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Capítulo II: TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: CONTEXTO HISTÓRICO E

2.3. A Teologia da Libertação: os aspectos fundamentais para a sua compreensão

2.3.1. Os fatores internos e externos que levaram à eclosão da TL

Seguindo o que pudemos apresentar nos tópicos anteriores, temos condições de afirmar que a Teologia da Libertação é parte de um processo de envolvimento da Igreja brasileira nas questões sociais durante o século XX. Entretanto, há alguns acontecimentos que foram decisivos para que a Teologia da Libertação se afirmasse como um movimento importante dentro da Igreja Católica e, mais importante, atuasse de forma concreta nos assuntos políticos e sociais em todo o país. Partimos, então, do pressuposto de que a afirmação da Teologia da Libertação se deu por fatores internos, como a mudança de concepção do papel da Igreja na sociedade a partir do Concílio Vaticano II e a Segunda Conferência do CELAM − Conselho Episcopal Latino- Americano − em Medelín de 1968 e por fatores externos, como o cenário político, econômico e

social da América Latina das décadas de 1960 e 70, pois uma teologia que tem a pretensão de nascer do povo está envolvida em seu mesmo contexto político, econômico, cultural e social.

A Igreja Católica brasileira estava incandescente durante o início da década de 1960. A Ação Católica abriu as portas da sociedade para a Igreja, mas chocou-se com os grupos mais conservadores. Importante destacar que apesar das tendências opostas, os membros da Igreja fizeram grandes esforços para manter a união na instituição, pois, de acordo com Mainwaring:

A maior coesão interna nesse período mais recente era, em grande parte, uma função decrescente influência da direita católica, maior moderação nos documentos progressistas e um grande esforço da parte dos progressistas para trabalhar dentro da instituição. (MAINWARING, 2004, p. 192).

Assim é que as mudanças desejadas pelos membros da Igreja Católica deveriam ser discutidas dentro da própria instituição e que não trouxesse, na medida do possível, secessões dentro organização católica. Um evento importante para a reorientação da Igreja Católica ocorria ao mesmo tempo em que a Ação Católica Brasileira e suas ramificações agiam em favor dos necessitados: o Concílio Vaticano II.

Durante os anos de 1962 a 1965 foi realizado o Concílio Ecumênico do Vaticano II. Nele, A Igreja Católica formulou propostas que buscavam inserir essa instituição no mundo contemporâneo, deixando de lado uma postura que o via como algo corrompido e a ser evitado. A Igreja deixava-se de estar acima do secular e passava a estar e agir dentro dele. Como Idelfonso Camacho ilustra:

O Vaticano II foi um acontecimento histórico: foi a passagem oficial de uma forma de entender a Igreja, sua atitude em relação à sociedade e seu lugar dentro dela, para outra mais conseqüente com o irreversível fenômeno da modernidade (CAMACHO, 1995, p. 247).

Assim é que assuntos que outrora eram ignorados pela hierarquia da Igreja passaram a vir à pauta das principais discussões. Questões como a situação da Igreja no mundo moderno, os erros que ela já cometeu, como a Igreja deve promover o bem de seus féis, entre outras, foram debatidas e ajudaram a Igreja a melhor se entender, a qual se colocou a serviço de Deus agindo também secularmente. Portanto, os bispos receberam a missão de levar, divulgar e atuar como

mensageiros de Cristo junto ao seu povo, pois o Vaticano II25 “forneceu a melhor justificativa teórica para práticas elaboradas sob o signo de uma teologia do progresso, da autêntica secularização e da promoção humana” (C. BOFF; L .BOFF, 2001, p 110).

Entretanto, a despeito da grande importância histórica desse Concílio para a história da Igreja Católica, muitos teólogos de referência para a Teologia da Libertação relativizam esse evento, pelo menos no que tange à América Latina. Esses autores, pensando a realidade de nosso continente, notaram limitações do Concílio que foram corrigidas com a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em 1968 na cidade de Medellín.

O que acontece é que no Vaticano II os temas abordados, por mais que pensasse na figura humana, ainda tinha como referência o homem europeu. Assim é que temas como a modernidade e secularização possuíam grande impacto no Concílio, mas não são assuntos que se aproximem da realidade do homem e da mulher latino-americanos. Dessa forma, em Medellín o episcopado utilizou as diretrizes fornecidas pelo Vaticano II para pensar a realidade do continente. Juan Luis Segundo opina que:

Apenas passados três anos do Concílio [Vaticano II], a necessidade de repensar na América Latina e para a América Latina é algo muito eloquente e que não tem paralelo com a recepção do Concílio em outros continentes ou outros contextos geográficos ou culturais. Assim, em 1968, os bispos latino-americanos estavam reunidos em Medellín para “adaptar” à realidade do continente as diretrizes do Vaticano II (SEGUNDO, 1987, p.99).

Interessante notar nesse esforço de trazer para a realidade de nosso continente teorias de outros países, a influência de Jose Carlos Mariátegui26. Gustavo Gutiérrez, peruano como Mariátegui, foi outro autor que viu em Medellín, e não no Concílio Vaticano II, a grande inspiração para uma Teologia para a América Latina. Assim sendo, o subdesenvolvimento do continente latino-americano, a opressão dos governos militares, a pobreza e outros problemas

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Corroborando com o que estamos afirmando, Scott Mainwaring destaca a importância do Vaticano II em legitimar as mudanças que estão acontecendo na base (2004, p.63). Mesmo que uma militância católica estivesse ativa por meio da Ação Católica, seu alcance estaria limitado devido à não aceitação por parte da hierarquia. E o Vaticano II foi a oportunidade para que os problemas sociais dos fiéis chegassem à cúpula da Igreja Católica.

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Jose Carlos Mariaétegui, como expusemos no primeiro capítulo, buscou adaptar a teoria marxista ao contexto latino-americano. Gustavo Gutiérrez foi assíduo um leitor de Mariátegui e a influência deste para aquele é refletida na obra paradigmática de Gutiérrez, Teologia da Libertação: Perspectivas, na qual ele reproduz a seguinte passagem de Mariátegui: “Por certo não queremos que o socialismo na América seja cópia ou decalque. Deve ser uma criação heróica. Temos de dar vida, com nossa própria realidade, em nossa própria linguagem, ao socialismo indo- americano. Eis aqui uma missão digna de uma nova geração” (2000, p. 148, grifos meus).

específicos da região foram os temas de maior relevância em Medellín. Analisando esses dois acontecimentos importantes para a Igreja Católica, Gutiérrez afirma:

O Vaticano II fala do subdesenvolvimento dos povos a partir dos países desenvolvidos e em função do que estes podem e devem fazer por aqueles; Medellín procura ver o problema partindo dos países pobres; por isso os define como povos submetidos a um novo tipo de colonialismo. O Vaticano II fala de uma Igreja no mundo e descreve-a tendendo a suavizar conflitos; Medellín comprova que o mundo em que a Igreja latino- americana deve estar presente encontra-se em pleno processo revolucionário. O Vaticano II dá as grandes linhas de uma renovação da Igreja; Medellín dá a pauta para a transformação da Igreja em função de sua presença em um continente de miséria e injustiça (GUTIÉRREZ, 2000, p. 187).

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Nesse contexto interno da Igreja Católica, vemos que as condições para uma mudança importante em sua missão pastoral estavam dadas. Um movimento de base consistente na América Latina, a Igreja repensando sua posição no mundo e seus membros conscientes que o continente latino-americano necessitava de uma ação pastoral específica, eram as condições ideais para o surgimento de uma teologia latino-americana. E foi justamente na especificidade da América Latina o fator externo que fez surgir uma mobilização social que trouxe a religião os problemas sociais dos católicos e resultou na Teologia da Libertação.

Durante a década de 1960, o continente tornou-se convulsionado por diversos fatores, como o político (a ascensão dos militares no governo de vários países) e o econômico (com seu modelo dependente, gerando uma grave crise econômica na região). O resultado foi um cenário de pobreza, fome e opressão de governos repressores contra uma população sem amparo, situação que comoveu e mobilizou parte do clero católico na região não só para denunciar esses fatos, mas fazendo com que, junto a uma reflexão teológica transformadora, os levaram à ação junto aos seus fiéis.

No Brasil, a ação de religiosos em defesa dos oprimidos foi taxada de “subversiva”27

pelos militares que não pouparam esforços para barrar a influência dos padres e bispos que se dedicavam aos pobres. Entretanto, essa repressão ao invés de frear o ânimo dos religiosos, resultou em uma inspiração para a luta missionária, sendo essa violência uma razão a mais para a

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Esse conceito foi criado pelos militares brasileiros para identificar qualquer adversário ideológico do regime – real ou imaginário. Em nome das perseguições a tais subversivos, muito religiosos pereceram em suas lutas pelos oprimidos, como João Bosco Penido Burnier no Brasil e Camilo Torres na Colômbia.

luta. Kenneth Serbin dedicou-se a estudar a relação da Igreja Católica com o regime dos militares (1964-1985) e explica a reação dos religiosos de duas formas:

Primeiro, o fato de os bispos promoverem os direitos humanos e denunciarem as atrocidades do regime estimulava a oposição, além de criar, fora do Brasil, um desastre para as relações públicas para os generais. Os bispos reagiram, em grande parte, por causa das pressões do clero e dos movimentos populares católicos. Segundo, a Igreja trabalhava por mudanças sociais e ideológicas que contestavam a estratégia de desenvolvimento dos militares (SERBIN, 2001, p.123).

Outro fator político de grande importância para a América Latina durante a década de 1960 foram as consequências da Revolução Cubana de 1959. Ela pode ser considerada como motor de uma série de movimentos urbanos e camponeses que buscavam a mudança social pela luta armada. Michael Löwy sublinha a importância da Revolução Cubana pelo fato de com ela:

Um novo período histórico abria-se na América Latina, caracterizado pela intensificação das lutas sociais, o aparecimento dos movimentos guerrilheiros, uma sucessão de golpes militares e uma crise de legitimidade do sistema político (LÖWY, 2000, p. 70).

Esse processo de radicalização política iniciado pela Revolução Cubana não passou despercebido pelos religiosos envolvidos com os movimentos populares. O clero católico juntou- se na luta ao lado dos que buscavam justiça social e condições dignas de vida, situação que trouxe à missão religiosa a luta direta contra os opressores. Assim sendo, Gustavo Gutiérrez ilustra sobre a Revolução Cubana afirmando que ela “divide em um antes e depois a história política da América Latina” (GUTIÉRREZ, 2000, p. 146).

Foi esse ambiente de transformações políticas e eclesiásticas que motivou a vinda ao Brasil do padre espanhol Pedro Casaldáliga. Vários missionários europeus vieram para a América Latina, muitos dos quais já imbuídos da nova mentalidade mais preocupada com o social que se espalhava dentro da Igreja Católica. A relevância da Revolução Cubana para a crença de que seria possível realizar transformações concretas na sociedade do continente fica sublinhada nas seguintes palavras do prelado de São Félix:

A figura do Che [Guevara] para mim, como para muitos outros, já era mais ou menos mítica. Não tinha naquela época a liberdade de espírito que tenho agora, nem poderia falar, talvez, de Camilo Torrez ou do Che com a mesma liberdade que agora. [...] Sempre me impressionou aquele que é capaz de dar a vida por um ideal, como é o caso do Che (CASALDÁLIGA apud MARTINS, 1979, pp. 24-5)

Cabe destacar ainda que em 1970 foi estabelecida no nordeste do Mato Grosso a Prelazia de São Félix do Araguaia. Inserida nesse contexto de transformações eclesiásticas e contando com missionários estrangeiros tendo Pedro Casaldáliga como nome maior, essa Prelazia se posicionou ao lado da população oprimida da região e se transformou em uma das máximas expoentes da “Igreja dos Pobres” que os teólogos da Teologia da Libertação defendiam como modelo de Igreja.

Portanto, tentamos situar o contexto do surgimento e afirmação da Teologia da Libertação no Brasil. O fator externo (a situação política, econômica e social do país) e o fator interno (a reflexão de qual seria o papel da Igreja no mundo, notadamente na América Latina) fizeram surgir um novo modelo de Igreja e ação pastoral mais envolvido com as questões políticas e sociais. Nesse sentido, Scott Mainwaring afirma que “sua identidade [da Igreja] modificou-se principalmente porque o processo político mais amplo gerou novas concepções da sociedade e do papel da Igreja dentro dela” (MAINWARING, 2004, p.25). Michel Löwy complementa Mainwaring ao comentar o contexto do surgimento da Teologia da Libertação dizendo que “os teólogos latino-americanos mais progressistas, insatisfeitos com a „teologia do desenvolvimento‟, que dominava as Igrejas latino-americanas, começou a levantar o tema da libertação já no final da década de sessenta” (LÖWY, 2000, p.77). Com a Teologia da Libertação materializada e situada, resta-nos a entrar em sua doutrina e na maneira que ela enxergava a realidade na qual estava inserida.