Engels abre sua obra clássica O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem com uma importante constatação:
O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem. (ENGELS, 2004)
Este breve artigo de Engels constitui uma exposição sucinta sobre a relação entre natureza, homem e trabalho, na qual pode se observar a relação dialética entre essas três categorias. Descreve como o desenvolvimento biológico humano guarda estreita relação com o
desenvolvimento de atividades e habilidades destinadas à sua sobrevivência como espécie, em uma larga trajetória de milhares de anos que nos leva de caminhar sobre quatro membros, até o “[...] passo decisivo: a mão era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade; e essa maior flexibilidade adquirida transmitia-se por herança e aumentava de geração em geração.” (ENGELS, 2004). Porém, essa mão humana que “não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele”, faz parte de um “organismo íntegro e sumamente complexo” (idem) que desenvolvia simultaneamente diferentes partes fisicamente vinculadas ou não à mão, como por exemplo a visão que se desenvolvia pela necessidade de acompanhar as novas destrezas da mão; os ossos das costas que sustentam a postura para enxergar o que as mãos fazem; o cérebro que comanda as partes em desenvolvimento; os pés se desenvolviam pelo caminhar ereto, ou até partes do corpo cuja correlação com o desenvolvimento da mão até hoje não está plenamente explicada (op. cit., passim).
Assim, com o desenvolvimento humano e de seu trabalho, que aprimorava seu domínio sobre a natureza, as manadas de humanos primitivos que melhor se adaptavam iam se ampliando devido justamente às novas propriedades e funcionalidades descobertas na natureza, o que constitui um benefício do trabalho e do acúmulo de conhecimento humano que continua imperante até hoje.
O domínio sobre a natureza, que tivera início com o desenvolvimento da mão, com o trabalho, ia ampliando os horizontes do homem, levando-o a descobrir constantemente nos objetos novas propriedades até então desconhecidas. Por outro lado, o desenvolvimento do trabalho, ao multiplicar os casos de ajuda mútua e de atividade conjunta, e ao mostrar assim as vantagens dessa atividade conjunta para cada indivíduo, tinha que contribuir forçosamente para agrupar ainda mais os membros da sociedade. (ENGELS, 2004).
A crescente complexidade desse homem primitivo e social trouxe consigo mais uma necessidade cuja satisfação levou anos de desenvolvimento natural e constitui uma diferenciação humana: a comunicação e, eventualmente, a palavra articulada. Apesar de ser uma espécie que surge da evolução de outros seres vivos, que se desenvolveu na superfície terrestre como grupos isolados por gigantescas barreiras geográficas, de aparência muito variada e de culturas que pregam valores as vezes diametralmente opostos, constituímos expressões específicas dessa universalidade que é o ser humano, em cuja origem e desenvolvimento o trabalho desempenhou papel destacado. Como explica Lukács,
O gênero humano é em si unitário, mas contém, ao mesmo tempo, a tendência de se realizar faticamente nessa unicidade. As extraordinárias diferenças nitidamente visíveis e constatáveis, mas estas são, em última análise, fundadas no trabalho nascente e em seus resultados, portanto, são de tipo social, e, por isso, não podem
mais levar a diferenciações biológicas de gênero. O fato de que clima, modo e condições de vida etc. produzam também determinadas diferenças biológicas, ou as conservem (por exemplo, cor da pele), não muda em nada de decisivo na tendência principal do processo, no qual se constitui o gênero humano. (2010, p.231)
Portanto, do trabalho manual das manadas primitivas à vida em sociedade e criação do Estado, o trabalho aparece como elemento distintivo da natureza humana em relação às outras espécies e inclusive começa a se destacar como atividade que distingue as diversas sociedades humanas; pois à medida que o homem se desenvolve, naturalmente, seu trabalho também se desenvolve. À medida que se desenvolvia a habilidade humana de transformar a natureza segundo nossos interesses, ou seja, à medida que se desenvolvia a relação do homem com a natureza, desenvolvia-se também a relação entre os homens, em cada região de acordo com seu acúmulo social e com suas riquezas naturais, estabelecendo relações sociais segundo critérios muito específicos - como, por exemplo, “só trabalha quem não é homem nascido na Grécia” - apesar de podermos identificar traços comuns a diferentes sociedades humanas em diferentes períodos históricos - nesse exemplo, o escravismo, que também existia na África, nas Américas e na Ásia em diferentes períodos. Nunca antes tivemos relações sociais tão hegemônicas, tão disseminadas ao mesmo tempo por todo o globo como hoje, o que não nos impede de buscar na nossa história aquelas categorias que nos explicam como “unicidade”. A síntese da relação dialética entre meios de produção e relações sociais nos diferentes momentos da história é o que chamamos de modo de produção, que definem quem, como se produz e com qual objetivo. Um modo de produção não é uma definição completa e acabada de como se relacionam os indivíduos de uma dada sociedade, nem dos instrumentos usados pelos trabalhadores; menos ainda para descrever o indivíduo que trabalha. A categoria nos serve para compreender de forma abstrata o movimento histórico dessa relação, que se transforma tão drasticamente de acordo com o lugar no mundo ou com o tempo onde foi identificada. É ferramenta para compreender o contexto humano no qual se desempenhavam os diferentes tipos de trabalho em sua relação com o desenvolvimento humano, entendê-lo como processo histórico. A passagem a seguir oferece uma síntese desse desenvolvimento histórico:
Graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro, não só em cada indivíduo, mas também na sociedade, os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, a propor-se e alcançar objetivos cada vez mais elevados. O trabalho mesmo se diversificava e aperfeiçoava de geração em geração, estendendo-se cada vez a novas atividades. A caça e à pesca veio juntar-se a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação. Ao lado do comércio e dos ofícios apareceram, finalmente, as artes e as ciências; das tribos saíram as nações e os Estados. Apareceram o direito e a política,
e com eles o reflexo fantástico das coisas no cérebro do homem: a religião. Frente a todas essas criações, que se manifestavam em primeiro lugar como produtos do cérebro e pareciam dominar as sociedades humanas, as produções mais modestas, fruto do trabalho da mão, ficaram relegadas a segundo plano, tanto mais quanto numa fase muito recuada do desenvolvimento da sociedade (por exemplo, já na família primitiva), a cabeça que planejava o trabalho já era capaz de obrigar mãos alheias a realizar o trabalho projetado por ela. (ENGELS, 2004)
Ao final desta citação de Engels está maracado o ponto que constitui o nascimento da sociedade de classes, encerrando o período denominado na ciência marxista como comunismo primitivo e inaugurando a exploração do homem pelo homem. Voltemos um pouco para o comunismo primitivo, para avançar sobre as transformações históricas que o trabalho sofreu antes de chegar ao capitalismo contemporâneo.