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O suposto decréscimo da capacidade produtiva

O art. 3.º, IV, da Constituição Federal, que traz os objetivos da República, repele com veemência tratamento diferenciado ou exclusão motivados por preconceito em razão da idade, inclusive. A despeito disso, a prática discriminatória encontra nas relações trabalhistas um ambiente muito propício para se desenvolver, e um dos seus alvos preferenciais é o idoso.

Segundo o conceito usual, discriminar é estabelecer diferença, distinguir, separar. A sua etimologia, de origem anglo-americana, revela o caráter infundado de uma distinção. Assim, discriminar pressupõe um tratamento diferenciado comparativamente desfavorável. O ato de discriminar é, pois, composto pelos seguintes elementos: a) o preconceito ou pré-juízo, que consiste em julgar ou conceituar alguém mediante uma generalização, uma banalização ou mistificação; b) a separação, que é o ato de distinguir entre as dimensões dos diversos indivíduos e dos seus respectivos grupos; c) a personificação, que é o estigma que agrega à identidade das pessoas aquele traço extrínseco, exterior. 228

Embora os estudos comprovem que o avanço da idade não determina a deterioração da inteligência, pois ela está associada à educação, ao padrão de vida, à vitalidade física, mental e emocional, ainda há muito que se desmistificar a esse respeito. Sendo o envelhecimento um processo pessoal, individual, não se pode generalizar e estigmatizar as pessoas tendo por base sua idade, porque ele pode ter múltiplas feições.

A generalização é falsa. Os idosos podem ser mais lentos ou menos vigorosos, mas compensam com a maior experiência e a confiança no próprio trabalho. O que se deve fazer é empregá-los em funções adaptadas

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VIANA, Márcio Túlio; RENAULT, Luiz Otávio Linhares. Discriminação. São Paulo: LTr, 2000, p. 39.

às suas qualidades. Não há estudo que comprove que eles são piores no trabalho que os outros. Isso vale apenas para a minoria dos casos. O problema é que, quando você convence alguém de que ele não consegue mais trabalhar, ele realmente não vai mais conseguir. É o que se faz hoje em dia com as pessoas mais velhas.229

Rifkin antevê um novo mundo de vidro e silício, com redes de comunicação global e super-rodovias da informação, ciberespaço e realidade virtual, produtividade elevadíssima, fábricas automatizadas e escritórios eletrônicos, e cogita que o preço do ingresso para esse admirável novo mundo seja a reeducação e o retreinamento. Mas adverte:

De fato, estamos passando por uma grande transformação histórica rumo à Terceira Revolução Industrial e nos encaminhando inexoravelmente para um mundo quase sem trabalhadores. O hardware e o software já existem para apressar nossa passagem para uma civilização de silício. A questão, ainda não resolvida, é quantos seres humanos serão deixados para trás nessa etapa final da jornada industrial e que tipo de mundo espera os que chegarem do outro lado.230

É de se lembrar que os idosos de hoje já haviam concluído sua formação e já ocupavam seus postos no mercado de trabalho, antes do advento da Era da Informação. Esse atraso no desenvolvimento educacional e intelectual dos idosos atua como potencializador da sua exclusão do mercado de trabalho, em face do processo de intelectualização do trabalho manual proporcionado pelo avanço tecnológico e, conseqüentemente, pelo incremento do trabalho qualificado.

Beauvoir incita: “ao invés de oferecer ao velho um recurso qualquer contra seu destino biológico, garantindo-lhe um porvir póstumo, a sociedade de hoje o rejeita, ainda vivo, para um passado superado”, arrematando que “a aceleração da História transtornou profundamente o relacionamento do homem idoso com suas

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SCHIRRMACHER, Frank. A revolução dos idosos: o que muda no mundo com o aumento da população mais velha. Trad. Maria do Carmo Ventura Wollny. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005, p. 14.

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RIFKIN, Jeremy. O fim dos empregos: o declínio inevitável dos níveis dos empregos e a redução da força global de trabalho. São Paulo: Makron Books, 1995, p. 310.

atividades”231.

A lida profissional tornou-se cada vez mais complexa, fazendo com que o mercado de trabalho formal demande maior domínio do conhecimento tecnológico, vigor físico, celeridade, criatividade etc. A pujança do desenvolvimento e supremacia da tecnologia, o motor da competitividade, a velocidade dos mecanismos de produção e a busca frenética por resultados têm sido fatores de desvalorização e alijamento dos idosos dos postos de trabalho. Isso devido ao estigma social do trabalho moderno, baseado na concepção – nem sempre verdadeira – de que os jovens são os mais produtivos, ágeis, com maior capacidade de adaptação, habilitados, criativos e ousados. É a dura realidade de um mercado em que as oportunidades de trabalho são escassas, sobremaneira para o idoso, e onde o inimigo pode ser representado por um monstro de duas cabeças, “as forças gêmeas da globalização e da automação”232.

O não-enquadramento nessa moldura estigmatizada é uma sentença prévia de segregação social, e as fileiras da inatividade engrossam até mesmo com pessoas na faixa dos 40 anos233, que passam a integrar o "grupo dos 'idosos precoces' no universo profissional"234. Trata-se do fenômeno denominado "juvenilização do trabalho"235, responsável por grande cota de injustiça social, e que

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BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 119.

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RIFKIN, Jeremy. O fim dos empregos: o declínio inevitável dos níveis dos empregos e a redução da força global de trabalho. São Paulo, Makron Books, 1995, p. 313.

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Inegavelmente, hoje, diante de moldura econômica recessiva, são maiores ainda as dificuldades para obtenção e manutenção dos postos de trabalho por parte dos trabalhadores de faixa etária mais avançada. Por incrível que possa parecer, malgrado o envelhecimento da população brasileira, as pessoas com mais de 40 anos e que se encontram desempregadas se deparam com muito maior resistência para reingressar no mercado de trabalho – se comparada a situação com indivíduos mais jovens. SILVA NETO, Manoel Jorge e. Proteção constitucional dos interesses trabalhistas: difusos, coletivos, e individuais homogêneos. São Paulo: LTr, 2001, p. 173.

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MEDEIROS NETO, Xisto Tiago de. Comentário ao art. 26. In: PINHEIROS, Naide Maria (Coord.). Estatuto do Idoso comentado. Campinas: LZN, 2006, p. 189.

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tem infligido odioso preconceito em relação ao idoso. Deve ser abolida a idéia nefasta de que o aumento da idade – condição natural da passagem do tempo no ciclo da vida – conjuga-se sempre com deficiência, incapacidade, improdutividade.