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4.1 O BRASIL DOS ANOS 90

4.1.2 Explode Coração! Mulheres e culturas

4.1.2.4 Odaísa

Marisa passa a se compadecer de Vera (Maria Luiza Mendonça), filha de Avelar e esposa de Júlio, a quem o pai controlava (Figura 118). Decide advogar para ela quando ela é colocada em um hospital psiquiátrico à sua revelia, para uma sonoterapia. Questiona Eugênia (Françoise Forton) sua passividade perante a agressão cometida à sua prima. “Eu queria que você gritasse, que chamasse a polícia, que fizesse qualquer coisa pra impedir que a Vera fosse arrastada dessa maneira. Imagina, botar alguém a ferros, em uma camisa de força, porque não quer mais continuar no casamento, é absolutamente medieval!”.

Figura 118: Marisa e Vera Fonte: Explode Coração (Globo, 1995)

Marisa não era compreendida por muitos, estranhavam seus discursos e atitudes.

Porém, fica claro que era uma personagem que vinha questionar o status quo da sociedade brasileira da época, levantar questões polêmicas. Fazia isso por meio da comédia, com pequenas falas, mas com significados potentes. Ao final, pede demissão das empresas Avelar e monta um escritório em “defesa dos direitos femininos”.

Figura 119: Odaísa e Gugu na casa dos patrões Figura 120: Odaísa e Gugu voltam pra casa Fonte: Explode Coração (Globo, 1995) Fonte: Explode Coração (Globo, 1995)

Odaísa começa a trabalhar como cabelereira e a participar com mais frequência dos concursos de tango na Estudantina, que lhe trazia algum dinheiro. Seu parceiro na dança era Gaivota (Eri Johnson), por quem era apaixonada, mas o relacionamento era inconstante, brigavam muito. Em uma cena, o homem a chamava de piranha, vagabunda e partia em sua direção, mas fora contido por Sarita, que afirmara que “numa mulher não se bate nem com uma flor”.

Quando Dara resolve deixar a casa dos pais a acolhe por alguns dias em sua residência, mas ressalta que por lá “só tem trabalho de pobre”, não é lugar para ela procurar emprego, afinal, fora criada “acostumada a ter tudo do bom e do melhor, será que eu ia aguentar a vida de pobre?”. Tempos mais tarde, vai visitar Dara que está morando sozinha e se depara com Lola (Eliane Giardini) que lhe dá um tapa na cara e a expulsa da casa da filha. A diferença entre as classes e a relação de poderes é bem evidenciada entra Odaísa e a família de Dara. A primeira tem que trabalhar muito para conseguir criar o filho sozinha, enquanto a segunda vem de uma família de classe média alta e sempre teve tudo. A forma como Lola trata a sua ex-funcionária demonstra o desrespeito e o sentimento de superioridade, revestidos de raiva por ter sido enganada.

Odaísa se envolve com Geraldo (Gracindo Júnior), homem sedutor, mas mau-caráter, que conquista sua confiança para roubar-lhe o filho Gugu (Luiz Claudio Junior)e vendê-lo a um casal estrangeiros. Entretanto, a criança foge e passa a vagar pelas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro até ser encontrada. O desaparecimento de crianças será abordado por Odaísa, que se une às mães da Candelária à procura de seu filho. A autora mescla dramas reais ao ficcional, traz depoimentos de várias mães e termina os capítulos com a foto de uma criança desaparecida.

A ação socioeducativa impulsionou a discussão e a colaboração mútua, diversos empresários começaram a imprimir fotos de desaparecidos em suas embalagens. Dos casos divulgados na trama, 60 crianças foram encontradas. Segundo Perez, em geral, as ações sociais se encerram

com a conclusão da história, mas o envolvimento social em relação às crianças desaparecidas permaneceu por mais tempo na sociedade brasileira (MEMORIA GLOBO, 2008).

Odaísa vai à delegacia dar parte do desaparecimento do filho, mas o delegado não se importa com as súplicas da mãe:

Odaísa: Não está prestando atenção não?

Delegado: Eu estou, eu estou prestando atenção sim, agora vai pra casa que já, já, esse garoto aparece.

Odaísa: Não vai fazer nada?

Delegado: Me diz uma coisa, onde é que a senhora estava quando o garoto desapareceu?

Odaísa: Ora, eu tava trabalhando! Eu sou cabeleireira, eu tava com cliente em casa ajeitando uma peruca.

Delegado: Sei, e larga menino por aí?

Odaísa: Larga não, peraí, larga não porque o Gugu não é nem largado, tá?

Brinca ali na frente de casa, onde todo mundo ver. Toda criança brinca na rua, na frente de casa. O seu filho não brinca não?

Delegado: A senhora vai pra casa que já, já, esse garoto tá chegando lá, tá?

Odaísa: Eu quero registrar queixa agora!

Delegado: Olha aqui minha senhora, queixa de desaparecimento é só depois de 48 horas.

Odaísa: O quê? 48 horas? O meu filho desapareceu e o senhor está me dizendo que vai registrar queixa daqui a 48 horas?

Delegado: Exatamente! Tem que esperar 48 horas pra poder caracterizar a ocorrência, pra ver aí, se foi esse negócio que a senhora tá falando, desaparecimento mesmo.

O diálogo entre os dois expõe a fragilidade das leis brasileiras no que tange ao desaparecimento de pessoas, em especial, de crianças, em que o registro queixa só pode ser realizado 48h após o desaparecimento. Desvela também questões sociais, o descaso do delegado frente a angústia de Odaísa, que chega a culpá-la pelo o desaparecimento do filho. Do mesmo modo em que narra a realidade de muitas mulheres, especialmente as mães solos, das classes mais baixas, que precisam trabalhar e não tem com quem deixar a criança.

Odaísa retorna à delegacia com Sarita após as 48h, mas o desinteresse do delegado pelo caso permanece: “o senhor não vai fazer nada né? Não vai registrar queixa, não vai procurar, não vai fazer nada. Então o senhor aguarde pro senhor ver o que nós vamos fazer”.

Percebe que está sozinha, sem o Estado, e precisa fazer algo para encontrar o filho. Espalha cartazes pelas vizinhanças e junta-se às mães da Candelária (Figura 121).

Figura 121: Odaísa em frente à Candelária com outras mães de crianças desaparecidas Fonte: Explode Coração (Globo, 1995)

Após meses perdido, vagando pelas cidades, Gugu é encontrado e entregue à mãe.

Odaísa termina como vencedora de um concurso de tango com Gaivota, a quem perdoa as desavenças para ser feliz.