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CAPÍTULO II – O MODELO TEÓRICO DE ANÁLISE: CONTRUÇÃO TEÓRICA

4. OS MODELOS PÓS-BUROCRÁTICOS

4.2. A hipocrisia organizada

4.2.1. os tipos ideais da organização da hipocrisia

O objetivo deste ponto é o de saber como é que as organizações reagem perante a diversidade de contradições e inconsistências do seu próprio ambiente e, ao mesmo tempo, como é que as tornam percetíveis ao olhar externo.

Dependendo as organizações no seu funcionamento da ação organizada, e porque as exigências, inconsistentes e/ou contraditórias, do seu próprio ambiente se expressam nas estruturas e nos processos, a ação gerada é afetada por essas mesmas exigências.

Interessa aqui saber como é que a organização lida com essa multiplicidade de tensões produtoras de conflito.

Se as organizações têm que gozar da legitimidade conferida pelos seus ambientes, traduzida pelos apoios em forma de recursos, então a sua existência e sobrevivência dependem, também, desse apoio.

Neste pressuposto, a legitimidade de uma organização depende, por um lado, da “troca de recursos com o seu ambiente” e, por outro, “da capacidade de refletir e criar um acordo simbólico com o seu ambiente” (Brunsson, 2006, p.36).

Dentro deste quadro, focaremos a nossa atenção nos dois tipos ideais de organização, a “organização para a acção” e a “organização política”, no pressuposto de que a produção da ação é o pilar básico que suporta a existência de qualquer organização, embora com importância variável consoante as organizações.

Do Projeto Educativo da Escola ao Projeto de Intervenção do Diretor: (Inter)dependências 115 Neste contexto Brunsson enuncia um conjunto de caraterísticas a que obedece o tipo ideal de “organização para a acção”.

Uma dessas caraterísticas prende-se com aquilo a que o autor chama o “princípio do acordo” que consubstancia a partilha dos “objetivos e propósitos gerais da organização e da sua gestão”, valor inquestionável para o recrutamento de pessoas. Este implícito acordo tem consequências no trabalho e na concordância dos sentidos da ação. A organização controla o conflito, evitando-o ou resolvendo-o a priori. O conflitoestá controlado ou é contido, mesmo que sejaà custa da decisão hierárquica do ”que está certo” e do que “os outros devem fazer” (ibid., p.37).

A ideologia organizacional, expressa nos valores e nas regras comportamentais partilhados pelos seus membros, introduz um elevado grau de consistência interna num ambiente variável e imprevisível. As regras concretas aplicáveis em situações previstas ou imprevistas, orientam para a uniformidade de comportamentos, limitam conflitos e incertezas, e restringem a liberdade dos membros da organização. Por consequência, a “organização para a acção” assenta na concordância e numa ideologia concreta e forte, base da ação coordenada da organização (ibid., pp.37-38).

Nesta perspetiva, dada a consistência da ideologia organizacional orientada para a ação, qualquer tomada de decisão passa mais pela reafirmação da vontade de agir num determinado sentido e pela legitimação da ação. A decisão tem mais um sentido de imagem de unidade social do que o de uma escolha efetiva por uma alternativa de ação organizada.

A ideologia coordena a ação. A organização “faz o que diz” (ibid., p.39).

As ideologias organizacionais nas “organizações para a acção” são precisas e consistentes, são direcionadas para soluções compatíveis com a ideia de funcionamento do seu ambiente e orientadas para ações bem determinadas.

A “organização política” remete-nos para um funcionamento oposto ao anterior.

A ação coordenada não é um imperativo. A legitimidade organizacional advém da expressão nas estruturas, nos processos e nas ações, das normas inconsistentes do seu ambiente. Em vez de acordo, temos conflito. A “organização política reflete uma variedade de ideias e exigências e satisfaz igualmente as expectativas de outros grupos” (ibid., p.42).

O recrutamento dos membros da organização faz-se em função da representação de grupos diferentes e obedece ao princípio do conflito; os membros da organização não partilham entre si a ideia de como a organização deve ser. A legitimidade da organização passa pelo conflito sustentado pelas perspetivas divergentes de desenvolvimento adotadas pelos representantes de grupos

4. Os modelos pós-burocráticos

116 Do Projeto Educativo da Escola ao Projeto de Intervenção do Diretor: (Inter)dependências.

diferentes, pelas distintas ideologias demonstradas e pelas técnicas postas a favor desta diversidade do seu ambiente.

Como Brunsson diz:

A organização política é multi-ideológica; inclui muitas ideias sobre a natureza da organização e o seu ambiente, e ainda sobre o que a organização deve fazer. A organização reflete um ambiente complexo recheado de ideias inconsistentes integradas numa série de ideologias que, por seu turno, também são inconsistentes (2006, p. 43).

Para as suas estruturas, a organização política, recruta membros de grupos distintos do seu ambiente ou da organização que não partilhem entre si perspetivas de ação comuns. As diversas ideologias em confronto têm que ser demonstradas no ambiente, como atributos significativos da “organização política” (ibid., p.42).

Ao conceber a organização como política, Brunsson considera-a como “intelectual”. Este conceito radica-se na ideia de que a diversidade de ideologias permite uma maior possibilidade de abordagens e hipóteses de decisão dada a inexistência de uma forma única e óbvia de pensar e agir. Por outro lado, sendo uma “organização política” preocupada com os problemas, estes “podem ser infindavelmente discutidos, de todo o tipo de ângulos sem que se chegue a uma conclusão”. São problemas que pelas suas caraterísticas de dificuldade e por traduzirem conflito de interesses, se tornam insolúveis na “organização política” (ibid., pp.44-45).

No entanto, a organização “irá procurar activamente incorporar as ideias do ambiente” quando for do seu interesse crescer, refletindo as suas ideias e mais inconsistências, contribuindo assim, para se legitimar no seu ambiente (ibid., p.46).

A “organização política” tem especial interesse em demonstrar ao seu ambiente a forma e capacidade de gerir as exigências e inconsistências no seu contexto. Gerir exigências e não gerar resultados.

As organizações políticas podem não gerar produtos físicos, mas podem gerar ideologias. Como diz Sá, os produtos na “organização política” são “sobretudo ideologias e decisões. Os discursos (talk) constituem uma das variantes fundamentais da ideologia que a organização produz, quer para consumo interno, quer sobretudo para consumo externo (2004, p.232).

As decisões são produtos essenciais nesta organização. São uma forma de discurso dirigido principalmente para o exterior e uma forma de refletir as normas inconsistentes do seu ambiente (Brunsson, 2006, p.48). Então, “o discurso, as decisões e os produtos são instrumentos

Do Projeto Educativo da Escola ao Projeto de Intervenção do Diretor: (Inter)dependências 117 mutuamente independentes utilizados pela organização política para obter a legitimidade e o apoio do ambiente envolvente” (ibid., p.49).

Em conclusão, usando as palavras do mesmo autor, diremos: “A hipocrisia é um tipo de comportamento fundamental na organização política: discursar de forma a satisfazer uma exigência, decidir de forma a satisfazer outra e fornecer os produtos que permitem ainda satisfazer uma terceira exigência”; isto representa a desarticulação entre discursos, decisões e produtos e a forma de refletir as inconsistências em função dos ambientes a que se dirige (ibid.).

Na realidade as organizações não funcionam exatamente de uma ou de outra forma. As situações de coordenação e coerência entre discursos, decisões e ações são próprias da “organização para a ação” e são a resposta formal às exigências do ambiente que se traduzem do mesmo modo nas estruturas, nos processos e nas ideologias. Pelo contrário, a “organização política” traduz-se na diversidade das estruturas, dos processos e das ideologias que adaptam discursos e decisões diferentes conforme as solicitações do seu ambiente.

O autor chama ao primeiro modelo de apresentação e à “organização política” modelo de resultados. Desta forma, é importante perceber como é que dois modelos que assentam em bases contraditórias podem ser indispensáveis para a compreensão e legitimação de uma dada organização (ibid., p.232).