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PROPÓSITOS COMUNICATIVOS

4.3 OS GÊNEROS DO DISCURSO NO CONTEXTO DO HIPERTEXTO

Os gêneros do discurso nascem emparelhados com os aspectos sociais dos campos de atividade aos quais se ligam. Estão, portanto, ligados ao aparecimento de novas tecnologias, de novas formas de interação e de socialização, por isso não podem ser mensurados, em termo de quantidade: são inúmeros e surgem atendendo às transformações sócio-culturais das sociedades nas quais estão inseridos.

Tomando como ponto de partida a definição bakhtiniana de gêneros discursivos, faz- se necessário, nesse momento, definir gêneros digitais. Esses podem ser definidos como gêneros discursivos, surgidos, com o advento da Internet, no seio do hipertexto. Os gêneros discursivos ligam-se às mais diversas atividades humanas, as quais se complexificam com o desenvolvimento da sociedade. A Internet representa, portanto, um exemplo do resultado da complexificação da sociedade: as novas tecnologias originaram também novas formas de atividade social, sendo a interação através do computador uma das formas de interatividade muito comum nos dias atuais.

Destarte, esses modos interativos do ciberespaço deram origem a novos gêneros do discurso, que se adaptam ao desenvolvimento tecnológico da sociedade. Bakhtin (2003, p. 263) mostra que os gêneros secundários, derivados da complexificação social, surgem sempre ancorados em gêneros primários, os quais são por aqueles reelaborados, conforme se observa na citação a seguir, referindo-se aos gêneros secundários:

[...] no processo de sua formação eles incorporam e reelaboram diversos gêneros primários (simples), que se formaram nas condições de comunicação discursiva imediata. Esses gêneros primários, que integram os complexos, aí se transformam e adquirem caráter especial: perdem o vínculo imediato com a realidade concreta e os enunciados reais alheios: [...] (BAKHTIN, 2003, p. 263).

Assim, pode-se afirmar que os gêneros digitais constituem-se como gêneros secundários e representam transmutações de gêneros preexistentes (o e-mail é a transmutação da carta; o chat, da conversa entre amigos; o blog, do diário tradicional).

Gêneros digitais, portanto, é o nome dado às novas modalidades de gêneros discursivos, surgidos, com o advento da Internet, dentro do hipertexto. Eles possibilitam, dentre outras coisas, a comunicação entre duas ou mais pessoas, mediada pelo computador. Esse processo de comunicação, chamado de Comunicação Mediada por Computador (CMC), caracteriza-se, basicamente, pela centralidade da escrita e pela multiplicidade de semioses: imagens, sons, texto escrito, dentre outras. A Internet veio a inaugurar uma forma significativa de comunicação e de uso da linguagem, através dos gêneros digitais, marcados, em especial, pela fugacidade e volatilidade do texto, como no caso das salas de bate-papo, em que as conversas entre duas ou mais pessoas acontecem em tempo real e de maneira síncrona, tornando, então, o texto fugaz; pela interatividade, já que permitem a interação entre o leitor e o texto (como no caso dos blogs, em que os leitores podem opinar, mandar recados ou discordar do que foi escrito, interferindo, assim, no texto virtual); pelo anonimato, em alguns casos, como os das salas de bate-papo abertas, em que as pessoas se escondem atrás de um

nickname (apelido), criando uma nova ou novas identidades virtuais.

A CMC possibilita uma grande inovação no conceito de texto, marcado não mais pela defasagem temporal entre o momento da escrita e a sua veiculação ou publicação, mas sim pela relação temporal síncrona, na maioria dos casos, e pela união de imagem (como por exemplo: os ícones que expressam emoções diversas, conhecidos como emoticons), som (músicas de todos os estilos) e texto escrito.

Como afirma Freire (2003, p. 24):

Abreviaturas, recursos gráficos que ocupam o lugar de palavras, gírias, sinais de pontuação decorados com desenhos, onomatopéias, letras estilizadas com formas gráficas definidas, palavras de outra língua (aportuguesadas ou não) ganham sentido num texto minuciosamente escrito em cores diversas.

No entanto, características como sincronia, multisemiose, utilização de semioses que representam emoções em uma aproximação ao que ocorre no processo empírico da conversação em tempo real, não ocorrem em todos os gêneros. O quadro a seguir foi elaborado, com o intuito de classificar os gêneros digitais, segundo as características que os aproximam ou os afastam das modalidades escrita e oral, ressaltando também a existência daqueles que se situam na fronteira entre essas duas modalidades:

+ ESCRITA FORMAL INTERMEDIÁRIOS + ORALIDADE

Marcados pela

assincronia, pela

utilização de uma

linguagem mais formal, pela pouca utilização de ícones semióticos e pela ausência de conversação em tempo real.

Websites;

e-mails formais.

Situam-se na fronteira entre a escrita formal e a oralidade, uma

vez que podem permitir

interações síncronas e

assíncronas, possibilitando, ao mesmo tempo, a interação através de troca de mensagens, cuja resposta demanda uma defasagem

temporal, bem como a

conversação síncrona, através de diálogos escritos.

Sites de Relacionamento (Orkut,

par-perfeito).

Servidores de e-mail que permitem também a conversação em tempo real como gmail.

Blog de adolescentes.

Marcados pelo traço

síncrono na escrita, pela conversação que reproduz algumas características da oralidade, tais como: a utilização de uma sintaxe curta, a superposição de enunciados, a pequena diferença temporal entre a emissão da mensagem e a resposta, a possibilidade de reconstrução de um enunciado, de acréscimo de idéias ou de correção do pensamento no momento da interação verbal. Chats:

Salas de bate-papo abertas e fechadas (MSN, ICQ).

Quadro 3: Classificação dos gêneros digitais, no que se refere às modalidades escrita ou oral, incluindo ainda aqueles que se situam na fronteira entre essas duas modalidades (são os intermediários).

Do quadro 3, originou-se o esquema 3, colocado a seguir, que reflete a classificação dos gêneros mais ou menos próximos dos pólos da seta, destacando ainda os que se situam na fronteira intermediária. Tal esquema será explicado a seguir.

Esquema 3: Gêneros digitais entre a escrita formal e a oralidade

Como já dito, o esquema 3 mostra a aproximação ou o distanciamento dos gêneros digitais das modalidades da escrita formal e da oralidade. Em tal esquema, como se pode notar, há gêneros que são mais próximos da escrita formal, outros que são intermediários e ainda aqueles que se aproximam mais da oralidade. Para construir esse esquema, partiu-se dos seguintes princípios básicos:

- Os gêneros digitais que mais se aproximam da escrita formal o fazem porque compartilham de algumas características explicitadas anteriormente no quadro 3: são marcados pela assincronia, pela inexistência da interação em tempo real entre os enunciadores e os co- enunciadores, pelo uso de uma linguagem mais formal e pela pouca incidência de ícones semióticos que expressam emoções.

- Aqueles que foram colocados como intermediários compartilham, ao mesmo tempo, algumas características que os aproximam da escrita formal e outras que os aproximam da oralidade. Assim, os blogs de adolescentes são intermediários porque possuem algumas características da escrita formal, tais como: assincronia, inexistência de interação em tempo real entre os enunciadores, mas possuem outras características que os ligam à oralidade, ou seja: o uso de uma linguagem menos formal e a grande quantidade de ícones semióticos que expressam sentimentos e emoções. Nessa categoria, destacam-se também os sites de relacionamento e alguns servidores de e-mail (gmail e yahoo), que possuem chats online e permitem a conversação síncrona entre duas ou mais pessoas, e passeando entre uma escrita formal e uma escrita mais informal.

E S C R IT A F O R M A L O R A L ID A D E -Websites; - Servidores de e-mail sem função

síncrona - Blogs de adolescentes; - Sites de relacionamento; - Servidores de email com função

síncrona

-MSN;