Ao tratar da temática dos direitos humanos, Bobbio (2004) afirma que a progressão desses direitos se deu inicialmente a partir das doutrinas jurisnaturalistas e depois, por meio das Declarações de Direitos do Homem incluídas nas Constituições dos Estados liberais.
O autor aponta e distingue etapas na construção do estado democrático de direito. A primeira delas refere-se à positivação, isto é, à conversão da pessoa humana em direito positivo. Atrelada à primeira, a segunda etapa diz respeito à generalização, tendo como mote o princípio da igualdade e o da não discriminação. A terceira é a internacionalização decorrente da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. A quarta etapa é a especificação, que não só considera os destinatários genéricos, como também as pessoas em situações específicas: o idoso, a mulher, a criança e o deficiente.
Assim, Bobbio (2004) aborda a questão dos direitos humanos identificando algumas perspectivas: a filosófica, a histórica, a ética, a jurídica e a política. Cada uma destas está interligada, mas pode também ser tratada separadamente.
Para discorrer sobre o tema dos direitos humanos, Bobbio (2004) opta pelo que ele denomina de “filosofia da história”, mesmo considerando que esta abordagem está desacreditada atualmente. A seu ver, a filosofia da história é algo superado, mas alega que é “difícil resistir à tentação de ir além da história meramente narrativa.” (p. 67). Fazer filosofia da história significa entrar em contato com o problema do sentido, considerando o desenvolvimento da história desde a sua origem até o seu destino, para qual se move uma realidade. Desse modo, os eventos podem ser vistos como sinais reveladores de um processo.
Nessa linha de investigação, o autor considera o homem como “um animal teleológico”, isto é, que relaciona um fato com sua causa final. Assim, somente quando se leva em conta a finalidade de uma ação, é que se pode compreender o seu sentido. Em suma, a perspectiva da filosofia da história representa “a transposição dessa interpretação finalista da ação de cada indivíduo para a humanidade em seu conjunto [...].” (ibid., p. 68). Contudo, quando se fala em transposições, não se fornecem provas convincentes sobre os conteúdos, mas apenas sugestões.
Dando continuidade à investigação dos processos de evolução histórica dos direitos do homem, o autor faz referência à Imannuel Kant com seu questionamento em relação ao fato de o gênero humano estar em constante progresso, o que se confirma no entendimento de Kant. Bobbio (2004) tece comentários sobre a Revolução Francesa, a qual, na visão de Kant, foi um evento marcante enquanto acontecimento histórico, como um sinal do homem em processo de evolução. Bobbio considera também que esse evento estava diretamente ligado ao entusiasmo humano, que unia o ideal ao que é moral e não residia no interesse individual.
O autor cita, ainda com base em Kant, que o “homem tem direitos inatos e adquiridos; e o único direito inato, ou seja, transmitido ao homem pela natureza e não por uma autoridade constituída, é a liberdade [...].” (ibid., p. 69). A partir desses pressupostos, considera que as discussões atuais sobre os direitos do homem está se ampliando e se intensificando cada vez mais, envolvendo todos os povos da Terra, a ponto de serem colocadas na ordem do dia pelas mais autorizadas assembleias internacionais.
Com o propósito de comparar o progresso científico ao progresso moral, Bobbio (2004) destaca que o primeiro é efetivo, haja vista as duas características da continuidade e da irreversabilidade; já o progresso moral apresenta problemas de efetividade por duas razões:
1. O próprio conceito de moral é problemático.
2. Ainda que estivéssemos de acordo sobre o modo de entender a moral, ninguém até agora encontrou “indicadores” para medir o progresso moral de uma nação, ou mesmo de toda a humanidade, tão claros quanto são os indicadores que servem para medir o progresso científico e técnico. (p. 70, grifos do autor)
Para compreender a natureza do problema, que dá sentido ao conceito obscuro de moral, Bobbio (2004) afirma que é essencial considerar a expressão “consciência moral”. Trata-se de “algo relacionado com a formação e o crescimento da consciência do estado de sofrimento, de indigência, de penúria, de miséria ou, mais geralmente, de infelicidade, em que se encontra o homem no mundo, bem como o sentimento da insuportabilidade de tal estado.” (p. 71)
Ao afirmar que a história humana é ambígua quando se busca um sentido para ela, considera que o bem e o mal se misturam, contrapõem-se, confundem-se. Em seguida, desafia: “quem ousaria negar que o mal sempre prevaleceu sobre o
bem, a dor sobre a alegria, a infelicidade sobre a felicidade, a morte sobre a vida?” (Bobbio, 2004, p. 71). Para o autor, a parte obscura da história do homem é bem mais ampla do que a clara. Contudo, reconhece que há “zonas de luz” na história da humanidade e cita como exemplos a abolição da escravatura, a supressão da pena de morte em muitos países, os movimentos ecológicos e pacifistas, os partidos e os governos, que buscam afirmar, reconhecer e proteger os direitos humanos do homem.
Todos os esforços para o bem nascem da consciência moral e buscam transformar o mundo tornando-o menos hostil, tanto no que se refere à transformação do mundo material quanto para a modificação das relações interindividuais. Instrumentos e regras de conduta formam o mundo da “cultura”.
Entre outros aspectos, Bobbio (2004) aponta os Dez Mandamentos como o “código moral por excelência do mundo cristão [...] que nasce como a formulação, a imposição e a aplicação de mandamentos ou de proibições”. (p. 72), trazendo claramente o conceito de que a figura deôntica28 originária é o dever e não, o direito. Desse modo, a função primária da lei é a de comprimir, de restringir e não a de liberar e de ampliar os espaços de liberdade.
O direito e o dever são o verso e o reverso da mesma moeda e a moeda da moral sempre foi olhada mais pelo lado dos deveres do que pelo lado dos direitos. Às regras de conduta foi atribuída a função de proteger mais o grupo em seu conjunto do que o indivíduo singular, isto é, o enfoque da proteção sempre foi “impedir a desagregação grupal e não individual.” (ibid., p. 73)
Ao adentrar a esfera política, ainda na contextualização do tema do indivíduo e do grupo frente à questão moral, Bobbio (2004) destaca que “a relação política por excelência é a relação entre governantes e governados, entre quem tem o poder de obrigar com suas decisões os membros do grupo e os que estão submetidos a essas decisões.” (p. 74). Assim, a relação que predomina é a dos governantes para os governados. O objeto da política sempre foi o governo, que é quem faz com que as leis sejam respeitadas, quem declara guerra ou quem pactua a paz, quem nomeia ministros e embaixadores etc.
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Na função de “guia” dos governantes, está o interesse desses líderes conduzirem os indivíduos que lhes são confiados, assim como de uma “mão firme”, pois para que sejam eficazes os cuidados sobre um corpo doente precisam ser rigorosos. Nesse sentido, Bobbio (2004) apresenta o indivíduo singular, cujo dever principal deve ser obedecer às leis.
Enquanto o indivíduo é um ser comandado, passivo, a representação do sujeito ativo é o povo em sua totalidade. Em Bobbio (2004) notamos a comparação entre a concepção organicista, segundo a qual, a sociedade é um todo que deve estar acima das partes e a concepção individualista, significando que em primeiro lugar está o indivíduo, depois vem o Estado e não o contrário. Nesse cenário há três versões de individualismo:
[...] a orientação de estudos chamada de “individualismo metodológico”, segundo a qual o estudo da sociedade deve partir do estudo das ações do indivíduo. [...]; mas há outras duas formas de individualismo sem as quais o ponto de vista dos direitos do homem se torna incompreensível: o individualismo ontológico, que parte do pressuposto [...] da autonomia de cada indivíduo com relação a todos os outros e da igual dignidade de cada um deles; e o individualismo
ético, segundo o qual todo indivíduo é uma pessoa moral. (ibid., p.
77, grifos do autor)
O individualismo, portanto, “é a base filosófica da democracia: uma cabeça, um voto” (p. 77). Democracia é a forma de governo, na qual todos os membros da sociedade são livres e podem tomar as decisões sobre aquilo que considerarem que lhes diz respeito, com o poder para realizá-las. Assim, liberdade e poder “derivam do reconhecimento de alguns direitos fundamentais, inalienáveis e invioláveis, como é o caso dos direitos do homem.” (ibid., p. 77)
O autor explicita que esses direitos ocorrem, por exemplo, quando o reconhecimento se amplia da esfera das relações interpessoais econômicas (direito de comprar, vender ou trocar bens) para as relações de poder. São os direitos públicos subjetivos, que caracterizam o Estado de direito, no qual se situa o ponto de vista dos cidadãos.
No Estado despótico, os indivíduos singulares só têm deveres e não direitos. No Estado absoluto, os indivíduos possuem, em relação ao soberano, direitos privados. No Estado de direito, o indivíduo tem, em face do Estado, não só direitos privados, mas também direitos públicos. O Estado de direito é o Estado dos cidadãos. (BOBBIO, 2004, p. 78)
A doutrina dos direitos humanos já evoluiu muito, apesar das contradições e limitações. Desde os séculos XVII e XVIII muitas etapas foram percorridas. Dentre elas, as citadas anteriormente, como o direito positivo, de generalização e de internacionalização. Mais recentemente, uma nova tendência pode ser observada: a especificação, que trata do sujeito em sua singularidade.
Aqui Bobbio (2004) faz referência ao reconhecimento das diferenças específicas entre homem e mulher, entre as fases da vida para as quais foram se estabelecendo direitos da infância, da velhice, entre as diferenças de estado normal e excepcional da vida humana, com os direitos reconhecidos para doentes e pessoas com deficiência. Destaca, nesse contexto, a Declaração dos Direitos da Criança (1959) e a Declaração sobre a Eliminação da Discriminação à Mulher (1971). Os idosos passaram a ter a garantia de segurança econômica e social, por meio de documentos internacionais elaborados a partir da Assembleia Mundial de Viena, em 1982.
Contudo, ao comentar sobre a garantia dos direitos e sua proteção efetiva, o autor reconhece que os direitos sociais são mais difíceis de proteger, sobretudo quando a discussão se faz em um âmbito internacional. A seu ver, esses direitos estariam mais protegidos se ocorressem no interior de um Estado de direito. Desse modo, “poder-se-iam multiplicar os exemplos de contraste entre as declarações solenes e sua consecução, entre a grandiosidade das promessas e a miséria das realizações.” (ibid., p. 80)
O debate sobre os direitos do homem se ampliou, o que indica um progresso moral da humanidade, entretanto, isso não deve ser mensurado pelas palavras ou pelas letras das leis e sim, pelos fatos. Ao mesmo tempo em que esses avanços são observados, não se pode negar os aspectos negativos, como por exemplo, “a vertiginosa corrida armamentista, que põe em risco a própria vida na Terra”. (ibid., p. 80)
Bobbio (2004) encerra este ensaio sobre a era dos direitos retomando Kant, o qual criticava os políticos afirmando que eles retardavam os meios que poderiam assegurar o progresso para melhor e aconselha a não aumentarmos esse atraso com a nossa descrença e enfatiza que não temos muito tempo a perder.
Ainda nessa mesma obra, no texto Direitos do homem e sociedade, Bobbio (2004) comenta a relação entre a teoria e a prática na questão dos direitos humanos, pontuando que tanto uma quanto outra “percorrem duas estradas diversas e a velocidades muito desiguais.” (p. 82). Esse é um assunto muito abordado por eruditos, filósofos, juristas, sociólogos e políticos. Entretanto, apesar dos intensos debates, pouco se faz para que esses direitos sejam, de fato, reconhecidos e protegidos.
Os caminhos distintos aos quais se refere o autor são o da universalização e o da multiplicação. No primeiro, tem-se o ponto de partida da transformação dos direitos dos indivíduos singulares, como cidadãos de um Estado, para os direitos dos cidadãos no mundo, tema amplamente tratado internacionalmente. Já no segundo caminho, o da multiplicação, encontra-se a relação entre os direitos do homem e sociedade, que dá origem a novos direitos, o que pode ser considerado como fenômeno social. Tal multiplicação ocorreu, segundo Bobbio (2004) de três modos:
a) porque aumentou a quantidade de bens considerados merecedores de tutela; b) porque foi estendida a titularidade de alguns direitos típicos a sujeitos diversos do homem; c) porque o próprio homem não é mais considerado como ente genérico, ou homem em abstrato, mas é visto na especificidade ou na concreticidade de suas diversas maneiras de ser em sociedade, como criança, velho, doente, etc. Em substância: mais bens, mais sujeitos, mais status do indivíduo. (p. 83)
Nesse sentido, o autor refere-se à necessidade de se compreender esses três modos ou processos em um determinado contexto social. Assim, em relação ao primeiro processo, há a passagem dos direitos de liberdade (religião, opinião, imprensa etc) para os direitos políticos e sociais, que demandam intervenção do Estado; no segundo encontra-se a passagem dos direitos do indivíduo para a família, minorias étnicas e religiosas, isto é, para as comunidades que o representam. Além disso, direitos emergem até para os sujeitos diferentes do homem, como os animais e a natureza; já no terceiro processo há a passagem do homem genuíno para o homem específico, com base em diferentes critérios (sexo, idade, condições físicas), uma vez que “a mulher é diferente do homem; a criança do adulto; o sadio do doente; o doente temporário do doente crônico; o doente mental dos outros doentes; os fisicamente normais dos deficientes, etc.” (BOBBIO, 2004, p.84)
Este fenômeno social pode ser observado por meio das cartas de direitos29 proclamadas nos últimos quarenta anos. Dessa forma, com base na Declaração Universal dos Direitos Humanos, podemos compreender, em consonância com o autor, que os homens são todos iguais no gozo da liberdade e que nenhum indivíduo pode ter mais liberdade do que o outro: “[...] „os homens têm igual direito à liberdade‟, „os homens têm direito a uma igual liberdade‟. São todas formulações do mesmo princípio, segundo o qual deve ser excluída toda discriminação fundada em diferenças específicas entre homem e homem, entre grupos e grupos.” (BOBBIO, 2004, ibid., p. 85)
Quanto à dignidade social, o autor aponta que isto se torna explícito no Art. 2º, I, da Declaração Universal, que estabelece: “Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.” (ONU, 1948)
Contudo, ressalta o autor, a universalidade dos direitos de liberdade não vale para os direitos sociais e nem mesmo para os políticos, uma vez que, diante destes, os indivíduos são iguais genericamente e não, especificamente. Com relação a esses direitos, há diferenças de um indivíduo para o outro e também de grupos de indivíduos para outros grupos de indivíduos.
Como exemplo, cita o direito de votar, que durante séculos pertenceu somente aos homens, ou seja, não se consideravam determinadas diferenças, que justificavam um tratamento desigual para homens e mulheres. Em relação aos três direitos sociais essenciais (trabalho, educação e saúde), o mesmo se pode dizer, pois somente de modo genérico é possível afirmar que todos são iguais. No que diz respeito ao trabalho, há diferenças de idade e de sexo; quanto à educação, há diferenças entre crianças normais e crianças com deficiência; em se tratando da saúde, são relevantes as diferenças entre adultos e idosos.
Enquanto os direitos de liberdade nascem contra o superpoder do Estado – e, portanto, com o objetivo de limitar o poder –, os direitos
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Novamente o autor destaca algumas cartas de direito: Convenção sobre os direitos Políticos da Mulher (1952), a Declaração da Criança (1959), a Declaração dos Direitos do Deficiente Mental (1971), a Declaração dos Direitos do Deficiente Físico (1975) e a Primeira Assembleia Mundial, em Viena, sobre os Direitos dos Anciãos (1982).
sociais exigem, para sua realização prática, ou seja, para a passagem da declaração puramente verbal à sua proteção efetiva, precisamente o contrário, isto é, a ampliação dos poderes do Estado. (BOBBIO, 2004, p. 87)
Para o autor, o exercício do poder pode ser julgado como favorável ou não, de acordo com os contextos históricos e com os distintos pontos de vista, por meio dos quais esses contextos são considerados. Assim, nem sempre a liberdade pode ser um bem ou o aumento do poder seja um mal.
Bobbio (2004) aponta que a palavra “direito” é uma figura deôntica, um termo da linguagem normativa, na qual se fala de e sobre normas. Ao explicitar o significado da palavra direito, afirma que esta tem como correlato a figura da obrigação: “assim como não existe pai sem filho e vice-versa, também não existe direito sem obrigação e vice-versa.” (p. 94). Para que termos como obrigação e direito tenham sentido é necessário que eles estejam inseridos em um contexto de normas.
De suas investigações teóricas Bobbio (2004) constata que a origem e a disseminação dos direitos do homem têm a ver com a transformação da sociedade. Ele identifica como evidente a “relação entre o nascimento e o crescimento dos direitos sociais, por um lado, e a transformação da sociedade, por outro.” (p. 90). Prova disso é quanto mais a sociedade se transforma, mais direitos vêm sendo exigidos.