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1.3 O PROBLEMA DO RISCO NA MODERNIDADE

1.3.2 Os riscos de altas conseqüências

Em suas análises, Giddens (1991; 2002) separa o período pré-moderno da modernidade, como vimos anteriormente, com suas implicações sobre as abordagens do risco. Os perigos são específicos das sociedades pré-modernas, ao passo que a modernidade é caracterizada por um tipo de riscos que ele define como sendo de “alta conseqüência”. No mundo moderno eles não desaparecerão, o máximo a ser feito, num cenário otimista, é controlá-los. Suas características são basicamente quatro:

(i) Afetam toda a sociedade;

(ii) Os sistemas peritos desconhecem suas conseqüências futuras e, portanto, não têm controle sobre elas;

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(iii) Causam danos irreversíveis;

(iv) Abala a confiança dos leigos nos sistemas peritos e instala um sentimento de que as coisas seguirão de qualquer forma. Retorno da sensação de destino, de fatum. Os riscos de alta conseqüência não poupam ninguém, atingem a todos. Exemplo disso é o risco de uma guerra nuclear ou a ameaça do efeito estufa. Independente da classe social a que pertençam os indivíduos, país em que residam ou cor da pele, todos são atingidos pelas conseqüências dos eventos que se sucedem. Trata-se de um efeito do caráter globalizado das sociedades modernas, da intensidade em que tudo está interconectado. Essa é uma característica inexistente nas sociedades pré-modernas. Seria impensável considerar a possibilidade de extinção da espécie humana e mesmo de uma radical transformação do meio ambiente, no mundo romano, por exemplo, derivadas de ações do homem. A ameaça de eliminação das formas conhecidas de vida em nosso planeta paira como “espada de Dâmocles” sobre nossas cabeças, por mais que tenham avançado as negociações a fim de eliminar os armamentos nucleares, pois sempre estarão disponíveis as condições técnicas para que tais eventos venham a ocorrer.

Há uma qualidade distintiva dos riscos de alta conseqüência: o grau de perigo das ameaças é inversamente proporcional à experiência real do risco que corremos, pois se as coisas “derem erradas”, será tarde demais. Nesses casos, a solução é não pensar nos riscos. É uma forma de proteger a segurança ontológica. A imagem da possibilidade do homem eliminar-se por completo da face da terra faz pairar no ar uma sensação de irrealidade, suportável apenas sob a condição de ignorá-la, de não pensar nela. O apocalipse deixa de ser um evento possível em um determinado momento, para se tornar uma possibilidade que acompanha os indivíduos a todo instante, o “Apocalipse de Agora em Diante.” (GIDDENS, 1991). São perigos dos quais não se consegue escapar completamente, trata-se de um “ethos fatalista” (GIDDENS, 2002). É “uma resposta geral possível a uma cultura secular de risco. Há riscos que todos enfrentamos, mas em relação aos quais, enquanto indivíduos — e talvez mesmo coletivamente — não há muito que possamos fazer.” (GIDDENS, 2002, p. 123). Há uma desistência da idéia de que o ambiente social mais amplo possa ser controlado pelos sistemas peritos.

O desacordo quanto aos possíveis efeitos de longo prazo derivados de uma explosão nuclear, como a de Chernobyl, por exemplo, impera entre os especialistas. Eis outra característica desse tipo de riscos: a reduzida eficácia dos modelos de aferição de risco empregados pelos peritos, pois não contemplam vários imponderáveis. O incêndio em uma

das maiores plantas nucleares do mundo, em Brown’s Ferry, nos Estados Unidos, começou porque um técnico utilizou uma vela para verificar um vazamento de ar, contrariando o padrão definido das normas de segurança. (GIDDENS, 2002). A “natureza socializada”37 implica a incapacidade do homem estar seguro quanto a seu comportamento, traduzida na incapacidade de controlar as conseqüências dos eventos supervenientes. O efeito estufa é um exemplo. “A questão é que no momento em que escrevemos, ninguém pode dizer com certeza que não está acontecendo. Os perigos gerados pelo aquecimento global são riscos de alta conseqüência que enfrentamos coletivamente, mas sobre os quais uma estimativa precisa do risco é praticamente impossível.” (GIDDENS, 2002, p. 129). Com o advento dos sistemas abstratos38 e sua penetração na natureza foram constituídos “modos de influência social” fora de qualquer controle direto. Segundo Giddens, “é justamente esse fenômeno que está por baixo do surgimento dos riscos de alta conseqüência.” (GIDDENS, 2002., p.130).

Nesse contexto de riscos de alta conseqüência se insere o problema da biossegurança. Com o desenvolvimento das técnicas que possibilitaram a recombinação de DNA, no início da década 70, surgiu a preocupação com a pesquisa, com as aplicações práticas e as inovações que poderiam advir dessa descoberta. Um dos resultados dessa preocupação foi a Conferência de Asilomar, em Monterey, estado da Califórnia, ocorrida em fevereiro de 1975, que contou com a participação de 100 biólogos de renome internacional na área da Biologia Molecular. As conclusões do evento subsidiaram a criação das primeiras normas destinadas à regulação do trabalho com OGMs. Em 1976, os National Institutes of Health, dos Estados Unidos, ampliaram as regulamentações. A criação dessas normas tornou a preocupação com a pesquisa e a aplicação das descobertas na área biológica um tema a ser incorporado nos debates a respeito das inovações e riscos derivados das possibilidades abertas pela recombinação de DNA. O conceito de biossegurança é uma tentativa de traduzir essas preocupações em uma nova área de atividade teórica e prática. 39

A primeira formulação da biossegurança pela comunidade científica internacional ocorreu em meados dos anos 70, mais precisamente a partir da referida “Conferência de Asilomar”.

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É um conceito utilizado para expressar o processo pelo qual a natureza é transformada pela aplicação de conhecimento técnico e científico. A transformação é de tal monta que a natureza deixa de ser algo externo à sociedade, mas se torna parte dela. O homem não pode mais se referir ao ambiente natural como sendo exterior a ele. O resultado é o “fim da natureza”, ou seja, elimina-se a idéia de um outro em relação ao qual o homem constrói sua ontologia por contraposição.

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Referimo-nos aqui aos sistemas peritos.

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A reunião de Asilomar é um marco na história da ética aplicada à pesquisa, pois foi a primeira vez que se discutiram os aspectos de proteção aos pesquisadores e demais profissionais envolvidos nas áreas onde se realiza o projeto de pesquisa (GOLDIM, 1997, p. 1), 40

Desde Asilomar, o escopo do conceito de biossegurança foi ampliado e na década de 80 já abrangia os chamados riscos periféricos presentes em laboratórios que trabalhavam com agentes patógenos ao homem, como riscos físicos, químicos, ergonômicos e radioativos. A partir dos anos 90, a definição de biossegurança sofre significativas mudanças, com a incorporação de temas como ética, pesquisa, meio ambiente, animais e processos que envolvem a tecnologia de DNA recombinante, ou transgenia, em programas de biossegurança.

Para fins de nosso estudo, é possível observar, subjacente ao conceito de biossegurança, a interseção de quatro fatores:

(i) A admissibilidade de que a pesquisa na área das ciências biológicas e a aplicação de suas inovações, seja com OGMs ou agentes patógenos, implicam a geração de riscos potenciais e efetivos à saúde humana e ao meio ambiente;

(ii) Os riscos advêm da aplicação de conhecimento humano à natureza; (iii) A técnica e a ciência são instrumentos para prever e controlar os riscos;

(iv) A conexão entre atores de esferas diferentes ocorre independentemente da classe a que eles pertençam.

No que se refere ao primeiro fator, estamos diante de uma inovação radical na forma de compreender o desenvolvimento humano. O resultado é a confrontação entre uma concepção otimista em relação às possibilidades do bem-estar humano, que seguiria uma trajetória linear de aumento contínuo, e a idéia de que os riscos ao bem-estar são gerados por esses mesmos instrumentos. A “Conferência de Asilomar” foi a síntese dessa inflexão, transformando um conjunto de percepções em regulamentos para disciplinar a atividade científica, visando aumentar a proteção dos cientistas contra os riscos potenciais de suas próprias atividades. A pesquisa na área das ciências biológicas deixou de representar apenas um sinal de progresso, para se transformar em meio potencial de retrocesso na marcha da civilização, tornando a combinação histórica entre ciência e bem-estar humano um processo potencialmente descontínuo.

Outra novidade desse novo estado de coisas foi que a percepção da descontinuidade e as ações que ela derivou procederam do interior da esfera científica. Um

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aspecto interessante a ser ressaltado é a forma de conceber as ameaças à saúde humana e ao ambiente natural na era industrial. Se riscos eram criados, eles eram vistos como sinal de progresso. Asilomar impõe uma perspectiva inversa: os riscos representam ameaças que podem causar um retrocesso na marcha civilizatória. Tornamos-nos mais pessimistas quanto ao futuro e desconfiados em relação às possibilidades da ciência e da razão oferecerem um caminho seguro.

As técnicas de recombinação de DNA e seus riscos, objetos primordiais do conceito de biossegurança, resultam de uma intensiva aplicação de conhecimento humano à natureza, o que nos remete de imediato ao segundo fator e nos conecta com os riscos de alta conseqüência. As regulamentações destinadas a garantir a biossegurança se referem a ameaças criadas pela penetração dos sistemas abstratos no ambiente natural e não àqueles causados por fenômenos oriundos de uma natureza ainda não “socializada”. Nesse sentido, seu foco são riscos próprios da modernidade, que possuem uma natureza diferente daqueles de sociedades pré-modernas. Os mesmos instrumentos concebidos para gerar aumento do bem-estar humano e controle da natureza, portanto, são aqueles que podem estar na origem da inversão das expectativas quanto a esses dois objetivos.

Isso nos remete ao terceiro fator, que é uma concepção básica do conceito de biossegurança: a crença na capacidade da ciência e da técnica de prever e de controlar os riscos advindos da recombinação de DNA e da manipulação de patógenos. Se, por um lado, elas estão na origem dos riscos, por outro são também os meios mais adequados para o seu enfrentamento eficaz. Trata-se do outro lado da moeda da biossegurança, sem a qual ela não se viabiliza teórica e praticamente, ao mesmo tempo em que a insere no contexto da “sociedade do risco”. A mesma natureza ambivalente da ciência e da técnica no processo de “modernização reflexiva” é destacada por Beck (1998), o que distancia a concepção de ciência presente em sua teoria daquela enunciada pelos teóricos denominados pós-modernos. A diferença reside no fato de que a teoria da “sociedade do risco” mantém uma hierarquia entre as formas de saber, atribuindo ao conhecimento científico prevalência sobre os demais quando está em jogo o enfrentamento de riscos de alta conseqüência. Para dar um exemplo, subjaz à concepção de biossegurança que norteia o “Protocolo de Cartagena”41 a idéia de que as regulamentações do Estado-Nação, ancoradas na ciência e na técnica são os instrumentos

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Trata-se de um acordo internacional destinado a regular os movimentos transfronteiriços de organismos vivos modificados resultantes da biotecnologia moderna. Seu escopo abrange a transferência, a manipulação e uso desses organismos.

mais eficazes para controlar a circulação transfronteiriça de organismos modificados geneticamente com o objetivo de preservar a saúde humana e a biodiversidade do planeta.

Por último convém observar que as coalizões formadas a partir das controvérsias acerca das ameaças dos OGMs, apesar de não eliminarem as diferenças de classe social entre seus membros, não se organizam a partir delas. Uma das causas reside no fato de que os riscos de altas conseqüências atingem a todos, independentemente de sua situação de classe ou grupo de status, mesmo que seu enfrentamento dependa, aí sim, da assimetria de recursos materiais e de prestígio entre os indivíduos ou grupos de indivíduos.

Deve-se observar que a análise dos limites do determinismo desde há muito chamava a atenção para a capacidade limitada da ciência de fazer previsões, subjacente aos riscos de “alta conseqüência”, destacados por Giddens. O determinismo científico fundamenta-se na doutrina de que

a estrutura do mundo é tal que qualquer acontecimento pode ser racionalmente previsto, com qualquer grau de precisão que se deseje, se nos for dada uma descrição suficientemente precisa de acontecimentos passados, juntamente com todas as leis da natureza (POPPER, 1992, p. 23).

Essa doutrina, baseada na simetria do tempo, segundo Prigogine (1996, p. 12), “unia conhecimento completo e certeza: desde que fossem dadas as condições iniciais apropriadas, elas garantiam a previsibilidade do futuro e a possibilidade de retrodizer o passado.” O conhecimento das condições iniciais de um sistema, num instante qualquer, permite calcular todos os estados seguintes, bem como todos os estados precedentes. O conhecimento do passado, portanto, permite afirmar, com certeza e completude, que é possível saber qual será o comportamento de eventos supervenientes.

O indeterminismo, por sua vez, fundamenta-se na assimetria temporal. O tempo não é mais reversível, isto é, o que vale para o passado pode não mais valer para o futuro.

A natureza apresenta-nos ao mesmo tempo processos irreversíveis e processos reversíveis, mas os primeiros são a regra e os segundos a exceção. Os processos macroscópicos, como reações químicas e fenômenos de transporte, são irreversíveis. Nenhuma descrição da ecoesfera seria possível sem os inúmeros processos irreversíveis que nela se desenrolam. Os processos reversíveis, em compensação, correspondem sempre a idealizações: devemos negligenciar a fricção para atribuir ao pêndulo um comportamento reversível, e isto só vale como uma aproximação (PRIGOGINE, 1996, p. 25).

A formulação matemática das teorias é possível desde que os conceitos físicos se fundamentem em idealizações, o que explica por que nenhum conceito físico pode ser suficientemente definido sem que sejam conhecidos os limites de sua validade, derivados das próprias idealizações. A introdução da assimetria do tempo, por sua vez, obriga que as leis da natureza não sejam mais elaboradas com base na certeza, mas em probabilidades. É permitido, assim, exprimir o caráter evolutivo do universo na estrutura das leis fundamentais da física. (PRIGOGINE, 1996).

Segundo Popper (1992, p. 129), “nosso universo é parcialmente causal, parcialmente probabilístico e parcialmente aberto: é emergente.” A fim de entendermos como a idéia de “emergência” expressa o “caráter evolutivo do universo” e sua relação com o indeterminismo, é necessário analisarmos como Ernest Mayr (2005) aplica o conceito de “emergência” aos processos biológicos.

De acordo com ele, aceitar o determinismo em biologia na forma de leis como aquelas elaboradas pela Física, por exemplo, elimina o espaço para variação ou eventos casuais.

A razão principal dessa menor importância das leis na formulação de teorias biológicas talvez seja o papel principal do acaso e da aleatoriedade em sistemas biológicos. Outras razões para o pequeno papel das leis são o caráter único de um alto percentual dos fenômenos em sistemas vivos e também a natureza histórica dos eventos (MAYR, 2005, p. 44).

A emergência é caracterizada por três propriedades:

(i) Uma novidade genuína é produzida na forma de alguma característica ou algum processo antes inexistente;

(ii) As características da novidade são qualitativamente, e não apenas quantitativamente, diversas de tudo que já existia;

(iii) Ela era imprevisível antes de sua emergência, não apenas na prática, mas em princípio, mesmo com base num conhecimento ideal e completo do estado do cosmos. (MAYR, 2005, p. 92).

Mayr utiliza o exemplo do martelo. O cabo ou a cabeça do martelo, por si só, não podem executar com alguma eficiência as funções de um martelo. Quando os dois são reunidos as propriedades de um martelo “emergem”.

E essa interação recém-acrescida é [grifo do autor] a propriedade crucial de todo sistema emergido, do nível molecular para cima. A emergência se origina por meio de novas relações (interações) dos componentes previamente desconectados. (...) A conexão entre a cabeça e seu cabo não existe até que os dois sejam reunidos. O mesmo é verdadeiro para todas as interações em um sistema biológico complexo. Tratar com os componentes separados nada nos diz sobre suas interações (MAYR, 2005, p.93).

O “principio de emergência” (MAYR, 2005) fundamenta-se na assimetria temporal, pois os eventos supervenientes são imprevisíveis, de tal sorte, que o tempo não é reversível. Trata-se de um conceito que permite fundamentar uma abordagem indeterminista da natureza, dado que fornece uma explicação da possibilidade dos fenômenos naturais serem variáveis e casuais, no contexto de trajetórias históricas.

Analisando as bifurcações42 que podem ser observadas no comportamento dos fenômenos naturais na química, Prigogine e Stengers (1984) chamam a atenção para a necessidade de considerar a sua história.

A definição de um estado, para lá do limiar de instabilidade, não é mais intemporal. Para justificá-lo, já não basta evocar a composição química e as condições aos limites. De fato, que o sistema esteja neste [grifo do autor] estado singular não se pode deduzir disso, pois outros estados lhe eram igualmente acessíveis. A única explicação é, portanto, histórica ou genética: é preciso descrever o caminho que constitui o passado do sistema, enumerar as bifurcações atravessadas e a sucessão das flutuações que decidiram da história real entre todas as histórias possíveis. Para descrever de maneira consistente os sistemas físico- químicos mais simples somos levados a empregar um complexo de noções que, até aqui, parecia reservado aos fenômenos biológicos, sociais e culturais: as noções de história, estrutura e de atividade funcional impõem-se ao mesmo tempo para descrever a ordem por flutuação, a ordem cuja fonte é constituída pelo não-equillíbrio (PRIGOGINE; STENGERS, 1984, p. 124). (Grifo do original)

Ao tratar das pretensões do determinismo, Popper (1978) enfoca a questão sob o prisma dos limites com os quais se defronta a ciência, enquanto empreendimento destinado a gerar conhecimento a respeito da natureza.

Nossa ignorância é sóbria e ilimitada. De fato, ela é, precisamente, o progresso titubeante das ciências naturais (...), que, constantemente, abre nossos olhos mais uma vez à nossa ignorância, mesmo no campo das próprias ciências naturais. Isto dá uma nova virada na idéia socrática de ignorância. A cada passo adiante, a cada problema que resolvemos, não só descobrimos problemas novos e não solucionados, porém, também, descobrimos que

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Define-se bifurcação, segundo Prigogine e Stengers (1984, p. 12), como sendo o “ponto crítico a partir do qual um novo estado se torna possível.”

aonde acreditávamos pisar em solo firme e seguro, todas as coisas são, na verdade, inseguras e em estado de alteração contínua (POPPER, 1978, p. 13).

Popper fundamenta sua tese acerca dos limites da ciência quanto à possibilidade de previsão, ou seja, quanto aos limites do determinismo científico para eliminar a incerteza em relação aos eventos supervenientes na natureza, em três proposições interligadas:

(i) O universo é um sistema aberto, logo não há como antecipar todas as interações possíveis;

(ii) As conseqüências epistemológicas do teorema de Gödel,43 ou seja, o problema da incompletude do conhecimento;

(iii) A incapacidade de fazer previsões a respeito de sistemas nos quais o próprio previsor intervém.

Os sistemas abertos se caracterizam pela complexidade (GIAMPIETRO, 2002). Isso significa que há um número imprevisível de interações passadas, presentes e futuras, tornando impossível antecipar todas elas, o que impõe um limite intransponível a uma suposta capacidade da ciência de prever todas as conseqüências do encadeamento de eventos supervenientes.

As implicações do teorema de Gödel reforçam duas teses fundamentais de Popper (1992) acerca do desenvolvimento do conhecimento:

(i) O conhecimento humano é sempre aproximado; (ii) Ele está crescendo sempre.

Até os mais sábios, segundo Popper (1992, p. 75) “não serão capazes de prever ou de antecipar hoje o que eles próprios só conhecerão amanhã.” Todo enunciado científico está sujeito a ser modificado em algum momento pela descoberta de novos fatos que refutam as teorias e hipóteses prevalecentes. Não há, portanto, o conhecimento completo a respeito de algum tema. Qualquer proposição acerca de um objeto determinado está sujeita a ser completada por outra mais abrangente.

O previsor não é capaz de saber qual será o resultado de suas futuras previsões antes que o acontecimento previsto tenha ocorrido efetivamente. De acordo com Popper (1992, p. 86) “não podemos prever o crescimento futuro do nosso próprio conhecimento.” Além disso, considerando que os sistemas são abertos, a intervenção do conhecimento perito na natureza

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Popper (1993) refere-se a esse teorema para fundamentar sua proposição de que o conhecimento humano é sempre incompleto.

acrescenta um elemento a mais na já infinitamente complexa estrutura dos sistemas naturais, contribuindo para aumentar o número de interações e dificultar a realização de previsões.