2 COLABORAÇÕES DE DOMINIQUE MAINGUENEAU NA ANÁLISE DO
2.8 Paratopia no discurso literomusical do Brasil
Tomando como base os estudos maingueneaunianos acerca da noção de paratopia no discurso literário, Costa (2004), relaciona essa noção ao discurso literomusical11brasileiro.
Costa (2004) levanta a hipótese de que a prática literomusical brasileira seja caracterizada por uma paratopia, contudo, devido ao caráter intersemiótico da prática cancionista – que associa a linguagem verbal (escrita) à linguagem musical – trata-se, na verdade, de uma subparatopia, tendo em vista que a canção, em relação ao discurso literário, sofre uma atração do seu plano escrito e, ao mesmo tempo em que, por conta do plano musical, é afastada por aquele discurso. Esse fenômeno ocorre, segundo Costa (2004), por conta da
[...] institucionalização da prática discursiva literária no mundo ocidental, forjada por séculos de grande influência na educação e na cultura, o discurso literário tende a nexar o discurso literomusical, situando-o porém nas extremidades de sua esfera, e, através dessa própria anexação excludente, proteger a identidade do gênero poético, ao qual atribui valor em si, a ponto de as palavras do campo semântico “poesia” (“poético”, “poeta” etc.) terem adquirido na sociedade valor axiológico positivo. (COSTA, 2004, p. 333-334).
11 O discurso literomusical (COSTA, 2012) diz respeito à prática discursiva do campo da música brasileira, tendo em vista que o gênero mais representativo desse discurso é a canção, materialidade que coaduna a linguagem verbal (textos) com a linguagem musical (música).
De acordo com o pesquisador brasileiro, graças à “anexação excludente” da canção pela prática da literatura, que, nos meios literários, a questão acerca da possibilidade de o texto da canção, conhecido popularmente como “letra de música”, poder ou não ser considerado como poema, adquirindo um status equivalente ao da poesia.
Ocorre que, frequentemente, os compositores populares são designados poetas, atribuição que pode ser entendida como uma forma de valorização ou como uma forma de destacar a dimensão escrita da produção literomusical. Há casos, ainda, em que os próprios compositores se definem “poetas”, como uma maneira de usufruir do prestígio desse status junto à sociedade. Contudo, o ato de compor uma música requer certa recusa da “solidão gráfica e monofonia intrínseca ao poema” (COSTA, 2004, p. 334), dessa forma, o compositor se desloca para as margens da comunidade discursiva literária.
O discurso literomusical está situado, assim, “em fronteira instável: aceita sua pertinência ao discurso literário aproveitando-se do seu prestígo, ao mesmo tempo em que a rejeita desprezando a autonomia do texto” (COSTA, 2004, p. 334).
Além da paratopia do discurso literomusical no seu plano institucional, há a paratopia no plano da representação, apreendida pela embreagem paratópica. O compositor de texto literomusical representa, através de sua obra, seu estado paratópico, incorporando na enunciação os ritos de criação.
Na dimensão textual da canção, a paratopia é apreendida através da interrelação de determinados elementos que atuam como embreantes paratópicos nos planos da cenografia (topografia, cronologia e éthos) e do código de linguagem.
Costa (2004), deduzindo do conceito de paratopia e embreagem paratópica, desenvolve a noção de paracronia, que problematiza a pertinencia temporal. Observa-se, dessa forma, a embreagem paracrônica que indica, na enunciação, a relação do sujeito com a temporalidade, relação essa que pode ser a de um deslocamento mais adiante, em paralelo ou aquém de um determinado momento. Nesse caso, o tempo produz efeito sobre a própria paratopia, “ocasionando uma espécie de ‘paratopia pratópica’, ou, se quiser, uma paratopia bidimensional em que são problematizadas simultaneamante as pertinências social/espacial e temporal do sujeito.” (COSTA, 2004, p. 347).
Nessa perspectiva, a paracronia se configura como uma forma ampliada do que Maingueneau (2006) posteriormente descreve como paratopia temporal, fundada no anacronismo, pois coloca o tempo como o elemento de deslocamento.
Em nossa pesquisa, nos apoiaremos na descrição proposta por Maingueneau (2001, 2006) da noção de paratopia, para identificar e descrever, através da análise dos textos das canções, os embreantes paratópicos e relacioná-los à paratopia que envolve o processo de criação de Elomar Figueira Mello.
No cancioneiro elomariano, é frequente a presença de embreantes paratópicos determinantes de uma paratopia espacial/temporal. Um forte exemplo disso é a canção “Na quadrada das águas perdidas”, em que a cenografia se constrói através de uma deslocalização espacio-temporal. Podemos inferir, dessa forma, que a ocorrência dessa embreagem paratópica pode representar a paratopia do discurso elomariano, pautado em um posicionamento paratópico.
A paratopia linguística, nos textos das canções de Elomar, pode ser observada através do código de linguagem utilizado. A referência da variante regional, representada pelo dialeto sertanês, em alternância à utilização do português erudito compõe o investimento linguístico da obra literomusical do compositor. Através da retomada de uma língua que ficou para trás (há muitas ocorrências de arcaísmos nos textos das canções) e da alternância entre a variante regional e o português erudito, podemos observar que há embreagem paratópica no tocante à presença de plurilinguismo interior (MAINGUENEAU, 2006) nos textos das canções.
No investimento cenográfico, a paratopia ocorre por meio dos embreantes paratópicos da cronografia (um momento), da topografia (um lugar), e da constituição dos
ethé dos enunciadores. Em muitas cenografias dos textos das canções de Elomar, a embreagem paratópica se dá pela representação de uma topografia peculiar, que une as características da geografia do sertão da caatinga localizada no interior da região Nordeste a uma configuração topográfica, denominada pelo compositor como “Sertão Profundo”, espécie de lugar extraordinário, cronologicamente situado em tempos distantes, tempos quiméricos. Esse espaço paratópico, o “Sertão Profundo”, é habitado por indivíduos que delineiam ethé
paratópicos, exemplo disso são os errantes (cantadores, andarilhos, retirantes, peregrinos, dentre outros), figuras que permeiam constantemente a cenografia elomarianas. A figura do errante, por sua vez, representa uma paratopia de identidade, na proposta de Maingueneu (2001, 2006).
No capítulo que segue, apresentaremos o panorama do discurso literomusical brasileiro, na perspectiva dos estudos de Costa (2012), no qual está incluso o compositor Elomar Figueira Mello, como a figura central do posicionamento denominado pelo pesquisador como “catingueiro”.