4.2 Análise das políticas existentes quanto aos objetivos
4.2.1 Documentos voltados à aprendizagem de línguas estrangeiras
4.2.1.2 Objeto da disciplina “Línguas Estrangeiras”
A análise dos documentos, no que se refere a quais línguas devem ser ensinadas, revelou claramente uma contradição entre as políticas governamentais existentes.
Como vimos no capítulo teórico, o ensino de LE não é previsto para as séries iniciais da Educação Básica, uma vez que a LDB/96 trouxe consigo a obrigatoriedade do ensino de
uma LE, a cargo da comunidade escolar, apenas a partir da 5a série do ensino fundamental (atual sexto ano), na parte diversificada do currículo.
No entanto, legislação posterior, a Resolução 7/2010, admite a possibilidade de inserção de uma LE no currículo, deixando a escolha a cargo das instituições de ensino, nos termos do artigo 31 § 1º: “Nas escolas que optarem por incluir Língua Estrangeira nos anos iniciais do ensino fundamental, o professor deverá ter licenciatura específica no componente curricular.”
A opção por incluir a LE na parte diversificada está em consonância com a ideia de um todo integrado, com respeito à diversidade e culturas locais, previsto na LDB. Nesse sentido, a lei não determina qual língua deve ser ensinada.
Ao contrário da legislação do Império e da República Velha, que era explícita ao estipular quais LE deveriam ser ensinadas, a legislação atual optou por deixar essa escolha “a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição (BRASIL, 1996, art. 26 § 5º).”
No entanto, em 2005, a Lei 11.161, de 5/8/2005 estabeleceu, em seu artigo 1o, que as
escolas devem ofertar, obrigatoriamente, o ensino da Língua Espanhola no ensino médio e, facultativamente no ensino fundamental, a partir da 5a série.
O artigo 10 da Resolução 2 também reforça que, em decorrência de legislação específica, a Língua Espanhola é de oferta obrigatória. Ora, se a LDB prevê que no ensino médio uma LE deve ser ensinada, à escolha da comunidade, e uma lei subsequente impõe o ensino da Língua Espanhola, em outras palavras a lei de 2005 anula a possibilidade de escolha prevista na LDB nesse segmento. A figura abaixo destaca essa contradição entre as normas que regem a língua a ser estudada no contexto escolar:
FIGURA 5- LDB x Lei 11.161
LDB e Resoluções
Pluralidade linguística e escolha da comunidade local
Lei 11.161
Ensino da Língua Espanhola
A questão do pluralismo linguístico, entretanto, está presente nas políticas existentes. Nos PCNEF, está previsto que “em uma política de pluralismo linguístico, condições pragmáticas apontam a necessidade de considerar três fatores para orientar a inclusão de uma determinada LE no currículo: [os] relativos à história, às comunidades locais e à tradição (BRASIL, 1998a, p. 15).”
No entanto, o documento atenta para o fato de que nem sempre se tem a possibilidade concreta de incluir mais de uma LE no currículo, por motivos variados (1998a, p. 21). O documento defende, então, que a inclusão de uma LE deve levar em conta o critério de relevância social.
O documento justifica, por exemplo, a escolha das línguas espanhola e inglesa como objeto de ensino nas escolas do Brasil, tendo em vista o “significado econômico e geopolítico” que elas possuem neste momento histórico (1998a, p. 40).
Já os PCNEM posicionam a LE Moderna na grande área “Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (BRASIL, 2000, p. 7).”
O documento menciona o “monopólio linguístico” da Língua Inglesa nas escolas e defende que essa não deve ser a única opção do aluno. Ressalta também que o Espanhol não deve substituir o inglês como única língua a ser ensinada. No momento da publicação do documento, defendia-se que “não se deve pensar numa espécie de unificação do ensino, mas, sim, no atendimento às diversidades, aos interesses locais e às necessidades do mercado de trabalho no qual se insere ou virá a inserir-se o aluno (2000, p. 27).”
Para isso, o documento defende que a opção de escolha de uma LE, conferida pela LDB à comunidade, é um bom caminho para que a escola atenda as necessidades da comunidade (2000, p. 27).
Os PCN+ (BRASIL, 2002a), ao serem publicados, no entanto, não retomaram essa discussão e trataram a disciplina genericamente, denominando-a “Língua Estrangeira”.
As OCEM (2006), primeiro documento a ser publicado após a promulgação da Lei que instituiu a Língua Espanhola como de oferta obrigatória no ensino médio (Lei 11.161/05), tampouco apresentam uma discussão sobre a pluralidade linguística ou a escolha da comunidade local, discutido nas publicações anteriores. Opta-se, inclusive, por publicar orientações específicas para a Língua Espanhola. Além disso, as OCEM voltadas às “Línguas Estrangeiras” afirmam poderem ser aplicadas a qualquer língua, mas referem-se ao inglês em diversos momentos.
As orientações específicas para o ensino de Língua Espanhola discutem, inclusive, a importância do ensino da língua nas escolas (2006b).
O ENEM também restringe a prova de LE a duas LE específicas, a Língua Inglesa e a Espanhola. Ora, se o exame que avalia o ensino médio elege as duas línguas, é muito provável que essas se tornem as disciplinas escolhidas nas escolas pelo país afora, no chamado “efeito retroativo”57 que um exame de larga escala tem o poder de gerar.
O PNLD também acaba por limitar o objeto de ensino de LE, indo de encontro ao que preconizam a LDB e as resoluções que regulam a Educação Básica. Os materiais didáticos previstos nos Editais do Programa somente preveem as disciplinas Língua Inglesa e Língua Espanhola.
No Edital PNLD 2017, para o ensino fundamental (BRASIL, 2015a), as seguintes disciplinas estão contempladas:
4.1. Serão avaliadas e selecionadas obras didáticas para as áreas Linguagens (Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna (Inglês e Espanhol) e Arte), Ciências da Natureza, Matemática e Ciências Humanas (História, Geografia), destinadas aos professores e estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental.
Segundo o item 3.1 do Edital, a disciplina “Língua Estrangeira Moderna” contempla as Línguas Inglesa e Espanhola, nos termos do que se segue:
3.1. Serão avaliadas e selecionadas obras didáticas para os componentes curriculares de Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Física, Química, Biologia, Sociologia, Filosofia, Língua Estrangeira Moderna (Inglês e Espanhol) destinadas aos alunos do ensino médio. (grifo nosso)
Por fim, o ENADE, que avalia os cursos superiores, até o presente momento só avaliou os cursos de Letras- Língua Espanhola e Língua Inglesa.
Em resumo, no que se refere à escolha do objeto de ensino da disciplina LE, as políticas governamentais realizadas sob a égide da LDB/96 acabaram por dificultar a consecução do seu objetivo maior, o de garantir as especifiidades regionais, o respeito às culturas locais o que, em um país com diversidade bastante acentuada, é bastante problemático. Segue, no quadro 7, um resumo do que foi explicitado nesta subseção.
QUADRO 7- Línguas Estrangeiras no EFund e no EM OBJETO DE
ENSINO
ENSINO FUNDAMENTAL ENSINO MÉDIO LDB LE- parte diversificada
Escolha a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição
LE- parte diversificada
Uma LE obrigatória:
escolhida pela comunidade escolar
Uma LE optativa: dentro das disponibilidades da instituição
PCNEF Língua Estrangeira ---
PCNEM e PCN+ ---
Língua Estrangeira
OCEM --- Inglês ou Espanhol.
PNLD Inglês ou Espanhol. Inglês ou Espanhol.
ENEM Inglês ou Espanhol
Resolução n. 2 base nacional comum e parte
diversificada: um todo integrado
formação que considere a diversidade e as características locais e especificidades regionais.
Resolução n. 4 parte diversificada enriquece e complementa a base nacional comum, prevendo o estudo das características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da comunidade escolar, perpassando todos os tempos e espaços curriculares constituintes do ensino fundamental e do ensino médio, independentemente do ciclo da vida no qual os sujeitos tenham acesso à escola.
parte diversificada enriquece e complementa a base nacional comum, prevendo o estudo das características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da comunidade escolar, perpassando todos os tempos e espaços curriculares constituintes do ensino fundamental e do ensino médio, independentemente do ciclo da vida no qual os sujeitos tenham acesso à escola.
Resolução n. 7 base nacional comum e a parte diversificada
do currículo: todo integrado ---
Lei 11.161 Língua Espanhola de ensino facultativo Língua Espanhola obrigatória (elaborado pela autora)