade, transportado em sua liteira30.

Iniciando na capela de São Gonçalo a cerimônia de investidura, o prelado retomaria sobrepeliz, amito, alva, cíngulo, cruz peitoral, estola, capa, pluvial, anel e mitra. No percurso até a catedral, o ouvidor de Vila Rica lhe seguraria a cauda do manto. Após incensar o Governador e ouvir o Te Deum, Sua Excelência subiu ao trono e “recebeu geralmente a obediência de todo o Estado Eclesiástico e Secular”31. Doravante, nas cerimônias religiosas, com símbolos de autoridade

da cátedra episcopal, exigiram dos representantes da Coroa decoro nos ofícios religiosos, conforme o estilo lisboeta. Conflitos não tardariam a contestar as joias de urbanidade exibidas na festa do Áureo Trono, obscurecendo o festivo pacto. Ao mesmo tempo, o prelado desenvolveria a tarefa

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evangelizadora, lançando bases para a construção e reafirmação de um discurso pastoral propagado em todo o bispado. A mensagem pastoral encontraria veículo privilegiado de propagação nas cartas pastorais.