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Para uma Filosofia da Ação (do Ser) em Design

tecnologicamente mediada

D ESIGN G LOBAL : O DESIGN É TUDO

2. abolição – quando se refere à invisibilidade do próprio interface, embutido que está, nos próprios átomos e é adicionado pelo nosso corpo ou voz.

5.1. Fenomenologia e existencialismo

5.3.2. Para uma Filosofia da Ação (do Ser) em Design

Definimos nesta síntese os principais conceitos operativos para uma Filosofia da

Ação em Design. Uma Filosofia da Ação em Design pode ser sintetizada como uma for-

o existencialismo, pressupõe-se que o Design enquadre a tecnologia existente e por desen- volver como meio de servir os interesses de uma ideia de liberdade de ação do ser humano. Tal imperativo pressupõe a realização de uma hermenêutica crítica contínua e atualizada perante a tecnociência e a tecnopolítica, centrada na forma como estas moldam o(s) mundo(s) do(s) ser(es) humano(s).

Por sua vez, os conceitos operativos apresentados visam estabelecer um léxico, ou melhor, o seu início, para o entendimento de Design que se preconiza, desde logo à cabeça a necessidade como prática transdisciplinar.

O eu é um ser e corpo-no-mundo, mundo no qual o Design visa intervir. O principal objectivo de uma Filosofia da Ação em Design – estruturada para uma ideia de

design centrado-no-ser – será o de criar as condições para uma hermenêutica e pensa-

mento capazes de refletir e intervir na construção de novos modos de existência estando, ao serviço do individuo e sociedade, sem estar ao serviço da tecnologia e da tecnociência. Contudo, todo este processo assenta em não rejeitar buscar potencial positivo da tecno- logia com um espírito crítico que não negligencie o potencial transformador mutante com que, para o bem e para o mal, nos constituímos e nos moldamos diariamente, quer no mundo físico, quer no ciberespaço, ele próprio, com a consolidação da era pósdigital, cada vez mais perto e sobreposto com a percepção sobre o mundo físico.

«A poética é a técnica da arte, a tecnologia a arte da técnica: são termos opostos. A poética devolve o homem à sua condição de existência, de ser (só há “ser” em liberdade); a tecnologia

contribuindo aparentemente para a autonomia do homem, subtrai- lhe a liberdade de ser, reduzindo-o a coisa entre as coisas

(consumidor e produto de consumo).» FRANCISCO PROVIDÊNCIA,Mensageiros Celestes,2001

«Podemos ter uma experiência artística em frente a um Rembrandt... ou em frente a uma peça de design gráfico.» lv

STEFAN SAGMEISTER

«Cada homem, um artista.»lvi

JOSEPH BEUYS

«Todos os homens são designers.» lvii

Um conceito teórico em Design não pode ser abstraído da sua relação com um contexto temporal, local e cultural. Desta forma, pretende-se caracterizar esses contextos fundamentais, enquadrando a questão da (re)qualificação da experiência humana através do Design. O retrato ao espírito do tempo é aqui realizado através do desenvolvimento de um conceito que pretende representar um momento técnico e sociocultural emergente senão mesmo já manifestamente presente no nosso quotidiano: a era pósdigital.

Na definição do livro The Postdigital Membrane de Robert Pepperell e Michael Punt (2000) é-nos introduzida a ideia dessa era de uma forma que nos permite partir de uma uma base conceptual sólida para a nossa reflexão sobre o contexto do Design contemporâneo. Conforme sintetizam Pepperell e Punt,

«O termo ‘Pósdigital’ pretende enfatizar o atual estado da tecnologia ao mesmo tempo que rejeita a mudança conceptual implicada na ‘revolução digital’ – uma mudança apa- rentemente tão abrupta como a lógica ‘ligado/desligado, ‘zero/um’ das mecânicas prevale- centes nas vidas quotidianas. Dessa forma, são requeridos novos modelos conceptuais para descrever a continuidade entre arte, computação, filosofia e a ciência que evitem o binarismo, o determinismo e o reducionismo. A própria imprevisibilidade e ambiguidade

da experiência humana – as suas capacidades mais valiosas – estão a ser conformadas aos códigos binários do processamento digital e às prescrições lógicas de muitos cientistas. Estas descrições amputadas expõem a necessidade de metáforas nas quais possamos descrever a estável e, ainda assim, dinâmica realidade da era pósdigital.»lviii(Pepperell &

Punt, 2000, p. 2) [it.ac.]

Os autores colocam um dos problemas que nos é central; o problema, real, de que tendam a ser, na prática, os cientistas e tecnólogos a definir e a delimitar os termos da experiência humana. Esta questão é, aliás, um dos temas centrais na nossa crítica do conceito de utilizador e das prescrições heurísticas da Usabilidade que, desta forma, emergem em prejuízo de uma ideia de liberdade da escolha, fazendo com que a «imprevisibilidade e ambiguidade da experiência humana», ou seja, o grau de liberdade do ser, quer do seu consciente, quer do seu inconsciente, sejam conformadas ao «proces- samento digital» através das prescrições lógicas do primado da ciência prescritiva.

Não obstante, se estamos de acordo com esta questão que se relaciona direta- mente com a nossa crítica ao conceito clássico de utilizador, também ela enunciada por Norman no seu citado texto de 2006, devemos retomar e precisar aqui o nosso entendimento sobre a era pósdigital no nosso enquadramento específico, realçando as característica que pretendemos definidoras e úteis para definir o termo ‘pósdigital’ como conceito operativo para a nossa tese.

Podemos sinteticamente afirmar que a era pósdigital estabelece um novo contexto temporal, tecnológico, social e conceptual consequente à vulgarização do computador nas rotinas do quotidiano, pela obsolescência da noção tradicional de computação basea- do nas Interfaces Gráficas do “Utilizador” (GUI/WIMP), assim como pela possibilidade técnica do paradigma da computação ubíqua anunciados por Mark Wieser. Neste contexto, a interação corpórea seria para o Design a figura canónica da era pósdigital: o

corpo da ação do ser-no-mundo.

A tecnologia já nos colocou perante a possibilidade da abstração total do meio digital no mundo físico por parte da percepção, ou seja, da abolição total da interface enquanto imagem. Neste cenário, o corpo torna-se o derradeiro interface com os conteúdos-da-ação, sejam estes digitais, analógicos ou mistos (digital-analógicos) que doravante se encontram completamente “encrostados” no mundo comum da ação misturando-se e confundindo-se com este. Reciprocamente, a interface torna-se, ela própria, no nosso mundo de ação.

Por outro lado, percebemos que nesta “nova era” pósdigital, emergem novas temporalidade e espacialidades percepcionadas da presença que se manifestam, por exemplo, nas redes sociais, bem como um universo de possibilidades de potenciação e ligação do nosso corpo com o mundo, designadamente, através de uma nova geração de próteses ou do biodesign que, por motivos óbvios, se torna uma área de debate carente de uma profunda reflexão est(ética).

De resto, o desenvolvimento técnico que este contexto caracteriza e representa, tanto poderá servir como catalisador da imaginação, do espírito do ser e do seu campo de ação, como servir os interesses de poderes fáticos invisíveis, através de uma alienação planeada e programada do ser tendencialmente, para o bem e para o mal, em “completo acordo” com a natureza da sua percepção corpórea. Tudo dependerá, como sempre, do destino oferecido à tecnologia e pretendido dela. A tecnologia, não é neutra e limita-se a atuar conforme programada nos objetos técnicos, nos sistemas e nas redes. Tudo volta a

da criatividade das pessoas. Como operar este devir torna-se uma grande questão para o Design que, num mundo orientado para o individualismo, se pretenda reconciliado com o seu desígnio ontológico de alteridade: estar e ser ao serviço do Outro. Assim, uma ur- gente operação de sobrevivência tecnológica à própria tecnologia através, não do indivi- dualismo, mas da individuação e do crescimento do eu que se torna, nesta perspectiva, um grande foco de interesse para o Design.

Com um novo poder de receber e emitir informação radicalmente mais acelerada, intensa e retoricamente mais “requintada” que no passado recente, a era pósdigital traz- nos uma nova miríade tridimensional de espelhos da realidade mais sofisticados, miríade que tenderá a conferir ao ciberespaço um crescente poder persuasivo e arrebatador dos sentidos. Entende-se assim, como já realçamos, necessário operar uma contínua herme- nêutica do negativo sobre o optimismo “virtuoso” da tecnociência e da tecnopolítica. Este optimismo, por vezes ingénuo, por vezes disfarçado, contra o qual nos teremos que precaver, é a razão de ser da hermenêutica do negativo, que não se opera sobre uma tecnologia em particular, mas sobre um contexto cultural, tecnológico e político que a era pósdigital representa. Dessa hermenêutica do negativo emergirão os fundamentos para uma hermenêutica do positivo do ser-tecnológico que, necessariamente, nos tor- namos. A era pósdigital tem todos os predicados para permitir o crescimento do ser e da sua potenciação, da criação de relações positivas com outros seres, mas, ao mesmo tempo, pode-nos tornar seres ainda mais dependentes de uma superestrutura invisível, transcendental e, portanto, incógnita. Nesse cenário, cabe atuar num design centrado-no- ser que tenha como objetivo gerar instrumentos que permitam potenciar a percepção do ser-no-mundo, que não o deixem deixar de querer ser curioso e consciente, que ajudem a se perceber da existência dessa superestrutura. Doutra forma o ser será eventualmente lançado sem resistências num mundo que tende, ele próprio, para o bem e para o mal, ser capaz de sintonizar-se de forma tanto sofisticada como subtil com o fluxo personalizado dos seus desejos individuais. Nesse caso, em função do individuo em questão, aquilo que lhe parece ser e é prometido como sendo o “paraíso” pode não se revelar autêntico.