6 SUBORDINAÇÃO ALGORÍTMICA: AS CONSEQUÊNCIAS NAS
6.4 Os controles dos trabalhadores em plataformas offline
Se os trabalhadores, em um vínculo empregatício tradicional, normalmente estão sujeitos a controle quanto à qualidade e à produtividade de seu trabalho por meio da avaliação de superiores hierárquicos, no caso dos trabalhadores em plataformas digitais offline (tais como Uber, Lyft, de serviços domésticos e outras), em regra, há a sujeição a um duplo controle: de um lado, ao controle do aplicativo; de outro, ao controle pela avaliação do consumidor do serviço prestado. Essa avaliação do consumidor não se restringe apenas à execução objetiva do serviço, pois conta com elementos subjetivos também. Conforme Reis e Corassa apontam,
A necessidade de se manter o carro em sua melhor condição, além de certificar-se da felicidade do passageiro, de modo a manter uma alta taxa de classificação em estrelas, pode ser considerada “trabalho emocional”
(Hochschild, 2003). Isso atua como uma forma de vigilância e análise de performance dos motoristas, forçando-os a atentar aos passageiros, além de causar relativa angústia quando suas notas caem: ...nós trabalhamos duro para merecer aquelas estrelas.215
214 ZIPPERER, André Gonçalves. A intermediação de trabalho via plataformas digitais: repensando o direito do trabalho a partir das novas realidades do século XXI. São Paulo: LTr, 2019.
215 REIS, Daniela Muradas; CORASSA, Eugênio Delmaestro. Aplicativos de transporte e plataforma de controle: o mito da tecnologia disruptivas do emprego e a subordinação por algoritmos. In: PAES LEME, Ana
Reis e Corassa ainda salientam o seguinte:
Destaque-se o controle rigoroso exercido pelo aplicativo sobre as notas dos motoristas, os quais podem ser dispensados por avaliação insatisfatória ou por práticas decorrentes de sua conduta. Nesse sentido, é de se observar:
“Motoristas são penalizados quando deixam de aceitar muitas corridas enquanto logados no aplicativo. Dessa forma, muito do poder de escolha e controle do motorista do Uber sobre que passageiros receber é dissipada”
(MCGREGOR; LAMPINEN; BROWN, 2016, p. 3)216
Em conclusão, os autores sugerem que o controle do empresário não se dá sobre a mercadoria, mas sobre o próprio trabalho que é exercido, o que se faz por meio do aplicativo.
Do mesmo modo, Gaia aponta que os trabalhadores do Uber estão sob constante monitoramento, podendo ser avaliados pelos clientes logo após o término de cada prestação de serviços. O critério de pontuação vai de 0 até 5,0, tendo o condutor que manter, em média, 90% de aprovação. A avaliação é totalmente subjetiva, não havendo como constatar se o motorista teve ou não uma avaliação justa por parte do cliente. Em outras palavras, mesmo que o motorista dirija com zelo, seja educado e prestativo, ainda assim o cliente pode avaliar a corrida com uma nota baixa, simplesmente porque assim o deseja. Na hipótese de não atingir notas acima de 4,6, o trabalhador fica sujeito a diversas sanções, que variam desde uma advertência até o desligamento definitivo da plataforma217. Frente à imposição de uma excelência no serviço que vai muito além do que se considera uma média aceitável, o desligamento (que não é uma possibilidade tão distante) se desenha como a própria justa causa prevista para os tradicionais contratos de trabalho – ou algo ainda pior, já que muitos desses trabalhadores buscam as plataformas justamente por não encontrarem uma colocação profissional nos moldes tradicionais de emprego.
Carolina Reis; RODRIGUES, Bruno Alves; CHAVES JR. José Eduardo Resende (coord.). Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano: a intermediação de mão de obra a partir das plataformas eletrônicas e seus efeitos jurídicos e sociais. São Paulo: LTr, 2017, p.157-165, p. 163.
216 REIS, Daniela Muradas; CORASSA, Eugênio Delmaestro. Aplicativos de transporte e plataforma de controle: o mito da tecnologia disruptivas do emprego e a subordinação por algoritmos. In: PAES LEME, Ana Carolina Reis; RODRIGUES, Bruno Alves; CHAVES JR. José Eduardo Resende (coord.). Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano: a intermediação de mão de obra a partir das plataformas eletrônicas e seus efeitos jurídicos e sociais. São Paulo: LTr, 2017, p.157-165, p. 163.
Os autores fazem menção ao artigo Platform Labour: Alorithms Versus Busines Ehtics. Mobile Life Centre, de autoria de Moira McGregor, Airi Lampinen e Barry Brown.
217 GAIA, Fausto Siqueira. Uberização do trabalho: aspectos da subordinação jurídica disruptiva. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020.
O outro elemento do duplo controle se materializa por meio do algoritmo, que faz um controle indireto (e até mesmo sutil) ao mandar mensagens ao motorista, indicando que este permaneça online e fique próximo a regiões com maior número de clientes218. Se, à primeira vista, esse tipo de interação (de indicação de localidades com maior demanda) se afigure como uma comodidade ao prestador, na realidade, é um sistema que visa a atingir sobretudo os interesses financeiros do aplicativo. Afinal, com mecanismos de distribuição de motoristas feitos pelo próprio algoritmo (em substituição a serviços convencionais de logística), a mão de obra humana é enviada para onde há mais chamadas. Para aumentar o lucro (da plataforma), é preciso estar no lugar certo, na hora certa.
O Uber é citado como exemplo, mas todas as plataformas têm um regramento próprio que precisa ser observado pelo prestador. O aplicativo Ifood, por exemplo, tem seu código de ética219, o qual se apresenta como o mesmo para “colaboradores”, “terceiros” e “parceiros”, sem qualquer distinção. No caso do Uber, conforme apontado por Gaia,
A plataforma tecnológica é responsável por atender os clientes acerca de reclamações sobre as condutas praticadas pelos motoristas, seja por não oferecer as amenidades sugeridas pela empresa (oferecimento de água mineral e balas), ou em razão de outras condutas violadoras do padrão ético definido. A Uber realiza a fiscalização dos condutores dos veículos exigindo que os mesmos se comportem de modo a não cometerem assédios aos passageiros, fraudes, violência, embriaguez ao volante, dentre outras condutas desabonadoras para a imagem da empresa.220
Verifica-se, portanto, que todos os aspectos subjetivos da subordinação se encontram presentes: além de aceitar a fiscalização dupla (pelo algoritmo e pelo cliente), o motorista deve respeitar o código de conduta e estar com o veículo de acordo com as normas estabelecidas pela Uber. Nesse quesito, apesar de portar água e balas se tratar apenas de uma sugestão da plataforma, há a publicidade de tais benefícios ao cliente, o que pode prejudicar a avaliação do motorista na hipótese de ausência dos itens sugeridos. Entretanto, essas supostas
“gentilezas”, que denotariam a preocupação do motorista na prestação do serviço, são arcadas,
218 GAIA, Fausto Siqueira. Uberização do trabalho: aspectos da subordinação jurídica disruptiva. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020.
219 No item 2.1 do Código de Ética do Ifood, consta o seguinte: “Todos os colaboradores do iFood – FoodLovers – estão submetidos ao cumprimento das diretrizes mencionadas no presente Código, bem como todos os terceiros, parceiros e fornecedores contratados que estiverem atuando em nome do iFood” (IFOOD, 2022, p.
7).
220 GAIA, Fausto Siqueira. Uberização do trabalho: aspectos da subordinação jurídica disruptiva. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020, p. 319.
direta ou indiretamente, pelo próprio trabalhador, que ou compra com seu próprio dinheiro tais itens ou precisa se deslocar ao local onde estes são distribuídos pela empresa aos
“parceiros”.
Não obstante a posição de sujeição do trabalhador, plataformas digitais como Uber, iFood e Rappi também necessitam dos trabalhadores para o seu funcionamento. Gaia, ao tratar especificamente do caso Uber, afirma que “O elevado grau de dependência da plataforma tecnológica em relação à força de trabalho deixa claro que, objetivamente, a atividade do motorista integra a engrenagem de funcionamento regular da empresa”221. Ou seja, ao mesmo tempo em que o trabalhador depende da plataforma para ter renda, a empresa precisa da boa prestação de serviço de seus trabalhadores para manter sua reputação e, em consequência, ser lucrativa. Da forma como tal relação se desenha, no entanto, poderia parecer que apenas o lado mais fraco (o do trabalhador) deve agir adequadamente; isso, como se nota, não é verdade, pois há um interesse mútuo nessa relação, assim como em outras relações de emprego.
Conforme visto até aqui, o algoritmo aparece no trabalho em plataformas digitais como sendo a figura do chefe, do gerente, do supervisor, que tudo sabe e tudo controla. As empresas de plataformas digitais são exemplos das novas formas de produção capitalista, que se valem do acesso às tecnologias da informação para atender a sociedade de consumo, ávida de acesso rápido e imediato a bens e serviços. No entanto, muitos dos serviços realizados pelas novas tecnologias disruptivas não dispensam o trabalho humano, nem o trabalho humano prescinde de proteção. Assim, com base nos estudos feitos até o presente momento, no capítulo seguinte, será verificada a natureza da relação jurídica existente entre trabalhadores e plataformas digitais, bem como será feito um paralelo entre esses trabalhadores e os trabalhadores com vínculos empregatícios tradicionais, sob o aspecto do conceito de subordinação.
221 GAIA, Fausto Siqueira. Uberização do trabalho: aspectos da subordinação jurídica disruptiva. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020. p. 320.
7 TRABALHADORES EM PLATAFORMAS DIGITAIS E EMPREGADOS