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CAPÍTULO III RE-CONTANDO A HISTÓRIA DA APEART

3.1 Primeiro Ato: A Gênese do Fenômeno e da Experiência de Educação (1988 –

3.1.5 Os conflitos emanantes da experiência do PEART

Evidenciam-se conflitos já no primeiro ano de experiência do PEART: de um lado, os conflitos entre a SEED/PR e a equipe de assessoria, supervisão e coordenação do PEART quanto às diferentes estratégias de formação dos monitores; e de outro, os conflitos que começam a ser revelados entre a assessoria pedagógica e a equipe de supervisão e coordenação do Projeto.

Dentro dessa estrutura, você tinha paralelo a ela uma equipe de assessoria e essa equipe de assessoria era composta por professores universitários, alunos, estagiários que pudessem subsidiar tanto com relação a constituição da política pedagógica, como também a condução metodológica do processo educativo e aí o grupo desenvolveu muitas ações e essa assessoria foi fundamental para o processo mas também foi um momento rico de troca de experiências, de debates, de discussões, de opiniões, da diversidade cultural, das teorias diferenciadas contrapostas e aí o que na minha interpretação hoje compreende, havia uma visão muito idealista, isto é, o idealismo era o elemento primordial, a academia vivia uma ilusão pedagógica, isto é, as suas proposições e os elementos que elencavam o conjunto das ações estavam um pouco acima do real, era uma

77 Solange Maria Ferreira foi educadora e sócio-fundadora da APEART. Entrevista realizada em 14/05/2002. 78 Joaquim Pacheco de Lima é assessor da APEART. Foi o primeiro coordenador do PEART em 1993 e 1994 e primeiro presidente da APEART em 1994. Entrevista realizada em 19/04 e 02/05/2002.

visão metafísica, isto é, as suas concepções teóricas são concepções desvinculadas do concreto. [...] O movimento dos trabalhadores se desenvolvia por uma estrada e as proposições desenvolvidas pela assessoria era por uma outra direção, tanto é que a coordenação tinha divergências profundas com a equipe de assessoria [...] isto é, o militante de comunidade tem uma teoria e especificamente a academia, os educadores, os assessores, eles estavam com uma teoria e pra eles aquela teoria era a verdadeira e o senso comum dos educadores de comunidade não tinha muita fundamentação e aí não davam tanto valor. No discurso sim, mas na prática, mas no real não era essa a visão. O que eles queriam era sobrepor uma nova teoria sobre a teoria que os educadores da comunidade tinham e por isso o confronto que houve, mas o que havia por trás era esse debate e choques e conflitos que desdobrou na operacionalização do projeto PEART e que acabou fazendo um descolamento da origem do projeto. (J.P.L.)

a decepção que também é um marco né, [...] daquilo que a gente discutiu não era isso, não era que estava acontecendo, que estava caminhando... um projeto formal mesmo, um projeto do Estado e que eu via naquele momento no final de 93, e fugindo das nossas mãos. Não das nossas mãos como controladora, mas do nosso objetivo que era: o PEART nasceu pra organização política do bóia-fria. A educação formal, o acesso à escola era pra conquista da cidadania dessa pessoa e estava fugindo completamente disso porque as pessoas estavam caminhando pra aquela avaliação do CES. [...] já entrava aquela preocupação de avaliação do CES. As primeiras turmas iriam fazer, algumas iriam, outras não, mas quem é que ia? [...] a minha crítica era muito em relação a isso, que desvirtuou da proposta inicial do trabalho com bóia-fria, da conscientização política do bóia-fria que era um instrumento e que perdeu né e a minha decepção em relação a isso foi uma coisa muito... pra minha militância foi muito grave. (S.M.F.)

Nós não tínhamos assessoria pedagógica por assim dizer. Tinha a diretoria da APEART que acabava se confundindo com a coordenação. Você tinha a coordenação política que acabava se confundindo e que acabava fazendo também a coordenação pedagógica. Eu acho que também por isso havia essa falha em que a própria coordenação política acabava fazendo também a discussão pedagógica [...] acabavam se confundindo em vários momentos porque a discussão pedagógica de planejamento, de elaboração de material, de discussão de temas geradores, de relacionar isso tudo com a conjuntura, ela acabava acontecendo na reunião da coordenação e não no espaço próprio, num espaço específico e acabava se confundindo porque daí você dava a direção política, a direção... e aí era o político que determinava o pedagógico (I.C.D.79

)

Percebe-se a contundência existente nos conflitos internos que vão se explicitando, reflexo das diferenças e divergências emanantes do PEART no período, principalmente no que se refere aos aspectos conceituais entre o acadêmico e o popular, as dicotomias entre o político e o pedagógico, o papel do

79 Isabel Cristina Diniz é sócio-fundadora da APEART, sendo monitora do PEART no ano de 1993, supervisora pedagógica no ano de 1994 e membro da diretoria executiva no período de 1997 a 1999. Foi agricultora familiar na comunidade de Guairacá (patrimônio rural de Londrina) atuando desde 1984 como catequista, coordenadora de CEBs e da pastoral da juventude na Arquidiocese de Londrina. Atua na CPT desde 1989, sendo coordenadora regional e estadual no Paraná, e desde o ano 2000 é membro da coordenação nacional, residindo em Goiânia/GO. Entrevista realizada em 18/07/2002.

assessor e o papel do educador, o espaço da formação e o espaço da organização e da decisão, a relação entre a educação popular e a educação formal (assinalando neste momento o encaminhamento de educandos já alfabetizados que buscam a terminalidade da 4ª série do 1º grau), e também a diversidade de outros sujeitos educandos presentes nas turmas de alfabetização além do bóia-fria, iniciando um processo de descaracterização do Projeto.

Paralela e articulada à crise interna que se estabelece na CPT/PEART referente ao aspecto político-pedagógico, observamos a crise política vivenciada pelos agentes da CPT-PR diante do governo do Estado do Paraná ainda antes da assinatura do primeiro convênio de vigência do PEART que se iniciava. A crise se estabelece em virtude da morte da liderança do MST, o Teixeirinha, brutalmente assassinado por policiais do Batalhão da Polícia Militar do Estado do Paraná, num dos acampamentos do Movimento, ocorrida no dia 08 de março de 1993 (OLIVEIRA, 2002). A celebração da assinatura do convênio entre CPT-PR e a SEED/PR marcada para o dia dez do corrente mês e ano foi adiada tendo em vista a gravidade do fato ocorrido, abalando as relações políticas entre o governo estadual e agentes da CPT, estes últimos apoiados por Bispos do Paraná. Colocando-se no seu papel político-pastoral em posicionar-se em favor dos trabalhadores do campo (buscando denunciar e apurar o assassinato) e entendendo a posição autoritária assumida pelo governo estadual diante do ocorrido, a CPT-PR iniciou um processo de reflexão interna no sentido de repensar sua estratégia de "parceria" junto ao governo Requião frente ao PEART, podendo ser observado pelos relatos dos entrevistados.

Esse caso foi o grande elo de ruptura onde a CPT teve que definir: ou desenvolvia uma ação articulada com o governo Requião ou rompia e ela assumiu a postura de romper com o governo Requião e ela foi ao confronto, ela explicitou [...] o Governo assumiu a defesa da instituição da polícia militar e a CPT assumiu a defesa dos trabalhadores rurais e se deu a ruptura e essa ruptura acabou também rompendo as ações e a interferência do Governo foi com escassez de recursos, não operacionalização de recursos, maior sistema de controle... e aí o recuo também da Igreja Católica nas mediações junto... (D.L.F.80)

nós tínhamos marcado para 10 de março a assinatura do convênio em Curitiba e no dia 8 acontece a execução do Teixeirinha, então foi suspensa toda a negociação e nós ficamos então de março a junho sem o convênio

80 Pe. Dirceu Luíz Fumagalli é atualmente diretor da APEART, sendo também seu presidente no período de 1995 a 1998. Entrevista realizada em 28/01/2002.

assinado. [...] Foi um período muito crítico, muito delicado de negociação porque ao mesmo tempo em que a CPT acreditava e por isso acabou criando esse trabalho que era o projeto de educação dos assalariados rurais, também tinha a outra demanda que era a questão dos trabalhadores rurais sem terra. Se queria ao mesmo tempo estabelecer uma relação de parceria com o Governo do Estado, por um outro lado também, ao acontecer o conflito e o assassinato, resulta também numa postura da CPT que era de enfrentamento e de denúncia do ocorrido frente a opinião pública, frente a sociedade e inclusive perante a justiça. (I.C.D.)

e o que mais me chocou nessa relação é o fato que desencadeou essa relação mais direta com o Estado no repasse de recursos, se não a morte de um trabalhador até onde eu sei, e toda uma reflexão que levava os níveis da CPT e da APEART a pensar: “como é que nós temos um vínculo com um Estado, um vínculo inclusive financeiro, de financiamento das nossas práticas e das nossas ações, sendo que é esse Estado que mata os trabalhadores com os quais nós desenvolvemos um projeto não só de alfabetização mas todos os outros projetos”. Então esse fato me chamou a atenção porque é um fato que coloca pra APEART uma questão de... uma das questões mais fundamentais na sua relação hoje com o Estado: como é que nós podemos criar alternativas através dos projetos, através da própria prática educativa sendo que nós temos como parceiro um Estado que nega e que vai na contramão de tudo aquilo que nós fazemos, acreditamos e temos como princípios. (A.M.F.81

)

Diante do confronto político, observamos que as respostas do governo estadual à CPT-PR serão dadas através do não repasse de recursos para pagamento dos monitores e para a própria estrutura de acompanhamento dos trabalhos do PEART, que neste momento já se encontrava com as turmas de alfabetização organizadas e em atividade, gerando assim, ansiedades e incertezas com o projeto já em execução.

nós ficamos praticamente desde o início de março a junho daquele ano, já com alunos em aula, educadores trabalhando e a gente sem a garantia do convênio [...] a gente via que esse momento muito delicado que foi a questão da morte do Teixeirinha [...] esse momento muito difícil que era você estar com praticamente 100 turmas funcionando, toda a expectativa do pessoal, a expectativa dos próprios trabalhadores na descoberta de começar a ler, aquela coisa mágica e pra nós era muito interessante isso, a descoberta mesmo e esse dilema no medo de não conseguir a garantia, nós não tínhamos garantia nenhuma do convênio e no entanto você tinha lá mais de 100 pessoas direta e pode-se dizer cerca de 180 pessoas indiretamente envolvidas nesse processo, participando, discutindo e o maior receio sempre era aquele de não conseguir garantir a assinatura do convênio. (I.C.D.82)

81 Adriana Menezes Farias foi assessora pedagógica e membro da equipe de coordenação político-pedagógica da APEART, no período de 2000 a 2001. Foi atuante nas pastorais sociais e nas CEBs, sendo também educadora e supervisora pedagógica no Movimento de Alfabetização na Zona Leste do município de São Paulo, na década de 80, atuando também no Partido dos Trabalhadores naquela região. Foi professora da rede municipal de educação de São Paulo e desde 1995 participa do Centro Cida Romano (em São Paulo) compondo sua equipe como educadora e assessora pedagógica. Formada em história (USP), atualmente é mestranda em educação (UNICAMP). Entrevista realizada em 25/07/2002.

82 Isabel Cristina Diniz foi educadora e supervisora pedagógica do PEART e membro da diretoria executiva no período de 1997 a 1999. É membro sócio-fundadora da APEART. Entrevista realizada em 18/07/2002.

Ainda assim, observamos a mescla de expectativas nos meses decorridos, mesmo diante da ausência do convênio assinado, evidenciando a motivação, as várias iniciativas e suas descobertas em torno do processo de alfabetização, bem como a relação que passa a ser construída pelos monitores e as significações que estabelecem com o seu papel e com o seu "salário".

Nesse período o pessoal trabalhou sem receber nada e depois quando em junho a gente conseguiu a assinatura, foi uma coisa muito interessante, só que assim, a gente já tinha uma coisa legal que pra mim é o significativo que era o empenho, a dedicação dos educadores, também nesse período eu era educadora, estava na sala do pessoal e a descoberta que levava você inclusive a pensar assim: “tá, tudo bem, eu preciso ganhar porque ninguém vive só de água e pão”, mas essa coisa da magia, do encontro, da descoberta na sala, porque ao mesmo tempo em que era uma descoberta para os trabalhadores, para as trabalhadoras na maioria, no meu caso muitos deles já idosos, esse encontro, essa descoberta, essa coisa mágica da descoberta das letras, da descoberta da capacidade deles, da descoberta de ser possível mesmo descobrir outras coisas. Então pra mim foram esses dois momentos. Um, que ao mesmo tempo a gente vivia esse conflito de não ter a segurança, a vontade era uma coisa mágica e as pessoas falavam assim: “a gente pode nem receber” e as pessoas depois quando assinou, foi retroativo a março depois no final de março a sempre conseguiu receber. (I.C.D.)

Constatamos o forte envolvimento da equipe do PEART nos trabalhos assumidos, ainda que sem condições estruturais efetivas e seguras diante das negociações junto ao governo estadual. A marca do compromisso dos monitores para com os educandos se apresenta carregada de compromisso e realização pela aquisição da leitura e escrita, caracterizando-se o processo de alfabetização como a "mágica da descoberta das letras" segundo relato da entrevistada. A forte, emotiva e mística expressão deste processo caracteriza-se pelo tom militante presente na equipe do PEART, o que também o limitará em alguns momentos, a assumir-se na sua condição assalariada. Observamos a fusão de papéis do monitor que se descobre alfabetizador em sua comunidade, mas que explicitamente o fará com um tom de militância pastoral, sindical e política, "independente" do seu salário - ainda que este último se apresente necessário e que evidencie o seu vínculo formal com o Projeto através de um contrato de trabalho.