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González Rey (2005a) salienta que a pesquisa qualitativa é uma forma de produzir conhecimento que não adota o conceito de amostra tradicional, fundamentado na significação estatística de um grupo para o universo populacional.

O autor defende que, em relação ao número de sujeitos necessários para a pesquisa, a legitimidade e significação das conclusões de uma pesquisa desenvolvida mediante um estudo de caso – como o que se pretende neste trabalho científico – está relacionada com a qualidade dos trechos de informação produzidos, associada ao desenvolvimento progressivo de zonas de sentido em relação ao problema estudado.

Desta forma, o critério quantitativo não é considerado. Ou seja, “não é o tamanho do grupo que define os procedimentos de construção do conhecimento, mas sim as exigências de

29 O Programa Voluntários Vale não é restrito a participação de empregados da empresa. Entre os voluntários

cadastrados no portal, identificam-se aposentados, estagiários, familiares e amigos de empregados da companhia, pessoas da comunidade em geral, além de empregados de empresas terceirizadas que prestam serviços para a Vale e de empresas sem vínculo direto com a mesma.

30 Alguns voluntários demoram em demasia a acessar o portal. Em alguns casos, para conseguir um retorno mais

rápido, foi preciso consultar a identificação (nome/sobrenome) do voluntário na intranet da empresa, com vistas a obter um telefone para contato e estreitar o relacionamento da pesquisadora com o mesmo. A estratégia contribuiu para o andamento da pesquisa, mas não foi completamente efetiva posto que alguns não têm vínculo direto com a organização ou as informações constantes dos blogs individuais foram insuficientes para identificar as pessoas.

informação quanto ao modelo em construção que caracteriza a pesquisa” (GONZÁLEZ REY, 2005a, p. 110).

Para González Rey (2005a), o pesquisador qualitativo deve definir os sujeitos em função das necessidades que surgem no transcorrer da pesquisa e salienta que para tal é importante que o mesmo envolva-se no campo antes de selecionar alguém. A partir de então, conhecendo os aspectos da organização e do funcionamento do espaço social, destaca a importância de que o pesquisador participe de diferentes atividades organizadas dentro deste espaço – iniciativa feita pela pesquisadora ao longo de todo o trabalho.

Por conseguinte, em se tratando de ter como unidade de pesquisa uma instituição, González Rey (2005a) propõe que o pesquisador realize os procedimentos de pesquisa fazendo-se presente nos mais diversos foros e espaços que caracterizam a instituição, convertendo-os em uma fonte de informação articulada, haja vista que cada uma dessas instâncias revelará os diversos sentidos subjetivos implicados na subjetividade social da instituição.

A partir do envolvimento no campo realizado pela pesquisadora, foram identificadas as seguintes instâncias:

Quadro 2 – Unidades de análise no Programa Voluntários Vale

 Instância Organização e Facilitadora, envolvendo um representante da Fundação Vale – pela organização – e a profissional que exerce a “ponte” entre os gestores do programa e os voluntários, que atua como facilitadora. Estes sujeitos foram abrangidos, em especial, com o intuito de fomentar a caracterização do programa de voluntariado.

 Instância Voluntários, representando os integrantes do Comitê e da Rede, que se dispuseram a participar como uma decisão pessoal. Dentre estes, foram envolvidos empregados e familiares, estagiários, aposentados e empregados de outras empresas que prestam serviço para a Vale, assim como pessoas da comunidade em geral.

Na Instância Organização, entrevistou-se a coordenadora do programa de voluntariado da Vale e integrante do grupo gestor, que trabalha na Fundação há dezenove anos, exercendo atualmente a função de analista de projetos.

Na Instância Facilitadora, foram identificadas e entrevistadas as duas facilitadoras do programa na Rede Voluntários Vale Vitória. Ambas analistas de comunicação na empresa, efetivadas após um período de estágio, a primeira (F01)31 acompanhou o programa desde o processo de implantação na localidade, em 2004, até 2005. Possui 31 anos e trabalha na Vale desde 2001. Sua ligação com o voluntariado ocorreu a partir do programa, como uma atribuição funcional, e esteve restrita a ele. A segunda (F02) assumiu a incumbência a partir de 2006. Possui 24 anos, atuando na Vale há 3 anos. Possui uma história de voluntariado anterior ao programa, fortemente vinculada a tradições familiares e a cultura de sua cidade natal, nutrida pelo sentimento de identidade com aquela localidade. Sua atuação no programa também é profissional.

Na Instância Voluntários, participaram 40 sujeitos, sendo 6 atuais integrantes do Comitê e todos os demais (32 voluntários) participantes da Rede. Quanto a uma caracterização geral desses voluntários, destaca-se que participaram sujeitos tanto do sexo masculino como do sexo feminino, em igual número, conforme é demonstrado na tabela abaixo.32

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Vale esclarecer que, no plano de análise, sempre que se fizer necessário, a menção e/ou registro de um depoimento coletado em campo serão identificados por letras para identificar os sujeitos participantes a que este se referir: C01 para designar a coordenadora do programa; F01 e F02 para indicar as Facilitadoras; e V01, V02, V03,... (significando: Voluntário 01, Voluntário 02 e assim sucessivamente), representando uma ordem numérica das dinâmicas de conversação e outros momentos da pesquisa realizados com os voluntários participantes.

32 Ressalva-se, no entanto, que essa amostra foi não-intencional, composta pela adesão voluntária ao convite

TABELA 1 – SEXO DOS VOLUNTÁRIOS PARTICIPANTES SEXO FREQUÊNCIA ABSOLUTA % Feminino 20 50 Masculino 20 50 TOTAL 40 100

Com relação à faixa etária dos voluntários participantes, pode-se dizer que se trata de um grupo bastante heterogêneo, uma vez que encontramos voluntários com idade entre 21 a 56 anos (idade do voluntário mais velho). Nota-se, no entanto, que 55% destes encontram-se na faixa dos 21 a 35 anos. A faixa etária de voluntários entre 51 e 56 anos também é representativa e vale destacar que, excetuando-se uma voluntária aposentada (que atuou na Vale por 21 anos), todos os demais voluntários enquadrados nessa faixa correspondem a sujeitos ligados à Vale por mais de 30 anos de trabalho (Tabela 2).

TABELA 2 – FAIXA ETÁRIA DOS VOLUNTÁRIOS PARTICIPANTES

FAIXA ETÁRIA FREQUÊNCIA

ABSOLUTA % 21 – 25 anos 6 15,0 26 – 30 anos 6 15,0 31 – 35 anos 10 25,0 36 – 40 anos 3 7,5 41 – 45 anos 5 12,5 46 – 50 anos 2 5,0 51 – 55 anos 7 17,5 56 – 60 anos 1 2,5 TOTAL 40 100,0

Com relação ao estado civil, pode-se observar um predomínio de voluntários casados (55%). Outro dado complementar é que 37,5% dos voluntários não possuem filhos.

TABELA 3 – ESTADO CIVIL DOS VOLUNTÁRIOS PARTICIPANTES

ESTADO CIVIL FREQUÊNCIA

ABSOLUTA %

Solteiro 16 40

Casado 22 55

Divorciado 2 5

TOTAL 40 100

Através da tabela 4 pode-se constatar um alto nível de qualificação em termos de formação escolar, sendo que 30% dos voluntários possuem curso superior completo (e outros 25% possuem superior incompleto), além de 32,5 % possuírem vivência em cursos de pós- graduação (apenas 2,5% ainda em andamento).

TABELA 4 – FORMAÇÃO ESCOLAR DOS VOLUNTÁRIOS PARTICIPANTES

FORMAÇÃO ESCOLAR FREQUÊNCIA

ABSOLUTA % Técnico Completo 5 12,5 Superior Incompleto 10 25,0 Superior Completo 12 30,0 Pós-Graduação Incompleta 1 2,5 Pós-Graduação Completa 12 30,0 TOTAL 40 100,0

Outro dado importante, que em muitos casos perpassa os sentidos da participação em atividades voluntárias, refere-se às correntes religiosas dos sujeitos participantes. A maior parte dos voluntários possui convicções religiosas ligadas ao Catolicismo (40%), embora

alguns se declarem “católicos não-praticantes”33

. Igualmente representativo é o número de voluntários associados a igrejas de corrente religiosa Protestante34.

TABELA 5 – CORRENTES RELIGIOSAS DOS VOLUNTÁRIOS PARTICIPANTES

CORRENTE RELIGIOSA FREQUÊNCIA

ABSOLUTA %

Catolicismo 16 40,0

Protestantismo 10 25,0

Espiritismo 7 17,5

Sem Filiação Religiosa 7 17,5

TOTAL 40 100,0

De maneira similar, um dado interessante, demonstrado pela tabela a seguir, corresponde a instâncias de participação nas quais os voluntários já se envolveram. Observa-se o peso significativo de voluntários cujas atividades de participação têm ligação com a Igreja, mas também é representativo o número de voluntários que exercem atividades independentes de corrente religiosa.

A participação em grupos de CCQ dentro da empresa, reuniões de condomínio e na gestão de entidades sociais também se destacam. Por outro lado, há poucos registros de participação em sindicatos de classe, instâncias ligadas a vida acadêmica e, principalmente, em orçamento participativo.

33Apesar de não indicar um grupo oficialmente estabelecido na Igreja Católica, o termo católico não-praticante é

usualmente utilizado em oposição ao católico-praticante, que designa aqueles católicos que praticam sua religião de forma mais completa. Essas definições estão sujeitas a certa dose de subjetividade, pois não existe um critério claro ou consensual para distinguir entre católicos "praticantes" e "não-praticantes". Esses termos estão sendo empregados porque, hoje – e tal qual observou-se na pesquisa –, não é raro encontrar católicos que afirmam ser adeptos da religião e chegam a freqüentar cerimônias como casamentos e batizados, mas que não tomam parte regularmente de ritos considerados obrigatórios e que raramente recebem algum dos sacramentos.

34Esta classificação foi fundamentada na abordagem do recenseamento demográfico do IBGE em 2000 e nas

correntes religiosas brasileiras descritas na Enciclopédia Eletrônica „Wikipédia‟. Dentre as Igrejas enquadradas nesta categoria e citadas pelos voluntários pode-se destacar Adventista, Assembléia de Deus, Batista, Maranata, Evangelho Quadrangular, Luterana e Presbiteriana. Ressalva-se, no entanto, que a classificação aqui realizada tem cunho meramente ilustrativo e que é reconhecido pela pesquisadora que cada uma das Igrejas ora listadas

TABELA 6 – INSTÂNCIAS DE PARTICIPAÇÃO (PASSADA OU PRESENTE) DOS VOLUNTÁRIOS PARTICIPANTES

INSTÂNCIA DE ATUAÇÃO VOLUNTÁRIA

FREQUÊNCIA

ABSOLUTA %

Participação em reuniões de condomínio 9 23,0

Participação em grupos de CCQ 10 25,0

Participação em atividades comunitárias

ligadas a Igreja 26 65,0

Participação em atividades comunitárias

independente de corrente religiosa 10 25,0

Participação em partido político 4 10,0

Participação em sindicato de classe 3 8,0

Participação em associação de bairro 6 15,0

Participação em conselhos locais 4 10,0

Participação em grêmios estudantis e

diretório acadêmico 3 8,0

Participação na gestão de entidades

sociais 9 23,0

Participação em orçamento participativo 1 2,5

Quanto a procedência dos voluntários, 67,5% correspondem a empregados da empresa. É notório, no entanto, a diversidade de participantes, compreendendo também empregados de empresas terceirizadas que prestam serviço para a Vale (12,5%), estagiários (7,5%), além de aposentados e familiares de empregados (ambos 2,5%). Um fator interessante é a presença de voluntários oriundos da comunidade em geral, sem quaisquer vínculos diretos com a organização (7,5%).

TABELA 7 – ORIGEM DOS VOLUNTÁRIOS PARTICIPANTES ORIGEM FREQUÊNCIA ABSOLUTA % Empregados Vale 27 67,5 Estagiários Vale 3 7,5 Aposentados Vale 1 2,5

Empregados de Empresas Terceirizadas 5 12,5

Familiares 1 2,5

Comunidade em Geral 3 7,5

TOTAL 40 100,0

A pesquisa revelou ainda que, dentre os voluntários participantes que são empregados da Vale, 12 (44,44%) têm de 1 a 5 anos de empresa (indicando uma atuação relativamente recente na mesma) e outros 5 estão na faixa de 06 a 15 anos. Em outra ponta, 37,04% possuem acima de 20 anos de trabalho (sendo que 18,52% têm mais de 30 anos) na organização.

TABELA 8 – TEMPO DE EMPRESA DOS EMPREGADOS VALE VOLUNTÁRIOS

PERÍODO FREQUÊNCIA ABSOLUTA % 01 – 05 anos 12 44,44 06 – 10 anos 4 14,81 11 – 15 anos 1 3,70 16 – 20 anos 0 0,00 21 – 25 anos 3 11,11 26 – 30 anos 2 7,41 30 – 35 anos 5 18,52 TOTAL 27 100,00

Um outro indicador é que a maioria absoluta (25 voluntários ou 92,59%) possui horário de trabalho “administrativo” (de 7h às 16h ou 9h às 18h). Um dos voluntários empregado participantes da pesquisa trabalha no horário de 15 às 0h e apenas um trabalha em regime de turno (Tabela 8). Entre os 5 voluntários Vale que são empregados de empresas terceirizadas, dois também trabalham em regime de turno.

TABELA 9 – HORÁRIO DE TRABALHO DOS EMPREGADOS VALE VOLUNTÁRIOS

HORÁRIO DE TRABALHO FREQUÊNCIA

ABSOLUTA % 07:00 às 16:00 12 44,44% 09:00 às 18:00 13 48,15% 15:00 às 00:00 1 3,70% Turno 1 3,70% TOTAL 27 100,0

A classificação ora apresentada nos dá um panorama do perfil dos voluntários participantes desta pesquisa. No entanto, ressalta-se que um estudo singular dos diferentes sujeitos foi considerado na construção da informação relativa aos sentidos da participação – processo importante dentro da epistemologia qualitativa adotada neste trabalho.